Em Viagem pela Indochina – 7 – Laos por António Gomes Marques

Em Viagem pela Indochina – 7 – LAOS

por António Gomes Marques

III-2 – LAOS – História

 

Há evidências da presença humana nas terras altas do Norte e do centro no território que faz hoje parte do Laos no período do Paleolítico inferior, ou período da Pedra Lascada, por ter sido o período em que os nossos antepassados criaram os primeiros artefactos em pedra, que lascavam. Iniciou-se este período há mais ou menos 2,5 milhões de anos, durando até há cerca de 10.000 antes da nossa era (a. n. e.).

Quando o homem conseguiu ficar mais independente, nomeadamente, da caça, descobrindo a agricultura e dando início à domesticação de animais, estamos já no Paleolítico Superior, abrangendo o Paleolítico Médio e o início do Neolítico.

Não vamos falar dos vários períodos que se seguiram, já que não é esse o nosso objectivo, para isso existindo muitas publicações excelentes, interessando apenas referir que a agricultura, tornando o homem menos dependente da natureza e mais dependente do seu trabalho, o obrigou também a abandonar o nomadismo e a fixar-se junto das suas culturas agrícolas, tornando-se assim um ser sedentário, dando origem à sociedade comunal, com a família a começar a ter uma verdadeira importância.

No território que hoje constitui o Laos, foi encontrado um crânio em 2009 nas montanhas Annamite (Norte do país), com mais de 46 mil anos de idade. Entretanto, os arqueólogos já haviam encontrado vários tipos de sepulcros, no quarto milénio a. n. e., com potes de cerâmica, sendo o cadáver colocado dentro, a que chamam «enterros jar», onde é perceptível o prestígio do morto ou o seu nível social pelas várias formas desses potes de cerâmica.

Ensina-nos V. Gordon Childe que «O cultivo de plantas e a criação de gado — numa palavra, a produção de alimentos — foram uma inovação que marcou época. Muito justamente é ela usada em arqueologia para assinalar o princípio de uma nova era — o Neolítico, ou Idade da Pedra Polida —, ou, em termos económico-sociais, a fronteira entre a selvajaria e a barbárie. Durante as várias centenas de milénios do Paleolítico todas as sociedades humanas do globo se mantiveram parasíticas, dependendo inteiramente, quanto a alimentos, do que a natureza, mais ou menos aleatoriamente, lhes oferecia. As sociedades neolíticas começaram a colaborar deliberamente com a natureza no aumento de produtividade das plantas comestíveis e na produção e multiplicação de animais produtores de carne, sangue e leite.» (1)

A Terra sofreu um resfriamento com a quarta glaciação, sobretudo no Norte da Europa, o que iria contribuir também para a sedentarização, levando os humanos, já idênticos ao homem moderno, a refugiar-se em cavernas, a sua habitação agora fixa.

«Conforme Glover, (…), há 5 mil anos atrás, a economia era de caçadores-coletores em todo o Sudeste Asiático e na margem ocidental do Pacífico, contraposta por outro sistema econômico das primeiras populações agrícolas. Neste período, os povos estavam mais variados quanto a suas características e línguas, e se aproximam mais das características da região para formar o padrão dos grupos etnolinguísticos que existem hoje.» (2)

Para o Laos, a migração do povo Lao (3) para o Sul do país aconteceu no séc. VIII, mas não significa que o território não fosse habitado, como acima se refere.

Cerca de 1.500 a. n. e., já havia objectos de bronze e, no séc. VII a. n. e., ferramentas de ferro. É também seguro que a partir do séc IV começaram a formar-se cidades ao longo do rio Mekong.

Aqui, não posso deixar de fazer uma advertência acerca de uma fonte que também estou a utilizar a partir de agora e que consta da nota 4, pois estou a usar um «link» que se serve de uma organização cristã internacional,  Portas Abertas, que desenvolve a sua actividade em mais de 60 países, dizendo-se apoiante dos cristãos perseguidos por causa da fé em Jesus, acusando os budistas de, no Laos, também perseguirem os cristãos. Não fiquei a conhecer o Laos de uma forma tão completa que me permita dizer que não é verdadeira tal acusação, mas garanto que naquele país não vi o menor sinal dessa perseguição. Também me socorro da doutrina budista, que explanei no texto que dediquei ao Camboja, e vou aproveitar o que um católico insuspeito, Adriano Moreira, escreve, a dado passo, na sua última obra publicada, «A Nossa Época – Salvar a Esperança»: «O ilustre Hans Küng, no volume que dedicou ao Islão, evidencia que as religiões de origem chinesa, o Confucionismo e o Taoismo, e as religiões de origem hindu, o Hinduísmo e Budismo, tiveram um encontro não conflituoso com o Cristianismo. Ao contrário, as religiões que nasceram no Médio Oriente, o Judaísmo, o Cristianismo e o Islamismo, embora tendo uma origem participada, guiaram-se pelo princípio do inimigo.» (5)

O território estava dividido em principados que se combatiam, até que o reino siamês de Sukhotai, no séc. XIII, impôs a sua influência.

Segundo a história oficial, o Laos começa a formar-se como país a partir do séc. XIV, quando os antepassados dos laosianos fundaram um estado a que deram o nome de Lan Xang, iniciado em 1353 (e que vai durar até ao séc. XVIII), tendo como primeiro rei Chao Fa Ngum.

Chao Fa Ngum impôs a civilização khmer e o budismo Theravâda, que passou a ser a religião de Estado. Expandiu o país para Leste e ao longo das montanhas Annamite.

Era um rei cruel, o que levou a que os seus ministros o forçassem ao exílio na província de Nan (Tailândia) em 1373, onde viria a morrer, sucedendo-lhe o seu filho Phaya Samsenthai, que ficou no poder até 1421, fazendo de Lan Xang um reino com bastante prosperidade.

Os governantes que se seguiram não foram tão brilhantes, levando a que a Birmânia, no séc. XVI, tentasse aproveitar-se, mas o Lan Xang manteve a sua independência., que reforçou no século seguinte graças à prosperidade conseguida por outro bom governante, Sourinyavongsa, que teve um longo reinado (1637-1694).

