O que é o dinheiro e o que há de errado com ele? Por Daniel Christian Wahl

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

 

O que é o dinheiro e o que há de errado com ele?

Questionando os pressupostos

 Por Daniel Christian Wahl

Publicado por Medium  em 11/03/2018 (“What money is and what’s wrong with it?”, ver aqui)

 

 

“O dinheiro tornou-se um anel que usamos pelo nariz, que nos leva a ser conduzidos por aqueles que o controlam.”— Mark Kinney

 

O dinheiro é uma das principais tecnologias no coração das sociedades humanas. É o meio pelo qual negociamos entre nós. Em muitas sociedades, se não nas mais modernas, o dinheiro tornou-se um elemento central em torno do qual muitas relações humanas são organizadas.

Perguntar o que é o dinheiro pode parecer uma questão trivial que mal vale a pena levantar. Afinal de contas, fazemos dele uma utilização constante no nosso dia-a-dia e, na maioria das vezes, não prestamos atenção a isso – a não ser que ocasionalmente nos preocupemos se temos ou não o suficiente. O nosso inquestionável pressuposto é que é um lubrificante neutro para o sistema económico que de nenhuma maneira influencia como é que esse sistema funciona. Nós também tendemos a assumir que o dinheiro funciona hoje da maneira que sempre funcionou.

Esses e muitos outros pressupostos comuns sobre o dinheiro, na verdade, estão errados. Os sistemas monetários unitários de hoje, cobrindo nações e regiões, são a exceção em termos históricos. Enquanto os impérios em vários períodos  da história tiveram moedas cobrindo grandes áreas, os sistemas monetários construídos com base local – às vezes a funcionarem ao lado da moeda imperial, muitas vezes sozinhos e na ausência de uma moeda imperial – têm sido muito mais a norma.

O primeiro dólar dos EUA foi cunhado em 1792 e inicialmente os primeiros estados membros dos EUA emitiram a sua própria versão (para mais ver aqui). Antes da sua introdução, havia pelo menos 7.000 moedas diferentes em operação nos EUA (Dawson, 2009). Os primeiros povos da América do Norte estavam a negociar entre as tribos numa variedade de moedas e através da troca direta.

Muitas das moedas utilizadas ao longo do registo da história não assumiram a forma de notas e moedas. Os sistemas de troca incluíram pérolas, conchas, favos de cacau,  gado, cereais, lã, metais preciosos e muitos outros materiais e recursos. Mesmo hoje, a grande maioria do “dinheiro” – normalmente mais de 90% – é composta não de notas e moedas, antes nunca deixa as colunas digitalizadas dos bancos de dados dos computadores dos bancos.

A maioria das pessoas pensa ou costumava pensar – como uma nova consciência que se está a espalhar rapidamente através dos media sociais – que todo o dinheiro hoje é criado pelos governos. Não é verdade. Embora os governos declaram uma moeda como o Euro, Libra, Iene ou Dólar como a ‘moeda legal’, a percentagem que eles emitem como papel e moeda através da sua cunhagem nacional e do papel moeda impresso é apenas uma proporção muito pequena do dinheiro que entra em circulação anualmente. Mais de 90% de todo o dinheiro é criado pelos bancos na forma de dívida, praticamente a partir do nada .

Sempre que é concedido um empréstimo e um banco o regista nos seus livros, o volume de dinheiro na economia global cresce um pouco mais. Esse dinheiro é inteiramente baseado na confiança coletiva nesse sistema monetário específico. Tais moedas são referidas como Fiat Money, uma vez que foram declaradas moeda de curso legal sem estarem apoiadas em qualquer mercadoria física. O valor de tais moedas fiduciárias é derivado da relação entre oferta e procura e não do valor do material a partir do qual o dinheiro é feito.

 

O link acima permite ver um pequeno vídeo (2min30s) em que se explica  os fundamentos do sistema monetário fiduciário e abaixo temos um outro pequeno vídeo em que se questiona  “De onde vem o dinheiro?” (7: 30min), uma publicação muito informativa da New Economics Foundation.

 

 

Se o leitor quiser mergulhar mais a fundo nesta matéria, dê uma olhada no documentário (80mins) ‘The Money Fix’, que inclui entrevistas com alguns dos pioneiros mais destacados do mundo no campo da conceção e da reforma do nosso sistema monetário. Este documentário oferece uma história e uma análise do nosso atual sistema monetário e as falhas de projeto desse sistema que estão por detrás de muitas das crises convergentes que a humanidade enfrenta hoje. O último terço do documentário explica como é que as moedas alternativas locais e regionais podem trabalhar para fortalecer as economias regionais e o que é que elas têm para oferecer no redesenho ou no nosso sistema monetário.

