O MAESTRO DA MORTE E DA DESTRUIÇÃO DA AMÉRICA, por TOM ENGELHARDT

 

Tomgram: Engelhardt, Taking a Stroll, Gun in Hand, on Fifth Avenue

 

 

Murder, he said – America’s Maestro of Death and Destruction, por Tom Engelhardt

Tomdispatch.com, 4 de Outubro de 2020

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

Revisão de João Machado

 

Tomgram: Engelhardt, Dando uma volta, com a pistola na mão, pela Quinta Avenida

 

 

Sim, quando se candidatou à presidência, é verdade que disse: “Eu podia estar no meio da Quinta Avenida, dar um tiro em alguém, que não perderia nenhum eleitor, OK? É assim, é  incrível”.

Depois ganhou – e no dia 3 de novembro próximo (ou depois), quer ganhe ou perca, é provável que venhamos a descobrir que, no que respeita à sua base, ele tinha razão. Ele pode não ter perdido nem um voto. Sim, Donald Trump é de facto um assassino, mas foi aqui que a sua previsão ficou desesperadamente aquém: como presidente, provou ser tudo menos um pequeno assassino. Não foi como se ele tivesse passeado um dia, na Quinta Avenida de Nova Iorque ou mesmo em Kenosha, Wisconsin, e disparado contra algumas pessoas.

Nada tão minimalista para The Donald! Nem é como se, digamos, ele tivesse usado como um arado “a Besta” (como é conhecido o seu Cadillac presidencial) numa multidão de manifestantes do Black Lives Matter, como tantos outros condutores fizeram durante este ano. Sejamos francos: isso é para os seus aprendizes, não para o próprio artista. Afinal, Donald J. Trump provou ser o maestro de morte e destruição da América do século XXI, o P.T. Barnum (NT – artista norte-americano do século XIX, também político e homem de negócios) da, como ele próprio o disse de forma suficientemente previsível no seu discurso inaugural, “carnificina americana”. Na verdade, ele tem sido um mestre de carnificina de uma forma que ninguém poderia então imaginar.

Em 2016, ele estava muito longe  de estar preparado quando chegou ao nível do que podia realizar. Acontece que a matança não aconteceu apenas na Quinta Avenida, ou mesmo na sua (agora odiada) antiga cidade natal, mas em avenidas, ruas, faixas e estradas rurais através da América. Contudo, ele tinha razão numa coisa: podia matar à vontade e ninguém que importasse (pelo menos para ele) o responsabilizaria, incluindo o Procurador-Geral dos Estados Unidos, que tem sido um dos seus muitos ajudantes de caos.

O seu regime está de facto a provar ser um regime assassino, mas de uma maneira bastante diferente do que até ele poderia ter previsto. De qualquer modo, ele tem sido um criador de carnificina (e Deus sabe por quanto tempo ainda vai continuar) e aqui está o que é notável: ele tem estado diariamente na “Quinta Avenida” a matar transeuntes de várias maneiras. De facto, vale a pena percorrer os seus métodos de assassinato, começando (por onde mais?) pela pandemia que ainda está a rasgar um caminho do inferno através deste país.

Morte por Doença

Sabemos pelo novo livro de Bob Woodward que, à sua maneira estranha, em Fevereiro, Donald Trump se apercebeu evidentemente da seriedade do Covid-19 e tomou a decisão consciente de “minimizá-la”. Desde então fizeram-se todo o tipo de cálculos, mas por uma modesta estimativa inicial, se se tem começado a  impor o confinamento e a distância social neste país, apenas uma semana antes em Março, ter-se-iam salvo 36.000 vidas (o equivalente a doze 11s de Setembro); duas semanas antes e teria sido o impressionante número de 54.000 num país que agora acelera para algo como 300.000 mortos até ao final do ano. Se o presidente tivesse avançado rápida e razoavelmente, em vez de se preocupar com a sua reeleição ou com a sua aparência com uma máscara; se tivesse seguido os conselhos de verdadeiros peritos; se tivesse defendido a imposição da máscara e o distanciamento social com o mesmo empenho com que foi defensor da bandeira confederada, das bases militares com o nome de generais confederados, e dos Proud Boys,, teríamos vivido num país diferente e menos ferido – e isso é apenas o início do seu comportamento na Quinta Avenida.

