ALGUMAS REFLEXÕES SOBRE O TEOREMA DE RICARDO (1/5). Por Júlio Marques Mota

 

 

Nota de apresentação

 

Hoje, sexta-feira dia 25 de Setembro é apresentado o livro Estudos de Homenagem a João Sousa Andrade em homenagem, como o título indica, a João Sousa Andrade, professor catedrático da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, onde publico um artigo com o título Algumas reflexões sobre o teorema de Ricardo. Este artigo é uma síntese de um artigo maior escrito para o blog A viagem dos Argonautas, que constitui uma síntese das aulas por mim lecionadas em torno de Adam Smith Ricardo-Stuart Mill e que publico hoje, dia de apresentação do livro referido.

Procurei na versão agora aqui apresentada, a versão longa concluída em julho de 2019 e atualizada posteriormente, expor uma síntese, nada mais que isso, do que foram as aulas por mim lecionadas sobre comércio internacional e no que se refere apenas aos clássicos da Economia, Adam Smith, Ricardo, e Stuart Mill. Eram aulas teóricas, sempre que possível ilustradas com exemplos tirados da “realidade real” e agora essas ilustrações são substituídas por exemplos de ontem e de hoje. Tornou-se um texto longo, muito longo, um texto de formato claramente não editável em livro, nem foi esse o objetivo com que inicialmente foi escrito. Passá-lo a uma versão curta, de apenas 12 páginas, deu tanto trabalho como escrever o texto longo ou talvez mesmo mais, acreditem-me. E mesmo essa passagem a uma versão curta, a publicada no livro, só foi possível pelo trabalho minucioso e longo que a minha antiga colega Margarida Antunes realizou com a operação de cortar e colar com as modificações consequentes que exigiam um domínio total do texto e de tudo aquilo que lhe estava ligado mesmo não estando lá. O trabalho conjunto de redução foi imenso e sinceramente já sou velho para me enquadrar no formato das publicações universitárias pelo que o artigo incluído no livro de homenagem a João Sousa Andrade será também o concluir a este nível da minha relação com a Universidade de hoje.

Esse trabalho de reformatar o texto inicial, foi um trabalho de precisão, diria mesmo, um trabalho de ourivesaria fina. Esse trabalho levou a ter que se optar por fazer desaparecer a referência a Stuart Mill e deixar apenas uma versão, mesmo reduzida, de Ricardo e marginalmente de Adam Smith. Foi este o preço a pagar pelo formato editorial universitário e com esse formato fiquei com pena de não apresentar a ligação entre as vantagens comparativas e os preços relativos, as duas faces da mesma moeda – a globalização e a especialização extrema.

Com efeito o teorema das vantagens comparativas tem como base a teoria do valor trabalho enquanto em sistema capitalista a especialização é sempre determinada pelo mercado, pela via dos preços, pela concorrência. Por esta via tem-se a ideia de que a verificação do teorema exige a troca direta! Assumir o teorema de Ricardo implica, pois, assumir também que o mercado pela via dos preços monetários conduz sempre à especialização que seria determinada pela teoria valor trabalho quando esta última é coisa que o mercado não conhece. Assumir esta hipótese é também assumir um mecanismo específico da formação e evolução dos preços com um conjunto de hipóteses específicas. De forma mais simples, exige-se que, num mundo de preços monetários, os chamados preços de mercado, haja um mecanismo a assegurar que a evolução destes conduz inexoravelmente à verificação do princípio das vantagens comparativas.

Se o princípio das vantagens comparativas exige um conjunto complexo de hipóteses para validar a teoria neoliberal da globalização, o princípio dos preços relativos como imagem ou pressuposto daquele exige igualmente um outro conjunto de hipóteses a tornar ainda mais complicada a validade do teorema de Ricardo como explicação para a globalização feliz que nos têm andado a apregoar, a da maré que faz subir todos os barcos.

Estes supostos “defeitos” do texto publicado no livro de homenagem a João Sousa Andrade pois haverá muitos mais, não constam, portanto, do texto inicial que, sublinho, foi escrito no Verão de 2019 quando ainda não se falava de Covid.

Curiosamente o Covid acaba por ilustrar dramaticamente o que se diz no texto inicial sobre a especialização internacional e sobre a desindustrialização a que o Ocidente se submeteu, não por acidente mas por opção política, com Londres e Nova Iorque a serem os centros financeiros do mundo e com a China a ser a fábrica do Mundo e a India os seus escritórios, como bem assinalou Gordon Brown na catedral dos mercados financeiros, a Manson Hill, creio que em junho de 2006, dizendo:

“As pessoas falam da China como a futura fábrica do mundo, chamam à Índia o futuro escritório do mundo – creio que Londres, tal como Nova Iorque, já é o mercado de capitais do mundo.

E eu não acredito que isso tenha acontecido por acidente.”

Em 2005, Tony Blair dava o tom e a cor a este discurso de Gordon Brown quando afirmou na conferência do Labour o seguinte:

“Na era da rápida globalização, não há mistério sobre o que funciona: uma economia aberta e liberal, preparada constantemente para mudar para se manter competitiva. O novo mundo recompensa aqueles que lhe estão abertos. O investimento estrangeiro melhora a nossa economia. Ou aceitar a imigração. Sabemos que precisamos de controlos rigorosos. Eles estão a ser postos em prática, juntamente com os bilhetes de identidade, também necessários num mundo em mudança.