Uma vez que a dívida aceite pelo banco que emitiu o dinheiro em circulação tem de ser reembolsada com juros, quando o empréstimo é reembolsado e o dinheiro que foi inicialmente criado é assim cancelado, os juros cumulativos gerados permanecem no sistema e geram um “imperativo da dívida” ( ter que conceder novos empréstimos para assegurar a oferta de dinheiro suficiente para assegurar o serviço da dívida dos créditos existentes), o que, por sua vez, gerou um sistema disfuncional que precisa de continuar a crescer para evitar o colapso.

“O imperativo do crescimento económico que resulta numa produção económica supérflua e o seu consequente esgotamento de recursos físicos, representam a espoliação do meio ambiente, o aumento das disparidades na distribuição de rendimento e da riqueza e muitos outros problemas que afligem a civilização moderna.”

— Greco, Thomas H Jr., 2015

Fonte: aqui

 

Os imperativos de dívida e do crescimento estão no centro da arquitetura do nosso sistema monetário e financeiro exigem uma indústria de marketing que impulsione ativamente o consumo pelo consumo, a fim de evitar isso o colapso de um sistema estruturalmente viciado no crescimento económico.

Então, o dinheiro, começa a ficar claro, é mais surpreendente e complicado do que geralmente imaginamos. Um dos mal-entendidos mais significativos em torno do dinheiro e dos empréstimos bancários é que estes sempre foram associados ao pagamento de juros. De facto, até há relativamente pouco tempo, todas as grandes religiões monoteístas consideraram a aplicação dos juros,a usura, um pecado mortal. Enquanto o cristianismo e o judaísmo aceitam agora a cobrança de juros, as instituições bancárias islâmicas continuam a trabalhar sem juros até hoje (Lietaer, 2001).

Muitas das “moedas” historicamente utilizadas que assumiram a forma de matérias-primas naturais – cereais, favos de cacau, lã e assim por diante – perderam valor ao longo do tempo. Alguns sistemas monetários adotaram esse recurso – chamado de demurrage [também chamado custo de sobreestadia] – em que uma cobrança é feita em cada nota ou moeda no final de cada mês ou ano, resultando na sua desvalorização progressiva ao longo do tempo. Isso encoraja a despesa em vez de acumular o dinheiro e vários períodos gloriosos da história – incluindo o início do renascimento europeu dos séculos XII e XIII, quando a maioria das grandes catedrais góticas da Europa foram construídas – coincidiram e parecem estar, até certo ponto, relacionados com a existência de sistemas monetários baseados em demurrage (Boyle, 2003). Uma série de iniciativas recentes de moeda comunitária, como a libra esterlina Stroud, em Gloucestershire na Inglaterra, reintroduziram a demurrage como uma característica do sistema monetário local.

O Community Currency Knowledge Gateway oferece informações atualizadas sobre uma ampla variedade de moedas locais e regionais. O Demurrage provou ser uma útil característica da arquitetura do sistema monetário local em várias moedas regionais. Utilizando  o método do guião do carimbo, as moedas regionais como a alemã  “Chiemgauer“, “Freicoin” e “Abeille” na França e o “Waldviertler” na Áustria mostraram que o dinheiro circula mais rápido na economia local se a demurrage for aplicada.

Mas antes de examinarmos mais profundamente uma variedade de exemplos de moedas locais e regionais e como os sistemas diferentes podem servir diferentes propósitos e escalas, vamos lançar um olhar um pouco mais para o impacto de se utilizar dinheiro na forma em que a arquitetura atual do sistema incentiva e prescreve estruturalmente. Esses são pontos importantes a serem entendidos, pois as mudanças na sua arquitetura agirão aqui sobre pontos de alavancagem criticamente importantes que podem levar a mudanças e transformações sistémicas – possibilitando a transição para uma presença humana regenerativa na Terra.

(…)

 

NOTA: este texto é um excerto (editado) do curso on-line Economic Design Dimension of Gaia Education em Design for Sustainability. A primeira versão deste curso foi escrita em 2008 pelo meu amigo Jonathan Dawson, agora Diretor de Economia da Transição no Schumacher College. Em 2015-2016, revi  substancialmente o curso Design for Sustainability e reescrevi o texto de apoio ao curso com informações mais atualizadas e com a minha investigação que está na base do meu livro Designing Regenerative Cultures. Esta seção em particular ainda tem um pouco da redação inicial de Jonathan nos primeiros quatro parágrafos e pode ser considerada como escrita em co-autoria por nós os dois.

(…)

 

Bonus Track 😉 … este é um dos meus favoritos sobre como a moeda funciona na circulação. Escute Juan Hundred Dollar (10mins):

 

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O autor: Daniel Christian Wahl, é doutorado em Filosofia, Desenho para a sustentabilidade pelo Centre for the Study of Natural Design da Universidade de Dundee, fundador e director do Sustainability Consultancy Innovation Education desde 2011. Escritor de topo em Sustentabilidade, Futuro, Economia, Educação, Cultura

 

 

 

 

 

 

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