Sourinyavongsa não deixou herdeiros, levando à divisão do reino em três regiões: Luang Prabang a Norte, Vientiane no Centro e Champasak no Sul, e, posteriormente, à invasão dos exércitos birmaneses, que, entre 1763 e 1769, invadiram o Norte do território e ocuparam Luang Prabang, em consequência das divisões havidas e, quem se divide perde força, como já Homero ensinou —«homens juntos têm valor, mesmo que de valor tenham pouco.» (6)— e as três regiões, que formariam o Laos, viriam a ser do domínio do Sião (Tailândia). Após ocupar Champasak, os siameses apoderaram-se de Vientiane em 1778.

Nas lutas contra os birmaneses e aliados aos siameses, destacou-se, entre os laosianos, Chao Anu (também conhecido como Anou, Anouvong e Anuruttharat) pelas suas qualidades guerreiras, tendo conquistado a confiança dos siameses, acompanhado nessa luta o seu irmão Inthavong, o rei de Vientiane. Os siameses, pelas qualidades demonstradas por Chao Anu, escolheram-no para suceder ao seu irmão em 1805, mantendo o tributo anual ao Sião.

De excelente guerreiro, passou a bom governante, fortalecendo a administração da sua região, pondo em execução várias obras públicas, desenvolvendo a literatura laosiana e promovendo o renascimento das artes plásticas.

Graças ao prestígio granjeado junto dos governantes do Sião, logo que estes ocuparam a região (principado) laosiana de Champasak, conseguiu convencê-los a nomearem o seu filho Chao Yo para a governar a partir de 1819, ficando, assim, a controlar não só o Centro mas também o Sul do Laos, nas duas margens do rio Mekong.

Entretanto, ia desenvolvendo boas relações com o reino vizinho do Vietname, a quem também enviava tributo, mas de três em três anos, e, não menos importante para os seus objectivos, procurava obter a neutralidade do principado de Luang Prabang para o conflito que, sobretudo depois de edificar fortificações nas regiões que dominava, tinha vindo a construir com o Sião.

Depois de ter estado no funeral do rei Rama III em Bangkok, em 1825, e pensando que os britânicos preparavam um ataque ao Sião (Tailândia), pôs os seus exércitos em marcha para Bangkok, fazendo constar que ia em defesa dos siameses contra os britânicos, mas estes não tinham planeado qualquer ataque, gorando-se assim a pretendida independência do Centro e Sul do Laos, objectivo maior de Chao Anu, que os siameses acabaram por derrotar, confirmando a sua vitória em 1828.

A fraca ajuda dos vietnamitas de pouco lhe valeu, vendo-se obrigado a fugir para a floresta, acabando capturado e tornado prisioneiro, sendo exibido em Bangkok numa gaiola de ferro, cidade onde acabaria por morrer em 1835.

Vientiane foi arrasada e a maior parte da população da região central foi transferida, via rio Mekong, para a região Nordeste do Sião, hoje Tailândia. (7).

Embora as transferências forçadas de laosianos tivessem sido iniciadas pelo Sião em 1779, foi após a derrota de Chao Anu em 1828 que se tornaram avassaladoras, quase desertificando Vientiane, com a deportação de um número de laosianos estimado entre 100.000 e 300.000, entre esta data e 1870, para Isan, na região Nordeste da Tailândia (Sião), onde passaram a ser considerados como escravos de guerra, servindo a elite tailandesa em zonas subpovoadas.

Esta questão da escravidão vai ter uma outra importância, tendo em conta que a pressão que passou a ser exercida pelos grupos antiescravagistas e pelos observadores europeus que levantaram sérias dificuldades para os tailandeses, agravando-se a situação para estes quando, em 1880, o comércio de escravos e a própria invasão se tornaram ilegais, o que proporcionou à França poder invocar a escravidão a que os laosianos estavam a ser sujeitos para conseguir tornar todo o Laos num seu protectorado.

Formulada a vontade da França, a que se juntaram os temores do rei de Luang Prabang por causa das invasões chinesas e ambições siamesas (tailandesas), acabou por aceitar, em 1893, a protecção de França, após o que esta obrigou o Sião (Tailândia) a deixar a margem esquerda do rio Mekong.

A França, além de protectora de Luang Prabang, tornou-se também protectora das duas outras regiões (nações) que hoje, com a primeira, constituem o Laos: Vientiane e Champasak.

Reinava no Sião (Tailândia) Chulalongkorn (nascido em Bangkok em 20 Setembro de 1853, falecendo em 23 de Outubro de 1910, na mesma cidade), tendo reinado de 1868 até à sua morte. É considerado o rei que modernizou o Sião, criando uma administração moderna, um sistema administrativo e jurídico, um e outro copiados do Ocidente, abolindo a escravatura e desenvolvendo a construção de ferrovias, ligando o Sião a Singapura (3.000 km), uma central dos correios e telégrafo, canais de navegação na capital do país, para além de criar um exército, o qual de pouco lhe valeu perante as exigências da França, que o obrigou a ceder-lhe uma parte do Laos em 1893, a restituir Angkor e Battambang ao Camboja em 1907 e a abdicar de quatro estados malaios a favor da Inglaterra em 1909.

Não é sobre a Tailândia que estou a escrever —na ida, fizemos escala no aeroporto de Bangkok, de onde não saímos—, mas não resisto a lembrar que este rei Chulalongkorn fez, pelo menos, duas visitas à Europa, tendo, numa delas, visitado Portugal, onde reinava então D. Carlos. Chegou a Lisboa, à estação do Rossio, no dia 21 de Outubro de 1897, seguindo-se um cortejo até ao Terreiro do Paço. (Para quem se interessar, o Diário de Notícias fez uma reportagem, publicada no dia seguinte, bastante pormenorizada e que consideramos, hoje, bastante interessante). (8)

in http://lusosucessos.blogspot.com/2016/02/historiao-rei-chulalongkorn-do-siao_27.html

Mas voltemos à história do Laos.

Durante a II Guerra Mundial, o Japão pressionou e conseguiu que a França devolvesse à Tailândia a mesma margem esquerda do rio, mas que voltaria ao domínio do Laos pelo acordo de Washington, acontecido em Novembro de 1946.

O Japão acabaria por ocupar toda a Indochina em Março de 1945, o que levou o Laos, unidas as três regiões, a proclamar a sua independência em 8 de Abril do mesmo ano.