Mas também aqui há uma lição. A tentação é usar o governo para tentar proteger-se contra a investida da globalização, protegendo o país – para pensar que protegemos uma força de trabalho por regulamentação, uma empresa por subsídios governamental, uma indústria por tarifas. Hoje em dia, isso não funciona.

Porque a barragem que impedia a economia de ser global rebentou há anos atrás. A concorrência não pode ser excluída; só pode ser vencida. E o maior erro que a política progressista pode cometer é pensar que, de alguma forma, este mundo mais aberto e liberal torna os nossos valores redundantes, que a escolha é ou agarrar-se ao modelo social europeu do passado ou ficar impotente, e ser levado pela corrente.

Pelo contrário, a solidariedade social continua a ser a única forma de assegurar o futuro de um país como a Grã-Bretanha. Contudo, atualmente, o seu objetivo não é resistir à força da globalização, mas sim preparar-se para ela, e obter os seus vastos benefícios potenciais.”

 

Dois anos a três anos depois das afirmações de Brown e Blair a Inglaterra estava de joelhos como centro financeiro do mundo e dos mercados globais. Agora está igualmente de joelhos sem capacidade industrial sequer para produzir os instrumentos de proteção pessoal necessários para o pessoal de saúde. Isto acontece não por acidente mas por opção, segundo o discurso de Gordon Brown. A China produz e o mundo compra, é o que nos dizem os americanos no artigo publicado em Foreign Affairs abaixo referido e é isso que a crise do Covid vem expor a nu por todo o Ocidente. Basta também lembrar António Costa a dizer em pleno pico da primeira vaga de Covid que andava sempre com a lista de material encomendado…à China! No bolso.

Estes são, pois, dois exemplos emblemáticos da visão do mundo concebido segundo o modelo de Ricardo e da globalização feliz.

Por tudo isto o texto agora publicado na sua versão integral é acompanhando por ilustrações ainda mais atuais, de 2020, que na minha opinião confirmam o que é dito neste longo texto de 2019.

E as “imagens” adicionais agora tomados como ilustração do texto escrito em 2019 sobre Ricardo-Stuart Mill sõo os seguintes artigos:

  1. Coronavirus: na China, as fábricas de máscaras crescem como cogumelos- artigo de Les Echos, março de 2020.
  2. O Coronavírus poderia reformular a Ordem Global, Foreign Affairs, março de 2020
  3. A China também quer desligar-se da tecnologia dos EUA, Financial Times, setembro de 2020

Porém, podemos dar também como imagem ilustrativa do texto sobre Ricardo-Stuart Mill o documento VISÃO ESTRATÉGICA PARA O PLANO DE RECUPERAÇÃO ECONÓMICA E SOCIAL DE PORTUGAL 2020-2030, assinado por António Costa Silva, orador na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra em 23 de setembro,  onde se diz:

“A desindustrialização acelerada promovida nas últimas décadas, a subalternização da economia produtiva, a deslocalização em massa de empresas e atividades críticas para o exterior de Portugal e da Europa, criaram inúmeras fragilidades que a crise veio evidenciar. A reorganização das cadeias de produção industrial e das cadeias logísticas é um objetivo crucial para o relançamento e a recuperação da economia portuguesa e europeia.

Deste quadro estratégico resultam pilares essenciais para a recuperação, que têm a ver com a reconversão industrial e a reindustrialização, mas também com a saúde, com o setor social e a luta contra a pobreza, com o sistema científico e de inovação e a aposta fulcral para o seu reforço e consolidação.”

E com tudo isto desejo-vos uma boa leitura, pelo menos dos textos que tomo como ilustrações ou imagens recentes do que descrevo no meu artigo de 2019 em torno de Smith, Ricardo e Stuart-Mill.

 

Júlio Marques Mota

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Nota do editor: em virtude da sua extensão, o texto é editado em 5 partes.

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ALGUMAS REFLEXÕES SOBRE O TEOREMA DE RICARDO (1/5) [1]

 Por Júlio Marques Mota

                                     em 25 de Setembro de 2020

 

Resumo: Procura-se mostrar que o teorema de Ricardo não tem capacidade explicativa para determinar os preços e o comércio internacional, por pressupor uma realidade ficcionada que só a pura coincidência leva a que o seu resultado se aplique ao mundo real.

ÍNDICE

  1. Introdução

1.1. A razão de ser deste artigo

1.2. Sobre dois textos de referência

  1. Ricardo e a Globalização

2.1. A importância de Ricardo, hoje

2.2. Ricardo e a distribuição do rendimento

  1. Ricardo e a globalização comercial

3.1. O exemplo numérico de Ricardo em termos de

3.2. O teorema de Ricardo enunciado em termos de preços relativos

3.3. Os pressupostos do teorema de Ricardo

3.4. A especialização por decisão de política económica e não por imposição dos mercados

  1. O modelo de Ricardo-Stuart Mill

4.1. A introdução do progresso técnico no modelo de Ricardo

4.2. A política industrial como instrumento de política de Estado num mundo de vantagens absolutas

4.3. Análise crítica da contribuição de Paul Samuelson

4.4. As vantagens comparadas, a concorrência mundial e os “paradoxos” do discurso neoliberal

  1. Da especialização à Ricardo à necessidade de um outro ensino: Conclusões finais

Principais referências bibliográficas

 

1. Introdução

 1.1 A razão de ser deste artigo

Foi-me proposto participar numa coletânea de textos em homenagem a João Sousa Andrade a ser editada aquando da sua jubilação, em janeiro de 2020. A minha primeira reação de ordem emocional foi de responder sim, mas a esta uma outra reação de ordem emocional também se lhe sobrepôs: há quase oito anos que saí da Universidade por me sentir incomodado com o rumo que o ensino superior estava a tomar. Anos depois fico com a noção de que a situação ainda se agravou mais e isto é-me de tal forma incómodo que me sinto de costas para a Universidade de hoje e na qual em nada me revejo agora.

