Episódios da crise do Covid em Espanha: da ignorância da uma certa grande imprensa à incompetência da gestão autonómica de Madrid – alguns textos de análise. 5. A incompetência dos políticos espanhóis pode ser tão mortal como o COVID-19. Por David Jiménez

Seleção de Júlio Marques Mota e tradução de Francisco Tavares

 

5. A incompetência dos políticos espanhóis pode ser tão mortal como o COVID-19

Os cidadãos fizeram o seu trabalho, aceitaram os confinamentos e seguiram regras tais como o uso de máscaras. Os políticos lutaram entre si, não cumpriram as promessas e repetiram os erros da primeira vaga do vírus.

Por David Jiménez

Publicado por  em 24/09/2020 (ver aqui)

 

O Presidente do Governo de Espanha, Pedro Sánchez, fala com a sua equipa de resposta ao coronavírus. Uma segunda vaga está a afectar o país. Crédito…José María Cuadrado Jiménez /La Moncloa via Epa-Efe – Shutterstock

 

MADRID — Os políticos espanhóis consideram um grande mistério o facto de sermos mais uma vez o país europeu mais afectado pela pandemia. Culparam a imprudência dos jovens, a nossa incapacidade latina de manter o distanciamento, e até mesmo a imigração. E no entanto, em todo este tempo tiveram a resposta muito mais próxima: nada facilitou tanto a propagação do vírus como a sua própria incompetência.

Os espanhóis aceitaram com paciência infinita o confinamento mais duro da Europa durante a primeira vaga de Março, assumiram graves prejuízos económicos em troca da protecção da vida dos mais velhos e têm sido alguns dos cidadãos mais disciplinados em regras como a utilização da máscara, utilizada por mais de 84% da população. Hoje, são testemunhas, no meio da impotência e da indignação, do desperdício de todos os seus sacrifícios por uma classe política que não cumpriu a sua parte do acordo. Na segunda-feira, o governo de Madrid impôs um confinamento parcial em 37 zonas básicas da cidade; na quarta-feira pediu ajuda urgente ao exército e o envio de 300 médicos após uma nova vaga de infecções.

A Espanha chegou a ter o vírus controlado quando terminou o estado de alarme a 21 de Junho. O governo do Presidente Pedro Sánchez declarou a vitória, organizou uma desescalada precipitada que incluiu a reabertura do turismo e devolveu os poderes sanitários às regiões autónomas. A responsabilidade passou de um governo que tinha gerido a pandemia de forma desajeitada – o país liderou as taxas de mortalidade e de trabalhadores da saúde contagiados – para 17 administrações que o fizeram com incúria. As poucas excepções, tais como a região das Astúrias a norte, apenas confirmam o fracasso generalizado.

Antes da chegada da segunda vaga, havia tempo de sobra para tomar medidas que demonstraram a sua eficácia em países asiáticos e que atenuaram o impacto da pandemia noutros mais próximos de casa, como Portugal. Mas os nossos políticos optaram por ignorá-las: nenhum reforço dos sistemas de saúde, nenhum planeamento para a reabertura das escolas, nenhuma organização do sistema de rastreio aconselhado pelos peritos.

Uma das chaves para travar a propagação do vírus é procurar e testar o maior número possível de pessoas que tenham estado em contacto com pessoas infectadas. Mas o número de tais suspeitos que a Espanha conseguiu localizar é inferior ao da Zâmbia (9,7), quatro vezes inferior ao da Itália (37,5) e vinte vezes inferior ao da Finlândia (185).

Os nossos políticos têm poucos incentivos para lutar pela excelência porque sabem que os espanhóis votam nos seus partidos com uma lealdade apenas equiparável à que sentem pela sua equipa de futebol. A ideologia e o partidarismo têm mais peso nas urnas do que a preparação, honestidade ou experiência dos candidatos, enviando-lhes a mensagem de que o seu futuro não depende da sua gestão ou dos resultados alcançados. Isso tem de mudar: se a pandemia nos ensinou alguma coisa, é que o preço de não ter as melhores pessoas ao volante é demasiado alto.

