CARTA DE BRAGA – “da história e de um comissário” por António Oliveira

Sempre li, ouvi, me ensinaram e até concordo, que a história é a dos vencedores, mas contada à maneira deles. 

São demasiados os exemplos desta afirmação, mas por me ser bem próximo, só consegui saber alguma coisa da História dos povos angolanos, depois de ter acesso livre e aberto a pessoas e instituições que a estudavam e contavam a quem a quisesse saber, sem preconceitos, com a humildade de quem quer aprender, para melhor conhecer as gentes e o lugar onde vivia então. 

E aprendi, melhor, confirmei que, apesar de tudo, também existe sempre algum maniqueísmo na forma de contar, por não ser fácil isolar os ‘bons’ e os ‘maus’, até porque, como dizia Einstein, ‘É mais fácil desintegrar um átomo que um preconceito’. 

E também lembro Victor Hugo, o grande escritor francês, por ter deixado escrito ‘É fácil ser bom, o difícil é ser justo!’ 

E, a propósito, deixou escrita uma estória simples passada com ele, uma das vozes mais críticas do que chamou o atentado de Napoleão III à constituição, depois de o ter apoiado, veemente, na sua candidatura a presidente da república. E, quando o comissário a quem foi ordenado que o prendesse, se apresentou em sua casa, ouviu-o dizer: ‘Monsieur Hugo, não o prendo porque só o faço a gente perigosa!’. 

O escritor nunca esclareceu se o comissário agiu por bondade ou por justiça, mas a ter em conta e sentença condenatória, que considerava a hipótese de ele poder fugir, teria sido uma atitude de serenidade e moderação, que lhe permitiu sair de França para se exilar, primeiro em Bruxelas e depois em Inglaterra. 

Privilégio dos tempos, porque hoje haveria ‘manhas’, câmaras e holofotes, procuradores, juízes, advogados e montes de comentadeiros a ‘presenciar’ tudo, até pela vida algo desregrada que aquele escritor, filho de conde, académico e diplomata, fazia havia já alguns anos, mas do tal comissário que o iria prender, ninguém sabe ou quer saber, nem nome nem destino! 

Mas a estória contada por Victor Hugo tem tudo para confirmar a ideia de Kant, de os seres humanos terem uma propensão inata para a sociabilidade, propensão essa que também deveria garantir o progresso moral da sociedade, aparentemente prejudicada por tudo o que temos visto nos últimos anos, aquele engano a que a modernidade que temos chama ‘fake’, o autoengano, a ‘elaboração’ de imagens, a desvinculação de factos e personagens, mais a ideologização sequente, através do paupérrimo discurso difundido pelas redes sociais. 

Kant, que até nem é jogador de futebol nem actor da Netflix, reconheceu, há mais de duzentos anos, que a paixão pode ser um obstáculo à liberdade, porque as paixões actuam sobre o sujeito como uma espécie de tirania, só neutralizável pela autonomia moral, construída sobre a razão, pois o leva a pensar no lugar do outro através da comunicação (obviamente sem as tais redes que ainda nem havia!), para evitar atitudes anti-sociais. 

Aliás, Diogo Pires Aurélio, ex-jornalista, professor, filósofo e escritor, afirma categórico, a propósito da mediação sem a qual não há comunicação, ‘A perversidade está no facto de as redes sociais porem em causa, não só a própria credibilidade, como a expansão dos meios de comunicação. Transformaram-se num concorrente, na medida em que a maioria das pessoas os coloca em pé de igualdade’.

Isto quer dizer que há mais informação, mas equalizam-se os foros para a tratarem e a grande massa vê tudo por igual, razão para aparecerem trumpasboçalnaros e outras abencerragens que, enquanto vencedores, contam a história à sua maneira, quando e se a sabem contar, mas sempre arranjam seguidores. 

De qualquer modo, desaparece a liberdade de informação, quando o equilíbrio entre os que participam em tais foros, fica desproporcionado a favor do governo ou do partido de turno, mandando verdadeiramente por serem eles a escolher a lista dos participantes e, aí, muita coisa haveria para dizer, pois manipular os meios de informação, a favor de uma qualquer causa pública ou política, é o mesmo que plantar muros e divisões na sociedade e entorpecer o progresso de toda a gente. 

E, depois, agora até temos uma pandemia para durar e, nas palavras de Hervé Le Tellier, último Prémio Goncourt, ‘somos seres que negam as evidências de forma natural. Sabemos que vamos morrer, mas toda a nossa estrutura mental está feita para o esquecermos, pois sem negação não haveria civilização’.

E aplicando isso à pandemia, acrescenta ‘quando tudo terminar, voltaremos à vida de antes, vamos esquecer tudo sem tirar lição alguma, aliás o mesmo com a alteração do clima, ignoramo-la, tal como a nossa morte e nada se passa’.

E não há maneira de saber o que aconteceu ao tal comissário, o que só prendia gente perigosa! 

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

 

1 Comment

  1. Ena, amigo, o teu remate é fulgurante!Na verdade, que apreça o Comissário!
    Como percebes, nem sempre ando em dia com as tuas CARTAS, mas este bocadinho que reservo para momentos muito meus, é -me saboroso, apetevcível e sempre…pedagógico!
    Obrigada, António, por disponibilizares os teus pensamentos e saberes…Não tens e não aceitas cabeças formatadas…Bem hajas!!
    Já agora, deixa-me dizer-te que ri quando li termo “comentadeiro”! NADA MELHOR!é o que nos resta!Foram-se os verdadeiros comentadores e jornalistas de estatura e ficaram as guerrilhas dos comentadeiros… 🙂
    Um grande abraço! CL

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