Trata-se, é certo, de duas reações de sentido contrário que se anulavam entre si e cujo resultado seria então objetivamente uma recusa disfarçada em aceitar a proposta que me foi feita. Trata-se igualmente de duas reações de proximidade a que, por isso mesmo, falta um certo efeito de distanciamento, um efeito global, um efeito de cidadania. E o sentimento desta contradição levou-me exatamente a colocar a questão a um nível mais geral, ao nível das relações sociais, coletivas e interpessoais, e ao nível da minha própria história profissional.

Isto acontece-me numa sociedade, a de hoje, em que as relações sociais no sentido coletivo, inscritas nos nossos quadros mentais, e as referências culturais e comportamentais aí inerentes estão em franca decomposição face aos ventos da precariedade e do individualismo onde o trabalho coletivo foi substituído pela soma das contribuições diferenciadas dos “colaboradores” singularmente caracterizadas pelos ratings de cada um.

A minha própria história profissional é o produto de todos aqueles com quem convivi na Universidade. Disso a todos estou reconhecido e participar nesta coletânea é, por isso, um sinal de respeito pelos tempos de outrora em que em conjunto muito trabalhámos para, com muitos poucos recursos e contra a vontade de algumas instituições, criarmos uma Faculdade condigna, a FEUC. Nesse sentido, este texto é também uma homenagem a todos aqueles que ao longo de décadas fizeram da FEUC uma realidade imaginada, feita e partilhada coletivamente, para me fixar numa imagem de que muito gosto recolhida de Sapiens (Harari, 2017).

Os tempos das instituições vistas como o produto do que imaginavam coletivamente aqueles que as construíam já se foram. Hoje, os tempos são outros, são exatamente os tempos da fragmentação do que era imaginado e coletivamente partilhado, são os tempos do individualismo ao nível das instituições e das pessoas que nelas trabalham. Não me revejo na forma como se faz hoje a Universidade e, pela mesma razão, a solução não é calar. É antes reagir, é criticar de forma salutar, é procurar vislumbrar e querer voltar a ver construir-se uma outra realidade coletivamente imaginada, a Universidade de amanhã mas ao serviço dos cidadãos, dos alunos, dos docentes, do país, para lá das nuvens de fumo que hoje são genericamente a capa com que a Universidade esconde as suas próprias ruínas, as ruínas do saber e do saber-fazer.

Há muito que me bato contra estas duas tendências gerais, a da degradação das relações sociais, coletivas e interpessoais e a da degradação do ensino. Devido a isso, em nome de um ensino em que coletivamente participei e pratiquei julgo meu dever contribuir para esta coletânea.

Por tudo isto, aproveito este texto para regressar às minhas aulas de Economia Internacional de antes da reforma de Bolonha. É uma forma de reafirmar um certo tempo, mas é também ainda hoje um exercício crítico da presente globalização comercial. Tomo como eixos, por um lado, a globalização, a especialização internacional de acordo com a teoria ricardiana das vantagens comparadas à escala das nações, e, por outro, o ensino de massas hoje praticado, à escala da formação das pessoas singularmente consideradas, em que se banaliza e reduz os seus conhecimentos com o objetivo de criar os quadros que passivamente melhor sirvam essa mesma globalização e ao menor custo. Estudar Ricardo a sério é abrir o caminho à conceção neoliberal da globalização feliz como a maré que fará subir todos os barcos, o mesmo é dizer, o rendimento de cada de um de nós todos.

 

A leitura dos seguintes dois textos, recentes, aparentemente nada tendo a ver um com o outro, ajudaram-me a passar rapidamente das reações ao nível de proximidade, do singular, para o nível do distanciamento, do global, da cidadania. Estes textos que abaixo irei parcialmente reproduzir, são:

  1. Ricardo’s Vice and the Virtues of Industrial Diversity, de Steve Keen, editado por American Affairs, de 2017.
  2. Remember the “10,000 hours” rule for success? Forget about it, de Jim Holt, editado pelo New York Times.

A partir das ideias que suportam estes dois textos decidi então apresentar um texto onde irei passar em revista o que foram algumas das minhas aulas de Economia Internacional de antes da reforma de Bolonha, passíveis de serem confrontadas hoje com o pensamento neoliberal dominante. Um confronto que toma como eixos, por um lado, a globalização, a especialização internacional de acordo com a teoria ricardiana das vantagens comparadas à escala das nações e, por outro, o ensino de massas hoje praticado, à escala da formação das pessoas singularmente consideradas, em que se banaliza e reduz os seus conhecimentos com o objetivo de criar os quadros que passivamente melhor sirvam essa mesma globalização e ao menor custo. Um passar em revista de matérias outrora lecionadas que pode ser lido por duas vias, dos dois textos citados às minhas aulas sobre Ricardo ou, inversamente, das minhas aulas sobre Ricardo ao significado económico e político atual dos dois textos referidos.

