TOMDISPATCH – A AMÉRICA DE RIP VAN BIDEN – ENQUANTO A AMÉRICA DORMIA, por ALFRED MCCOY

 

 

Rip Van Biden’s America, por Alfred McCoy

Tomdispatch, 26 de Janeiro de 2021

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

Revisão por João Machado

 

Tenho 76 anos, por isso tenho pelo menos uma modesta sensação do que deve significar, aos 78 anos de idade, entrar na Casa Branca para presidir a um país perturbado, profundamente dividido e enervado. Falando pessoalmente, considerando apenas os meus próprios níveis de energia e a informação que o meu cérebro ainda funcional deita cá para fora regularmente, penso que deveria ser ilegal para qualquer pessoa tornar-se presidente com tal idade. Sim, não tenho a menor dúvida de que Joe Biden, um homem decente, será uma melhoria surpreendente em relação a Donald Trump em questões que vão desde a imigração à mudança climática e à pandemia. Dado o historial de Trump, como poderia ele Biden não o ser? Honestamente, quase qualquer pessoa neste planeta o poderia ser.

Mas não menos honestamente, o homem que foi senador durante 36 anos, vice-presidente de 2009 a 2017, e que anseia ser o líder desta nação desde que tentou candidatar-se pela primeira vez a esse cargo em – veja aqui – respirem fundo – 1987, deveria, na minha opinião, ser pensado como um “presidente usado” (tal como um carro usado). Infelizmente, talvez este termo seja demasiado apropriado para tal homem, que traz para a sua administração uma tripulação de recauchutados da era Obama, para presidir a um país que agora parece ter um sentimento de já gasto, ou mesmo de esgotado.

Como sugere hoje o colaborador habitual de Tomdispatch e historiador Alfred McCoy, autor de In the Shadows of the American Century, vivemos  hoje  no que é uma potência imperial nitidamente em declínio, um lugar que já não é a maior e mais indispensável nação à face da Terra e que, com um presidente tão envelhecido, passa também a parecê-lo.  Nesse sentido, poder-se-ia dizer que Joe Biden é apenas a realidade a regressar a casa.

O seu discurso de tomada de posse deveria ter-nos recordado a todos que as desastrosas “guerras infinitas” que os EUA lançaram na sequência dos ataques do 11 de Setembro (e que ele na altura apoiou) nunca poderiam ter ficado verdadeiramente em terras distantes por todo o planeta. Nenhum de nós deveria ter ficado surpreendido que o nosso “novo” presidente tivesse sido investido no que muitos passaram a chamar de “Zona Verde” – um termo usado pela primeira vez para a parte bem guardada do centro de Bagdade, fortemente fortificada pelos militares americanos após a ocupação do Iraque ter, de facto,  começado a correr mal. Dentro de uma versão tão americana dessa mesma zona em Washington, D.C., Biden foi protegido contra o seu próprio povo, também conhecido como “os terroristas”, por 25.000 elementos da Guarda Nacional.  Entretanto, as baixas daquela outra “guerra” totalmente atamancada neste momento, a travada contra o Covid-19, têm subido precipitadamente para níveis espantosos numa América cujos políticos outrora adoraram chamar-lhe o país verdadeiramente “excepcional” do globo. Agora é excepcional pelos seus casos pandémicos e pelas suas taxas de mortalidade.

Em suma, nada disto indica que os Estados Unidos, a antiga “superpotência solitária” do Planeta Terra, seja  outra coisa que não um pais cada vez mais decadente e a ficar cada vez  pior. Deixemos que McCoy no-lo explique. Tom

Enquanto a América dormia

A despertar de um sonho febril de quatro anos para descobrir  que  o seu  poder global desapareceu

ALFRED MCCOY

Após quatro anos de mandato de Donald Trump, a América está a acordar de um longo e conturbado sono para descobrir, como a personagem fictícia Rip Van Winkle, que o mundo que outrora conheceu mudou e muito, de tal forma que se tornou irreconhecível.