Foram montadas tendas no Hospital Central de la Defensa Gómez Ulla em Madrid para tratar de um surto de pacientes….Sergio Pérez/Reuters

Enquanto os partidos políticos continuavam a culpar-se entre si próprios sobre quem foi responsável pela primeira vaga, a segunda vaga já estava em curso. Agora está fora de controlo e dezenas de locais estão novamente a ser restringidos. Os hospitais, que têm uma escassez crónica de médicos, estão a passar por um déjà vu. Os trabalhadores da saúde que aplaudimos como heróis em Março e Abril estão a assistir “com desânimo e indignação ao espectáculo dos nossos líderes políticos”, diz o Conselho Geral das Associações Médicas Oficiais de Espanha (CGCOM).

É claro que a frustração não é exclusiva da Espanha. A coincidência da pandemia com a emergência do populismo e do extremismo no mundo, desde os Estados Unidos até às Filipinas, dificultou respostas baseadas no conhecimento, na ciência e na gestão eficaz dos meios disponíveis. Mas no caso da Espanha, os problemas vão para além da atual conjuntura.

Os partidos políticos converteram-se em organizações endogâmicas e hermeticamente fechadas ao talento vindo do seu exterior. Os espanhóis só podem votar nos seus candidatos em bloco, através de listas fechadas elaboradas pelos próprios partidos após um processo de seleção onde a intriga e as relações contam mais do que a preparação. A maioria dos nossos representantes chegam a posições de responsabilidade sem mais experiência do que a sua militância política. Apenas 36% dos deputados do Congresso disseram ter alguma vez trabalhado em empresas privadas em 2018.

Em tempos normais, as disfunções da política espanhola estavam encobertas e a polarização tornava os políticos imunes às consequências dos seus erros. A pandemia revelou uma dolorosa verdade: a incompetência custa vidas e arruína economias, como mostra o exemplo da comunidade de Madrid, o centro financeiro e administrativo de Espanha, que está agora à beira do colapso.

Nova Iorque e Madrid estavam em condições semelhantes em Junho: depois de terem sido duramente atingidas pelo COVID-19, tinham a pandemia sob controlo. Desde então, a comunidade espanhola [de Madrid] viu os seus casos multiplicarem-se para 772 por 100.000 habitantes, enquanto Nova Iorque mantém a situação sob controlo com 28 contágios por 100.000 habitantes. Também aqui, não há segredo: diferenças no número de rastreadores, no apoio hospitalar, na reabertura eficazmente prudente de empresas ou nos testes explicam a diferença.

A presidente da Comunidade de Madrid, Isabel Díaz Ayuso, do Partido Popular – o partido conservador que governa a região há 25 anos – prometeu nestes meses contratar rastreadores, reforços de pessoal de saúde e professores para as escolas que não chegaram ou que não chegaram a tempo. Para além das tensões com o governo central, as recomendações dos peritos foram subordinadas ao oportunismo político, as medidas foram tomadas tardiamente e, noutra das características da classe dirigente espanhola, a culpa foi espalhada para evitar as suas próprias responsabilidades.

A inversão da mediocridade na política espanhola exigirá reformas profundas que devem começar pela educação e cujos benefícios podem demorar anos. Mas nada nos impede de começarmos com medidas mais concretas que travariam a degradação da vida pública.

É urgente alterar a lei eleitoral para que os eleitores escolham os seus representantes em listas abertas, repensar uma organização territorial que tem causado uma grande descoordenação entre regiões e renovar as instituições do governo para que deixem de ser uma agência de emprego de políticos e militantes que estão próximos dos partidos no poder. E, no entanto, nada disto servirá enquanto os líderes espanhóis não forem responsabilizados pelos seus fracassos e que estes tenham consequências políticas nas urnas.

Nas próximas eleições não devemos esquecer os responsáveis pela gestão desastrosa da pandemia do coronavírus.

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O autor: David Jiménez [1971-], jornalista, foi diretor do jornal espanhol El Mundo onde iniciou a sua carreira de jornalista em 1994, tendo sido despedido em 2016 por resistir a pressões editoriais. Entre as suas obras está o seu primeiro livro, Hijos del monzón (Kailas, 2007), que ganhou o Prémio Internacional de Literatura de Viagens Camino del Cid e foi traduzido para inglês, alemão e italiano, entre outras línguas. Publicou também o romance El botones de Kabul (A Esfera, 2010), com base na sua experiência em matéria de guerra, El lugar más feliz del mundo (Kailas, 2013) e o seu último livro El Director: Secretos e intrigas de la prensa narrados por el ex director de El Mundo (Livros do K.O, 2019) (ver Wikipedia aqui)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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