Episódios da crise do Covid em Espanha: da ignorância da uma certa grande imprensa à incompetência da gestão autonómica de Madrid – alguns textos de análise . 1. Em torno da crise da pandemia em Espanha e do que alguma imprensa diz dela, por Francisco Tavares

 

1. Em torno da crise da pandemia em Espanha e do que alguma imprensa diz dela

 Por Francisco Tavares

Em 13/10/2020

 

Observando os dados mais recentes (11/10/2020) sobre a situação do Covid-19 a nível mundial (ver quadros abaixo), e independentemente das observações que possam ser feitas em relação a outros países, constata-se que a Espanha, infelizmente, tem lugar de destaque em todos as listas dos principais indicadores: maior número de contágios, maior número de mortos, maior número de mortos por cada 100.000 habitantes, situação destacada em número de novos contágios.

10 países com mais contagiados e 10 países com maior número de mortes

     

Fonte: Johns Hopkins University, Medicine, https://coronavirus.jhu.edu/map.html consulta em 13/10/2020

 

Países com mais mortes por cada 100.000 habitantes

Fonte: Johns Hopkins University, Medicine, https://coronavirus.jhu.edu/map.html consulta em 13/10/2020

 

Número de novos contágios (média móvel de 7 dias): evolução do surto dos 10 países mais afetados

Fonte: Johns Hopkins University, Medicine, https://coronavirus.jhu.edu/map.html consulta em 13/10/2020

Esta situação em Espanha tem ocasionado a publicação de diversos artigos pela imprensa internacional e numerosos artigos publicados internamente. Nestes artigos destaca-se a situação vivida em Madrid, questionando-se a responsabilidade dos agentes políticos, quer do governo central, quer do governo da região autónoma de Madrid, quer da cidadania.

Sobre este assunto iremos publicar os seguintes textos:

  • “As razões da alta transmissão do Covid 19 em Madrid”, por Miguel Ángel Royo Bordonada (Público.es)
  • “Dançando com a morte: As políticas venenosas de Espanha agravaram a pandemia e a economia”, por The Economist.
  • “A pandemia e o longo prazo: Porque é que os governos se enganam no covid-19”, por The Economist.
  • “A incompetência dos políticos espanhóis pode ser tão mortal como o COVID-19”, por David Jiménez (The New York Times).
  • “De quem é a culpa? Da política ou da cidadania?” Por Ana Bernal-Triviño (Público.es)
  • “Matar o vírus a bastonadas”, por Alicia Ramos (Contexto y Acción)
  • “Quando a pandemia e a guerra civil terminarem”, por Juan Antonio Molina (NuevaTribuna.es)

Mas antes, gostaria de deixar alguns comentários a propósito destes textos. Desde logo, situar as normas do Ministério de Saúde, que resultaram do consenso maioritário no Conselho Interterritorial de Saúde que integra representantes do governo central e dos governos autonómicos: basicamente as normas obrigam a confinar as cidades com mais de 100.000 habitantes que superem uma incidência acumulada de mais de 500 casos por cada 100.000 habitantes, mais de 10% de casos positivos nas provas de diagnóstico PCR (reação em cadeia da polimerase) e um índice de ocupação superior a 35% nas UCIs da comunidade autónoma em causa.

O primeiro texto, “As razões da alta transmissão do Covid 19 em Madrid”, de Miguel Bordonada, é muito claro e direto sobre o que se está a passar em Madrid: apesar dos alertas dos peritos sobre a “necessidade de reforçar o pessoal dos cuidados primários e de saúde pública, criar um sistema eficaz de monitorização e controlo com rastreadores suficientes e criar uma rede de trabalhadores comunitários de saúde, para apoiar populações vulneráveis, tais como os idosos, imigrantes e pessoas com empregos precários ou que vivem em condições de sobrelotação”, o governo autonómico de Madrid de Ayuso fez orelhas moucas: “despediu os trabalhadores de saúde contratados para lidar com a primeira vaga da pandemia, solicitou rastreadores voluntários, autorizou testes de rastreio em populações inteiras – sem qualquer justificação epidemiológica para tal – e lançou a construção de um hospital pandémico”.

