Em Viagem pela Indochina – 8 – LAOS por António Gomes Marques

Mapa do Laos

Em Viagem pela Indochina – 8

por António Gomes Marques

III-3 – LAOS – Religião

No Laos, os budistas seguem a tradição mais antiga, Theravada, tal como no Camboja, o que me dispensa de estar a tratar esta tradição pormenorizadamente pelo facto de já o ter feito quando tratei da parte da viagem naquele país, onde esta viagem se iniciou; não obstante, esta tradição no Laos tem algumas características próprias, sobretudo nas zonas rurais, estando ligada às crenças animistas e aos espíritos dos antepassados.

A palavra animismo é uma criação dos antropólogos, não sendo, portanto, uma criação dos povos indígenas; para estes existe a crença de que não há separação entre o mundo material e o mundo espiritual. Se se acredita na existência da alma nos seres humanos, para os chamados animistas a alma também existe nas montanhas e rios e até mesmo noutras manifestações naturais que podemos observar, como o vento, o trovão, …

No Laos, país dito comunista, os budistas respeitam as autoridades governamentais, estas respeitam os budistas enquanto a religião não interferir na liderança do país. Como já tivemos oportunidade de escrever sobre o Camboja, «O budismo também não pretende qualquer submissão do Estado à sua religião, de acordo com o que Buda pede aos seus seguidores nas Escrituras canónicas para respeitarem as leis do país, promulgadas por quem tem poderes para isso.»

Segundo o «World Christian Database», dados de 2019, 52,7% da população do Laos é budista e 41,9% é aderente de várias religiões étnicas.

Localizado em Vientiane, Pha That Luang é um dos monumentos mais importantes do Laos, do século XVI, no local de um antigo templo Khmer. sendo destruído por uma invasão siamesa em 1828 e, depois, reconstruído pelos franceses em 1931. in: https://www.odespertardosbudas.com/10-famosos-templos-budistas-pelo-mundo/

III-4 – LAOS – Economia

Os cerca de 7 milhões de habitantes têm um rendimento per capita de US$ 2.567, dados de 2018, bem superior ao do Camboja (mas a população deste país é também muito superior), tendo este PIB do Laos um crescimento nos últimos anos de 5,7%., segundo o The Atlas of Economic Complexity.

No Índice de Complexidade Económica (ICE), o Laos aparece como o 105º país mais complexo, embora as suas exportações se tenham vindo a diversificar em produtos de menor complexidade.

Este ICE é determinado a partir da análise da pauta exportadora da economia de cada país, medindo de forma indirecta a sofisticação tecnológica do tecido produtivo do país em análise, utilizando os conceitos de ubiquidade (1) e diversidade de produtos encontrados naquela pauta exportadora. Para nos ajudar a compreender melhor este ICE, tome-se em consideração o ICE de Portugal, que ocupa o 33º lugar no «ranking», lembrando o que nos diz, sobre esta questão, o The Atlas of Economic Complexity: «Em comparação com uma década anterior, a economia de Portugal tornou-se mais complexa, melhorando 1 posição no ranking da ICE. No futuro, Portugal está posicionado para aproveitar muitas oportunidades de diversificar sua produção usando o know-how existente.» Para facilitar a comparação, a Alemanha ocupa o 4.º lugar neste «ranking».

No quadro abaixo, podemos verificar o tipo de produtos que o país exporta:

in: The Atlas of Economic Complexity

Segundo o The Atlas of Economic Complexity, «o Laos exportou produtos no valor de US$6,83 mil milhões em 2018. As exportações cresceram uma média anual de 8,6% nos últimos cinco anos, o que superou o crescimento económico geral, pois as exportações representam um segmento crescente da economia. As exportações não petrolíferas cresceram 9,1% ao ano nos últimos cinco anos, superando o crescimento médio global. As importações totalizaram US$8,37 mil milhões em 2018, deixando o Laos com um déficit comercial de bens e serviços.»

Os três melhores destinos das exportações foram a Tailândia, com 44,29%, a China com 34,20% e o Vietname com 8,60%.

Tendo em conta os dados do The Atlas of Economic Complexity (AEC), nas exportações do Laos predominam produtos de baixa complexidade: agricultura e minerais. A exportação da produção de electricidade começa a ter uma importância colossal na economia do Laos, como veremos mais à frente, analisando também os seus inconvenientes.

Com o desenvolvimento do conhecimento, o Laos ficará habilitado a produzir outro tipo de bens e serviços, o que é válido para todos os países, especialmente para os países com um nível de desenvolvimento mais baixo, como é o caso do Laos. Se analisarmos um país já muito desenvolvido, este já não terá, naturalmente, muito campo para mais diversificação dos bens e serviços que já produz.

