CARTA DE BRAGA – “com Pasolini e Diderot” por António Oliveira

Vivemos num mundo e numa época complicada, profundamente marcados pela pandemia covidiana, onde todas as atitudes são possíveis, por mais estapafúrdias que se apresentem, por mais disparatados que sejam os seus autores, mesmo que só por palavras. 

E vemos alguns deles que, por benefício das circunstâncias, ou azar das terras e dos tempos, ascenderam a lugares onde ‘têm de botar palavra’, mesmo sabendo todos que não têm competência para tal. Nem sequer chamo aqui a dualidade do ‘maniqueísmo’, o preceito filosófico que, no séc. III, orientou a vida do príncipe persa Manes, e defendia a existência de princípios criadores e absolutos – o bem e o mal – em eterna luta entre si, embora se leia, ouça e veja, que grande parte das opiniões que por aí circulam, estejam impregnadas de tal dualidade. 

Aliás, a crer no filósofo José Antonio Marina, ‘Alguns dos marcos mais estáveis estão submetidos a uma crítica pouco racional, porque quando há medo e se dá a escolher entre liberdade e segurança, muitos optam pela segurança, escolhem por motivos emocionais e outros são conservadores, pois valorizam mais o prémio que a possibilidade de castigo. Teremos de conseguir cidadãos mais fiáveis, que se encarreguem de reformar tudo o que seja necessário reformar. Já não se trata apenas de sermos livres, mas também de sermos elegantes, no sentido de usar a liberdade de maneira social, virtuosa, inteligente. Não temos prioridade nem liberdade para tudo’.

Mas a ignorância das massas (por muito que me custe dizer isto!) é o apoio fundamental com que contam tais figuras, por vis e maus governantes que se mostrem, dentro e fora dos seus territórios, mantendo atitudes próximas dos supremacismo e incoerência que fizeram a glória do trumpa, agora a fazer a de outros como a oca e nova presidenta de Madrid, um trumpa de saias e saltos altos. 

As mesmas pessoas que parecem condenar-me a viver muito mais tempo ‘entrincheirado’ atrás das máscaras (mesmo que lhes mudem as cores!), que as nossas relações mantenham uma distância mínima, a que impede um abraço, um sorriso, um beijo, um ‘beber um copo’, um tomar um café sem ser ‘ao postigo’!

Mas tenho muito mais medo dos tempos que vierem a seguir, pelo anseio que sinto e vejo em toda a parte, por voltar a ver lojas, centros comerciais e café abertos, voltar a marcar passo nas filas quilométricas na entrada das mais populares, por me lembrar bem de Pier Paolo Pasolini, ‘A ânsia de consumo é uma ânsia de obediência a uma ordem não pronunciada. Todos em Itália sentem a ansiedade degradante de serem iguais a todos no consumir, no “ser feliz”, no “ser livre”, porque essa é a ordem que todos inconscientemente receberam e à qual devem obedecer, sob pena de se sentirem diversos’.

Ele falava da Itália nos anos sessenta, mas por cá também se ouve e vê gente a manifestar-se, exibindo cartazes a exigir o mesmo que Pasolini afirmou, sem ter a mais pequena noção do que é liberdade e viver em sociedade, onde partilhar é tão ou mais importante que pertencer, esquecendo também que nenhuma ideologia tem e dá uma interpretação completa e correcta do mundo e da actualidade, por cada uma se julgar sempre, a que melhor os entende. 

Mas os caminhos que vêm por aí, a ver pelo tal apoio das massas, juntando-o a toda esta depressão económica, mental e anímica, ainda me fez regredir a Diderot, o homem da Enciclopédia, que nos deixou escrito, à laia de aviso, ‘Ter escravos não é nada, mas o que se torna intolerável é ter escravos chamando-lhes cidadãos’.

Podem mudar-lhe o nome, mas já passámos por isso e há muita gente que o esqueceu, ou nunca o sentiu, ou nem o aprendeu!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

 

Leave a Reply