O texto do The Economist, intitulado “Dançando com a morte: As políticas venenosas de Espanha agravaram a pandemia e a economia”, merece um comentário mais alargado, que farei mais adiante, pelo que reflete de uma certa ligeireza, tendo em conta o contexto constitucional e político de Espanha, na avaliação das responsabilidades dos intervenientes políticos, em particular do governo central e do governo autonómico de Madrid.

O segundo texto do The Economist, “A pandemia e o longo prazo: Porque é que os governos se enganam no covid-19”, é, sem dúvida, mais sensato e objetivo que o anterior: “num futuro previsível, a primeira linha de defesa contra o covid-19 continuará a ser o teste e o rastreio, o distanciamento social e uma comunicação governamental clara”.

O texto “A incompetência dos políticos espanhóis pode ser tão mortal como o COVID-19”, de David Giménez, publicado pelo New York Times, faz uma típica análise politicamente “centrista”, distribuindo responsabilidades pelo governo central e pelo governo da região autónoma de Madrid. Não se sabe em que se baseia para falar de Espanha como sendo o confinamento mais duro da Europa (certamente não pela sua duração), ou de que a Espanha tinha o vírus controlado quando terminou o estado de alarme em 21 de junho. Quando afirma que o governo de Sanchéz “organizou uma desescalada precipitada que incluiu a reabertura do turismo e devolveu os poderes sanitários às regiões autónomas” omite por um lado, a pressão dos governos das autonomias (sobretudo geridos pela direita) que desde maio se opunham ao prolongamento do estado de alarme, chegando a falar de um governo “ditatorial” (como aliás, o estão a fazer abertamente agora a propósito de Madrid), e bem assim o incumprimento pelos governos autonómicos, nomeadamente o de Madrid, dos requisitos para fazer a desescalada; por outro lado, também não refere a enorme pressão que os lóbis económicos, em particular o turismo e a hotelaria, faziam para que se voltasse à “normalidade”. Quando refere que antes “da chegada da segunda vaga, havia tempo de sobra para tomar medidas que demonstraram a sua eficácia” noutras regiões do mundo, e que “os nossos políticos optaram por ignorá-las”, já conseguiu meter todos no mesmo saco.

Nada diz sobre a quem estão atribuídas as responsabilidades do sistema de saúde em cada região autónoma, das escolas, da montagem de sistemas de rastreio e controle. Nada diz sobre as consequências das políticas austeritárias de Bruxelas que Espanha não deixou de praticar, desde logo a partir de Zapatero, com um desastroso impacto nos serviços públicos. O autor refere questões importantes tais como o fecho dos partidos ao exterior, as listas fechadas nas eleições, mas depois cai no absurdo de realçar que “apenas 36% dos deputados do Congresso disseram ter alguma vez trabalhado em empresas privadas”, como se isso fosse sinal exclusivo de experiência ou competência, mais parecendo, uma vez mais, um rebaixamento do serviço público (curiosamente, a fonte dos 36% é o jornal abc, de linha conservadora, monárquica e católica, de posições abertamente anticomunistas, anti lei do aborto, etc.). Não deixa de ter razão quando refere a necessidade de reformas profundas, nomeadamente a educação, a lei eleitoral, o repensar da organização territorial. Mas omite que estes temas são altamente conflituantes em Espanha: toda a direita considera este governo, desde que tomou posse, como um governo ilegítimo (porque a coligação integra um partido dito de “extrema esquerda”, e recebe o apoio de partidos independentistas) e, sobretudo, não se mexa no status quo.

Os textos de Ana Triviño, “De quem é a culpa? Da política ou da cidadania?”, e de Alicia Ramos “Matar o vírus a bastonadas”, incidem sobretudo sobre a má gestão que, desde o início, foi realizada pelo governo da região autónoma de Madrid.

Mas vejamos então o texto do The Economist, “Dançando com a morte: As políticas venenosas de Espanha agravaram a pandemia e a economia“. Pode-se dizer que é uma análise em que vai dando uma no cravo e outra na ferradura, mas que não resiste aos apelos da sua alma de direita:

– “A coligação dos socialistas do Sr. Sánchez e Podemos, um partido de extrema-esquerda, foi votada em Janeiro….