Afinal, apesar de tudo o que foram dizendo os peritos científicos dos Centros de Controlo e Protecção de Doenças e de outros locais sobre os perigos de se reunir em multidões sem máscara dentro de casa, era evidente que o presidente não conseguia suportar um mundo sem fãs, sem multidões a aplaudir todas as suas convolutas palavras. Isso teria sido como fazer a dieta do inferno. Como resultado, ele conduziu o seu primeiro grande comício em Junho no Bank of Oklahoma Center em Tulsa.

É certo que essa multidão em particular não foi  tão grande como ele e os seus conselheiros esperavam. Ainda assim, talvez 6.000 fãs, em grande parte sem máscara  e muitos na sua proximidade, aplaudiram ali o seu comandante-chefe. Era visivelmente um evento potencialmente super-difusor  da pandemia, mas o próprio comandante-chefe, sem máscara, não poderia ter-se importado menos. Cerca de três semanas mais tarde, quando Tulsa sofreu um aumento impressionante de casos de coronavírus (provavelmente ligados a esse comício) e o antigo candidato presidencial e apoiante de Trump Herman Cain, que tinha assistido sem máscara, morreu de Covid-19, isso não o perturbou minimamente.

Ele continuou a realizar comícios e a fazer as suas divagações, patenteadas e aplaudidas, pelos campos. Como disse o correspondente da Rolling Stone Andy Kroll depois de assistir a um dos seus comícios ao ar livre na Carolina do Norte, os “comentários” do presidente nesse dia (que chegaram a 37 páginas e 18.000 palavras) foram “praticamente uma novela, embora uma novela que faz com que Finnegan’s Wake  pareça como o See Spot Run“! (1)

Nada, nem uma pandemia, iria impedir Donald J. Trump de chupar a adoração da sua base. Embora no primeiro debate presidencial com Joe Biden, tenha afirmado que tem realizado os seus comícios só ao ar livre, em Setembro no Nevada, um estado cujo governador tinha proibido concentrações de mais de 50 pessoas em recintos fechados, promoveu um comício  tipicamente ruidoso e pleno de adoração, com  5.000  adeptos, a maioria sem máscara e em recinto fechado. Quando questionado sobre os perigos óbvios de uma tal reunião, respondeu como habitual, “Estou num palco e é muito longe. E por isso não estou nada preocupado” – ou seja, não estou nada preocupado com eles (ou por  eles).

Se isso não é o equivalente em termos de Covid-19 de uma bazuca na Quinta Avenida, o que é? E resume perfeitamente a resposta de Trump à escolha entre prosseguir a sua própria reeleição da forma que ama (e de que parece tão desesperadamente precisar) ou manter os americanos saudáveis. Durante estes intermináveis meses pandémicos, ele minimizou regularmente todos os perigos e as respostas mais razoáveis para eles, tendo a certa altura chegado a escrever no twitter para os seus seguidores  “LIBERTAREM” (possivelmente de forma armada)  estados que afirmava terem imposto ordens de permanência em casa. Ele precisava daquilo a que há muito chamou “a maior economia da história da América” de volta e reabrir tudo constituía naturalmente o caminho a seguir.

Mimetizando o estilo do seu chefe, o Procurador-Geral William Barr chegou a comparar a essência dos confinamentos à escravatura. Como ele disse, “Um confinamento nacional”. Ordens de permanência em casa. É como uma prisão domiciliária. Para além da escravatura, que é um tipo diferente de restrição, esta é a maior intrusão nas liberdades civis da história americana”.

Claramente a pedido do presidente, “altos funcionários da Casa Branca” iriam, segundo o New York Times, pressionar “os Centros de Controlo e Prevenção de Doenças este verão para minimizar o risco de ordenar  o regresso das  crianças à escola, uma intervenção marcadamente política num dos debates mais sensíveis da pandemia em matéria de saúde pública”. (Como o presidente iria tuitar com um espírito semelhante: “Os Democratas pensam que seria mau para eles politicamente se as escolas dos EUA abrissem antes das eleições de Novembro, mas é importante para as crianças e famílias. Pode ser sujeito a corte no seu financiamento se não abrir!”)