Aproveitando o final da II Guerra Mundial em 1945, o Laos conseguiu a sua independência nesse mesmo ano graças ao fim da ocupação japonesa, mas a França voltou a assumir o domínio do Laos, apesar da oposição do movimento nacionalista Lao Issara (Laos Livre). «A Indochina Francesa, compreendendo o Camboja, o Laos e as três colónias vietnamitas de Aname, Tonquim e Cochinchina, encontrava-se entre as possessões francesas mais ricas e mais prestigiadas». (9)

Derrotar o Viet Minh não estava a ser fácil, começando a pensar-se mesmo nessa impossibilidade e, então, a França deu início à formação dos chamados «Estados Livres», dentro da União Francesa, no Camboja, no Vietname e, o que agora nos interessa, no Laos (vide, neste trabalho, II – CAMBOJA – História).

A administração Truman viria a reconhecer esses «Estados Livres» em Fevereiro de 1950, incluindo, naturalmente, os do Laos, para além dos do Camboja e do Vietname.

Aquele movimento nacionalista, Lao Issara, nasceu para combater a ocupação francesa e o governo provisório de Luang Prabang, sendo dirigido pelos príncipes Souvanna Phouma, a que se juntou o seu irmão Phetsarath Rattanavoungsa e o meio-irmão Souphanouvong, mas o domínio da França foi aceite pelo rei do Laos, Sisavang Vong, tio de Souvanna Phouma. Com a reocupação da Indochina pela França, nomeadamente do Laos, Souvanna Phouma exilou-se em Bangkok, apenas regressando ao Laos em 1949, quando a França começou a conceder alguma autonomia ao Laos, que já era uma monarquia constitucional desde Maio de 1947, acabando a França por reconhecer a independência do Laos pelos acordos de 19 de Julho de 1949, mas como estado associado dentro da União Francesa. A independência ao Laos só viria a ser concedida efectivamente em 1953. Mas quem iria governar o país? É que enquanto Souvanna Phouma foi aceitando as condições francesas, o seu meio-irmão Souphanouvong decidiu-se pela continuação da resistência, aliado ao Viet Minh, conseguindo implantar, nas províncias setentrionais, em Agosto de 1950, um governo Pathet Lao (Pátria Laos), pró-comunista.

Três grupos iniciaram a disputa pelo poder: um, que se considerava neutralista, dirigido pelo príncipe Souvanna Phouma, o partido da direita, conduzido pelo príncipe Boun Oum de Champasak, e o movimento de esquerda, pró-comunista e aliado do Vietname do Norte, a Frente Patriótica, o já referido Pathet Lao, que tinha como dirigente máximo o príncipe Souphanouvong e Kaysone Phomvihane, que viria a ser, no futuro, o primeiro-ministro.

Toda esta situação na Indochina não pode ser desligada dos problemas vividos pela Europa e pelos EUA no final da II Guerra Mundial. Havia que reconstruir a Europa e que adiar o rearmamento da Alemanha. Entretanto, o poder da França na Indochina ia enfraquecendo e o papão soviético preocupava o Ocidente, principalmente os EUA, pensando ser o Vietname fundamental para afastar o comunismo do Sudeste Asiático. O reconhecimento por parte dos soviéticos e da China do Viet Minh, reforçaram a ideia de que Estaline tinha intenção de estender o comunismo a toda aquela zona, esquecendo-se que o ditador soviético não confiava em Ho Chi Minh, não só pelas muitas disputas entre ambos, mas também por conhecerem muito mal Ho Chi Minh, demasiado independente, comunista que punha o seu Vietname e a sua independência acima de tudo, não sendo um joguete de ninguém, nem de Moscovo, nem da China. Em relação à China, a desconfiança de Ho Chi Minh era histórica, pois as ambições do poderoso vizinho em dominar o Vietname eram claras para o grande líder vietnamita, como veremos quando tratarmos da parte da viagem dedicada ao Vietname.

Os EUA não souberam avaliar a situação na Indochina, deixando a sua aparente neutralidade e dando início ao apoio militar e económico à França para esta combater o Viet Minh. Se adivinhassem o atoleiro em que viriam a meter-se talvez a opção tivesse sido outra. Mas antes da Guerra do Vietname, com uma vergonhosa derrota para os EUA, ainda teríamos a França a passar por um dos seus grandes desastres na sua história de potência colonialista. Voltaremos a esta história com mais pormenores.

O domínio da Indochina pelas potências ocidentais era considerado fundamental, não só pelas matérias-primas, mas também pela importância estratégica para combater a expansão do sovietismo, palavra esta que prefiro a comunismo.

Atente-se no que escreve Ian Kershaw: “O reordenamento da Europa traduziu-se também no enfraquecimento fundamental das três «grandes potências» que tinham dominado o continente — a Grã-Bretanha, a França e a Alemanha. A guerra deixou a Grã-Bretanha na bancarrota e com o seu estatuto de grande potência muitíssimo corroído. O Império apoiou-a na guerra, mas os povos das colónias, apercebendo-se da fraqueza imperial, trataram de procurar a sua independência. Os alicerces vacilantes do domínio colonial foram minados como nunca. A França sofreu um golpe enorme no seu orgulho nacional devido à derrota de 1940, um golpe que não foi minimamente compensado pela alardeada coragem da Resistência. As colónias francesas, também apostadas na independência, já não estavam dispostas a aceitar o domínio de Paris por tempo indeterminado.” (10)

Como já referimos na parte da História do Camboja, a Conferência de Genebra, com início a 26 de Abril de 1954, visava resolver os problemas existentes sobre a península coreana e a unificação do Vietname —onde se salienta  mais uma vez Ho Chi Minh, como já referimos acima—, com a preocupação simultânea de instaurar a paz na Indochina, o que, evidentemente, envolvia estender a paz também ao Laos e ao Camboja. Os acordos foram assinados entre todas as potências envolvidas -União Soviética, EUA, França, Reino Unido, República Popular da China, também todos os países que tinham enviado tropas para a Guerra da Coreia e, obviamente, os países que lutavam contra a França: Vietname, Camboja, Laos. É também de lembrar aqui, novamente, que esta solução já havia sido aprovada na Conferência de Berlim, em 18 de Fevereiro de 1954.

Em Genebra ficou acordado que as forças do Viet Minh se retirariam do Laos e o Pathet Lao se reagruparia nas duas províncias setentrionais de Phong-Saly e Sam-Neua.

Entre 1955 e 1958, o Pathet Lao conviveu com as outras forças políticas numa vida política a que chamaremos legal, tendo-se transformado num novo partido, o Neo-Lao-Halt Xat (NLHX).

Em 1957 (Novembro), foi acordado um governo de união nacional, a que presidiu Souvanna Phouma, com a participação de Souphanouvong, tendo sido sol de pouca dura, pois esta união acabou por se desfazer em 1959.