Por enquanto, o Laos tem uma economia com base na agricultura, sendo o arroz o principal produto agrícola, seguindo-se o milho, a cana, batata-doce, abacaxi. Produz café de muito boa qualidade, produção esta que trouxe outra vantagem de grande importância, passando a ocupar na sua produção pessoas que dantes tinham a sua actividade no cultivo da papoila.

No rio Mekong pude ver muitos laosianos ocupados na pesca, que tem uma produção significativa, embora artesanal.

Servindo-me agora da Enciclopédia Britânica, posso referir que no Norte do país há florestas tropicais, onde abundam sobretudo elefantes, mas também tigres, leopardos, ursos, macacos e cervos, não devendo esquecer-se que o país foi também conhecido como o Reino do milhão de elefantes.

No Sul, encontram-se em grande abundância árvores de teca, pau-rosa e ébano, para além de bambuzais e pastos.

Há também muitos laosianos ocupados na criação de búfalos, vacas e porcos.

Pelo que acabo de referir, pode inferir-se que o Laos ainda terá de percorrer um longo caminho para atingir um nível de exportações que lhe permita atingir um outro patamar mais elevado de desenvolvimento.

in: http://professormarcianodantas.blogspot.com/2011/01/laos-abre-suas-portas-para-o-turismo.html

O cultivo do arroz no Laos, ao longo do rio Mekong, não causa admiração a ninguém, mas a acrescentar a esta produção há que referir o cultivo em terraços, o chamado terraceamento, que é uma forma tão antiga que remonta aos Incas, tidos por terem sido os seus inventores, método também utilizado para cultivar vegetais, batata e mesmo milho, muito utilizado no Vietname, na China, na Indonésia, nas Filipinas e, claro, no Laos.

Podemos encontrar o terraceamento em encostas de colinas e montanhas, proporcionando paisagens de grande beleza. A água das chuvas é aproveitada numa rede de canais que faz com que a água, em vez de correr pelas encostas, passe de terraço para terraço, acumulando a água onde convém. Este método proporciona uma maior produtividade agrícola em países muito montanhosos, como é o caso do Laos, tornando produtivas zonas que, sem este método de cultivo, seriam improdutivas, como a fotografia acima nos mostra.

Para Portugal, o Laos exportou 2,34 milhões de US dólares (dados de 2018), sendo mais de metade desse montante em café, como se mostra no quadro que a seguir se reproduz:

in: The Atlas of Economic Complexity

Vamos comparar dados sobre as exportações/importações a partir de outra fonte, verificando-se haver algumas diferenças para que não encontrámos explicação, embora possamos admitir que tais diferenças tenham origem nos dados fornecidos pelas autoridades laosianas (é o que nos dizem habitualmente).

No Índice de Complexidade Económico (ICE) há uma chamada de atenção para o facto de, comparando com a década anterior, a economia do Laos se ter tornado menos complexa, baixando quatro posições no «ranking» ICE, mas o país diversificou-se nesse mesmo período em produtos de menor complexidade, dizendo-se mesmo que «o Laos é um pouco menos complexo do que o esperado para seu nível de renda. Como resultado, sua economia está projetada para crescer moderadamente.»

No que às importações do Laos se refere, o quadro seguinte mostra o montante total e a sua distribuição por bens e serviços. Curiosamente, no total importado de 8,37 mil milhões de US dólares, é a rubrica Viagem e Turismo que aparece em primeiro lugar, tendo havido em 2018 um significativo défice comercial de bens e serviços como já referi:

in: The Atlas of Economic Complexity

Os dados acima levantam-me algumas dúvidas. Compare-se agora os dados que nos faculta o OEC – The Observatory of Economic Complexity para as exportações do Laos em 2018:

(https://oec.world/en/profile/country/lao/)

«Em 2018, o Laos exportou um total de US$5,09 mil milhões, tornando-se no 112º exportador do mundo. Durante os últimos cinco anos relatados, as exportações do Laos alteraram-se em US$1,37 mil milhões, de US$3,72 mil milhões em 2013, para US$5,09 mil milhões em 2018. As exportações mais recentes são lideradas por electricidade (US$1,41 mil milhões), minério de cobre (US$577 milhões), cobre refinado (US$500 milhões), monitores de vídeo (US$262 milhões) e acessórios de transmissão (US$256 milhões). O destino mais comum para as exportações do Laos são Tailândia (US$2,6 mil milhões), China (US$1,61 mil milhões), Japão (US$153 milhões), Estados Unidos (US$140 milhões) e Alemanha (US$108 milhões)».

Olhe-se agora para as importações, também segundo o OEC:

Então, de acordo com o quadro acima do OEC, o Laos importou US$6,17 mil milhões, tornando-o o destino comercial número 120º no mundo. Nos últimos cinco anos relatados, as importações do Laos mudaram em US$501M, de US$6,67 mil milhões em 2013 para US$6,17 mil milhões em 2018.