Por outras palavras, não importava quem poderia estar em perigo – os seus melhores fãs ou as crianças das escolas da nação – quando a sua reeleição, o seu bem-estar futuro, estava em jogo. Assassinato na Quinta Avenida? Um nada em comparação.

Assassinos Supremos?

E a sua resposta à pandemia apenas nos lança sobre o que deve ser qualificado como uma farra assassina infernal à americana. No final, poderia mesmo revelar-se ser a parte mais modesta.

Quanto ao resto dessa mortandade, poderia começar com os cuidados de saúde. Calcula-se que pelo menos 2,3 milhões de americanos tenham perdido o seu seguro de saúde já nos anos Trump (e esse número, de acordo com o U.S. Census Bureau, inclui 726.000 crianças, algumas das quais podem agora regressar à escola em condições pandémicas). Isso, por sua vez, poderia provar ser apenas uma gota no balde de água se o ataque contínuo da sua administração à Lei do Acesso a Cuidados de Saúde  (ACA) de Barack Obama fosse finalmente bem sucedido. E depois do dia 3 de Novembro, poderá, de facto,  acontecer se Mitch McConnell for bem sucedido em impor Amy Coney Barrett ao Supremo Tribunal em vez da falecida Ruth Bader Ginsburg (que por duas vezes defendeu a constitucionalidade dessa lei). Uma versão supostamente “pró-vida” Trump do Supremo Tribunal – a não ser que a pandemia o varresse – revelar-se-ia sem dúvida assassina à sua própria maneira. Pense neles como potenciais assassinos do Supremo Tribunal.

Barrett, em particular, é conhecida por ter opiniões negativas sobre o ACA e o Tribunal ouvirá a posição  da administração Trump por abolir esse acto no prazo de uma semana após o Dia das Eleições, por isso façam as contas. A sua eliminação significa simplesmente que pelo menos mais 23 milhões de americanos perderiam o seu seguro de saúde e poderia, no final, deixar dezenas de milhões de americanos com “condições médicas preexistentes” num inferno não segurado na terra.

Morte? Garanto-o, dentro e fora da Quinta Avenida – e terá sido obra do Donald.

 

Um Futuro Assassino

Tudo isto não deve ser considerado como mais do que exercícios de aquecimento para o verdadeiro negócio quando se trata de futuros massacres presidenciais. Tudo isto precede a questão da morte e destruição a longo prazo que dá pelo nome de alterações climáticas.

Não é novidade que Donald Trump há muito rejeitou o aquecimento global como um “embuste” chinês. E ao retirar-se do Acordo Climático de Paris e, tal como filho do acordo sobre fuel fóssil dos anos 50 que ele é, proclamou uma nova política de “domínio energético americano” (“a era dourada da energia americana está agora em curso”), ele nunca deixou de  rejeitar a questão climática. Fê-lo novamente recentemente, numa breve visita à Califórnia em chamas, no meio de uma período histórico de incêndios florestais, onde previu que em breve ficaria “mais fresco”.  A única excepção: quando de repente sente vontade de criticar os chineses pela sua libertação de gases com efeito de estufa. Como ele disse num discurso de 22 de Setembro na Assembleia Geral da ONU, “as emissões de carbono da China são quase o dobro do que os EUA têm, e estão a aumentar rapidamente. Pelo contrário, depois de me ter retirado do unilateral Acordo Climático de Paris, no ano passado a América reduziu as suas emissões de carbono mais do que qualquer outro país no acordo”.

Ele e aqueles que colocou na Agência de Protecção Ambiental e noutros locais da sua administração passaram a sua presidência de forma notavelmente determinada, tentando destruir o ambiente americano e global. Até ao momento, eles estão a fazer voltar atrás  (ou estão a tentar fazê-lo) 100 proteções ambientais que estavam em vigor quando ele chegou à Sala Oval, incluindo os limites mais recentes de um pesticida que, segundo consta, pode impedir o desenvolvimento cerebral nas crianças. Só a poluição atmosférica foi, segundo um estudo, responsável por mais 9.700 mortes neste país em 2018 do que em 2016. Acima de tudo, ao serviço de uma indústria americana de combustíveis fósseis ainda em expansão, ele e a sua equipa fizeram o seu melhor para abrir o caminho para o desenvolvimento do petróleo, gás e carvão em praticamente todas as formas imagináveis.