A 9 de Agosto de 1960 dá-se um golpe de estado militar, dirigido pelo capitão Kong-Le, que pretendia a instalação de um regime neutralista, temdo sido expulso do poder pelo general Phumi Nosavan, pró-EUA, o que levou Kong-Le a juntar-se ao Pathet Lao, ocupando a planície de Jarros.

Nova Conferência em Genebra, esta sobre o Laos, acordada entre Kennedy e Kruschev, cujas reuniões se iniciaram em Maio de 1961, decidindo-se, por fim, em 23 de Julho de 1962, mais de um ano depois, a neutralidade do Laos.

 

in: Herring, George C., A Guerra do Vietname- O Mais Longo Conflito da América. 1950-1975, pág. 30

«Em Julho de 1962, depois de meses de tortuosas negociações, fora assinado um acordo no Laos, o qual caíra por terra em menos de um ano. Os Norte-Vietnamitas voltaram rapidamente a utilizar o Laos como rota de abastecimento e os guerrilheiros do Pathet Lao montaram operações militares contra o governo neutralista. Incapaz de controlar uns e outros, a União Soviética lavou as mãos do acordo que ajudara a negociar. Longe de oferecer um modelo para a neutralização do Vietname, o acordo do Laos confirmou aos americanos os limites das negociações.» (11) Será de lembrar aqui que a Crise dos Mísseis de Cuba «—o frente-a-frente mais assustador da Guerra Fria—» aconteceria em Outubro de 1962 (12), o que nos permite adivinhar as tensões que então existiam entre os blocos.

De facto, na Primavera seguinte (1963), os comunistas retomaram as hostilidades com o objectivo de tomarem o poder e os EUA começaram a bombardear o Laos em 1964, de modo a impedirem o abastecimento que o Vietname do Norte fazia, através da parte oriental do Laos, para os seus partidários no Sul, comunistas e nacionalistas que lutavam pela unificação do Vietname, usando a chamada Pista Ho Chi Minh, que os comunistas laosianos, naturalmente, apoiavam, contribuindo para um cada vez maior envolvimento do Laos na Guerra do Vietname.

Pista Ho Chi Minh (1967) in: https://en.wikipedia.org/wiki/File:HoCMT.png

Durante a Guerra do Vietname, os EUA lançaram quase 2,5 milhões de toneladas de bombas sobre a Pista Ho Chi Minh, ou seja, praticamente o dobro do que os americanos haviam lançado sobre a Alemanha, na II Guerra Mundial.

Esta Pista já tinha séculos de existência, serpenteando através das montanhas, naturalmente aperfeiçoada com o decorrer dos tempos, o que levou os vietnamitas do norte a criar o «Grupo de Transportes 559», sob o comando do General (então Coronel) Vo Bam, através da qual se infiltravam tropas do Vietname do Norte para combater no Sul do país e, também, para fornecer o material necessário aos combatentes do chamado Vietcong (vários vietnamitas me disseram que os membros do Vietcong não eram comunistas na totalidade, mas sim nacionalistas que lutavam pela independência e unificação do país, em que se incluía um número significativo de comunistas). Esta Pista, como pode ver-se na imagem acima, tinha quase todo o seu trajecto no Laos, tendo tido grande importância na vitória dos vietnamitas, sobretudo depois de a marinha dos EUA terem impedido a via marítima que até então tinha sido utilizada pelo Vietname do Norte.

A decidida neutralidade para o Laos não impediu os norte-vietnamitas de violar esta neutralidade, tendo como aliados os comunistas do Pathet Lao nas suas incursões e, em contrapartida, os comunistas laosianos iam também beneficiando do apoio dos vietnamitas no combate ao dito governo neutral do Laos. (13)

Retomando um pouco atrás, quando Sisavang Vong, aproveitando o fim da II Guerra Mundial, proclamou o fim do protectorado francês, com a França a apenas aceitar em 1949 acabar com o protectorado, mas tornando o Laos um estado associado da República Francesa. Em 1953, com o Tratado Franco-Lao, aceitou um Laos independente. Estabeleceu-se assim o Reino do Laos, uma monarquia constitucional, com Sisavang Vong como rei e o Príncipe Souvanna Phouma como primeiro-ministro, tendo Luang Prabang como capital.

Houve várias tentativas para formar um governo de unidade nacional, apenas conseguido em 1958, com Souvanna Phouma como primeiro-ministro, o qual chegou a acordo com o seu meio-irmão, o príncipe Souphanouvong, concedendo dois lugares no Conselho de Ministros aos comunistas e integrando 1.500 soldados comunistas no exército real do Laos (talvez se justificasse dizer militantes do movimento de inspiração comunista, o qual sempre foi apoiado pelo Vietname do Norte). Souphanouvong ficou como Ministro da Reconstrução, Planeamento e Urbanização e o outro comunista com o Ministério da Religião e Belas Artes.

“O acordo sobre o Laos de 1962 fora letra morta desde o princípio. Um débil governo de coligação mantinha nominalmente uma neutralidade precária enquanto os estrangeiros travavam a guerra por todo o país. Os Norte-Vietnamitas utilizaram o território laociano como rota de infiltração no Vietname do Sul e apoiaram os insurrectos do Pathet Lao com mantimentos e 20 000 «voluntários». Entre 1962 e 1972, enquanto apoiavam o governo neutralista, os Estados Unidos travaram uma guerra secreta contra as posições norte-vietnamitas no Laos. Quando foram interrompidos os bombardeamentos aéreos do Vietname do Norte, em finais de 1968, o Laos tornou-se o alvo principal. Até 1973, os Estados Unidos largaram mais de dois milhões de toneladas de bombas sobre o Laos, transformando muitas áreas em desertos. Ao mesmo tempo, sob os auspícios da CIA, um exército da tribo Hmong, liderado pelo general Vang Pao, travou uma guerra de guerrilha contra a Pista Ho Chi Minh, no Laos, com custos terríveis: em 1975 já tinham sido mortos 17 000 soldados e 50 000 civis. A retirada americana do Vietname do Sul deixou o governo sem quaisquer hipóteses de sobrevivência. Um acordo concluído em Fevereiro de 1973 criou um governo de coligação no qual a (sic) Pathet Lao assegurou a predominância. Com a queda do Camboja e do Vietname do Sul, o Pathet Lao assumiu o poder, não se dando sequer ao trabalho de dissimular a sua subserviência ao Vietname. Numa das grandes tragédias humanas das guerras da Indochina, os Hmongs, leais aliados da América, caíram vítimas de um genocídio perpetrado pelo Pathet Lao. Escaparam cerca de 100 000, incluindo o lendário Vang Pao. Outros 100 000 foram mortos numa campanha sistemática de extermínio que recorreu a bombardeamentos aéreos e de artilharia, e possivelmente a armas químicas e biológicas, e milhares sofreram, segundo o eufemismo empregue pelo Pathet Lao, nos «campos de seminários»”. (14)