Naquele conto clássico americano de Washington Irving publicado em 1819, um agricultor amável, mas sem grande garra, sai da sua aldeia colonial para ir caçar nas Montanhas Catskill. Aí, ele encontra-se com  um grupo de homens misteriosos, bebe profundamente do cantaril de licor deles, e cai num longo sono. Ele desperta mais  e  descobre que lhe cresceu uma barba branca até à barriga e a sua juventude murchou até  um tal ponto que parece um  velho irreconhecível. Ao voltar para a aldeia, descobre que a sua mulher já  morreu há muito tempo  e que a sua casa está em ruínas. Entretanto, o cartaz por cima do pub da aldeia, onde ele passou relaxado  tantas horas agradáveis, já não tem a cara do seu amado Rei Jorge, o monarca britânico, mas foi substituído por alguém chamado General Washington. No interior, a  conversa convivial dos dias coloniais deu lugar a uma feroz campanha eleitoral para algo chamado Congresso, seja lá o que isso  é.  Por incrível que pareça, Rip Van Winkle tinha dormido durante a Revolução Americana.

Enquanto este país esteve igualmente sonâmbulo durante o sonho febril da versão do Presidente Donald Trump de A América Primeiro, o mundo continuou a mudar tão decisivamente como durante aqueles sete anos em que os Continentais do General Washington lutaram contra os Casacas Vermelhas britânicos. Tal como o Rei George sofreu uma derrota devastadora que lhe custou as 13 colónias, também os Estados Unidos, com uma velocidade igualmente impressionante, perderam agora a sua liderança da comunidade internacional.

A quem pertence a Ilha do Mundo?

Durante os oito anos anteriores à tomada de posse de Donald Trump em 2017, os EUA pareciam estar a adaptar-se criativamente a alguns sérios desafios à sua hegemonia global pós Guerra Fria. Após a crise financeira de 2007-2008, a pior desde a Grande Depressão, um programa de estímulo bipartidário salvou a indústria automóvel do país e lançou uma lenta mas sustentada recuperação económica.

Alimentada por uma vitalidade económica renovada, Washington parecia ter uma hipótese razoável de enfrentar  o desafio económico global demasiado real e crescente da China. Afinal, utilizando os 4 milhões de milhões  de dólares em reservas cambiais que tinha ganho até 2014 com o seu novo papel como oficina do mundo, Pequim tinha lançado a  Iniciativa Uma Cintura e uma Estrada, com um custo de um milhão de milhões  de dólares, focada em tornar a vasta massa terrestre eurasiática (e partes de África) numa zona de comércio integrado – uma verdadeira “ilha mundial” que excluiria a América e, assim, reduziria radicalmente a sua liderança global.

Nos seus dois mandatos como presidente, Barack Obama, predecessor de Trump, prosseguiu uma estratégia inteligente de compensação, procurando dividir economicamente a potencial ilha mundial de Pequim na sua divisão continental nas Montanhas Urais. A planeada Parceria Trans-Pacífico (TPP) de Obama, que excluiu a China, foi a pedra angular da sua estratégia para atrair o comércio da Ásia para a América, tornando assim essa Iniciativa de  Uma Cintura e Uma Estrada numa concha oca. Esse projeto de tratado, que teria ultrapassado qualquer outra aliança económica exceto a União Europeia, foi concebido para integrar as economias de 12 nações da bacia do Pacífico que geravam 40% do produto mundial bruto – e os Estados Unidos deveriam estar no centro da mesma.

Para drenar o comércio da outra metade da pretensa ilha mundial de Pequim, Obama estava também a prosseguir as negociações para uma Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento com a União Europeia. A sua economia combinada de 18 milhões de milhões  de dólares era já a maior do mundo, representando 20% do produto mundial bruto. O alinhamento regulamentar proposto entre a Europa e os Estados Unidos teria supostamente acrescentado 260 mil milhões de dólares ao seu comércio anual total. A ousada grande estratégia de Obama era usar esses dois pactos para reduzir drasticamente  os planos de Pequim, dando aos EUA acesso preferencial a 60% da economia mundial.

