Tempos de pandemia, de disfuncionamento da justiça, de disfuncionamento dos mercados, de apostas selvagens em Wall Street – 1. QUESTÕES AOS MERCADOS: 1.8 “Ficções financeiras: as antigas”. Por Michael Roberts

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

 

1.8 “Ficções financeiras: as antigas”

Por Michael Roberts

Publicado por The Next Recession  em 03/04/2021 (ver aqui)

 

Devo fazer uma declaração de interesses. Há muito tempo, há muitas luas atrás, trabalhei para uma consultoria de investimento que aconselhou Bill Hwang, o proprietário da Archegos, o fundo de cobertura do “escritório familiar” que recentemente entrou em colapso, deixando 20 mil milhões de dólares devidos a dois grandes bancos, Credit Suisse e Nomura.

Biil Wang

Hwang era então um “jovem Tigre”, alguém que o veterano gestor do fundo de cobertura Julian Robertson, do fundo de cobertura pioneiro Tiger, favoreceu disponibilizando-lhe “capital de investimento inicial”. Depois de deixar o fundo Tiger, Hwang conseguiu, em 2001, trabalhando por conta própria, um grande sucesso. Mas depois houve o primeiro escândalo quando, em 2013, Hwang foi impedido de investir nos EUA. As autoridades alegaram que, como parte de um esquema de negociação de informação privilegiada, o seu fundo de cobertura Tiger Asia Management tinha violado as promessas feitas a alguns dos bancos de investimento mais poderosos do mundo.

Mas não importa, Hwang, filho de um pastor e profundamente religioso, logo se reinventou para fazer a “obra de Deus” na especulação financeira. Hwang atribuiu à sua fé o mérito na superação dos tempos difíceis. Após o desaparecimento do Tiger Asia, ele disse que tinha escutado gravações da Bíblia durante horas.

Ao receber a palavra de Deus, ele criou o que se chama um “escritório familiar de gestão patrimonial “, a Archegos Capital Management, e acabou por construir as suas posições comerciais, chegando às dezenas de milhares de milhões de dólares com os bancos de Wall Street, incluindo alguns daqueles com quem a sua antiga firma foi acusada de fazer batota. A queda de Hwang ocorreu na semana passada, quando não conseguiu fazer face a chamadas de margem sobre transações de derivados, conhecidas como equity swaps, que ele tinha conseguido com vários bancos de investimento. Estes instrumentos davam aos especuladores a opção de ganhar com as posições de ações sem terem de ser os proprietários das ações subjacentes. Como Marx disse há cerca de 150 anos atrás em Capital, “O lucro pode ser feito puramente da negociação de uma variedade de créditos financeiros existentes apenas em papel…. De facto, o lucro pode ser feito apenas através da utilização de capital emprestado para se envolver em transações (especulativas), não apoiadas por qualquer ativo tangível“.

Parece que Hwang tinha contraído empréstimos em milhares de milhões de swaps de diferentes bancos para maximizar a sua “alavancagem” em apostas na bolsa, sem dizer a cada banco quanto tinha pedido emprestado. A derrocada da Archegos Capital expôs os riscos ocultos do lucrativo mas opaco negócio de derivados de ações, através do qual os bancos permitem que os fundos de cobertura façam enormes apostas em ações e ativos relacionados. “Temos um problema fundamental no relato de participações de capital sintético que não é segredo nenhum e não é novo“, disse Tyler Gellasch, antigo funcionário da SEC e diretor executivo da Healthy Markets, um grupo de advocacia. “Se existem cinco bancos diferentes que fornecem financiamento a um único cliente, cada banco pode não o conhecer, e pode, em vez disso, pensar que pode vender a sua exposição a outro banco se eles se depararem com problemas – mas não podem, porque esses bancos já estão expostos”.

Quando as apostas da Archegos desceram, Hwang não conseguiu cumprir os seus compromissos com estes bancos e vários ficaram com o bebé nos braços. Como disse Marx em Capital, “Em cada escroqueria na bolsa, todos sabem que mais cedo ou mais tarde a queda virá mas todos esperam que possa cair sobre a cabeça do seu vizinho, depois de ele próprio ter apanhado a chuva de ouro caída do céu e de o ter posto em segurança”. Neste caso, Goldman Sachs e Morgan Stanley livraram-se primeiro de Whang, mas o Credit Suisse e Nomura não.