Os EUA, numa tentativa de impedir a influência do Vietcong no Laos, deram início a uma ajuda em 1953, aumentando-a a partir de 1960, com grande auxílio na formação e no equipamento do exército do general Vang Pao, incluindo «Forças Especiais dos EUA», servindo-se da Tailândia para o necessário transporte, mas também da conhecida linha aérea comercial da CIA.

Com a paz acordada entre os EUA e o Vietname do Norte, os Acordos de Paz de Paris (ou Acordo de Paris para o Fim da Guerra e Restauração da Paz no Vietname), cuja assinatura ocorreu em 27 de Janeiro de 1973, com a participação dos «governos da República Democrática do Vietname (Vietname do Norte), a República do Vietname (Vietname do Sul) e os Estados Unidos, além do Governo Revolucionário Provisório (PRG) que representou os revolucionários norte-vietnamitas (o Vietcong)» (15), levou a que, em Abril de 1974, se formasse mais um Governo de Unidade Nacional, de novo com o príncipe Souvanna Phouma como primeiro-ministro, mas a queda final de Saigão um ano depois incitou o Pathet Lao, que já dominava grande parte do território do Laos, a ocupar a capital do país. Meses depois, 2 de Dezembro de 1975, é proclamada a República, com um governo comunista do Pathet Lao, nascendo assim a República Popular Democrática do Laos, com o príncipe Souphannouvong como presidente e Kaysone Phomvihane ocupando o lugar de primeiro-ministro e secretário-geral do Partido Popular Revolucionário do Laos.

O Laos é limitado a Norte pela China, a Leste pelo Vietname, a Sul pelo Camboja, a Sul e Oeste pela Tailândia e a Noroeste por Myanmar, com uma superfície de 236 800 km2, dos quais 2% são cobertos por água.

Souphanouvong (in: https://en.wikipedia.org/wiki/Souphanouvong)

O príncipe Souphanouvong nasceu em 13 de Julho de 1909, filho do príncipe Bounkhong e de uma mãe plebeia, Kham Ouane, sendo, portanto, como se disse, meio-irmão dos príncipes Souvanna Phouma e Boun Oum, de Champasak.

A sua educação decorreu em França —formando-se em engenharia pela École Nationale des Ponts et Chaussées— e no Vietname, tornando-se num dos apoiantes de Ho Chi Minh, ingressando no movimento comunista da Indochina. Destacou-se como poliglota, falando oito línguas, entre as quais se contava o grego e o latim.

Em Agosto de 1950, convocou o primeiro congresso do Pathet Lao (Frente da Liberdade do Laos ou Neo Lao Issara), tendo-se tornado conhecido como o «Príncipe Vermelho».

Manteve-se como presidente da República Democrática Popular do Laos até 15 de Agosto de 1991, embora a partir de 1986, por razões de saúde, se tenha mantido simbolicamente no cargo, exercendo em seu lugar Phoumi Vongvichit, até que em 1991 lhe sucedeu como presidente Kaysone Phomvihane, ficando Souphanouvong como consultor do Comité Central do Partido Popular Revolucionário do Laos, vindo a falecer em 9 de Janeiro de 1995.(16)

Bandeira do Laos (in: https://pt.wikipedia.org/wiki/Portal:Laos)

O Laos é uma República Socialista, de partido único, tendo a sua capital em Vientiane, seguindo-se, em grau de importância, três outras cidades: Luang Prabang, de que já falámos, Savannakhet e Pakxe. É um país multiétnico, com 60% de laosianos, ocupando sobretudo as planícies, e outros grupos étnicos, entre os quais os já falados H’mongs, que vivem principalmente nas colinas e nas montanhas, sendo a língua oficial o laosiano.

Kaysone Phomvihane viu-se confrontado com as profundas alterações introduzidas por Mikhail Gorbatchev na URSS e não devia desconhecer que o novo líder soviético considerava que “o «campo socialista» (onde se contavam o Vietname, Cuba e a Coreia do Norte, a par dos aliados da Europa de Leste) era um peso para a economia soviética, recebendo cerca de 17 mil milhões de dólares em matérias-primas e outros bens de Moscovo, enquanto apenas garantiam 3,5-5 mil milhões em troca.” (17), o que o levou a acompanhar as transformações trazidas por Gorbatchev, iniciando o regresso à economia de mercado e à reabilitação do budismo, seguindo-se a libertação dos presos políticos, a redistribuição de terras pelas famílias e, naturalmente indispensável para acompanhar tais transformações, a reforma da administração. Foram criadas as condições que permitiram o regresso dos laosianos que tinham emigrado para a Tailândia —cerca de 400 000 laosianos no total até 1980— que, não obstante, já haviam iniciado o regresso em 1975.

Kaysone ficou gravemente doente e, em 1988, os serviços públicos foram por ele entregues ao experiente e já nosso conhecido Phoumi Vongvichit, então o número dois do Partido Popular Revolucionário.

Com a inflação a atingir valores muito preocupantes, o governo adoptou, nos anos 90, reformas económicas tornando o Laos numa economia socialista de mercado —com a China ali tão perto, não esqueçamos—, tendo a Constituição de 1991 reconhecido a propriedade privada, facilitando, portanto, as reformas.

Kaysone Phomvihane faleceu em 1992. Os investimentos privados foram tornados possíveis por uma lei de Março de 1994, ficando também criadas as condições para estabelecer laços com a Tailândia, o que culminou com a inauguração de uma ponte sobre o rio Mekong a ligar os dois países. (18)

Actualmente, desde 19 de Abril de 2016, Bounnhang Vorachith é o Presidente do Laos.