– “O setor privado está abalado pela guerra política espanhola e pela presença de Podemos no governo, embora tenha pouca influência sobre a política económica

– “A moderação da classe média espanhola e as restrições impostas pela UE são o […] único consolo” para as preocupações de um ex-ministro (não identificado, mas muito provavelmente do governo PP de Rajoy) com ligações aos negócios

Vale a pena realçar e reter alguns aspetos em relação ao que se passa em Madrid:

– Rapidez do desconfinamento: o governo da região autónoma de Madrid não respeitou nenhuma das medidas acordadas para a mudança de fase, ou seja, para o desconfinamento: reforço do número de profissionais dos cuidados de saúde primários e montagem de um sistema de vigilância e controle com suficientes rastreadores. Pelo contrário, despediu trabalhadores que haviam sido contratados para enfrentar a primeira vaga de Covid, pediu rastreadores voluntários, autorizou a realização de testes de rastreio em populações inteiras – sem justificação epidemiológica para tal – e pôs em andamento a construção de um hospital de pandemias (depois de ter desmontado o que tinha sido expressamente adaptado para a primeira vaga nas instalações da IFEMA-Feira de Madrid) em vez de aumentar a capacidade dos hospitais existentes Curiosamente, o novo hospital está encostado ao edifício designado “el donut”, um projeto de Esperanza Aguirre, anterior presidente da Comunidade de Madrid, para ser a futura cidade da Justiça, onde enterrou 22 milhões de euros e que está abandonado desde 2010, e que a sua colega do PP, a atual presidente de Madrid, a senhora Ayuso, quer transformar em morgue da pandemia (com mais uns milhões de euros, é claro). Verdadeiramente, emblemático das políticas da direita espanhola.

– À rapidez do desconfinamento não foram alheias as pressões dos empresários do turismo e hotelaria, pressões essas que se exerceram não só em Madrid, mas também noutras regiões emblemáticas de Espanha (por exemplo, as Baleares e as Canárias).

– Madrid foi a última comunidade a tornar obrigatório o uso de máscara, e destacou-se pela ausência de campanhas públicas de consciencialização

– Os partidos da oposição, que formam o governo da comunidade de Madrid, focalizaram a atenção em factos secundários e de modo algum justificativos da propagação do Covid (por exemplo, a manifestação do dia Internacional da Mulher em 8 de março como responsável pela propagação do Covid em Madrid, e em Espanha) e sempre dificultaram a aprovação do estado de alarme, chegando a acusar o governo de “ditatorial”.

– A realização de testes PCR só arrancou recentemente, mas de que servem se não existem rastreadores suficientes?

– Contradições: distanciamento social versus transportes públicos superlotados. “Nesta emergência sanitária, é necessário aumentar a frequência dos transportes públicos. Mas um governo rendido a este [seu] dogma ideológico não pode fazer isso”. Fecho de jardins públicos mas abertura de espaços fechados com ocupação 50% como restaurantes ou casinos. Tudo áreas críticas e que são da responsabilidade das autonomias e, por isso, também do governo da comunidade de Madrid.

– De que serve cumprir (máscara, lavar as mãos, distanciamento social) se: não há rastreadores, não funcionam os cuidados de saúde primários, os laboratórios estão saturados?

– Como se diz num dos textos que iremos publicar “Porque o perigo não é tanto aqueles que vêm a Madrid por Barajas, mas que ninguém queira vir sabendo que somos o país com mais contágios. O confinamento é o último remédio quando antes se fez tudo mal”. E mais adiante: “O governo da Comunidade de Madrid é incapaz, por princípios ideológicos, de abordar as medidas necessárias para salvar a população de uma situação de crise sanitária que é o que é e que não admite discussão”.

