AS COMEMORAÇÕES CAMONIANAS E A PROCLAMAÇÃO DA REPÚBLICA – por CARLOS LOURES

“As Comemorações Camonianas e a proclamação da República”  resulta da fusão de dois textos que o Carlos Loures publicou no Estrolábio em 24 de Maio e 10 de Junho de 2010, a propósito do centenário da República. Peço-lhe desculpa por fazer esta republicação sem a sua autorização prévia. Ao fim deste texto os leitores poderão encontrar os links para os originais.   

Não queremos deixar de assinalar a passagem do centésimo aniversário da proclamação da República e, assim, vamos dedicar a esse importante acontecimento da nossa História contemporânea alguns textos. Cada um deles focará um acontecimento que, na nossa opinião, tenha contribuído para a queda do regime monárquico.

De notar, que estes despretensiosos flashes não pretendem substituir a abundante bibliografia que existe sobre o assunto. Na sua maior parte, obras concebidas por pessoas que dedicaram as suas vidas a investigar o período histórico que abordam. Estes textos, cuja informação foi muitas vezes colhida nessas obras de referência, procuram despertar o interesse pelos temas abordados e levar a ler alguns livros fundamentais. Não são monumentos, mas sim modestas tabuletas que a eles pretendem conduzir. Um dos textos futuros, o último, será dedicado à enumeração das principais obras que consultei. Eis então alguns dados.

Um dos primeiros defensores da instauração da República em Portugal foi o jornalista, escritor e político, José Félix Henriques Nogueira (1825-1858). Nos seus textos defendia o republicanismo e o socialismo. Expondo as suas teses sobre a instauração de um regime republicano, o municipalismo, o federalismo e o associativismo, escreveu artigos para jornais – Eco dos Operários (1851), Revolução de Setembro (1852), sendo fundador do Almanaque Democrático (1852-1855). Publicou a obra Estudos sobre a Reforma em Portugal (1852). Fundou em 1854, o jornal Progresso, que se ocupava de política e questões económicas. Natural de Torres Vedras, Henriques Nogueira morreu com apenas 33 anos. Defensor do associativismo, do cooperativismo e do iberismo, precursor da República e adepto do socialismo inspirado em homens como Charles Fourier, Louis Blanc ou Proudhon. É, por alguns historiadores considerado como um dos primeiros teóricos do ideal republicano.

Numa fase posterior e num patamar intelectual mais elevado, surge outra figura importante na construção de uma filosofia republicana – Joaquim Pedro de Oliveira Martins (1845-1894). Oliveira Martins avaliou a vida política nacional e as suas insuficiências no ponto de vista da relação entre os políticos e a sociedade civil e sobretudo das limitações da opinião pública (no que tinha toda a razão). Foi, sem dúvida, mesmo quando não formalmente, o grande mestre do pensamento liberal português, na segunda metade do século XIX, interpretando o socialismo de Proudhon numa acepção autoritária. O seu pensamento teve grande influência na evolução da historiografia portuguesa.

Em 10 de Janeiro de 1875, no reinado de D. Luís, fundava-se o Partido Socialista Português (Partido Operário Socialista). José Fontana, Azedo Gneco, Antero de Quental, figuravam entre os seus fundadores. O Partido surgia na sequência das decisões do Congresso de Haia da AIT – Associação Internacional de Trabalhadores. Entre as medidas preconizadas, incluía-se a «abolição do Estado em todas as suas formas históricas» e a preparação para o advento da «República Social».

Em 25 de Abril de 1876, foi criado em Lisboa o Centro Eleitoral Republicano Democrático, onde se juntavam diversas sensibilidades do ideal republicano. No seguimento deste processo, eleger-se-ia o Directório do Partido Republicano. Alguns historiadores consideram que este foi o primeiro passo para a constituição do Partido Republicano, formado em 7 de Setembro 1875. Resultando do Pacto da Granja, nele se fundiram o Partido Reformista e o Partido Histórico, movimentos que, desde 1871, encabeçavam a oposição ao governo regenerador de Fontes Pereira de Melo. O espírito que presidia a esta nova formação política era o da tradição «setembrista», designação para os ideais da Revolução de Setembro de 1836 – digamos que o setembrismo era constituído pela esquerda democrática do liberalismo triunfante da Guerra Civil.

Em 1878, nas eleições de Outubro, o Partido Republicano apresentou-se pela primeira vez ao eleitorado, conseguindo eleger o deputado Rodrigues de Freitas pelo círculo do Porto. Em 2 de Janeiro de 1879, mercê das divergências existentes no seio do Centro Republicano Democrático, foi criado o Centro Republicano Federal.

