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 Maradona como ser político incomodava demais – Fotos Públicas

 

 

27 de novembro de 2020

 

Olá,

esta foi uma semana difícil. Descobrimos que o deus do futebol não é brasileiro, e vimos mais uma vez que o racismo mata. Enquanto isso, nos preparamos para um natal em quarentena e para o fim do auxílio emergencial.

  1. Terraplanismo racial. Negar que há racismo no Brasil é como afirmar que a terra é plana. Apesar disso, além do general Hamilton Mourão, pesquisa feita pelo Atlas Político mostra que cerca de 10% da população brasileira defende explicitamente esta ideia. Este número aparentemente pequeno esconde, no entanto, o racismo brasileiro que teima em não se revelar, pois indagados a respeito do assassinato de João Alberto Freitas no supermercado Carrefour em Porto Alegre (RS) no dia 19 de novembro, apenas 57% dos entrevistados considera que o crime teve motivação racial. Mas o racismo não é apenas um fenômeno difuso. É também de classe, visto que as ações do Carrefour na Bovespa no dia 20 de novembro encerraram o pregão em alta de 0,49%. Como alerta Pedro Fernando Nery no Estadão, “De certa forma, a leitura do mercado financeiro para o caso do Carrefour parece ser de que a sociedade não se importa”. Mais precisamente, os investidores não se importam. Mas não é a primeira vez que isto acontece. Reportagem do Brasil de Fato relembra dois crimes de racismo ocorridos dentro da rede Carrefour, um em Osasco (SP) em 2009 e outro em São Bernardo do Campo (SP) em 2018. Esta é apenas a parte mais explícita dos abusos cometidos pelas transnacionais dos alimentos, como o Carrefour, Pão de Açúcar, Big-Walmart, Coca-Cola e Nestlé, cuja conduta é marcada pela superexploração do trabalho, tortura, invasão de terras indígenas e crimes ambientais. No caso do Carrefour de Porto Alegre, ao contrário do que afirma a versão oficial do grupo, a violência era prática comum da segurança e contava com respaldo da gerência, como afirma um ex-fiscal da empresa em entrevista concedida a Hygino Vasconcellos, no portal Uol.

  1. Racismo de Estado. O atual governo vem aprofundando o racismo como política de Estado. Um dos exemplos é Sérgio Camargo, sujeito que ocupa um cargo chave na formulação de políticas anti-racistas como presidente da Fundação Palmares. Além de negar a existência de racismo estrutural na sociedade brasileira Camargo, em postagem no Twitter, chamou a vítima de “marginal” e “negro do Carrefour”. Mas esta conduta não surgiu agora e não é exclusividade do Poder Executivo. Podemos também citar o julgamento ocorrido em agosto deste ano no Paraná em que um homem foi condenado por organização criminosa e furto com base na opinião da juíza de que ele era “seguramente integrante do grupo criminoso, em razão da sua raça”. Ou seja, o agravamento da discriminação e da violência contra negros e negras não é fruto do acaso. Parte do problema se deve ao desmonte das políticas anti-racistas em nível federal. Dados apresentados pelo jornal O Globo, com base em informações do Ministério da Economia, apontam que em seu primeiro ano de governo, Bolsonaro cortou cerca de 70% dos recursos destinados a ações de combate ao racismo. O assassinato de João Alberto também evidencia a interpenetração entre a segurança pública e privada. Neste caso, a empresa terceirizada responsável pela segurança do Carrefour de Porto Alegre tem como uma das sócias a cabo da Polícia Militar paulista Simone Aparecida Tognini, situação que é ilegal já que a PM está na ativa. Preocupados com o crime e seus desdobramentos, os deputados Damião Feliciano (PDT-PB), Benedita da Silva (PT-RJ), Bira do Pindaré (PSB-MA), Silvia Cristina (PDT-RO), Áurea Carolina (Psol-MG) e Orlando Silva (PCdoB-SP) criaram uma comissão interna da Câmara para acompanhar as investigações. No Senado, Paulo Paim (PT) apresentou ao presidente Davi Alcolumbre uma série de medidas para reforçar o combate ao racismo e a inclusão racial. Da sua parte, o governo brasileiro segue negando que haja racismo no Brasil.