As importações mais recentes do Laos são lideradas por petróleo refinado (US$864 milhões), carros (US$288 milhões), equipamentos de transmissão (US$178 milhões), bovinos (US$166 milhões) e camiões de entrega (US$125 milhões). Os parceiros de importação mais comuns para o Laos são Tailândia (US$4,12 mil milhões), China (US$1,39 mil milhões), Japão (US$127 milhões), Coreia do Sul (US$83,9 milhões) e Rússia (US$53 milhões)».

Segundo estes dados, também há um registo negativo para o Laos em 2018, entre importações e exportações, no montante de US$1,08 milhões, enquanto, tendo em conta os dados do The Atlas of Economic Complexity, esse saldo negativo para o Laos no mesmo ano foi de US$1,54 mil milhões.

O Growth Lab previa em 2017 um crescimento para a década seguinte de 4,8% ao ano, o que coloca o país numa excelente posição entre todos os países.

«O Laos é a 131ª maior economia de exportação do mundo e a 115ª economia mais complexa, de acordo com o Índice de Complexidade Económico (ICE). Em 2017, o Laos exportou US$2,04 mil milhões e importou US$1,94 mil milhões, resultando em um saldo comercial positivo de US$101 milhões. Em 2017, o PIB do Laos foi de US$16,9 mil milhões e seu PIB per capita foi de US$7,02 mil.»

Na mesma fonte, destaca-se a exportação de minério de cobre (US$557 milhões), borracha (US$193 milhões), ouro (US$155 milhões), madeira bruta (US$137 milhões), fatos para homem não tricotados (US$86,4 milhões), utilizando a revisão do Sistema Harmonizado (HS).

Nos dados da OEC, nos destinos das exportações do Laos em 2017, o Vietname não aparece nos primeiros importadores dos seus bens, sabendo-se que este país é um dos principais parceiros do Laos. Por ordem quantitativa, em US$, aparecem China (US$1,18 mil milhões), destacadíssima, Índia, Japão, EUA e Alemanha. O Laos produz bens e serviços que o Vietname tem em abundância, será a explicação.

Ainda seguindo a mesma fonte, as principais importações são equipamentos de transmissão (US$134 milhões), camiões de entrega (US$94,6 milhões), estruturas de ferro (US$90,2 milhões), outras barras de aço (US$87,8 milhões), turbinas hidráulicas (US$85,6 milhões), sendo a China o país que mais exporta para o Laos (US$1,34 mil milhões), com o Japão a ocupar o segundo lugar (US$112 milhões) —note-se a diferença do primeiro exportador para o Laos do segundo—, seguindo-se a Coreia do Sul, a Áustria e a República Checa.

Nas transacções entre o Laos e a China, a balança é favorável à China em 16 milhões de dólares USA.

O «ranking» de Complexidade Económica do Laos diminuiu 54 lugares nos últimos 33 anos, passando de 61.º em 1984 para 115.º em 2017.

Quando a paz chegou ao Laos, o país não tinha indústria em que as forças produtivas pudessem basear a sua necessária expansão. À tomada do poder pelos comunistas seguiram-se as tradicionais nacionalizações, a colectivização da agricultura e o monopólio estatal do comércio externo.

O controlo da fronteira com a Tailândia não era tarefa fácil, facilitando o mercado negro e permitindo que os camponeses laosianos vendessem os seus produtos sem controlo do Estado.

Num vasto território que abrange parte do Laos, parte da Tailândia e parte da Myanmar, conhecido como o «Triângulo Dourado», é produzida 60% da heroína consumida no Mundo, extraída da papoila, provocando guerras entre os vários bandos que se dedicam a este tráfico ao longo do rio Mekong, o que origina um problema sério difícil de destruir. Na Tailândia há pena de morte para os traficantes e consumidores, mas a corrupção envolvendo as forças que deviam combater o tráfico dificulta ainda mais o combate a este flagelo, proporcionador de grandes fortunas em vários países.

Também não podemos esquecer que a CIA, durante a Guerra Civil, traficou ópio aqui produzido para financiar e armar os H’mongs na luta contra os comunistas, tráfico este difícil de combater enquanto Myanmar e Tailândia se mostrarem incapazes —ou pouco interessados?— de impedir o narcotráfico.

Evidentemente, a paz agora existente veio tornar menos difícil o combate que os governantes dizem querer desenvolver contra os traficantes.

A agricultura no Laos ocupa 75,1% da força de trabalho, sendo os outros 24,9% distribuídos pela indústria e serviços (dados de 2010, Wikipédia), havendo 26% da população abaixo da linha de pobreza, o que não é de estranhar com a distribuição da força de trabalho que se verifica.