É claro que o esforço de Obama estava a encontrar fortes ventos pela frente mesmo antes de ele deixar o cargo. Na Europa, uma coligação de oposição de 170 grupos da sociedade civil protestou que o tratado iria transferir o controlo sobre a regulamentação da segurança dos consumidores, do ambiente e do trabalho dos estados democráticos para tribunais de arbitragem empresariais s fechados. Nos EUA, o esquema de Obama enfrentou duras críticas mesmo no seio do Partido Democrático. Figuras-chave como a Senadora Elizabeth Warren opuseram-se à potencial degradação das leis laborais e ambientais através da TPP. Perante tão fortes críticas, Obama teve de confiar nos votos republicanos para obter a aprovação do Senado para obter uma autoridade rápida para completar a ronda final de negociações sobre o tratado. Essa oposição, contudo, garantiu que nenhum dos dois acordos seria aprovado antes de ele deixar o cargo.

No entanto, foi Donald Trump quem deu o golpe de misericórdia. Logo após a sua tomada de posse, ele encurtou as conversações comerciais com a Europa e retirou-se da Parceria Trans-Pacífico, dizendo: “Vamos acabar com os ridículos negócios comerciais que levaram… empresas a deslocalizarem a sua produção de bens e serviços  e isso vai ser invertido”.

Política Externa Unilateral

Trump adoptaria em vez disso uma estratégia unilateral da America First que em breve desencadearia uma dispendiosa guerra comercial com a China. Após dois anos de escalada de tarifas em ambos os lados do Pacífico que prejudicaram a economia dos EUA, Trump capitulou em Janeiro de 2020, assinando um acordo que rescindia os direitos mais proibitivos dos EUA em troca da promessa inaplicável de Pequim de comprar mais bens americanos. O presidente saudou então o seu “grande, belo” acordo comercial como uma grande vitória, apesar de ter sido nada menos do que uma rendição mal disfarçada.

Enquanto a sua Casa Branca parecia obcecada com o jogo dos seus laços bilaterais com a China, Pequim estava a roubar uma página do livro de jogo estratégico global de Obama, ultrapassando Washington ao perseguir dois acordos comerciais multilaterais que deveriam ter parecido estranhamente familiares a qualquer um que tenha vivido durante os anos de Obama. Em Novembro de 2020, Pequim lideraria 15 nações da Ásia-Pacífico na assinatura de uma Parceria Económica Global Regional que prometia criar a maior zona de comércio livre do mundo, abrangendo 2,2 mil milhões de pessoas e quase um terço da economia global.

Apenas um mês depois, o Presidente da China Xi Jinping aplicou o que um perito chamou “um golpe geopolítico” ao assinar um acordo histórico com os líderes da União Europeia para a integração mais estreita dos seus serviços financeiros. Com efeito, o acordo dá aos bancos europeus um acesso mais fácil ao mercado chinês, ao mesmo tempo que aproxima mais o continente da órbita de Pequim. Tão grave é o afastamento de Washington que o novo Conselheiro de Segurança Nacional do Presidente Biden, Jake Sullivan, exortou publicamente os aliados da OTAN a consultar primeiro a nova administração antes de assinar o acordo – um apelo que eles simplesmente ignoraram. De facto, este tratado é sem dúvida a maior violação da aliança da OTAN desde que esse pacto de defesa mútua foi formado há mais de 70 anos.