Porém, seria em 1880, durante as comemorações do tricentenário da morte de Camões, que as instituições republicanas e o movimento ganhariam grande impulso e implantação entre a população. Principalmente o cortejo cívico que atravessou a capital no meio de grande entusiasmo popular. A trasladação dos restos mortais de Camões e de Vasco da Gama para os Jerónimos, foram outro momento alto das comemorações, não esquecendo as luminárias.

A presença de republicanos na comissão organizadora – Teófilo Braga, Magalhães Lima, Batalha Reis, entre outros, e o envolvimento do próprio Partido Republicano na iniciativa, marca a passagem do republicanismo das salas de reuniões, para as ruas; da discussão entre gente bem pensante, saltou para o meio do povo onde o ideal foi apreendido nas suas linhas gerais, baseado em oratórias geralmente simplificadoras e demagógicas (80% da população era analfabeta).

Essa compreensão básica e linear da ideia republicana, vendo-a como solução para todos os problemas nacionais, motivou, proclamada a República, a desilusão traduzida em revoltas, motins e em golpes militares sucessivos, que acabaram por destruir a I República e conduzir à ditadura. Mas não nos antecipemos. Por hoje, quedamo-nos em 1880.

Hoje, dia de Camões, julgo oportuno lembrar o importante papel que as comemorações do tricentenário da morte do poeta, realizadas em 1880, tiveram na marcha para a proclamação da República trinta anos depois. Vejamos, em síntese, o que aconteceu nos anos precedentes.

Em 10 de Janeiro de 1875, no reinado de D. Luís, fundara-se o Partido Socialista Português (Partido Operário Socialista), figurando entre os seus fundadores nomes prestigiosos como os de José Fontana, Azedo Gneco, Antero de Quental. O Partido surgiu na sequência das decisões do Congresso de Haia da AIT – Associação Internacional de Trabalhadores.

Em França, a vitória dos republicanos nas eleições de 26 de Fevereiro de 1876, deu sinal de que a restauração da monarquia estava comprometida. Em Portugal, essa vitória deu grande alento aos que pretendiam derrubar o regime monárquico. Num banquete, em que estiveram presentes representantes das diversas tendências do republicanismo, festejou-se a vitória em França.

Em 25 de Abril de 1876, foi criado em Lisboa o Centro Eleitoral Republicano Democrático, onde se juntavam diversas sensibilidades. No seguimento deste processo, eleger-se-ia o Directório do Partido Republicano. Há historiadores que consideram ter sido este o primeiro passo para a constituição do Partido Republicano, formado em 7 de Setembro 1876. Resultando do Pacto da Granja, nele se fundiram o Partido Reformista e o Partido Histórico, que, desde 1871, encabeçavam a oposição ao governo regenerador de Fontes Pereira de Melo.

Em 1878, nas eleições de Outubro, o Partido Republicano apresentou-se pela primeira vez ao eleitorado, conseguindo eleger o deputado Rodrigues de Freitas pelo círculo do Porto. Em 2 de Janeiro de 1879, mercê das divergências existentes no seio do Centro Republicano Democrático, foi criado o Centro Republicano Federal.

E chegamos a 1880. Seria durante as comemorações do tricentenário da morte de Camões, que o movimento ganharia grande impulso e implantação. A presença de republicanos ilustres na comissão organizadora – Teófilo Braga, Magalhães Lima, Batalha Reis…,e o envolvimento do Partido Republicano na iniciativa, permitiu que o ideal se difundisse entre o povo. Ideal que foi apreendido de forma simplista, baseado em oratórias demagógicas. O rei D. Luís e o partido Progressista, então no Governo, entenderam que estando os festejos partidarizados, mais valia ignorá-los. Um erro grave. Aos olhos do povo os republicanos começaram a surgir como zelando pelos valores históricos, enquanto o rei e os monárquicos os desprezavam ostensivamente. Ideia que se acentuou em 1890 quando foram os republicanos a assumir as grandes manifestações de desagravo pelo insultuoso Ultimato britânico.

Foi o tricentenário de Camões a dar a primeira oportunidade de protagonismo ao PRP, que então revelou uma grande vitalidade e capacidade organizativa. Principalmente o cortejo cívico que atravessou a capital no meio de grande entusiasmo popular. A trasladação dos restos mortais de Camões e de Vasco da Gama para os Jerónimos, foram outro momento, bem como as luminárias. Os republicanos, mercê de uma inteligente demagogia, apareceram aos olhos da maioria do povo como defensores dos valores históricos da Pátria. A República parecia ser a solução para todos os males do País.

Os dados estavam lançados.

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Para aceder aos originais, publicados no Estrolabio, cliquem em:

O centenário da República – 1 – Estrolabio (sapo.pt) 24 de Maio 2010

As comemorações camonianas – o centenário da República-2 – Estrolabio (sapo.pt) 10 de Junho

 

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