FRATERNIZAR – Até as pedras choram com os gritos dos Povos – CUIDARMOS DE DEUS, OU UNS DOS OUTROS E DA TERRA? – por MÁRIO DE OLIVEIRA

 

Seremos ainda mais insensíveis do que as pedras, se conseguimos viver nesta Europa rica, à custa dos roubos e dos assassinatos sem conta dos povos que empobrecemos nos continentes aonde chegámos, nos séculos passados, com a espada numa mão, a cruz na outra mão e a bíblia no alforge, se nem os gritos dos Povos vítimas da fome e da guerra nos tiram do sério e já só pensamos nas férias deste verão que vamos poder desfrutar a troco de muitos milhares de euro. Os hotéis mais caros do Algarve, por exemplo, já se orgulham de lotações esgotadas em certas semanas. E não é apenas de gente do Reino Unido que vem aí aos milhares, mas de gente que vive neste país à beira mar plantado, sem parar um segundo que seja a pensar e a comover-se com as vítimas da tragédia planetária em que está mergulhada a Humanidade, com destaque para as centenas de pessoas que continuam a morrer nas águas do Mar Mediterrâneo, nas nações de África, América Latina, Faixa de Gaza e Índia.

É em situações limite, como as que estamos a viver nestes meses de pandemia, que faz todo o sentido perguntarmo-nos, cada noite, antes de adormecer, Cabe-nos cuidar de Deus que nunca ninguém viu (cf. João 1, 18), ou, pelo contrário cuidarmos uns dos outros e da Terra que nos serve de casa e de alimento-base, sem o qual perecemos, desde logo, o ar que dia e noite respiramos e que, como bem sabemos, nos é dado de graça e sem discriminação de nenhuma espécie. Não é da Terra e uns dos outros que havemos de cuidar, antes ainda de cuidarmos de Deus que nunca vimos nem vemos? A minha resposta, firmada na mesma Fé de Jesus histórico e na sua mesma Teologia, só pode ser esta, Cumpre-nos cuidar uns dos outros e da Terra e não de Deus.

Bem sei, pela catequese que tive de decorar sentado com outras crianças como eu, elas e eles, no chão da sala da ‘Senhora Mestra’ da aldeia onde nasci, que à Pergunta, ‘Para que fim nos criou deus?’, haveríamos de responder no exame para a comunhão solene, ‘Deus criou-nos para o amarmos e servirmos na terra e depois da morte gozarmos com ele no céu.’ Gerações e gerações foram formadas/ formatadas por este tipo de catequese, verdadeira escola de ateísmo religioso e cristão. Outra, porém, muito outra, é ‘catequese’ de Jesus histórico, o filho de Maria. Para quantas, quantos de nós cuidamos de deus e não uns dos outros e da Terra, são-nos dirigidas estas duras palavras que o Evangelho de Mateus (7, 21-23), põe na boca de Jesus histórico, ‘Nem todo o que me diz, Senhor, Senhor, entra no reino do céu. Muitos me vão dizer naquele dia, Senhor, Senhor, não foi em teu nome que profetizamos, em teu nome que expulsamos demónios e em teu nome que realizamos muitos milagres? Então dir-lhes-ei, Nunca vos conheci! Afastai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade’!

Só cegos que não queiram ver e surdos que não queiram ouvir é que não vêem nem ouvem que estas duras palavras de Jesus histórico encaixam como uma luva nas religiões e nas igrejas cristãs todas, bem como nas suas grandes academias confessionais e laicas-ateias, do único ateísmo possível, o do judaísmo-cristianismo-islamismo. Sempre com Deus /Jeová /Alá na boca, mas completamente de cócoras e de joelhos diante do Dinheiro, o único deus comum a todas elas, a todos eles.

Felizes seremos se, como nos ensina Jesus histórico, nos abrimos aos lancinantes gritos das inúmeras vítimas das águas do Mar Mediterrâneo, da fome e de guerras sem conta. A estes seus gritos, havemos de juntar também os da Terra. É que não há outra saída que não seja cuidarmos uns dos outros e da Terra, em vez de cuidarmos de deus, o das religiões e igrejas cristãs todas. Deixemos, pois, os sacerdotes e os pastores, os rabinos e os anciãos a falarem sozinhos, uma vez que todo o seu palrar, todas as suas missas, rezas e liturgias são um escarro a juntar ao palrar e às liturgias laicas dos políticos ao serviço do Poder, nos três poderes, todos de cócoras e de joelhos perante o Dinheiro, o único deus que tanto elas como eles conhecem e cultuam. Por isso sadicamente insensíveis aos gritos das inúmeras pessoas que morrem nas águas do Mar Mediterrâneo e dos bilhões que morrem de fome de pão e de justiça e de guerras sem fim, um pouco por toda a parte, com destaque para a Faixa de Gaza. O que vale às vítimas é que a última palavra cabe-lhes por inteiro. Nunca aos seus carrascos de turno, religiosos e laicos.

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UM FILHO É IMORTAL

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QUANDO A VACA SE TORNA UM INIMIGO DO PLANETA

 

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Byung-Chul Han

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Entrevistas

Com Jacques Attali

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