CARTA DE BRAGA – “da pastelaria, do presente e do futuro” por António Oliveira

A pastelaria é pequena, os bolos estão frescos nas vitrinas, o dono e único funcionário é simpático e também faz questão de manter o ambiente calmo e tranquilo ‘Aqui não há televisão nem wi fi, este é só um lugar onde se pode comer, beber uma cerveja, um chá, um café e conversar com os amigos ou as amigas que trouxer ou aqui vier a encontrar.

– Mas assim pode perder clientes!

– Sei que posso, mas não quero ter aqui ninguém a babar-se para um ecrã!

E, como lhe manifestei o meu espanto perante essa atitude, contou-me a estória que se segue:

– Entraram de mão dada, faziam um casal lindo, elegante, os dois a rondar os trinta anos. Passaram em frente do balcão, encomendaram o que queriam e indiquei-lhes aquela mesa ali, no canto, para ficaram mais à vontade.

Esperei que acabasse e ‘Quando se sentaram, ela afastou a cadeira do lado de dentro de maneira a ficar quase de costas para ele que, por seu lado, ajeita a do lado de fora para ficar numa posição semelhante em relação a ela. Quando lhes levei o que pediram, sacaram os dois do respectivo tijolo e desataram a teclar e a falar às vezes, cada um para o seu, ignorando a companhia que ali tinha. Comerem e beberam sem trocar uma única palavra e levantaram-se ao mesmo tempo. Até acredito que a decisão, teclada, terá saído de um deles. Ele deixou a quantia da despesa ao lado do copo e saíram da mesma maneira como entraram, de mão dada para a rua!

Ainda tentei dizer que via aquilo em todo o lado, mas ele continuou ‘Sei que as coisas são assim, também vejo isso em qualquer lugar, mas tento evitar que aqui se passe o mesmo! Sabe, meu caro senhor, há duas coisas que um ser humano não consegue parar, a respiração e o pensamento! Já me convenci que o uso de tijolo serve para evitar o pensamento, o pensamento próprio, o criativo, por se limitar a continuar algo que outro já começou! É uma tristeza! As pessoas não querem nem gostam de pensar, dá muito trabalho!

Espantado, demoro uns segundos, ‘Desculpe-me a pergunta, mas fazia o quê antes de ter este modo de vida?

– Tentei continuar o que o meu pai também fazia, ser professor! Viemos os dois dos livros, fizemo-nos a ler, a imaginar a partir da leitura, a refazer imagens a partir de metáforas e outras construções que nos tocavam cá dentro, como um poema, uma lamúria ou até uma encomendação! Nunca pensei vir a estar atrás de um balcão!

– De facto, passar de uma secretária e de um quadro preto para as luzes quase escondidas do balcão de uma espécie de snack-bar, não deve ser tarefa prazenteira!

– E não é! Mas também nunca pensei que um balcão pudesse ser um lugar de acolhimento, para tanta gente que não entende o porquê das pressas deste mundo, as facilidades ao alcance de quem muito tem, frente à tragédia de uma desigualdade cada vez mais acentuada! Ouço aqui muita tristeza porque, quem a não tem, procura outros ambientes, com mais luz e com mais flashes também!

– Nunca pensei ter esta conversa, nem ouvir tais pensamentos!

– Todos vivemos numa corrente imparável de pensamentos, sobre nós, sobre os outros, o mundo, ou sobre as mais ridículas banalidades. Mas nem todos conseguem pensar em coisas que valham a pena ser pensadas e, muito menos, que valham a pena ser ditas!

– Tenho de o cumprimentar e dizer-lhe que, com esse pensar, também admito que pense a sua pastelaria de maneira diferente, mas não vai ser fácil continuar assim durante muito mais tempo. Desejo-lhe sorte!

– Vou ter e sabe porquê?

Perante o meu ar interrogativo, aquele senhor afirma animado mas tranquilo, como se estivesse a mostrar-me a chave do futuro,

– Há dias esteve sentado, aí, mesmo nesse lugar, um poeta que vem aqui algumas vezes e disse, se calhar para eu ficar a pensar, «um homem faminto também é um economista, mas à dimensão da sua fome, até por viver sem passado nem futuro, só num presente permanente! E todos nós, cada um à sua maneira, somos também economistas!»

– E, até por ter ouvido isso, sei tanto do meu passado, como também sei do meu presente e quando caí, foi por estar a caminhar! É sempre bom caminhar, mesmo quando se cai! O futuro continua lá, bem à nossa frente!

Ámen!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

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