OS DEMOCRATAS NÃO PODEM EXCLUIR A HIPÓTESE DA VITÓRIA DE TRUMP, por GIDEON RACHMAN

 

 

 

Democrats cannot rule out Trump victory, por Gideon Rachman

Financial Times, 24 de Agosto de 2020

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

Encher-se de esperanças com as sondagens positivas traz ao partido o perigo de esquecer as lições de 2016

© James Ferguson/FT

 

Houve uma corrente subterrânea de medo na convenção democrática da semana passada. Mas a ansiedade que roía o partido não se concentrava nas preocupações de que o candidato republicano Donald Trump vencesse de facto as eleições presidenciais americanas. Era que o presidente a roubaria – sabotando o voto ou recusando-se a aceitar a derrota. A comediante Sarah Cooper resumiu a opinião dominante quando disse “Donald Trump sabe que não pode ganhar de forma justa e leal.

Afinal, o presidente recusou comprometer-se a aceitar os resultados das eleições. Mas, ao concentrarem-se no perigo de um voto roubado, os democratas correm o risco de subestimar um risco mais convencional – que Trump poderia ganhar sem fazer batota.

É verdade que as sondagens mostram Joe Biden, o democrata nomeado, bem à frente de Trump e isso tem estado a acontecer desde há meses. Aqueles que salientam que as sondagens também previam a vitória de Hillary Clinton em 2016 são lembrados que a atual média de liderança do Biden de cerca de 9 pontos percentuais é muito maior do que a Hillary Clinton.

Mas vantagens como a de que Biden goza atualmente já foram ultrapassadas antes. Em 1988, o democrata Michael Dukakis estava 17 pontos à frente após a convenção do seu partido, mas perdeu em Novembro. O sistema do colégio eleitoral também favorece estruturalmente os republicanos, o que significa que. Biden pode precisar de estar quatro pontos à frente na contagem nacional para ter a certeza da vitória.

Os mercados de apostas não estão certamente a afastar a possibilidade de uma vitória de Trump. As probabilidades recentes colocaram as hipóteses de reeleição do presidente entre os 36 e os 43 por cento.

Mesmo algumas das sondagens que mostram o Sr. Biden bem à frente contêm detalhes que sugerem que pode haver um apoio oculto ao presidente. Uma sondagem realizada em meados de Agosto mostrou Biden com sete pontos de vantagem. Mas quando foi perguntado aos eleitores quem pensavam que os seus vizinhos estariam a apoiar, Trump estava à frente por cinco pontos.

Isto pode apontar para a existência de um grupo de apoiantes “tímidos” do Trump, que não confiarão a sua escolha aos inquiridores. Outra sondagem, realizada em Julho, mostrou que 62% dos americanos concordam que “o clima político atual impede-me de dizer coisas em que acredito”. Entre os republicanos, o número foi de 77 por cento.

Uma sondagem de Monmouth realizada em Julho na Pensilvânia – um estado chave do campo de batalha – mostrou uma vantagem de 13 pontos para Biden. Mas quando se perguntou aos eleitores quem pensavam que iria ganhar o estado, eles optaram por uma vantagem de 46-45 pontos para o Sr. Trump. E 57% dos inquiridos acreditavam que existiam “eleitores secretos” na sua comunidade que votariam em Trump.

Alguns políticos democratas experientes sobre os Estados oscilantes estão nervosos. Debbie Dingell, uma congressista do Michigan, disse ao The Atlantic em Julho que uma sondagem que mostrou Biden à frente por 16 pontos no Michigan era “uma treta”. Como Dingell salientou, as sondagens do Michigan também previam a vitória da Sra. Clinton em 2016. No caso, Trump ganhou por pouco – a primeira vez que um republicano ganhou o estado desde 1988.

A congressista também apontou o número de sinais de “Blue Lives Matter” que tinha visto no seu distrito – expressando apoio à polícia contra o movimento Black Lives Matter. Ela resumiu as suas preocupações sobre o sentimento dos eleitores, citando um texto viral dos meios de comunicação social que se queixava – “Eu costumava pensar que era praticamente apenas uma pessoa normal. Mas nasci branca numa família bi-parental que agora me rotulam como privilegiada, racista, e responsável pela escravatura”.

Mesmo citando uma passagem como esta poderia ser controverso nos círculos do Partido Democrático – uma vez que alguns apoiantes poderiam vê-la como dando credibilidade e apoio tácito ao sentimento racista. Os democratas reagiram inicialmente à derrota em 2016 com empenhamento em se envolverem com os males da classe trabalhadora branca. Mas isso foi deslocado pela indignação acerca da conduta do presidente – e por um enfoque apaixonado na injustiça racial. O livro Hillbilly Elegy foi substituído em mesas de leitura de cabeceira por White Fragility.

Isto, potencialmente, apresenta-se a Trump como uma oportunidade. A sua estratégia eleitoral tem precisamente como objetivo incentivar a raiva e o ressentimento dos eleitores brancos. Ele acolherá de bom grado uma eleição que se concentre nas questões de raça.

Mesmo assim, Trump enfrenta obstáculos formidáveis – muitos da sua própria criação. A pandemia do coronavírus e a elevada taxa de mortalidade na América expuseram cruelmente aao povo americano a sua incompetência na gestão. Também esta crise pandémica salientou a importância de questões que funcionam bem para os Democratas, tais como os cuidados de saúde e as licenças pagas.

O presidente tinha estado a planear funcionar com uma economia forte – mas o Covid-19 fá-lo pagar por isso. Ex-assistentes do Trump, como o ex-assistente de segurança nacional John Bolton, denunciaram-no. Steve Bannon, que dirigiu a campanha do presidente em 2016, acaba de ser acusado de fraude. (Ele declarou-se inocente).

Muitos democratas têm dificuldade em compreender como alguém poderia votar no Sr. Trump – assumem que isso deve ser por racismo ou incapacidade mental. Mas é essa mesma incapacidade de convocar muita simpatia ou compreensão pelas pessoas que estão a considerar votar no presidente que é a maior fraqueza potencial dos Democratas.

A campanha Trump fará o seu melhor para convencer os seus principais eleitores de que eles permanecem, nas palavras da Clinton, os “deploráveis” – um grupo oprimido e desprezado. Essa estratégia de ressentimento já funcionou antes. Dá a Trump uma oportunidade de ganhar novamente.

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Fonte: GIDEON RACHMAN, FinanciaL Times, Democrats cannot rule out Trump victory. Texto dis ponível em:

https://www.ft.com/content/78e01581-65e4-4229-ab65-30958a091a94

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