Através de uma inversão espantosa da corajosa mas não realizada estratégia geopolítica de Obama de utilizar pactos multilaterais para atrair o comércio da Eurásia para a América, estes dois acordos darão à China acesso preferencial a quase metade de todo o comércio mundial (sem sequer ter em conta o projeto de uma Cintura e uma Estrada ainda em desenvolvimento). Num golpe de mestre diplomático, Bejing explorou a ausência de Trump na arena internacional para negociar acordos que poderão, juntamente com essa Iniciativa de uma Cintura  e uma Estrada, desviar uma parte crescente de capital e comércio do continente eurasiático para a China. Nos próximos anos, a inclusão de Pequim poderá significar a exclusão de Washington de grande parte do comércio florescente que continuará a fazer da Eurásia o epicentro da economia global.

O Declínio e a Queda da Grande Potência que conhecíamos

Se isso fosse tudo, então podíamos atirar giz a algumas vitórias significativas para a China e apenas esperar que a equipa de política externa de Biden tentasse igualar a pontuação. Mas há muito mais a acontecer que sugere que esses tratados foram uma manifestação clara de tendências mais profundas e preocupantes.

Quando os impérios declinam e caem, raramente caem no tipo de apocalipse repentino retratado numa série monumental de pinturas “The Course of Empire” por um  outro habitante  das Montanhas Catskill, o famoso artista Thomas Cole. A sua pintura de 1836 nessa série, agora devidamente pendurada no Museu Smithsonian em Washington, mostra um “inimigo selvagem” pilhando uma grande capital imperial cujos habitantes, degradados por anos de vida luxuosa, só podem fugir aterrorizados enquanto as mulheres são violadas e os edifícios ardem.

Thomas Cole, “The Course of Empire: Destruction.” Click here to expand.

No entanto, os impérios experimentam normalmente um longo declínio, menos dramático, antes de caírem à moda romana, graças a acontecimentos cuja lógica só se torna evidente anos ou mesmo décadas mais tarde, à medida que os historiadores tentam escavar nos escombros. Assim, é provável que seja naquilo que, até meados da semana passada, foi (e ainda permanece em muitos aspetos) a América Primeiro de Donald Trump  onde os sinais de declínio são tão erráticos como omnipresentes.

O prenúncio mais revelador desse declínio, o próprio Trump, está agora no exílio no seu Club Mar-a-Lago na Florida. Há dez anos, num ensaio para TomDispatch intitulado “Quatro cenários para o fim do século americano até 2025“, sugeri que a hegemonia global dos EUA acabaria não com o estrondo apocalíptico de Thomas Cole, mas sim com o capricho de uma retórica populista vazia. “A cavalgar uma maré política de desilusão e desespero”, escrevi em Dezembro de 2010, “um patriota de extrema-direita captura a presidência com uma retórica estrondosa, exigindo respeito pela autoridade americana e ameaçando represálias militares ou represálias económicas. O mundo não presta quase nenhuma atenção à medida que o século americano vai terminando  em silêncio”.

A eleição do Trump em 2016 tornou tudo demasiado real o que, até então, só me parecera uma possibilidade preocupante. Com um truque digno desse espetáculo de magia do século XIX saído do saco de fantasias de  P.T. Barnum (como o suposto Gigante de Cardiff ou a Sereia das Ilhas Fiji), o programa televisivo de Trump “The Apprentice” apresentou “The Donald” como um bilionário feito por si mesmo, com uma extraordinária capacidade financeira. Quem melhor para salvar a América da perda de empregos, salários estagnados, e concorrência estrangeira provocada pela globalização económica? Mas Trump tinha feito batota para entrar numa faculdade da Ivy League; muitas das suas empresas tinham ido à falência; e o seu tão apregoado talento empresarial desceu essencialmente para desperdiçar uma herança de 400 milhões de dólares do seu pai. Como o jornalista H.L. Mencken previu em 1920, a América tinha finalmente chegado ao ponto em que “as pessoas simples da terra alcançarão finalmente o desejo do seu coração e a Casa Branca será enfeitada por um completo idiota”.