  1. Adeus, Guedes? Faltam sete semanas para o ano acabar e com ele a vigência do orçamento de guerra e sem teto de gastos para enfrentar a pandemia. Em outras palavras, Bolsonaro tem pouco mais de trinta dias para decidir se prorroga o auxílio emergencial, se tira uma medida substituta da cartola ou se vai arcar com o ônus de extinguir o benefício sem nada a oferecer no lugar. A opinião de Paulo Guedes, contrário desde o início ao programa, já é bem conhecida. Pior do que isso, até agora, só o governo propôs é substituir o auxílio por um programa de endividamento e empréstimos e nenhum ensaio de renda básica vai constar, no fim das contas, no orçamento do próximo ano. Fora isso, tal qual avestruz, Guedes ignora o aumento de casos de Covid e afirma que “a doença diminuiu” no Brasil, enquanto segue decidido a acabar com qualquer tipo de medida especial. O fim do auxílio, porém, não é o único problema de Bolsonaro e companhia: a inflação está alcançando o maior índice registrado nos últimos cinco anos e a escassez de algumas matérias-primas vai continuar jogando os preços para o alto. Porém, o papagaio Paulo Guedes só conhece uma palavra:“privatizações”. Agora, até a transposição do São Francisco está no radar privatista. É verdade que esta semana o ministro conseguiu emplacar a lei de recuperação judicial e falências, que facilita o socorro a empresas que estão com problemas financeiros. É por estas e outras que Guedes segue sendo útil para os interesses do mercado. Sentindo-se fortalecido, ele resolveu também comprar briga com o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, que reclamou da ausência de um plano para conter a escalada da dívida pública. Porém, a monotonia do discurso de Guedes pode não convencer mais. Segundo Thomas Traumann, ele perdeu a qualidade mais importante de um ministro, a credibilidade. Estaria entregue à própria sorte inclusive por Bolsonaro, que avisou que não se envolveria na negociação das reformas. E como parece avisar o editorial do insuspeito Estadão, até o mercado financeiro parece já ter desistido de Guedes.

  1. Natal macabro. Para Carlos Andreazza, contrariando todo senso de humanidade e de política, a segunda onda seria a melhor notícia possível para Bolsonaro. Sem efetivamente nenhum plano de governo, a Covid continua sendo a justificativa perfeita para a instabilidade, para atacar o distanciamento e os governadores e tentar prorrogar o auxílio e a própria popularidade. Mais uma vez Bolsonaro age como um jogador de roleta que aposta com a vida alheia. O números de infecções e mortes voltaram a crescer nas últimas semanas, registrando mais de 200 mil casos em sete dias e mais de 3 mil mortes por semana, o que não ocorria desde setembro. Segundo o Imperial College, voltamos a ter uma taxa de transmissão equivalente à de maio, em que cada 100 pessoas contaminadas transmitem o vírus para outras 130. Combater o vírus deveria ser o desafio da nossa geração, segundo o comandante do Exército Edson Pujol. No entanto, isto não se aplica ao General Pazuello, cuja incompetência começa a incomodar os colegas de caserna que desejam que o dublê de Ministro da Saúde ao menos peça para ir à reserva. No fim das contas, Pazuello demonstrou estar à vontade com o papel simbólico de cumpridor de ordens da fanfarronice bolsonarista. Supostamente especialista em logística, Pazuello dirige o ministério que não usou os recursos para contratar médicos, reestruturar hospitais, comprar testes de Covid-19 para presídios e fomentar agricultura familiar para doação de alimentos. Assim como não explica porque quase 7 milhões de testes estão estocados e prestes a perder a validade. E por mais que o TCU e o STF exijam, ao que tudo indica, o governo federal não tem plano algum para a vacinação. Para piorar ainda mais a desordem na saúde, depois da paralisação do DataSus no início de novembro, agora cerca de 16 milhões de pessoas tiveram seus dados pessoais vazados por um funcionário do hospital Albert Einstein. Mesmo diante das más notícias, há duas esperanças. Primeiro, o plano de vacinação contra a Covid tem sido discutida por um Comitê que inclui estados e município e deverá ser apresentado na próxima semana. E, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) prevê que é possível aplicar a vacina em 130 milhões de cidadãos em 2021.

 

  1. A caminho de 2022. Ainda que não se possa dizer que a disputa de nenhuma capital já está decidida, os resultados deste domingo não devem alterar significativamente a avaliação geral das eleições. Fortaleza talvez seja a síntese desta lição, em que uma frente de esquerda se formou no segundo turno, enquanto o candidato bolsonarista evita desesperadamente qualquer relação com o padrinho para evitar uma queda pior. É verdade que a esquerda ainda tem muito o que conversar entre si e, por enquanto, é a velha direita de Dória e do Centrão quem larga na frente. O Centrão, aliás, já avisou a Bolsonaro que se quiser se reeleger, é hora de fechar a boca e abrir mais concessões. O primeiro passo, depois do fracasso da Aliança Brasil, deverá ser se alojar novamente em alguma legenda. Até porque se contar apenas com suas próprias forças, Bolsonaro pode naufragar. Depois de recuperar apoio por alguns meses, o governo agora sofre uma nova queda na popularidade, como mostra a pesquisa do PoderData, em que 40% dos entrevistados avaliam o governo como ruim ou péssimo. Isto talvez se explique pela perigosa combinação de um desempenho eleitoral pífio, agravamento da pandemia, fim do auxílio emergencial, e recrudescimento do debate sobre racismo. Mas ainda é cedo para saber se a tendência de queda da popularidade se consolidará.