1.2 Sobre dois textos de referência

a) o texto de Steve Keen

O primeiro destes dois textos, o texto de Steve Keen, refere-se ao ensino do teorema de Ricardo relativamente à especialização internacional e aos efeitos que derivaram do facto de nas últimas décadas os neoliberais, com as suas políticas da globalização feliz, terem andado basicamente a “torcer” o mundo real para que este se conforme com a especialização internacional preconizada pelo teorema de Ricardo, mascarando sucessivamente que os resultados dessa globalização, a maré que “faria subir todos ao barcos”, não eram aqueles que sucessivamente anunciavam.

Vejamos de forma um pouco mais detalhada a análise de Keen cujo texto aqui acompanhamos de muito perto, tomando sempre como pano de fundo a lógica do pensamento de Ricardo no que diz respeito à especialização internacional.

A ideia de que a especialização é a principal fonte de lucro económico tem sido aceite pelos economistas desde o famoso exemplo da fábrica de alfinetes com a qual Adam Smith inicia o seu livro A Riqueza das Nações e, sobretudo depois, com a contribuição de Ricardo em The Principles, referida na literatura como a princípio das vantagens comparadas.

Esta ideia nas vantagens da especialização à Ricardo tornou-se a visão central da economia, e continua a estar enraizada e a ser promovida pelos economistas de hoje.

Esta crença nos benefícios da especialização explica a incredulidade com que os economistas reagiram à ascensão de políticos populistas como Donald Trump nos Estados Unidos, bem como o voto do Reino Unido no Brexit. Na sua atitude mais virtuosa, os neoliberais atribuíram o aumento do sentimento anti-globalização à incapacidade irracional do público de apreciar os benefícios líquidos do comércio. A este respeito o neoliberal Krugman, na sua explicação do facto de que os não-economistas não parecem ter entendido as vantagens comparativas, considera que isso se deve ao facto de as pessoas não entenderem a complexa teoria da vantagem comparativa (“a ideia difícil de Ricardo”[2]).

Ou, mais frequentemente, os neoliberais admitiram que o eleitorado pode ter reagido negativamente porque os ganhos do comércio não foram repartidos equitativamente. Tomando por exemplo o caso inglês vejamos, mais abaixo, um excerto de um texto publicado por The Economist quanto à evolução da repartição de rendimento no Reino Unido:

Os muito ricos têm estado a ficar cada vez mais ricos. Desde 1995, a parcela do rendimento total acumulada no top 0,01% triplicou aproximadamente (…). Eles tiveram um período turbulento durante a crise financeira de 2008-09, quando muitos banqueiros foram demitidos e o valor dos investimentos financeiros caiu a pique. No entanto, recuperaram rapidamente. Em 2015-16, a percentagem dos rendimentos que atingiram os 0,01% atingiu o seu segundo nível mais elevado ao longo de várias décadas. É provável que tenha aumentado ainda mais desde então.

 

 

A diversidade faz a força

Assim, embora afirmem ser especialistas nos efeitos da política comercial e defendam quase inequivocamente a liberalização em detrimento da proteção, os economistas ainda nem sequer levantaram as questões que são cruciais quanto ao impacto da liberalização do comércio no mundo real: qual é o seu efeito sobre o nível da distribuição da produção, do rendimento e do emprego?

Uma vez que os economistas nem sequer examinaram estas questões, não é surpreendente que outros investigadores que o fizeram tenham chegado a conclusões diametralmente opostas aos preconceitos dos economistas. Ao analisar a enorme base de dados Standard International Trade Classification sobre fluxos de comércio internacional, cientistas da Universidade de Harvard, trabalhando no que eles chamaram de Atlas da Complexidade Económica consideram que a diversidade, ao invés da especialização, leva ao sucesso nacional no comércio internacional.

A sua metodologia consistiu em classificar os produtos de acordo com a sua “ubiquidade”, que definem como o número de países que exportam o produto, e os países de acordo com a sua “diversidade”, que definem como o número de produtos exportados por um determinado país.

A teoria das vantagens comparadas levar-nos-ia a esperar que, num mundo com barreiras comerciais muito baixas – essencialmente o mundo globalizado moderno – a maioria dos países tenha perfis comerciais especializados, de modo que eles sejam mal classificados seja em termos de ubiquidade e de diversidade. Isto tem sido verdade para as economias subdesenvolvidas como o Gana, onde os três principais produtos exportados – combustíveis, metais preciosos e cacau – representam 81 por cento das suas exportações. Mas não tem sido verdade para o caso de economias avançadas como a Alemanha, onde os três primeiros produtos representam apenas 46% das suas exportações. Os reatores nucleares e as caldeiras representaram 18% das exportações alemãs, mas a Alemanha também exportou uma grande variedade de mercadorias, incluindo “pérolas, pedras, metais preciosos, joias falsas e moedas” (quase 1%).

A mensagem clara desta análise empírica é que, para que os países tenham sucesso tanto no crescimento como no comércio, a especialização é essencial a nível individual e a diversidade é importante a nível do Estado-nação.

De acordo com os autores do Atlas citado:

“As sociedades modernas podem acumular grandes quantidades de conhecimento produtivo porque distribuem fragmentos dele entre os seus muitos membros. Mas para utilizar o conhecimento produtivo, esse conhecimento deve ser canalizado através de organizações e de mercados. Assim, a especialização individual gera diversidade a nível nacional e global. As nossas sociedades modernas mais prósperas são mais sábias, não porque os seus cidadãos sejam individualmente brilhantes, mas porque essas sociedades possuem uma diversidade de know-how e são capazes de recombiná-las para criar uma maior variedade de produtos mais inteligentes e melhores”.