– “Numa emergência sanitária, é necessário pessoal de saúde. Isto é uma questão normal e corrente. Mas a ideologia dos partidos que apoiam o governo da região de Madrid (PP, Ciudadanos e Vox) não só não permite que esta possibilidade seja contemplada, como desde há décadas têm vindo a minar as condições de trabalho, salário, estabilidade laboral, horários e tudo o mais das pessoas que já estão empregadas, e sobre isto há tantos dados disponíveis que até aborrecem. Porque não acreditam na Saúde Pública, porque consideram que investir – ou gastar, do seu ponto de vista – em Saúde Pública é concorrência desleal com os seus amigos da saúde privada. Se as pessoas têm acesso a serviços de saúde razoáveis na rede pública, quem vai fazer um seguro privado? Se os trabalhadores da saúde têm boas condições de trabalho na rede pública de saúde, como é que a saúde privada vai competir na sua contratação?

– Diz a mesma autora: “Também tenho uma ideologia, mas não consigo imaginar nenhuma situação em que o meu sistema de ideias me levasse a pôr em perigo a vida das pessoas. (Bem, claro, o que eu não tenho é poder. Se calhar será isso.) Mas ir ao extremo de inaugurar um distribuidor de gel hidro-alcoólico no metro no final de Setembro, quando no muito modesto supermercado do meu bairro o têm desde os primeiros dias do desconfinamento, é algo que vai ficar nos anais da desfaçatez”.

– Uma coisa são erros que se cometem, inevitáveis numa situação desconhecida e abrangente como é a do Covid-19, outra coisa é a incompetência (ou será má fé?) na gestão da pandemia como resulta claro, por exemplo, na aplicação a toda uma população de rastreio com testes antigénio: Diz-nos o médico especialista Miguel Ángel Bordonada: “o rastreio com teste de antigénios de toda a população nas áreas com maior incidência, para além de ser uma nova despesa económica, é contraproducente. Estes testes foram autorizados nos Estados Unidos pela FDA para casos suspeitos nos dias seguintes ao início dos sintomas, não para pessoas assintomáticas ou para testes de rastreio na população em geral”.

– “E depois há a deriva para o conflito. Quando já não tem argumentos, só resta baixar para a lama. Começas por anunciar que vais contratar até dez mil professores, sabendo que não vais contratar ninguém, nem sequer por engano, e acabas por culpar a população, que é a única que tem estado à altura da tarefa desde que o estado de alarme terminou

– Será que (à semelhança da crise da dívida de 2010) os madrilenos (os espanhóis) se infetaram para além das suas possibilidades?

– E “Quando a única ferramenta que te resta é um martelo, todos os problemas começam a parecer-se com pregos. Transformaste um problema de saúde pública num problema de segurança pública que se vai retroalimentar e crescer até que ninguém se lembre que o que havia era uma pandemia para enfrentar no início”.

– É uma ligeireza, quando se conhece o sistema constitucional e político espanhol (e o The Economist tem obrigação de o conhecer), afirmar que “Sánchez entregou o controlo da pandemia às regiões e foi de férias”, quando se sabe, e o Economist di-lo de modo dissimulado, que as regiões governadas por partidos que se opõem ao governo (v.g. Madrid e Barcelona] quase desde o início se opuseram a que o governo instituísse o estado de alarme e que, pelo contrário, andasse a reboque das decisões que cada região muito bem entendesse tomar. E as consequências dessa indisponibilidade dos partidos da oposição para prolongarem o estado de alarme estão agora bem à vista.

– “Várias das regiões, especialmente Madrid, falharam no reforço dos cuidados de saúde primários e na localização de contatos. O governo não lhes exigiu que o fizessem, nem fixou regras claras para lidar com surtos do vírus”. Aliás, logo no parágrafo seguinte, o Economist constata a dificuldade do governo em impor regras claras quando diz “ Esta semana, o governo pensou ter garantido o seu acordo [da presidente do governo de Madrid] para estender a totalidade das restrições da capital aos movimentos e reuniões não essenciais que ela tinha determinado para as zonas meridionais da cidade. (…). Mas três outras regiões governadas pelo PP opuseram-se a elas, e (…) o acordo parecia ter-se desmoronado”. E como que a reforçar as dificuldades que o governo central enfrenta, o Tribunal Superior de Justiça de Madrid recusou ratificar as restrições de mobilidade na Comunidade de Madrid ordenadas pelo Ministério da Saúde em conformidade com o acordo do Conselho Interterritorial de Saúde, afirmando que as medidas do governo de restrição da mobilidade em Madrid vão contra a liberdade de movimentos e são uma ingerência dos poderes públicos nos direitos fundamentais dos cidadãos sem que tivesse suporte legal para o fazer, ou seja, não autorizada pelos representantes nas Cortes Gerais [Parlamento].

