CARTA DE BRAGA – “no meio dos poderosos” por António Oliveira

Esta Carta foi motivada por um cartoon de ‘El Roto’ no diário ‘El País’ e por duas estórias: a primeira é tirada do Hamlet de Shakespeare e a segunda refere o mito de Faetonte, lida nas ‘Metamorfoses’ de Ovídio.

Na primeira das estórias, Cláudio rei da Dinamarca, tio e padrasto de Hamlet, manda-o de viagem a Inglaterra, acompanhado por dois dos seus cortesãos, os dinamarqueses, Rosencrantz y Guildenstern.

São portadores de uma carta para o rei inglês, em que Cláudio pede para mandar matar Hamlet que, descobrindo a armadilha, reescreve a carta para que sejam os dois cortesãos a ser executados.

No regresso da Inglaterra e perguntado pela tragédia da morte dos dois cortesãos, Hamlet responde, lacónico ‘Meteram-se no meio dos poderosos’.

Na segunda estória, Faetonte, filho de Hélio e da ninfa Climene, vence a primeira corrida de bigas, o carro romano puxado por dois cavalos e pede ao pai para cumprir a promessa de lhe dar o que ele lhe pediu, conduzir o carro do sol.

Hélio negou primeiro, mas frente à insistência do filho, acabou por ceder, com a condição de seguir a rota que lhe indicou. Faetonte não conseguiu manter a rota por ter subido demasiado, provocando colossais vibrações nos astros e arriscando mesmo a destruição da Terra.

Para evitar um enorme desastre, Zeus obrigou-se a aniquilá-lo com um raio e Faetonte veio a cair no rio Erídano. Uma estória que também reforça a ideia de ser mesmo perigoso meter-se no meio dos poderosos.

Mas ainda se pode tirar outra conclusão: o carro do sol acaba por fugir ao controlo de um jovem inexperiente por ter subido demasiado, podendo vir a provocar um desastre ecológico, sendo também um alerta para o género humano – se quiser pegar nas rédeas da natureza para a controlar, todos corremos o risco de ser vítimas de danos inimagináveis. 

A propósito do cartoon de ‘El Roto’, atrevo-me a usar algumas frases de um artigo do escritor e poeta David Márquez, vindo a público em Outubro passado.

Já aqui está o Iphone que se abre ao estilo novena. Encomenda-te à Virgem das Máscaras e actualiza as tuas seiscentas apps governamentais. Não te preocupes com os acentos, com os agás, com os vês e desconhece o ‘q’. Mas mexes muito bem (analfabeto de facto) na tua inseparável maquinazita. Não vemos o teu Deus porque não necessitamos. Fizeste o possível para nos meter medo com os teus demónios virais e as tuas pressas. E talvez tenhas razão, como também a tiveram os evangelizadores da América

Tudo porque, garante Juan Carlos Jimenéz, professor da Universidade Europeia, ‘O objecto mítico com que agora nos pretendemos assemelhar ao divino, é o telefone móvel em todas as suas variantes, com a promessa que supõe a ligação ubíqua através dos ecrãs, de ser a porta que franqueia o acesso a todo o universo conhecido

E agora, no meio dos poderosos e desta poderosa pandemia, ‘temo o sumiço do maldito vírus, mas substituído pelo teletrabalho como nova forma de escravidão, a destruição massiva do emprego e, aqueles que tudo têm, continuarão a fustigar o algoritmo para nos fazerem crer que somos os mais importantes do universo, o único elo para que a cadeia não se rompa. A idiotia é a antessala da desolação, o algoritmo manejado como já se faz agora mesmo’.

A afirmação é do historiador e escritor Pedro Luis Angosto, vinda também a público, no passado mês de Outubro e, não sei bem porquê, a descrição fez-me lembrar um chicote e o seu estalar.

Para terminar, transcrevo algumas palavras do teólogo Leonardo Boff, de uma entrevista ao ‘El País’ de 13 de Agosto, onde, sem esconder a fé que o orienta e sempre o guiou, salienta ‘Se não queremos estancar e afundar-nos no pântano dos interesses das minorias poderosas e dominantes sobre as grandes maiorias populares, temos que alimentar sonhos.

Estamos sempre na pré-história de nós mesmos e por isso é necessária uma fé vigorosa para poder ver a Deus realmente em todas as coisas, inclusive nas mais contraditórias’.

E, a propósito disto tudo, convém não esquecer que, ao acabar de se pronunciar a palavra ‘futuro’, já ela é ‘passado’. Não quero aqui juntar qualquer alusão aos problemas causados pela imparável passagem do tempo, mas tão só salientar que esta frase mostra também a enorme fragilidade dos projectos humanos, se não apoiados na sabedoria de uma cultura bem sólida.

E não se poderá dizer que, com a cultura, venha a haver desastres impensáveis!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

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