Bounnhang Vorachith in: https://pt.wikipedia.org/wiki/Lista_de_presidentes_do_Laos

Fiz uma longa citação que retirei do livro de George C. Herring (v. nota 9), mas não resisto a fazer uma outra de Jean-Louis Margolin (19), que diverge de Herring em questões muito importantes, como o número de vítimas e o uso de armas químicas e bacteriológicas, neste caso Margolin afirmando que tal nunca foi provado. Eis a transcrição:

“A tomada do poder, na nova relação de forças indochinesas, foi pacífica: uma espécie de «golpe de Praga» asiático. O ex-primeiro-ministro (neutral) Suvanna Phuma tornou-se conselheiro especial (escutado) do novo regime, representado pelo príncipe Suphanuvong, parente do rei deposto. A nova República Democrática Popular seguiu, no entanto, o exemplo vietnamita: a quase totalidade dos funcionários do antigo regime (cerca de 30 000) foi enviada para «seminários» — ou, mais exactamente, para campos de reeducação —, frequentemente para as províncias do Norte e do Leste, longínquas, insalubres e próximas do Vietname; por lá ficaram cinco anos, em média. Os «criminosos» mais empedernidos (oficiais do exército e da polícia), cerca de 3000, foram internados em campos de regime severo nas ilhas Nam Ngum. A própria antiga família real foi presa em 1977, e o último príncipe herdeiro morreu na prisão. Tudo isto ajuda a explicar o grande número de fugas do país, elas próprias por vezes origem de dramas: não era raro os soldados dispararem sobre os fugitivos.

A principal originalidade em relação ao modelo vietnamita reside, no entanto, na manutenção obstinada de uma guerrilha anticomunista de alguns milhares de combatentes, na sua maioria H’mong, cuja actividade preocupou a tal ponto o poder de Vienciana, à volta de 1977, que este mandou a aviação bombardeá-los; falou-se com insistência, na ocasião, de «chuvas amarelas» químicas ou bacteriológicas, mas o facto nunca foi verdadeiramente confirmado. O que é certo, em compensação, é que esta guerrilha, que dava seguimento à mobilização H’mong durante a guerra, esteve na origem de partidas maciças. Desde 1975, infindáveis colunas de civis H’mong dirigiam-se para a Tailândia; registou-se pelo menos um incidente muito grave com o exército comunista, e, ao todo, os refugiados referem cerca de 45 000 vítimas (mortas em ataques ou de fome) quando destas deslocações; o número não é controlável. Em 1991, 55 000 laocianos (20), 45 000 dos quais montanheses (a maioria H’mong) ainda se encontravam nos campos tailandeses. Aguardando um destino de acolhimento definitivo (alguns encontraram refúgio na Guiana Francesa…).

Algumas depurações (não sangrentas) atingiram igualmente o topo do Estado e do Partido, em 1979, quando se deu a ruptura com a China, e em 1990, quando alguns foram tentados por uma evolução semelhante à da Europa de Leste. A partida dos cerca de 50 000 soldados vietnamitas, em 1988, depois uma liberalização económica forte e a reabertura da fronteira tailandesa aliviaram a atmosfera. Deixa de haver detidos políticos, e a propaganda comunista faz-se discretamente. Mas apenas alguns milhares de refugiados regressaram definitivamente ao país do «milhão de elefantes». O estreitamento dos laços de um país extremamente pobre e atrasado com esta diáspora competente e por vezes abastada é uma aposta essencial para o futuro do país.”

Ora, numa curta visita ao Laos como aquela que fiz, não posso apresentar aqui uma conclusão definitiva; no entanto, tendo em conta o que vi, o ambiente vivido nas ruas e as conversas com o guia e outros laosianos, sou inclinado a afirmar que esta visão de Jean-Louis Margolin estará mais próxima da realidade.

Para um melhor entendimento do papel desta etnia H’mong, vamos deter-nos de forma resumida na sua história.

Os H’mong que habitam no Laos são provenientes dos Miao do Sul da China, sendo parte de um conjunto de grupos étnicos das línguas H’mong-Mien, embora os H’mong do Laos não aceitem a designação de Miao por ter conotação de selvagem. Ao Vietname terão chegado no final do séc. XVIII. Entre 1883 e 1954, quando a França iniciou a colonização do Vietname do Norte (antigo Tonkin) uma parte dos H’mong juntaram-se aos nacionalistas e comunistas vietnamitas na luta pela independência; outra parte, os que se tinham convertido ao cristianismo, mantiveram-se fiéis aos franceses. Com a vitória dos vietnamitas sobre os franceses, os apoiantes dos franceses refugiaram-se no Vietname do Sul e no Laos, embora se registe a presença deste grupo étnico no Laos desde a mesma altura em que começaram a fixar-se no Vietname, mas mantendo relações distantes com os laosianos.

Quando terminou a II Guerra Mundial, as rivalidades entre os clãs Lo e Ly intensificaram-se, dividindo-se nas lutas civis; uns combatendo o Pathet Lao, tendo a CIA organizado com estes um exército secreto, com vários regimentos e divisões móveis, a que juntou várias unidades de guerrilha, sob o comando do já referido general Vang Pao, outros juntando-se ao Exército de Libertação Popular, dominado pelos comunistas do Pathet Lao. Houve ainda aguns que tentaram manter-se neutrais e que terão sido aqueles que, pela falta de apoio de um ou outro dos beligerantes, mais dificuldades tiveram de sobrevivência neste conturbado período da história do Laos.

Como resultado da vitória do Pathet Lao em 1975, muitos tiveram que fugir, refugiando-se na Tailândia, onde poucos acabariam por permanecer e, mais tarde, emigrando para os EUA, onde viverão cerca de 100.000, para França foram 10.000 (dos quais 1.400 para a Guiana Francesa), 900 para o Canadá, 360 para a Austrália, 260 para a China e 250 para a Argentina. Dos problemas que viveram na fuga do Laos, já falámos neste texto com algum pormenor. Segundo dados de 2008, a França tinha 15.000 indivíduos com ascendência H’mong, a Austrália 2.000, a Guiana Francesa 1.500, o Canadá 835, destacando-se os EUA com 171.316 com ascendência H’mong e 221.948 com ascendência parcial da mesma etnia, espalhados pelo Wisconsin, pelo Minnesota e pela Califórnia, para além de várias outras cidades, provavelmente como compensação pelos enormes sacrifícios que fizeram em favor dos EUA e até pelos muitos pilotos americanos que ajudaram a resgatar e que haviam sido derrubados nos bombardeamentos no Laos, particularmente na Pista Ho Chi Minh. Há, inclusive, um Instituto de Veteranos do Laos da América que muito tem contribuído para a imigração de H’mongs para os EUA.