Os autores do Atlas descobriram que um país tinha mais probabilidades de desenvolver um novo produto se tivesse outras indústrias relacionadas com esse produto numa terceira métrica denominada “proximidade”. Tecnicamente, é a probabilidade de um país exportar um produto porque está a exportar outro produto que direta ou indiretamente lhe pode estar ligado; na prática, indica que a invenção de novos produtos requer conhecimento de produtos existentes e intimamente relacionados. Um país com um perfil de exportação diversificado (e, portanto, uma base industrial diversificada), em vez de um país com uma carteira especializada, é mais provável que esteja próximo de produtos que permitam a invenção de novos produtos e o crescimento económico.

 

Inovação versus alocação

O crescimento no mundo real vem mais da inovação do que da alocação – expressa esta última por utilizações múltiplas dos mesmos recursos -, vem mais do desenvolvimento de novos produtos através da combinação de conhecimentos de indústrias diferentes, mas relacionadas. Baseia-se mais na combinação de conhecimentos incorporados em recursos de utilização única – tanto sob a forma de trabalhadores altamente qualificados como de máquinas altamente qualificadas – do que em recursos de utilização múltipla. Este conhecimento é mais provável que exista em países com sistemas industriais diversificados do que em países especializados.

Esses resultados empíricos também lançam uma luz muito diferente sobre as revoltas populistas que estão atualmente a perturbar o consenso pró-globalização que dominou a política económica nos últimos trinta anos. Essas revoltas não são reações imprudentes contra a racionalidade, como os economistas gostam de acreditar, mas reações à incapacidade do mundo real de se conformar com o pensamento irracional dos economistas e as políticas prejudiciais que têm sido impostas pelos políticos que têm seguido os seus conselhos.

Trinta anos de políticas comerciais que têm sustentado a falsa promessa de especialização permitiram aos residentes dos Estados industriais dos Estados Unidos, a região dita Rush Belt, e das regiões do Reino Unido em recessão económica comparar a promessa da globalização com a realidade. Eles votaram contra a globalização, não porque fossem intelectualmente demasiado limitados para ver os benefícios, mas porque a experiência lhes mostrou que os benefícios da especialização nacional são um mito, um mito ricardiano, e lhes deu a oportunidade de rejeitar esse mito quanto aos benefícios da especialização nacional.

Dois exemplos da fragmentação produtiva, a especialização extrema a que se alude com Ricardo, agora não com um produto acabado, a fabricação da bola de ténis utilizada em Wimbledon ou a comercialização da garrafa de água FIGI de que se fala a seguir, mas a especialização por segmentos da produção quer da bola de ténis quer da garrafa de água FIGI.

Nos dois exemplos aqui apresentados trata-se de mostrar a origem dos materiais para a sua produção final e o percurso que os materiais utilizados na bola de ténis e na garrafa de água FIGI têm de percorrer para se chegar ao produto final, a bola de ténis a ser jogada em Wimbledon por Federer ou outros e a garrafa de água FIGI a ser consumida em Nova York ou algures:

No caso da bola de ténis a ser utilizada em Wimbledon, os materiais para a sua produção terão de ser manipulados num total de 7 países, USA, Nova Zelândia, Reino Unido, China, Coreia do Sul, Japão, Grécia, Filipinas, Malásia, Indonésia , sendo necessário que os materiais de fabrico percorram um total 75.000 Km para que a bola seja jogada em Wimbledon!

 

No caso da garrafa de água FIJI esta terá de percorrer cerca de 30 mil quilómetros entre a fabricação da garrafa, rotulagem, engarrafamento e colocação nas prateleiras para consumo em Nova Iorque e neste processo estão envolvidos os seguintes países. Nova Zelândia, Taiwan, Estados Unidos. O processo consiste em: as garrafas são produzidas em Allentown, na Pensilvânia, EUA. São enviadas para Rakiraki na ilha de Viti Levu., percorrendo cerca de 12 mil quilómetros, de onde a água da fonte é originária. As tampas das garrafas de plástico vêm da cidade de Taichung em Taiwan, percorrendo cerca de 7.300 quilómetros através do Oceano Pacífico Norte até Fiji. Os rótulos de papel são feitos em Wellington, na Nova Zelândia, antes de percorrer a distância relativamente curta 2.500 quilómetros.

Na sua fábrica em Viti Levu, 400 trabalhadores tratam do engarrafamento da água antes da etapa final da viagem, cerca de 9.000 quilómetros até Plano, no Texas, de onde é distribuída por todo o país. E tudo isto com um custo aproximado de 22 cêntimos do dólar por garrafa contra a venda a retalho na ordem de 2,5 USD.

Tudo isto leva Mark Johnson, da Universidade de Warwick, a afirmar que o caso da garrafa de água FIJI é um bom exemplo de como a globalização conduz à existência de longas e ridículas cadeias de abastecimento global.

A globalização, hoje, é assente na segmentação da produção, por vezes extrema como se acabou de ilustrar, segmentação dos saberes, segmentação nos mercados de trabalho, eis ao que nos têm levado a globalização na ótica da especialização à Ricardo, ou seja, da especialização extrema.