Pelos bens importados, podemos também fazer uma ideia do grau de desenvolvimento do país: máquinas e equipamentos, veículos, combustíveis e variados bens de consumo.

Comparando tipos de estabelecimentos comerciais no campo e estabelecimentos do mesmo género na cidade, podemos compreender as diferenças, como, aliás, acontece em muitos outros países.

Foto AGM

Na fotografia anterior, pode ver-se uma rua de estabelecimentos comerciais junto ao Parque Tat Kuang Si, a 29 km de Luang Prabang, de que já falei na descrição da viagem no Laos.

Os mercados de rua são também demonstrativos da iniciativa de muitos laosianos e da forma como ganham a sua subsistência.

in https://www.viajarpelomundo.com/2018/12/cuidado-voce-pode-se-apaixonar-pelo-laos.html

A fotografia anterior dá uma ideia precisa do que é o mercado nocturno de Luang Prabang, que é também uma montra excelente do artesanato laosiano. Em Luang Prabang, na avenida principal, à noite, podemos ver, numa grande extensão, produtos artesanais, com os respectivos artesãos, de um lado e outro da avenida, em perfeita harmonia com as lojas de que a fotografia seguinte mostra um dos estabelecimentos comerciais na referida avenida principal de Luang Prabang e, ao mesmo tempo, pode-se verificar a diferença para os estabelecimentos comerciais no Parque Tat Kuang Si, como acima referi. Podia apresentar outras fotografias de outro tipo de estabelecimentos comerciais nesta avenida, mas a fotografia que se reproduz já é demonstrativa da diferença que pretendo mostrar.

Atente-se então na fotografia:

Loja numa das avenidas principais de Luang Prabang (cerca do Palácio Real). Fot. AGM

Durante a descrição da viagem no Laos, falei do mercado de rua diurno, que é o principal mercado de abastecimento dos produtos alimentares, instalado numa outra avenida, mas que tem em algumas das ruas que com esta avenida se cruzam outras(os) vendedoras(es) com produtos diferentes, como se ilustra na fotografia seguinte, que é apenas um de muitos exemplos que poderia dar:

Mercado de rua de Luang Prabang: para os laosianos, todas as migalhas são bem-vindas (Foto AGM)

Como já referi atrás, o governo comunista do Laos viu-se obrigado, a partir de 1986, perante os fracos resultados do plano concebido logo que conquistado o poder, a descentralizar o controlo e a promover a iniciativa privada, tendo obtido um crescimento de 6% ao ano de 1988 a 2008, embora a crise asiática de 1997 tenha afectado este crescimento por algum tempo; nos 4 anos seguintes, o crescimento foi de mais de 7% ao ano.

As principais indústrias, em que a mineração tem papel de relevo, são: cobre, estanho, ouro, gesso, cimento, madeira, electricidade, construção civil, processamento agrícola, roupas e turismo.

Para além de continuar a ser um país muito dependente da sua agricultura, o Laos não tem ferrovia, com excepção da ligação, que neste texto já referi, entre Kunming, na província chinesa de Yunnan, e Vientiane, a capital do Laos, e, desde Março de 2009 (dados Wikipédia), tem uma outra ligação ferroviária, de 3,5 km, entre Nong Khai, na Tailândia, sobre a Ponte da Amizade Tai-Lao, e Thanaleng, na fronteira do lado laosiano, onde foi construída uma estação ferroviária, se é que, tendo em conta a sua extensão, se pode considerar como sendo uma ligação ferroviária.

De https://laoslife.info/thanaleng-railway-station/ transcrevo:

«Não há instalações na estação ferroviária de Thanaleng além de sanitários na plataforma ferroviária. Não há nenhum lugar na estação ferroviária para comprar alimentos ou bebidas, e não há lojas ou restaurantes a uma curta distância a pé da estação ferroviária. No entanto, há motoristas e “tuk-tuks” à espera na estação para coincidir com a chegada duas vezes por dia de comboios à estação. Ao passar pela bilheteira, vê secretárias com operadores de transporte a promover negócios e “tuk-tuks” à espera na estrada fora da estação para negócios. Se não reservou previamente uma transferência da Estação Ferroviária de Thanaleng para Vientiane, precisa de um desses serviços de “minibus” ou “tuk-tuk” ou corre o risco de ficar preso na Estação Ferroviária de Thanaleng, que fica praticamente no meio do nada.»

Estação ferroviária de Thanaleng (foto https://laoslife.info)

Se o problema da falta de uma ferrovia que sirva o país é uma evidência, a questão rodoviária também constitui outro problema, embora não tão grave.

