A GALIZA COMO TAREFA – máscaras – Ernesto V. Souza

Ano de crises, mas por muito que sejam omnipresentes, é também um ano de máscaras fora. Não lembro nenhum dito que diga, mas diz o sentido comum e a história. E avonda para dizermos que 2020 vai passar a história como um ano no que muitas cousas que tínhamos por seguras, dadas e feitas revelaram-se como fume. Muitas máscaras caíram e outras novas se colocam.

Provavelmente, depois da classe política e do poder judiciário, o jornalismo, como fonte informativa é um dos elementos que mais tocados ficam no decurso desta crise múltipla. A sua conversão prévia em espetáculo de reiterações verosímeis ficou despida ante uma sucessão de realidades cambiantes, e das necessidades urgentes de informação da gente.

De súbito as palavras de ordem, o tópico, as telas enchidas de palavras e figuras demonstraram estar valeiras. Ser apenas um circo-espetáculo ou um show ligeiro, desenhado para ocupar espaço e para ir colando aos poucos mensagens comerciais. Sucessões de programas, de especialistas entrevistados, de novas sem novidade que se vão modificando, de debates agitados e vale-tudo imitando aqueles shows do wrestling, de grandes polémicas que se gritam entre profissionais e colegas, ou de colaboradores convidados como especialistas porque dão bem diante da câmara e participam sem pudor do espetáculo, para dias depois desaparecer.

Reparemos que antes e depois a maior parte do jornalismo joga na captação de audiências a prol de interesses políticos e económicos. Vive para sustentá-los, modificá-los, dar-lhes folgo e até para os criar. Na Espanha é também parte ativa na invenção da realidade e no clima de terror permanente que pratica o estado, de toda essa subcultura e estratégia política ao amparo de legislações pouco garantistas, de leis mordaça e de práticas policiais, para-policiais, judiciais e para-judiciais desenhadas para combater não apenas um terrorismo criminoso quanto diversas formas de protesto político, nacional e social que incomodam.

No entanto os jornais viraram digitais, a TV e a Rádio reinventaram-se. O jornalismo, os/as jornalistas ficaram obsoletos. Agora os mais deles são simples atores, que podem representar perfeitamente papeis cómicos, dramáticos, sérios e ligeiros. E já nem precisam mudar de programa, de canal ou de faixa de audiência, o show exige espetáculo contínuo e sobressaltos.

Foi-se nas últimas décadas apagando aquele prestígio e ideia de função crítica do 4º poder. E com estes ventos ficou à vista a armação, ficando uma imagem grotesca como a de um santo despido. Mas esse prestígio talvez apenas existiu no imaginário moderno e no cinema norte-americano. Justo no breve lapso que ocupa a presença cultural da Guerra do Vietname com o pico na descoberta do escândalo Watergate. Depois a realidade espelha de mais em mais a de uma distopia tipo RoboCop.

Acho que esta perceção a respeito do jornalismo bem vale globalmente, por muito que cada país apresente umas características próprias ou resposta a uma tradição ou circunstâncias definitórias. No caso da Espanha os mass media, são parte da maquinaria de laminação de contrários e propaganda das oligarquias que controlam e defendem o seu status e reparto do poder. Sendo assim que a evolução das últimas décadas leva-nos de volta a um cenário mais semelhante do que nunca ao da Restauração Canovista (1875-1923). A mesma imbricação familiar caciquil entre membros dos três poderes, o mundo cultura, institucional, académico e a imprensa. da Os mesmos escândalos, gritos e circos do parlamentarismo; os mesmos usos partidistas dos média e os tribunais, o mesmo compulsivo esmagamento de iniciativas reformistas ou críticas com o sistema. A única diferença talvez é a cor e a tecnologia.

1 Comment

  1. Muito bom. o da restauração Canovista, bom exemplo
    Caminhamos para o neofeudalismo a todo motor.
    cada senhor feudal e o seu feudo impõe a sua visão feudal, e a imprensa serve-o

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