Nos últimos dois séculos, a quantidade de conhecimento produtivo que possuímos aumentou consideravelmente. No entanto, este não é um fenómeno individual. Foi um fenómeno coletivo. Como indivíduos, não somos muito mais capazes do que os nossos antepassados, mas como sociedades, desenvolvemos a capacidade de fazer tudo o que mencionamos e muito, muito mais.

Expandir o conhecimento de um país é, portanto, a chave para o crescimento, mas isso não é feito ao acaso. Pelo contrário, as economias podem progredir combinando conhecimentos residentes em indústrias estreitamente relacionadas, a fim de desenvolver novas indústrias e, por conseguinte, novos conhecimentos.

Ainda a este respeito dizem-nos os autores do Atlas:

As indústrias não podem existir se faltar o conhecimento produtivo necessário, mas a acumulação de elementos de conhecimento produtivo fará pouco sentido onde as indústrias que dele necessitam não estão presentes. Esse problema do “ovo e da galinha” desacelera o acumular conhecimento produtivo. Ele também cria importantes dependências de percurso. É mais fácil para os países avançar para indústrias que reutilizam a maior parte do que já sabem, porque essas indústrias requerem a adição de pequenas quantidades de conhecimento produtivo. Ao acrescentar gradualmente novos conhecimentos ao que já sabem, os países estão a poupar no problema da galinha e do ovo. É por isso que vemos empiricamente que os países passam de produtos que já criam para produtos que são “próximos” em termos do conhecimento produtivo de que necessitam.

Portanto, não é o “conhecimento” indiferenciado em si mesmo que promove o crescimento e o desenvolvimento. Como dizem os autores do Atlas, “se um país atingisse o objetivo de garantir que todos completassem o ensino secundário e que fosse essa a extensão do seu conhecimento produtivo, ninguém saberia como fazer um par de sapatos, uma faca de metal, um rolo de papel ou um pedaço de pano de algodão padronizado”. E os autores do Atlas acrescentam:

“Crie-se, pois, um ambiente no qual uma maior diversidade de atividades produtivas possa florescer e, em particular, atividades relativamente mais complexas. É mais provável que os países tenham êxito neste programa se se concentrarem em produtos próximos das suas atuais capacidades de produção, o que facilitaria a identificação e o fornecimento das capacidades em falta”

A mensagem fundamental dos autores do Atlas está em desacordo com o dogma pregado pelos economistas desde Ricardo – e dado o frágil fundamento do argumento da vantagem comparativa, isso não é surpreendente. Mas não é menos revelador: o segredo do sucesso do comércio e do progresso económico em geral não é a especialização, mas sim a diversidade. E a expressão mais visível e mais imediata do custo que se está a pagar pelas políticas comerciais na lógica da especialização à Ricardo, essa vemo-la na ascensão de Trump, de Bolsonaro, de Boris Johnson e até da ascensão de Farage que mete tanto medo que por agora até os Remainers ingleses têm medo das eleições propostas por Boris Johnson! E a explicação encontrada pelos defensores da globalização feliz para todos estes resultados eleitorais é que esses são devidos ao comportamento dos “brutos e ignorantes”. Um argumento que claramente funciona contra quem o apresenta pois se são “ os “brutos e os ignorantes” que explicam estes resultados democraticamente anómalos mas bem possíveis como se confirma, que credibilidade merece o sistema neoliberal que durante quarenta anos produziu “tantos brutos e ignorantes”?

b) o texto de Jim Holt

As teses defendidas por Steve Keen levam-nos aos sistemas de ensino e formação profissional, levam-nos ao segundo texto aqui tomado como referência, o texto de Jim Holt que, por seu lado, é uma recensão ao livro de David Epstein intitulado Range: Why Generalists Triumph in a Specialized World.

O primeiro texto, como vimos, falava-nos da especialização das nações e dos perigos que esta pode encerrar, se se trata de especialização extrema, se se trata de fragmentação da matriz inter-industrial. O segundo texto, de Jim Holt, refere-se ao ensino, à formação profissional, à especialização não à escala das nações e do mundo mas das pessoas à escala da nação e igualmente com os perigos que acarreta tanto uma especialização extrema, a de se “saber quase tudo de quase nada” a relembrar Niels Bohr, como uma ausência de qualquer especialização, a situação em que, por analogia com o caso anterior, se fica a saber quase nada de quase tudo. Neste texto, o autor toma como eixos de referência, Tiger Woods e Roger Federer. Tiger Woods é apresentado como exemplo característico de uma especialização precoce, a partir dos 3 anos, para o golfe, golfe e só golfe, enquanto Roger Federer representa o exemplo de uma formação desportiva multidisciplinar a partir da qual se especializou, primeiro que os seus colegas de escola, no ténis. Face a estes dois tipos de especialização, o autor apresenta-se como um claro defensor da formação à Federer que ele coloca a meio caminho entre o especialista puro, que só sabe daquilo em que se especializou, e o polímata, pessoa “ que possui profunda experiência numa ou mais áreas centrais, mas também conhece o “material adjacente” em muitos outros domínios tecnológicos. Embora os inventores “polímatas” sejam menos profundos que os especialistas, eles tendem a ser ainda mais amplos que os generalistas. Esquematicamente, os “polímatas” assemelham-se a um T (largo + profundo) ou mesmo a um π (largo + duplamente profundo). Eles são como o criador do musical “Hamilton” Lin-Manuel Miranda, que diz: “Tenho agora muitas aplicações abertas no meu cérebro”.