Uma vez no cargo, Trump logo submeteu a nação à sua vontade (mas não ao mundo), rompendo alianças testadas no tempo, rasgando tratados, negando ciência climática incontroversa, e exigindo respeito pela autoridade americana com uma retórica estrondosa, ainda que em grande parte vazia, que ameaçava retaliações militares ou represálias económicas a nível global. Apesar das suas políticas manifestamente ineptas, o Partido Republicano capitulou, empresários magnatas  aplaudiram, e quase metade do povo  americano apegou-se ao seu recém descoberto salvador.

Como em todos os espetáculos de lotação esgotada, o melhor foi guardado para o fim. Quando a pandemia de Covid-19 bateu com toda a força em Março de 2020, Trump apareceu no Centers for Disease Control (CDC) em Atlanta, com um chapéu MAGA, para proclamar a sua “capacidade natural” quando se tratava de ciência médica, enquanto distintos médicos ficaram parados como figurantes de estúdio em testemunho mudo das suas ideias,  claramente arriscadas. Quando a pandemia começou a alastrar  a caminho do seu terrível balanço, ainda em desenvolvimento, Trump parou com os briefings  da Casa Branca por parte de especialistas médicos para promover uma sucessão de ideias loucas  – usar uma máscara era meramente “politicamente correto”; a Covid-19 era apenas mais uma gripe que “fica mais fraca com o tempo mais quente”; a hidroxicloroquina era uma cura; e a exposição à  luz ultravioleta brilhante “no interior do corpo” ou a injeção de “desinfectante” eram tratamentos possíveis. Um número surpreendente de americanos começou a beber lixívia para se protegerem do vírus, obrigando a meses de avisos de saúde pública.

Após quase um século em que os Estados Unidos foram um líder mundial na promoção da saúde pública, a administração Trump, para escapar à culpa pelos seus próprios fracassos crescentes, abandonou a Organização Mundial de Saúde. Ao impor ao  país a aura de um Estado falhado, o próprio CDC, outrora a referência  mundial na investigação médica, falhou no desenvolvimento de um teste de coronavírus e assim prejudicou qualquer tentativa séria, a nível nacional, de localizar e rastrear com sucesso a doença (o meio mais eficaz para o seu controlo).

Enquanto nações mais pequenas como a Nova Zelândia, Coreia do Sul, e até mesmo o Ruanda empobrecido, refrearam efetivamente o Covid-19, no final do mandato de Donald  Trump, os EUA já tinham sofrido mais de 400.000 mortes e 24 milhões de infeções – significativamente acima de qualquer outra nação desenvolvida e um quarto do total de casos do mundo. Entretanto, Pequim mobilizou uma rigorosa campanha de saúde pública que rapidamente contiveram o vírus a apenas 4.600 mortes numa população de 1,4 mil milhões de habitantes. Em apenas quatro meses, a China praticamente eliminou o vírus (apesar de novos surtos locais periódicos) e teve a sua economia a funcionar com um aumento de 5% do produto interno bruto, que representou 30% do crescimento global no ano passado. Entretanto, após 11 meses de uma pandemia incessante, os EUA permaneceram atolados numa recessão paralisante. Esta disparidade impressionante no desempenho do Estado apenas acelerou a busca da China de superar os EUA como a maior economia do mundo e, com todo esse peso financeiro, tornar-se a sua potência preeminente.

Um Encore Tragicómico

Foi, contudo, a tentativa do  Presidente Trump de concorrer a segundo mandato que se revelaria verdadeiramente extraordinária em termos  de um declínio imperial. Durante os seus 70 anos de  hegemonia global, a promoção pública da democracia em Washington foi o programa de assinatura que ajudou a legitimar a sua liderança global (independentemente das intervenções ao estilo da CIA que foram feitas  ou das guerras ao estilo colonial que travou continuamente).