Há estradas com alguma qualidade para os parâmetros do país que ligam os principais centros urbanos, mas as restantes vilas e aldeias estão ligadas por estradas de terra batida, pouco transitáveis na época das chuvas (v. fotografia abaixo), sendo o barco um dos meios de transporte muito usado, como pude observar ao longo do rio Mekong. Motos e bicicletas abundam, nas cidades e nas estradas, tendo também o «tuk-tuk» uma presença assinalável, mas Luang Prabang, apesar do muito movimento, é uma cidade calma. Os laosianos vivem a sua vida sem agitação e sem luxo, mas pareceram-me contentes com a sua situação e com o governo, onde o facto de não haver guerra não deixará de ter grande influência na opinião dos laosianos.

Fotografia in: http://professormarcianodantas.blogspot.com/2011/01/laos.htm

As telecomunicações também têm muitas limitações; no entanto, enquanto estive no Laos não tive problemas com a utilização do WhatsApp, comunicando com a família em Portugal sem dificuldade.

Segundo a Wikipédia, o orçamento do Laos está coberto em cerca de 26% por doações internacionais.

Outro problema, que não deixa de ter implicações na economia do país, prende-se com as bombas não explodidas, lançadas pelos EUA durante a guerra do Vietname, o que provocou a morte de mais de 20.000 pessoas desde o fim dessa guerra. Estima-se que há cerca de 80 milhões de bombas de fragmentação que ainda não explodiram, dados de 2016, o que terá levado o Presidente Barak Obama — Problema de consciência? Sentimento de culpa? — a doar mais 90 milhões de dólares para encontrar e desarmar essas bombas (nos 20 anos anteriores, os EUA já haviam contribuído com 100 milhões de dólares). O Laos foi o país mais bombardeado da Ásia. Mas até deste gravíssimo problema há quem consiga tirar algum proveito, utilizando o alumínio contido nas bombas para fabricar talheres e braceletes, que se podem encontrar nas lojas já referidas.

As relações entre o Laos e os EUA foram ensombradas por este problema; no entanto, os dois países começaram a aproximar-se antes de 2016, ano em que Barak Obama participou «no Laos numa reunião dos países do Sudeste Asiático, visitou uma cooperativa financiada pelos Estados Unidos que oferece próteses e apoios a pessoas incapacitadas, e sublinhou que essa guerra afetou os laosianos muito além do campo de batalha, segundo um comunicado da Casa Branca.

“Durante as últimas quatro décadas o povo do Laos viveu sob a sombra da guerra”, disse Obama, que insistiu na importância de reconhecer a implicação de Washington na guerra secreta que levou a cabo no país.» (in: https://www.rtp.pt/noticias/lusa/obama-visita-vitimas-dos-bombardeamentos-norte-americanos-no-laos_n945514)

Foi a primeira visita de um Presidente dos EUA ao Laos. O centro de reabilitação, em Viantiane, foi visitado por Obama em 7 de Setembro de 2016, segundo a mesma notícia da Lusa. Que outra consequência teve esta visita, desconheço.

Obama cumprimenta um residente do bairro de Luang Prabang, que visitou a pé (Jonathan Ernst – Reuters)

Se a linha férrea a que acima aludo —Kunming/Vientiane— pode contribuir para um maior desenvolvimento do Laos, põe-se a questão: quem vai lucrar com tal benefício? Não deve esquecer-se que a China financiou 70% da sua construção e, provavelmente, os lucros trazidos por esta nova ferrovia não vão ser investidos no Laos. Gostaria de saber que percentagem desses prováveis dividendos serão aplicados no desenvolvimento deste país. A experiência que há em Portugal com os investimentos chineses levam-me a ser pessimista.

Para o rio Mekong há projectos da China e do Laos, que incluem também a Tailândia e o Camboja, para a construção de muitas barragens para produção de electricidade, que envolvem vários investidores, o que faz do Laos, apesar de país com uma economia em desenvolvimento e com cerca de 7 milhões de habitantes, um grande produtor de electricidade graças aos seus rios, exportando grande percentagem da sua produção para os países vizinhos: Tailândia, Vietname e China.

Num dos Boletins do Movimento Mundial pelas Florestas Tropicais, dados de 2017, o governo do Laos, conjuntamente com os governos do Camboja e da Tailândia, entrou num projecto para construção de onze grandes hidroeléctricas no rio Mekong, mas o plano do Laos para a produção de energia eléctrica prevê a construção de mais de 70 novas grandes barragens, das quais 12 estão a ser construídas e cerca de 25 com planeamento avançado.