Laos: meninas H’mong procuram pretendente enquanto jogam uma bola in:https://en.wikipedia.org/wiki/File: Hmong_wedding.jpg

Os H’mong vivem do comércio de madeira de caixão e do cultivo da papoila para produção de ópio, que vendem, agora, sobretudo para a China, desde que, em 1993, o comércio destes produtos passou a ser proibido no Vietname.

Em 2005, no Laos, viviam 460.000 H’mongs.

A história dos H’mongs que combateram contra o Pathet Lao e os vietnamitas é mais complexa se tivermos em conta que tiveram de se refugiar, sobretudo, na Tailândia. Neste país também tiveram de enfrentar muitas dificuldades, embora não haja provas concretas de que a muito falada repatriação forçada seja verdadeira; no entanto, até a própria União Europeia levantou a questão.

Em 1966, a Tailândia fechou os campos onde tinha sido alojada a maioria dos H’mongs fugidos do Laos, cerca de 5.000 H’mongs procuraram refúgio num templo, no centro da Tailândia, o Wat Tham Krabok, que não é considerado oficialmente um templo budista, pois foi fundado por uma mulher, Luang Por Yai, embora na entrada se diga que é um templo.

Wat Tham Krabok, in: holiao.la

Nesse templo estavam já 10.000 refugiados H’mong, os quais acabariam por ser autorizados a permanecer ali até que, por fim, puderam ir para os EUA, na qualidade de refugiados políticos, apesar de nem todos terem emigrado para este país, tendo sido distribuídos por vários países, como já se demonstrou acima. O templo chegou a ter ali 35.000 refugiados, número este que foi depois diminuindo.

As terríveis dificuldades com que ali viviam originou um movimento solidário de organizações humanitárias, preocupações que também tiveram alguns membros do Congresso dos EUA. Este movimento gerado à volta dos refugiados no templo Wat Tham Krabok chamou a atenção do Mundo no final dos anos 80 e meados dos anos 90 do século passado, tendo havido grande oposição ao repatriamento dos H’mong para o Laos, onde, naturalmente, não havia sido esquecido o facto de terem ajudado os EUA na luta contra os comunistas do Laos e contra o Vietname do Norte, justificando-se assim a sua distribuição por vários países em 2004 e 2005. No templo terão ficado apenas duas famílias H’mong.

O templo também se tornou célebre por se dedicar à desintoxicação de viciados em ópio, heroína, álcool e metanfetaminas, aceitando mesmo muitos ocidentais, incluindo músicos e cantores célebres.

Mas a atenção dedicada ao templo também teve outras razões, destacando-se o facto de ali residirem muitos opositores do regime comunista do Laos e o templo se ter tornado, assim, num centro de resistência armada ao regime deste país vizinho, o que levou o governo tailandês a ter de intervir, acção essa que não foi fácil dado que, nas forças tailandesas, havia muitos apoiantes destes opositores ao regime comunista Pathet Lao, mas acabou por ser, ao que parece, conseguido, a que não será alheio o restabelecimento de relações entre os dois países.(21)

Vang Pao e os seus apoiantes H’mong nos EUA conspiraram, com o auxílio de um oficial de infantaria americano aposentado, Harrison Jack, tendo este sido acusado de tentar recrutar veteranos das Operações Especiais para constituir uma força de mercenários com o objectivo de derrubar o regime laosiano, conspiração esta que foi anulada pelos agentes federais americanos, tendo os conspiradores sido presos e indiciados por um grande júri em 15 de Junho de 2007, mas o governo federal dos EUA acabaria por retirar todas as acusações, primeiro, em 18 de Setembro de 2009, contra Vang Pao e depois, após a morte deste em 10 de Janeiro de 2011, contra todos os outros réus. Enfim, os EUA nos seus habituais jogos.

Entretanto, a chamada construção do socialismo no Laos não se tornou tarefa fácil, tendo a acção do novo governo do Pathet Lao sofrido não só os problemas criados pelas forças oposicionistas, maioritariamente H’mong, forças estas que receberam um novo impulso com a tomada do poder pelos militares na Tailândia, mas também com os problemas criados pelo regime Khmer Vermelho no Camboja, apoiado pela China, vendo-se o Vietname obrigado a intervir, como já descrevemos com algum pormenor no texto sobre o Camboja, país onde iniciámos esta viagem, contribuindo profundamente para a desunião entre os estados socialistas da região, sofrendo mais o Laos por ser o elo mais fraco e, por isso, a ter de se submeter aos interesses dos mais fortes, acabando também por receber a hostilidade de antigos países amigos pela ruptura das relações internacionais, ficando sem muitos dos apoios com que contaria para a sua recuperação. No entanto, o Vietname não abandonou o apoio ao Laos, tendo sido assinado um tratado de amizade por 25 anos entre os dois países em 1977, enviando o Vietname para o Laos assessores com os necessários conhecimentos para o apoio nas políticas governamentais e económicas, ficando o Vietname a ser o principal parceiro comercial do Laos, como também a principal rota deste país no acesso ao mar, fundamental para o Laos que, como se sabe, não tem costa marítima. A União Soviética proporcionou ajuda externa ao Laos, assumindo a maior parte dessa ajuda, assim como se tornou no principal fornecedor das forças armadas do Laos.

Na década dos anos 80 do século passado, as fazendas colectivas foram abandonadas, passando as terras a ter gestão individual, embora o proprietário continue a ser o Estado, que as alugou não só a cidadãos laosianos, como também a investidores estrangeiros, aos primeiros com contratos por um período de 30 anos, aos estrangeiros por períodos de 50 anos.

Nesta exploração das terras, há um gravíssimo problema que tem a ver com a insegurança, pois, como acontece no Camboja, há campos minados em resultado da guerra, o que tem dado origem a mortes provocadas pelo rebentamento inesperado dessas minas, como também de bombas que não rebentaram quando lançadas.

No início dessa mesma década, verificou-se que o crescimento resultante do Primeiro Plano Quinquenal não atingiu o objectivo da desejada auto-suficiência, pois o crescimento proporcionado aproximou-se apenas dos 5%/ano, o que obrigou o governo a criar um Segundo Plano Quinquenal (1986-1990), mas com um novo mecanismo económico que permitiria integrar uma parte da economia laosiana com a economia mundial, procurando garantir a auto-suficiência alimentar aos laosianos.