Embora a Guerra Fria tenha muitas vezes comprometido esse compromisso de formas particularmente marcantes, após o seu fim Washington passou 30 anos a promover oficialmente o voto justo e as transições democráticas, com líderes como o ex-presidente Jimmy Carter a voar para capitais dos cinco continentes para supervisionar e encorajar eleições livres. De repente, o mundo assistiu com estupefação ao facto de, a 6 de Janeiro na praça da Casa Branca, o presidente denunciar uma eleição americana justa como fraudulenta e enviar uma multidão de 10.000 nacionalistas brancos, conspiradores de QAnon, e outros trombeteiros para invadir o Capitólio, onde o Congresso estava a ratificar a transição para uma nova administração.

Acrescentando a esta aura de estado falhada, o aparelho de segurança nacional outrora formidável do país desmoronou-se como uma força policial do Terceiro Mundo, enquanto homens das milícias de direita rompiam o frágil cordão de segurança à volta do Capitólio e invadiam os seus corredores como se fossem uma multidão de linchamento à caça dos líderes do Congresso. Os apelos desesperados do líder da Maioria da Assembleia dos Representantes Steny Hoyer a um Pentágono em alvoroço e ao governador de Maryland Larry Hogan atrasaram perigosamente a mobilização da Guarda Nacional do seu estado, por causa da cadeia de comando comprometida das forças armadas dos EUA, parecendo o eco de cenários de golpe de Estado numa qualquer  república das bananas tropical, como testemunhei em Manila, a capital das Filipinas, durante os anos 80.

Quando o Congresso estava finalmente a retomar a sessão, no Capitólio ainda ecoavam os apelos republicanos, em nome da unidade nacional,  esquecendo que isto tudo tinha sido incentivado pelo  presidente.  Desta forma, os representantes do Congresso republicano pareciam fazer eco do tipo de impunidade que há muito protege as juntas militares caídas na Ásia ou na América Latina de qualquer responsabilização pelos seus incontáveis crimes. Esta tentativa, por outras palavras, de perpetuar o poder de um pretenso autocrata através de um golpe (falhado) foi o tipo de espetáculo que muitos milhões de habitantes da Ásia, África e América Latina viveram nos seus próprios Estados frágeis mas nunca esperaram ver na América.

De repente, a nossa nação supostamente excepcional pareceu tragicamente vulgar. A cúpula cintilante do Capitólio simbolizou outrora a vitalidade da democracia desta nação, inspirando outros a seguir os seus princípios ou, pelo menos, a aquiescer ao seu poder. Este país parece agora esfarrapado e cansado, apanhado como outros antes dele entre o esquecimento em nome da unidade ou a exigência de que os poderosos sejam responsabilizados por altos crimes que de outra forma assombrarão a nação. Em vez de aspirar aos ideais da América ou de confiar a sua segurança ao seu poder, muitas nações irão provavelmente encontrar o seu próprio caminho, fazendo acordos com todos os que chegam, a começar pela China.

Apesar de uma aura de força esmagadora, os impérios, mesmo os tão poderosos como o da América, revelam-se frequentemente surpreendentemente frágeis e o seu declínio regularmente vem muito mais cedo do que alguém poderia imaginar – particularmente quando a causa não é o “inimigo selvagem” de Thomas Cole, mas os seus próprios instintos autodestrutivos.

Hoje, na era de um presidente de 78 anos, um verdadeiro Rip Van Biden, os americanos e o resto do mundo estão, ao que parece, a acordar para uma nova era.  Pode muito bem ser uma época assustadora.

Copyright 2021 Alfred McCoy

Alfred W. McCoy, a TomDispatch regular, is the Harrington professor of history at the University of Wisconsin-Madison. He is the author of The Politics of Heroin: CIA Complicity in the Global Drug Trade, the now-classic book which probed the conjuncture of illicit narcotics and covert operations over 50 years, and most recently In the Shadows of the American Century: The Rise and Decline of U.S. Global Power (Dispatch Books).

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Leia este texto no original clicando em:

While America Was Sleeping – TomDispatch.com

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