O Laos tem Memorandos de Entendimento para fornecimento de electricidade à Tailândia — 7.000 MW a partir de 2015 — e, a partir de 2017, de 3.000 MW ao Vietname, sendo o BAD – Banco Asiático de Desenvolvimento um dos grandes investidores nestes projectos, o que implica que as empresas, para terem o BAD como investidor, tenham de compensar a perda de biodiversidade sempre que esta aconteça, como é o caso do projecto para Nam Ngiep 1, no rio com o mesmo nome, afluente do Mekong, e que demarca a fronteira entre o Laos e a Tailândia, iniciado em 2014. Este projecto foi concluído em 1971, dando origem a um grande reservatório com uma superfície de 370 km², inundando floresta e terras agrícolas, fornecendo a maioria da electricidade necessária ao Laos até final do séc. XX e ainda exportando alguma dessa produção para a Tailândia. O Laos teve o ajuda do Japão para este empreendimento.

A maioria das barragens, construídas e a construir no Laos, está situada nos afluentes do rio Mekong, mas algumas, construídas ou em projecto, no próprio rio Mekong.

Entre Setembro de 2013 e Outubro do ano seguinte, a produção de electricidade atingiu 15,5 mil milhões de kWh, dos quais exportou 12,5 mil milhões.

O lago assim criado tornou-se um local de lazer e turismo com a construção de casas de hóspedes, muitas delas nas ilhas do lago, para além de actividades subaquáticas e até uma indústria pesqueira.

Mas a barragem Nakai tem um reservatório de 450 km² (mais 80 km²que o de Nam Ngiep 1) e a maior barragem é a Nam Theun 2, para dar apenas alguns exemplos, já que seria exaustivo falar aqui de todas as barragens construídas e em projecto.

A barragem Nam Theun 2, com uma produção de 1.070 MW, iniciou a sua actividade em 2010, exportando 1.000 MW para a Tailândia, ficando o restante para consumo no Laos, seguindo com rigor os padrões internacionais de segurança (vide: https://www.worldbank.org/en/country/lao/brief/nam-theun-2-project-overview-and-update).

Todos estes projectos estão a levantar outro tipo de problemas, nomeadamente os que o Camboja e o Vietname têm referido, sobretudo os que se referem às barragens no próprio rio Mekong, por afectarem não só as pessoas mas também o meio ambiente a jusante, bastando para isso lembrar que essas represas podem vir a afectar o delta do Mekong, que faz do Vietname o grande fornecedor mundial de arroz, para além de muitos outros produtos ali produzidos.

No já referido Boletim do WRM – Movimento Mundial pelas Florestas Tropicais, podemos atentar nas declarações de Prerudee “Eang” Daoroung, activista ambiental e implicado no Projecto SEVANA South-East Asia, numa entrevista que deu a esta organização, de que transcrevemos apenas alguns períodos: «As represas no curso principal do Mekong são uma indicação da mudança política regional em direção à economia de mercado, mas também refletem a influente relação dos países construtores e compradores de energia, como China e Tailândia, com aqueles que fornecem o terreno para o investimento, como Laos e Camboja. A expansão e a pressão contínua pela construção de represas no Mekong também mostram o quanto o setor privado se tornou poderoso na região.»

Um pouco mais à frente, continua aquele activista: «Há muito pouca informação disponível sobre China e Laos, os dois países que recebem a maior parte das represas do Mekong. No entanto, para o Laos, um pequeno país com sete milhões de habitantes, a situação é conhecida, através de vários estudos, como sendo um tanto paradoxal (se não ridícula). Além de algumas centenas de planos para represas e com mais de dez delas já construídas, o país ainda está se familiarizando com outros projetos de grande porte que também exigem seus recursos naturais, incluindo agronegócio, plantações e mineração em grande escala. Depois de duas décadas, no entanto, o Laos ainda não viu um sucesso econômico real, enquanto mais e mais territórios foram tomados das pessoas. O conflito sobre os projetos de “desenvolvimento” e a questão de quem se beneficiou desses projetos, bem como qual será o resultado para o futuro do Laos e seu povo na próxima década, ainda são questões fundamentais para esse país pequeno e fechado.»

Sobre o projecto de Nam Ngiep 1, que acima referi, diz Prerudee “Eang” Daoroung: «Semelhante a outras usinas hidrelétricas no Laos, a de Nam Ngiep 1 está sendo construída sem participação suficiente das pessoas afetadas. Como de costume, a parte negativa é que as pessoas não se sentiram no direito de participar ou de recusar o que o governo estava propondo. Mais de três mil delas tiveram que ser reassentadas, cuja maioria era de hmongs e khmus, as duas principais etnias do Laos. De acordo com uma entrevista realizada pela International Rivers (IR) em 2014, pessoas que declararam morar na área do projeto havia mais de três décadas reconheceram que as compensações que lhes foram oferecidas não podiam ser comparadas com suas necessidades de subsistência e suas perdas.