Com este segundo plano, a produção de arroz duplicou e a produção de açúcar teve um crescimento de 40%.

A população, entretanto, quase duplicou e a pobreza foi reduzida em cerca de 50%, sendo o Laos um país muito descentralizado.

Os sindicatos têm poder no Laos e todas as unidades de trabalhadores são obrigadas a ter um representante sindical. O despedimento de um trabalhador tem de ser justificado em tribunal, mas, nessa justificação, tem a entidade patronal de provar que está a procurar um novo trabalho para o despedido, recebendo o trabalhador, entretanto, um subsídio de rescisão.

O horário de trabalho é de 8h00/dia, 48h00/semana, tendo as horas extraordinárias um rigoroso limite estabelecido.

O trabalhador tem licença por doença paga, licença de maternidade e direito a férias. (22)

O governo e os sindicatos exercem um controlo sobre as estruturas económicas e, como a propriedade privada tem limites estreitos, a burguesia laosiana, que existe, vive apertada neste tipo de organização, dependendo o seu poder do controlo que consegue dos mercados locais e do comércio.

Na descrição que fizemos da viagem (Em Viagem pela Indochina – III-1 – LAOS), referimos o bom entendimento com a República da China, a propósito da construção da ponte ferroviária sobre o rio Mekong, que ligará Kunming, na província chinesa de Yunnan, a Vientiane, a capital do Laos.

O apoio da China parece fundamental para que o Laos consiga o progresso necessário para se transformar num país moderno, mas as contrapartidas poderão não ser assim tão boas, dado que a China não quererá deixar de ser a potência dominadora e mais ganhadora. O lucro das parcerias será todo investido no Laos?

Das minhas conversas com alguns laosianos, a começar pelo guia —um homem que, não tenho qualquer dúvida, ama profundamente o seu país—, foi-me sempre dito que a população está satisfeita com a acção do seu governo (claro, dizer o contrário a um estrangeiro não é fácil, mas eu senti que confiaram em mim e tomei as suas palavras como sinceras). Também não podemos esquecer o tormento que foi viver em guerra, sofrendo bombardeamentos, sobretudo vivendo num estado de guerra que envolvia outros países e não directamente o Laos. Agora, os laosianos podem vivenciar o que é viver em paz!

Para além da China, o Laos não deixará de contar com o apoio do Vietname, sendo os vietnamitas um povo que não esquece aqueles que os ajudaram e nas condições em que os ajudaram. Os laosianos também não esquecem.

Que o crescimento económico no Laos continue, são os meus votos, mas que continue para bem do povo laosiano, de modo a acabar com a pobreza que ainda atinge metade da sua população.

NOTAS – LAOS História

  1. in: Childe, V. Gordon, A Pré-História da Sociedade Europeia, Publicações Europa-América, tradução de António Neto, Lx, Janeiro de 1960, pág.41;
  2. in: https://www.infoescola.com/historia/primeiros-povos-da-asia/, que cita como bibliografia GLOVER, Ian. Southeast Asia: From Prehistory to History. Hove: Psychology Press, 2004, 354 p.; Veja-se também: https://pt.wikipedia.org/wiki/Hist%C3%B3ria_do_Laos;
  1. «O termo Lao usado neste contexto refere-se aos povos falantes de Tai-Kadai que residiam no que hoje é Guangdong, Guangxi e norte do Vietnã em geral. É desnecessariamente aplicado apenas ao ancestral do Laos.» in: https://en.wikipedia.org/wiki/History_of_Laos
  2. Consultar: https://www.portalsaofrancisco.com.br/turismo/laos;
  3. Moreira, Adriano, A Nossa Época – Salvar a Esperança, Edições Sílabo, Lda., Lisboa, Outubro de 2019, pág. 25;
  4. Homero, Ilíada, Canto XIII, 237, tradução de Frederico Lourenço, Livros Cotovia, Lisboa, 2005;
  5. Vide: https://www.britannica.com/biography/Chao-Anu e, fontes que também temos estado a seguir, Mourre, Michel, Dicionário de História Universal, vol. II, pág. 815/6, tradução de G. Cascais Franco e Francisco Paiva Boléo, entrada «Laus» (sic), Edições Asa, S. A., Porto, Setembro de 1998 e, ainda, https://en.wikipedia.org/wiki/History_of_Laos;
  6. in http://lusosucessos.blogspot.com/2016/02/historiao-rei-chulalongkorn-do-siao_27.html;
  7. Herring, George C., A Guerra do Vietname- O Mais Longo Conflito da América. 1950-1975, tradução de Miguel Mata, revisão de Luís Malheiro, Edições 70, Lda., Lisboa, Fevereiro de 2010, pág. 29;
  8. Kershaw, Ian, À Beira do Abismo – A Europa 1914 – 1949, tradução de Miguel Mata, Publicações D. Quixote, Alfragide, Outubro de 2016, pág. 481
  9. Herring, George C., o. c., pág. 148;
  10. idem, pág. 147;
  11. in https://pt.wikipedia.org/wiki/Trilha_Ho_Chi_Minh;
  12. vide nota 9), págs. 377/378;
  13. in: https://pt.wikipedia.org/wiki/Acordos_de_Paz_de_Paris;
  14. in: https://en.wikipedia.org/wiki/Souphanouvong;
  15. in: Taubman, William, Gorbachev: A Biografia, tradução de Luís Santos, Edições Saída de Emergência, Porto Salvo, Novembro de 2018, pág. 292;
  16. in: Mourre, Michel, Dicionário de História Universal, vol. II, pág. 816, tradução de G. Cascais Franco e Francisco Paiva Boléo, entrada «Laus» (sic), Edições Asa, S. A., Porto, Setembro de 1998;
  17. Margolin, Jean-Louis, Laos: Populações em Fuga, in = Livro Negro do Comunismo – Crimes, terror e repressão, vários autores, tradução de Maria da Graça Rego e Lila V., 2.ª edição, Quetzal Editores, Lisboa, 1998, págs. 655/656,
  18. Tenho preferido escrever laosiano, mas as duas formas são correctas, sendo aqui uma transcrição;
  19. Ver https://en.wikipedia.org/wiki/Wat_Tham_Krabok e https://en.wikipedia.org/wiki/File: Hmong_wedding.jpg
  20. in: Morgan Artyukhina https://www.novacultura.info/single-post/2019/10/29/Uma-breve-historia-da-Republica-Democratica-Popular-do-Laos

(continua)

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