– E o Economist entra então num terreno que lhe é caro: a recuperação da economia. “A incapacidade de manter a pandemia sob controlo cortou a recuperação económica no início”. Mas o controlo efetivo da pandemia não implicava precisamente manter a economia parada? “O reinício esperado do turismo foi travado pelos surtos renovados”. Mas o reinício do turismo não ajudou precisamente a novos surtos, não ajudou a criar um ambiente laxista?

– E depois vem com a história da coligação com um partido de extrema esquerda, Podemos, quando quem leia o programa deste partido aquilo com que se depara é um programa tipicamente social-democrata. Diz o Economist que “O setor privado está abalado pela guerra política espanhola e pela presença de Podemos no governo”, quando sabe (e afirma-o) que o governo está amarrado aos compromissos com a UE.

– E a rematar não deixa esquecido que a ajuda da UE sim, mas com condicionantes, as restrições impostas pela UE: “reformas do mercado de trabalho, pensões, educação e formação”, leia-se, mais precariedade, salários mais baixos, redução e privatização das pensões, educação às ordens dos interesses das empresas.

 

E nos últimos dias tem-se vindo a assistir ao ressuscitar de figuras gradas da direita dura espanhola (v.g. Aznar e Esperanza Aguirre) que se dedicam a convencer as pessoas que a responsabilidade da situação é da exclusiva responsabilidade do governo central a reboque dos extremistas de esquerda e dos independentistas, a desprestigiar Fernando Simón, o diretor do Centro de Coordenação e Alertas e Emergências Sanitárias do Ministério da Saúde, nomeado pelo próprio governo PP de Rajoy em 2012 . Ou seja, a direita não está preocupada com as pessoas, mas sim em deslegitimar o governo (o que fez desde o início do governo, diabolizando os opositores, neste caso o partido Podemos e os partidos independentistas), na luta pelo poder, pelos negócios, mesmo que à custa de danos colaterais (as pessoas que morrem). A direita espanhola segue a muito antiga tática do “agarra que é ladrão ….”.

A questão da memória da guerra civil, das nacionalidades e autonomias, da política económica e das políticas austeritárias e seus reflexos, tudo questões altamente conflituosas, que a direita polariza em plena pandemia, pondo de lado aquilo que os peritos (e também o bom senso) aconselham como medidas a adotar. Como diz José García Abad numa notável entrevista em 2015, “em Espanha ainda existe um substrato franquista, um franquismo sociológico, autoritário, considerável. E tem uma importante base de cidadãos”. E a comprová-lo ainda no passado dia 29 de setembro a maioria de direita que governa a câmara municipal de Madrid (PP/Ciudadanos/Vox) aprovou retirar das ruas da cidade os nomes de Largo Caballero (socialista, ministro e presidente de governo na II República) e Indalecio Prieto (socialista, ministro em governos da II República), assim como a estátua e a placa que homenageiam e comemoram o primeiro deles. Paradoxalmente, havia sido a direita, na época a Alianza Popular, quem apoiou na Transição as iniciativas para homenagear Largo Caballero e Indalecio Prieto. E mais paradoxalmente ainda, a conselheira da cultura no governo da região autónoma de Madrid, pertencente ao partido Ciudadanos, concede subsídios à Fundação Largo Caballero para melhoria dos seus arquivos. Mas, como bem lembra Harold James no seu artigo “Dez lições sobre a República de Weimar” (ver aqui), uma cultura política na qual os líderes diabolizam os seus opositores corrói a democracia.

No texto com que encerramos esta pequena série “Quando a pandemia e a guerra civil terminarem” Juan Antonio Molina, coloca a questão de forma interessante, ao dizer “O cansaço territorial do Estado das autonomias é um reflexo antagónico dos desvios de umas instituições nascidas de um regime de poder pré-democrático que sofreu um processo de adaptação, mas não um processo de mudança”.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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