A represa de Nam Ngiep é construída em uma área oficialmente categorizada como área florestal protegida.» (transcrevemos sem qualquer alteração do texto).

Sobre os planos para produção de electricidade no Laos penso já ter dito o essencial para que o leitor tire as suas conclusões quanto aos riscos que esta política pode trazer para os países produtores. Quem quiser aprofundar e conhecer em pormenor o que já foi construído e o que está planeado, poderá consultar as fontes aqui referidas e também:

https://pt.qwe.wiki/wiki/Dams_and_reservoirs_in_Laos e, ainda, https://www.ceicdata.com/pt/indicator/laos/electricity-production.

Aproveitando dados da CEIC, insertos neste último «link», podemos comparar o que foi a produção de electricidade no Laos, em GWh, referindo dados de três anos:

1990: 844 GWh      2017: 31.550 GWh  2018: 34.410 GWh

Informa ainda a CEIC que «Os dados de Produção de Eletricidade do Laos são atualizados anualmente, com uma média de 3,643 GWh em 1985 até 2018, com 22 observações. Os dados alcançaram um alto recorde de 34,410 GWh em 2018 e um baixo recorde de 844 GWh em 1990. Os dados de Produção de Eletricidade do Laos permanecem com status ativo na CEIC e são reportados pela fonte: Lao Statistics Bureau. Os dados são classificados sob o World Trend Plus’ Global Economic Monitor – Table: Electricity Generation: Annual: Asia.» (sic)

A electricidade é fundamental para o desenvolvimento de um país, mas não é menos fundamental que toda a população tenha acesso à energia a preços razoáveis e cujos custos sejam suportáveis para todos e, nós portugueses, sabemos bem o quanto nos custa a energia e como o seu custo é exorbitante. No Laos, como será?

A maioria da produção de electricidade no Laos é exportada, mas quem sofre as consequências das alterações no meio ambiente é a população laosiana, a começar pelas deslocações obrigatórias de aldeias inteiras com os prejuízos que se calculam e com compensações ridículas. A vida de uma enorme percentagem da população laosiana depende do rio Mekong, como aqui tenho referido, e as consequências provocadas pelas alterações inevitáveis trazidas por todos estes projectos hidroeléctricos não poderão deixar de ser muito graves.

O nível de vida de um povo, sabemo-lo bem, apenas pode melhorar se houver criação de riqueza e o aumento da produção de energia é imprescindível, mas é também necessário que essa riqueza não seja distribuída apenas por alguns, contribuindo assim para o aumento das desigualdades.

Temo que o desenvolvimento do Laos assim construído venha a trazer muitos dissabores ao povo laosiano e povos vizinhos, assim como não me atrevo a tentar adivinhar como vai o Vietname reagir a uma intervenção no rio Mekong como a que está prevista, até pelas razões que já acima referi.

Estas minhas apreensões têm razão de ser, bastando atentar-se numa notícia de 3 de Junho de 2020, no Khmer Times, em que se pode ler que a Comissão do rio Mekong se está a movimentar para atrasar a consulta prévia do projecto da barragem de Luang Prabang, que está pensada para produzir 1.460 megawatts de electricidade por ano, consulta essa que foi transferida para o fim do mês de Junho/2020, como aquela Comissão informou em comunicado, estando por detrás de tudo isto o receio de possíveis confrontações provocadas por «potenciais impactos negativos transfronteiriços resultantes da barragem», como disse Somkiat Prjamwong, Secretário-Geral Nacional de Recursos Hídricos da Tailândia.

Rio Mekong (fotografia in Khmer Times)

A notícia, com a declaração de Somkiat Prjamwong, informa de que «Em 2 de junho, cinco organizações da sociedade civil cambojana pediram ao MRC JC que atrasasse o processo para dar mais tempo a estudos mais rigorosos que garantam a sustentabilidade do rio Mekong.

As organizações citaram detalhes insuficientes da Avaliação de Impacto Transfronteiriça, bem como a falta de medidas concretas para mitigar os impactos sobre o baixo Mekong como questões significativas que devem ser abordadas ainda mais no processo de consulta prévia.»

O processo de consulta prévia estava previsto terminar a 7 de Abril/2020, mas a pandemia COVID-19 atrasou-o, sendo agora decidido que o prazo se vai estender até final de Junho, como acima se refere. Aquelas organizações da sociedade civil pretendem obter do Laos um compromisso que garanta que as questões que levantaram venham a ser respeitadas. (vide https://www.khmertimeskh.com/50731233/mrc-moves-to-delay-luang-prabang-dam-projects-prior-consultation/).

Desta notícia penso não ser errado dizer-se que os vários projectos para construção de barragens no Mekong por parte do Laos não vão ter vida fácil.