Numa época em que a costa ocidental ardeu de uma forma anteriormente inconcebível, deixando uma nuvem histórica de fumo na sua esteira, enquanto tempestades ferozes inundaram a Costa do Golfo, ele continuou, por exemplo, a concentrar-se na abertura do deserto do Alasca à perfuração de petróleo. Em suma, ele e a sua administração têm, numa forma bastante literal, provado ser piromaníacos da primeira ordem. Têm estado notavelmente empenhados em assegurar que, no futuro, o mundo continuará a aquecer da forma certa para perturbar a humanidade, criando formas quase inimagináveis de morte e destruição. Apesar do facto de Joe Biden o ter chamado de “incendiário climático” enquanto a costa ocidental ardia, de alguma forma a natureza potencialmente assassina das suas políticas ambientais quase passa desapercebida nesta época eleitoral.

Se a lenda fosse verdadeira, o imperador romano Nero tocava violino  – na verdade, provavelmente estava a tocar cítara – enquanto a capital do seu império, Roma, ardia durante seis dias. Contudo, ele não ateou pessoalmente o fogo. Trump e a sua tripulação estão, ao que parece, empenhados em incendiar não só Roma, ou Nova Iorque, ou Washington, D.C., mas também o deserto do Alasca, a floresta tropical brasileira, e aquele gigante anteriormente gelado em massa terrestre, que ele não conseguia descobrir a forma como o poderia  comprar, a Gronelândia. Ele está a ajudar a garantir que mesmo os oceanos estarão, à sua maneira, a arder; que as tempestades se tornarão cada vez mais intensas e destrutivas; que a temperatura subirá cada vez mais; e que o planeta se tornará cada vez menos habitável.

Entretanto, intencionalmente sem máscara e sem distanciamento social, mesmo ele (e a sua esposa Melania) contraíram agora o coronavírus, tornando-se oficialmente parte da sua própria carnificina americana. A Casa Branca, Air Force One, e o presidente e os seus auxiliares tornaram-se o equivalente aos superdisseminadores Covid-19, uma vez que senadores e repórteres, entre outros, também começaram a cair com a doença. Está agora a revelar-se um pesadelo visível de primeira ordem de toda a América.

Donald Trump, claro, não tem estado sozinho quando se trata de queimar o planeta, mas é certamente assustador que, neste momento, um incendiário desta ordem tenha qualquer hipótese, se recuperar com sucesso, de ser reeleito presidente em exercício dos Estados Unidos. O seu desejo é, visivelmente, não só ser um autocrata, mas cometer assassinatos em massa em todo o país e a uma escala planetária muito além no futuro.

Assassinato, disse ele, e assassinato foi, e o da Quinta Avenida foi o menor de todos.

__________

(1) – (NT) –  Finnegan’s Wake (1939) foi o último grande romance do irlandês James Joyce, tido como uma obra prima literária, e de grande complexidade e difícil leitura. See Spot Run é um filme de 2001, considerado como cómico, que recebeu críticas pouco favoráveis, ao que conseguimos apurar.

__________

Tom Engelhardt is a co-founder of the American Empire Project and the author of a history of the Cold War, The End of Victory Culture. He runs TomDispatch and is a fellow of the Type Media Center. His sixth and latest book is A Nation Unmade by War.

Follow TomDispatch on Twitter and join us on Facebook. Check out the newest Dispatch Books, John Feffer’s new dystopian novel (the second in the Splinterlands series) Frostlands, Beverly Gologorsky’s novel Every Body Has a Story, and Tom Engelhardt’s A Nation Unmade by War, as well as Alfred McCoy’s In the Shadows of the American Century: The Rise and Decline of U.S. Global Power and John Dower’s The Violent American Century: War and Terror Since World War II.

Copyright 2020 Tom Engelhardt

__________

Pode ler este artigo no original clicando em:

https://www.tomdispatch.com/post/176758/tomgram%3A_engelhardt%2C_taking_a_stroll%2C_gun_in_hand%2C_on_fifth_avenue/

 

Leave a Reply