Ora, contra isto, as Universidades sob a pressão austeritária de Bruxelas, não assumida por esta porque, neste caso, as Universidades em Portugal e os seus quadros dirigentes aceitaram por ela a defesa da sua visão austeritária do Ensino Superior, passaram a aplicar a reforma de Bolonha e o novo enquadramento jurídico das Universidades estabelecido por Mariano Gago. Com a reforma de Bolonha deu-se a redução do número de anos escolares, do número de aulas por ano, seja ao nível da licenciatura, que passou para três anos, de mestrado que passou de dois anos para um, com a consequente massificação e banalização das consideradas “teses” de mestrado. Em suma, reduziu-se o número de anos de estudo e a carga de esforço por ano por estudante enquanto, em paralelo, se minimizou o estatuto de professor, transformando este parcialmente não só em burocrata dos serviços administrativos e académicos, como também em generalista para lecionar múltiplas disciplinas por ano e variáveis de ano a ano, para além de, e ao contrário de tudo isto, ter de ser um especialista “à Tiger Woods” e de ter de escrever muitos artigos em revistas da mais elevada cotação internacional, se quer manter a progressão seja nos escalões remuneratórios, progressão horizontal, seja nos níveis da carreira docente, seja ou até manter o seu próprio lugar na carreira. Esta situação leva a que cada docente veja nos seus colegas não o colega ou amigo que o ajude a ultrapassar os seus obstáculos letivos e com o qual colabora para que a Universidade cumpra a sua missão mas sim o adversário que lhe pode tirar o lugar na promoção da carreira. De resto, falamos de uma progressão cada vez mais difícil, tais as barreiras que lhe foram colocadas. Trata-se, pois, de uma situação que se traduz num inferno existencial entre docentes, e em nome de quê? Em nome de se ver o colega não como colega e membro de um coletivo, mas como um seu concorrente na progressão da carreira ou na ocupação do seu posto de trabalho? Seguramente, em nome da eficiência vista esta em termos de ensino é que não é. Os socialistas que geraram esta situação, de Mariano Gago a António Costa, como primeiro-ministro, que me expliquem a razão de ser deste universo altamente agressivo entre agentes do ensino que deveriam ter como missão o mesmo objetivo: construir uma Universidade ao serviço do país, com condições condignas para que como docentes e investigadores possam cientifica e pedagogicamente progredirem e para poderem preparar, condignamente, em termos técnicos e de cidadania o seu corpo discente.

No fundo e no contexto atual, o menos importante passou a ser o ensino universitário que, no entanto, continua a ser afirmado como sendo a verdadeira missão da Universidade. O importante é agora satisfazer os ratings das agências de certificação das Faculdades ou os ratings de notação universitária, o importante é sobretudo encher linhas de curriculum com artigos publicados pois são estes que marcam a progressão na carreira.

Decidiu-se pois assumir o caminho inverso da criação extensiva dos polímatas ou de formações à Federer, decidiu-se inscrever como objetivos supremos do ensino superior a lecionação de pouco mais que generalidades, fazendo desaparecer o ensino em profundidade e, assim, conseguir o aumento de pessoas diplomadas a um volume tal que se possa dizer que estamos perante a existência da geração com maior peso de diplomados na nossa história. Sem mais. O que os alunos sabem ou não sabem é aqui, no contexto do modelo neoliberal, puramente irrelevante, porque o que se pretende é governar apenas pelos números e considerar a quantidade como sinónimo de qualidade. Rejeitou-se a formação à Tiger Woods, o que acho bem, rejeitou-se a formação à Roger Federer, o que acho mal, rejeitou-se que o ensino superior tenha como objetivo prioritário a maximização do número de licenciados com o estatuto de polímatas, o que acho ainda pior.

Foi contra este tipo de ensino que me manifestei em vários textos enviados às autoridades de tutela, os Ministros do Ensino Superior e da Economia, onde exemplificava o que se poderia pensar ensinar relativamente a Ricardo e que agora é completamente impossível ensinar no contexto neoliberal e austeritário que varreu todas as nossas Universidades. É, pois, uma síntese desses textos que aqui proponho como leitura e que – apesar de terem sido escritos bem antes dos textos de Steve Keen e de Jim Holt – pode ser tomada como extensão dos pontos de vista apresentados por estes dois autores.

 

2. Ricardo e a Globalização

2.1. A importância de Ricardo, hoje

 

Novembro, ano de 2019. As perturbações socias em larga escala difundem-se pelo mundo: Espanha, meses e meses sem ser capaz de formar governo, a Itália durante meses governada por uma estranha coligação, França com os protestos via Coletes Amarelos, a Inglaterra a debater-se como esse fenómeno Brexit, para muitos explicado pela asneira de Cameron em fazer um referendo e de Corbyn não se ter empenhado na defesa da permanência do Reino Unido na EU, na Alemanha a extrema-direita a ganhar força. Estes são apenas alguns casos. Fora da Europa: a Argentina, falida, o Chile que agora aparece a portar-se pior que a Venezuela com as tropas na rua, a Bolívia, o Peru, o Equador, o Brasil leva ao poder Bolsonaro e os Estados Unidos levam ao poder Trump e em paralelo em Hong-Kong verificam-se violentas manifestações que no Ocidente são apresentadas genericamente como a luta pela liberdade. Ao longo deste processo e com ele estreitamente ligado assistimos ao crescimento de partidos de extrema-direita como, por exemplo, Vox em Espanha, Frente Nacional em França, Aurora Dourada na Grécia, Finlandeses na Finlândia, Liga em Itália, Partido Popular Conservador na Estónia, Democratas Suecos na Suécia, mostram um mal-estar que atravessa os diversos continentes e que podem por em riscos os próprios regimes democráticos. Toda esta dinâmica de instabilidade à escala planetária tem como base, as profundas e crescentes desigualdades, a precariedade e incerteza quanto ao futuro como a única certeza que é oferecida a muitos milhares de milhões de pessoas que por isso mesmo se manifestam nas ruas e se tornam campo fértil para os populismos, sejam eles de direita ou de esquerda.