Como já referi, o rio Mekong é o sustentáculo de milhões de pessoas e as barragens, após a sua construção, porão em risco essas pessoas, dado que vão impedir, sobretudo, as grandes migrações de peixes, para além de impedir um dos maiores meios de transporte no Laos que o rio proporciona. Se pensarmos que o plano de energia hidroeléctrica do Laos prevê a construção de mais de 70 represas —setenta, note-se bem—, imagine-se as consequências e as preocupações dos milhões de pessoas que do rio dependem.

Mas as preocupações das populações, sobretudo das que vivem nas margens do rio Mekong e de outros rios como o Xe-Pian, onde se situa esta barragem, não se ficam por aqui, bastando atentar-se nas notícias divulgadas por várias agências internacionais em Julho de 2018, que davam conta do rompimento da hidroeléctrica Xepian-Xe Nam Noy, situada no distrito de San Sai, província de Attapeu, em construção no Laos —8 metros de largura, 770 metros de comprimento e 16 metros de altura—, tendo causado enchentes repentinas que levaram ao desaparecimento de centenas de pessoas e a que 6.600 pessoas tivessem ficado sem abrigo, segundo a Agência de Notícias do Laos.

A empresa sul-coreana responsável pela construção, SK Engineering & Construction, disse que o rompimento foi devido às chuvas fortes e às consequentes enchentes.

A Agência de Notícias do Laos, nesta peça jornalística, não indica o número de mortos.

No projecto desta represa estava prevista a exportação de 90% da energia produzida para a Tailândia, ficando os restantes 10% para os laosianos.

Foram divulgadas imagens de pessoas a lutar contra a corrente nas águas lamacentas, com alguns dos seus pertences às costas e outras nos telhados das suas casas a aguardar que as salvassem.

Imagem aérea da ABC Laos – Foto: HANDOUT / AFP

Em 1993 tinha sido criada a Área Protegida Xe-Pian, com uma área de 2.400 km², tornando-se numa das três mais importantes reservas naturais, da maior importância biológica, no Laos. Veja-se a fotografia seguinte:

Fotografias in: https://www.southern-laos.com/destination/xe-pian-protected-area/

Ali se poderão ver vários animais selvagens, como o elefante, o gauro, o urso preto asiático, o gibão, entre outros.

Com as imagens que aqui se reproduzem e as informações que inseri neste texto, o leitor poderá ter uma ideia mais precisa do risco que todos os projectos de hidroeléctricas constitui, não só para as populações, mas também para toda a vida animal, enfim, para a extraordinária biodiversidade desta zona do Laos.

Para mais informações, poderão consultar-se os seguintes «links»:

https://www.southern-laos.com/destination/xe-pian-protected-area/

http://www.iucn.org/about/union/secretariat/offices/asia/asia_where_work/lao

Para satisfazer a minha curiosidade, quis conhecer mais sobre o gauro (Bos gaurus), também conhecido como o bisão-indiano, ficando a saber que é o maior bovino selvagem do Mundo, habitando na Ásia e que vive em bando. O macho chega a pesar 1.500 kg; na Índia, embora o peso médio do gauro seja de 1.200 kg. Veja-se a sua imponência na imagem abaixo.

Gauro macho adulto (foto https://pt.wikipedia.org/wiki/Gauro)

Abaixo, reproduzo mais uma fotografia desta Área Protegida Xe-Pian:

Fotografias in: https://www.southern-laos.com/destination/xe-pian-protected-area/

O modelo de desenvolvimento adoptado pela China é já copiado por outros países asiáticos, parecendo-me ser o Laos um deles, o que poderá trazer graves consequências para os laosianos. Até o Vietname, que nunca se deixou dominar pela China, rechaçando até militarmente algumas tentativas de invasão — falarei disso quando tratar da viagem pelo Vietname —, tem o mesmo modelo de desenvolvimento, embora com os vietnamitas a gozarem de muito mais liberdade, pelo que me foi dado ver neste país e pelas notícias do que na China se vai passando, nomeadamente em termos de liberdade de opinião e de movimento.

A terminar este capítulo sobre a economia do Laos, direi que o país é membro da Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN), do Acordo Asia-Pacific Trade (APTA), Cúpula do Leste Asiático (CLA) e Organização Internacional da Francofonia (OIF).

Em 2 de Fevereiro de 2013, ao Laos foi concedida a adesão plena à Organização Mundial do Comércio (OMC), que o país havia solicitado em 1997.

NOTAS

  1. A sua metodologia consiste em classificar os produtos com base na sua “ubiquidade”, que é definida como o número de países que exportaram o produto, e os países com base na sua “diversidade”, que é definida como o número de produtos que um determinado país exporta.

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