  1. Concorrência. Na pista da direita, espremidos pelos caminhões de Dória e Bolsonaro, Moro e Huck por enquanto pedalam no acostamento. Mas ambos se movimentam, Moro com palestras e Huck em reuniões. Discretamente, o “fundo de investimentos” RenovaBR elegeu 147 candidatos e pela proximidade com o apresentador de auditório, pode ser uma força que desague na sua candidatura no futuro. Outra consequência pouca notada das eleições de 2020 é que, de fato, a minirreforma eleitoral cumpriu seus desejos e o fim das coligações proporcionais reduziu a presença de partidos em 73% dos municípios. Já as fake news e milícias digitais, heranças de 2018, permaneceram ativas e deverão estar bem vivas daqui há dois anos. O mesmo vale para a nova progressista na internet, a exemplo do youtuber Felipe Neto, que conseguiu juntar mais de 200 mil seguidores numa partida de Among Us contra Guilherme Boulos. Agora, o próximo pedágio em direção à 2022 é a eleição dos presidentes do Congresso, quando será medida a temperatura de como o Centrão vai tratar o governo daqui para frente. Um dos nomes cogitados é Arthur Lira (PP-AL), que representaria um fortalecimento da base governista. Do outro lado, disputam a vaga figuras como Baleia Rossi (MDB-SP), Agnaldo Ribeiro (PP-PB) e Marcos Pereira (Republicanos-SP) que são mais próximos do atual presidente Rodrigo Maia e representam uma posição mais autônoma em relação ao Executivo.

  1. Bolsonarismo sustentável. Como já era previsto, a eleição de Joe Biden nos Estados Unidos gerou perturbações na política externa brasileira. Esta semana, o embaixador da China protestou em tom de ultimato contra as acusações do deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) que acusou a China de usar a tecnologia 5G para a prática de espionagem. A lambança do zero três, que não entendeu que a onda trumpista arrefeceu, gerou insatisfações do agronegócio e preocupações na base governista. Outra correção de rumos que deverá ser operada pelo governo diz respeito à questão ambiental. O tema tende a ganhar maior relevância e já não é suficiente Bolsonaro dizer que as queimadas são fake news. As principais pressões para uma mudança de discurso parecem vir do próprio agronegócio, que apesar de beneficiado pelas queimadas, mostra preocupação com a imagem negativa da política ambiental brasileira. Um dos pontos sensíveis é a possibilidade de naufrágio do acordo Mercosul – União Europeia, que já conta com a oposição da França e da Áustria. Apesar das ambiguidades, no encontro do G20 Bolsonaro deu sinais de que está disposto a fazer concessões nesta área e assumir alguns compromissos ambientais. A mudança de tom já dá seus primeiros frutos com o fechamento de um acordo de R$ 163 milhões entre o governo brasileiro e a Alemanha a ser financiado pelo banco alemão KfW. O projeto denominado “Inovação nas cadeias produtivas da agropecuária para a conservação florestal na Amazônia Legal” pretende promover a exploração de carne bovina, soja e madeira. Em resumo, é o capitalismo verde aliado ao bolsonarismo sustentável.

 

. Ponto Final: nossas recomendações de leitura

.A luta contra o racismo no Brasil é uma luta de refundação nacional. No Instituto Tricontinental, Iyalê Tahyrine, Jarbas Vieira e Thays Carvalho demonstram como o racismo está na essência da produção e reprodução das relações sociais desiguais da sociedade brasileira.

.#19 Carrefour e Pão de Açúcar: abusos em nome do lucro. O podcast É da sua Conta desvendam as manobras tributárias do Carrefour e do Pão de Açúcar, maximizando lucros com sonegação fiscal e exploração dos fornecedores.

.Hegemonia compartilhada. Tarso Genro escreve sobre a esquerda plural, multipartidária e social que emergiu das eleições municipais.

.Análise mensal da conjuntura. O Grupo de Estudos e Acompanhamento da Conjuntura Econômica analisa as possibilidades reais de retorno de hiperinflação, o desalento no mercado de trabalho e a situação fiscal de estados e municípios para o Instituto Tricontinental.

.Pandemia e pobreza: a sindemia exposta da crueldade humana. A pandemia agravou o abismo social e até mesmo beneficiou os mais afortunados, analisa o geógrafo Carlos Fernando Galvão no Outras Palavras.

.A privatização da água e o discurso da escassez. O professor Flávio José Rocha demonstra como o modelo de privatização da água penaliza o consumidor e permite o consumo desenfreado pelo agronegócio.

.Maradona como ser político incomodava demais. A professora Kátia Rubio, coordenador do grupo de Estudos Olímpicos da USP, relembra no Tutameia a militância política de Diego Maradona e como sua atuação abriu caminho para manifestações de atletas como Lewis Hamilton.

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