Haverá algum ponto comum em tudo isto: não são os brutos e ignorantes que fazem cair Matteo Renzi, Cameron, Rajoy, que enfrentam a dureza da polícia da China bem atrás da dureza da polícia de Macron para com os Coletes Amarelos, que levaram Trump e Bolsonaro ao poder, que colocaram toda a América do Sul a arder, há sim algo de comum mas é bem diferente, chama-se sentimento de revolta pela desigualdade, precariedade, ausência de futuro, a que as populações estão sujeitas, chamam-se renúncia do modelo neoliberal, renúncia da globalização feliz que pelos vistos nos dá milhões de pessoas a sentirem-se infelizes.

Trinta anos de globalização feliz anunciada sempre como a maré que faria subir todos os barcos, ou seja, todos os rendimentos, deram pois um sentimento de globalização infeliz, de resultados opostos aos anunciados e durante décadas repetidos. Ora a globalização feliz que nos tem sido vendida durante estas últimas décadas, que faria subir todos os barcos, assenta na lógica do teorema de Ricardo das vantagens compradas.

Ora a base teórica para toda a argumentação dos defensores da globalização feliz assenta num teorema muito simples, o teorema de Ricardo, dito teorema das vantagens comparadas. Segundo este teorema, haverá sempre ganhos para o conjunto dos países que desmantelam as suas barreiras alfandegárias e se situam plenamente na divisão internacional do trabalho e nunca nenhum deles pode perder com essa globalização.

A situação política atual diz-nos que teoria e realidade estão de costas viradas, o que nos faz lembrar Hegel quando este afirma quando a teoria está em confronto com a realidade tanto pior para a realidade. Porém, contrariamente a Hegel nós poderíamos dizer tanto pior para a teoria, porque a realidade teórica, a realidade que esta produz, não tem nada a ver com a realidade real, aquela contra a qual as populações se manifestam hoje nas ruas. Dito de outra forma, com Hegel, tanto pior para a teoria porque os resultados que esta anuncia desde há décadas são pura e simplesmente simétricos estão em pura simetria com os resultados pela maioria sentidos e sofridos.

Ao contrário do que nos dizem os teóricos da globalização feliz um simples olhar para as notícias das agências noticiosas, o mal-estar à escala mundial dá-nos a ideia de que a contestação social é a nova normalidade da globalização. Por exemplo dia 16 de novembro de 2019, diziam-nos as agências noticiosas:

 

O fosso entre o que nos diz a teoria e o que nos mostra a realidade da economia global é, pois, enorme, enormíssimo.

Para se compreender a razão desse fosso, impõe-se-nos que nos debrucemos sobre a base teórica em que assentam os teóricos da globalização feliz, impõe-se-nos que analisemos detalhadamente o teorema de Ricardo sobre o comércio internacional, os seus pressupostos e a sustentabilidade dos mesmos.

O presente trabalho procura mostrar que as bases em que o teorema de Ricardo se constrói como teorema, como quadro geral para a política económica, com todos os seus pressupostos, são características das sociedades rudes e primitivas em que vigora a lei valor trabalho e em que não existe sequer capital. Só nestas economias rudes e primitivas as relações de troca se expressam pela relação das quantidades de trabalho necessárias à reprodução das respetivas mercadorias. Só nestas sociedades é que o teorema pode ser considerado uma construção puramente lógica e uma construção explicativa das trocas. Procura-se igualmente mostrar que fora destas condições o teorema perde validade, perde, pois, capacidade explicativa para os fluxos de comércio internacional e para mostrar que há sempre ganhos com a passagem de economia fechada a economia aberta.

 

(continua)

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Notas

[1] Texto escrito segundo o Novo Acordo Ortográfico.

[2] Por outras palavras, com Krugman estamos perante a defesa extrema das teses de Ricardo. Nada de estranhar nesta sua posição de 2013 quando este autor disse já anteriormente, em Jackson Hole no ano de 1983:

“É claramente muito vasto o espetro político dos que apoiam a existência de uma política seletiva no setor da indústria. A ideia é defendida pela quase totalidade dos democratas e por muitos republicanos, pela quase totalidade dos liberais e por muitos conservadores, pela quase totalidade dos sindicatos e por muitas empresas. Só os economistas profissionais se lhe opõem em bloco. Ao poder da ideologia do livre mercado se deve o virmos resistindo, há tanto tempo, às metas industriais” (Krugman 1983, vd. Industrial Change and Public Policy pag. 123 vd https://www.kansascityfed.org/publicat/sympos/1983/S83.pdf)

A lógica da utilização da política industrial que faz parte dos cenários que mais abaixo descrevemos de oposição a Ricardo é, pois, aqui excluída em nome da defesa do mercado livre, e heroicamente, como nos diz Krugman!

 

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