A história de Archegos é um colapso financeiro de estilo antigo. Sim, o instrumento financeiro envolvido, derivados de swaps de ações, é uma nova forma de ativo financeiro (ou aquilo a que Marx chamou ‘capital fictício’), inventada nos últimos 25 anos. E a criação de um “escritório familiar”, que não está sujeito aos mesmos regulamentos financeiros (como o estão) que os fundos de cobertura modernos tornou-se uma nova forma de evitar o escrutínio. Os fundos de cobertura são veículos financeiros especulativos basicamente para apostar (na sua maioria com dinheiro emprestado) no movimento dos preços das ações, obrigações, mercadorias, e nos “derivados” destes ad infinitum. As empresas de apostas quando fazem publicidade na televisão devem continuar a dizer “por favor aposte com responsabilidade”, como exigem os reguladores (com pouco efeito, é claro).  Mas com ‘escritórios familiares’, normalmente financiados por mega-fortunas familiares globais, é ainda pior. Não há quaisquer controlos ou avisos.

Num relatório publicado há um ano, a escola de negócios Insead observou que o número de gabinetes de gestão patrimonial de uma só família tinha aumentado em 38% entre 2017 e 2019, para atingir mais de 7.000. Os ativos sob gestão situavam-se em cerca de $5,9 milhões de milhões em 2019, segundo estima o relatório. Isto compara -se com $3,6 milhões de milhões na indústria global de fundos de cobertura, de acordo com o HFR. Estes “escritórios familiares” podem fazer o que quiserem com os seus ativos, sem regulamentação. As famílias ricas colocam uma parte crescente da sua riqueza neste tipo de estruturas. Em média, controlam ativos no valor de 1,6 mil milhões de dólares cada, de acordo com outro estudo de 2020 do UBS, e um punhado deles pode estender-se a centenas de milhares de milhões de dólares. Tipicamente, cada escritório familiar tem dois ou três escritórios, muitas vezes em centros como Singapura, Luxemburgo e Londres. De acordo com o relatório do Insead, os chefes executivos recebem algo na ordem de 335.000 dólares por ano.

No exemplo Archegos, parece que apenas os mega bancos de investimento sofreram e não o homem e a mulher na rua. Por isso, talvez não tenhamos qualquer simpatia por eles.  Mas indiretamente, todos somos atingidos porque os bancos estão a utilizar fundos, também muitas vezes emprestados, para especular desta forma em vez de fornecerem um serviço bancário adequado às pessoas.  Os bancos emprestam com condições rigorosas sobre hipotecas ou empréstimos a pequenas empresas, mas parece que sem qualquer controlo, como é o caso da Archegos, onde os bancos podem ganhar muito dinheiro se tudo correr bem. Mas como disse um operador sobre derivados de ações, os swaps de retorno total sobre ações são “um caso clássico de apanhar moedas em frente de um rolo compressor… Pode-se apanhar essas moedas todo o dia. Aquele rolo compressor move-se muito lentamente. Mas se tropeçares, rapaz, és atropelado“.

Neil Woodford

No caso do escândalo financeiro Woodford no Reino Unido, as pessoas do “mundo real” foram atingidas.  Há mais de 18 meses [Junho de 2019] que a implosão do negócio do fundo de investimento de Neil Woodford desencadeou o maior escândalo de investimento britânico durante numa década. Mais de 300.000 indivíduos que confiaram as suas poupanças, duramente ganhas, ao famoso “catador de ações” ainda estão à espera de recuperar o dinheiro. Muitos tiveram de adiar a passagem à reforma depois de terem perdido dezenas de milhares de libras. A Autoridade de Conduta Financeira do Reino Unido, o suposto regulador financeiro, falhou miseravelmente em detetar o desastre de Woodford. Woodford foi em tempos elogiado como “o homem que não consegue parar de ganhar dinheiro” e como “o Warren Buffett britânico“. Mas o grande especulador de ações foi forçado a suspender a negociação no seu fundo de rendimento de ações de 3,7 mil milhões de libras esterlinas, depois de não ter conseguido lidar com um surto de investidores que reclamaram o seu dinheiro.  Os investidores podem perder até £1 milhar de milhões – mais de um quarto do valor do fundo em suspensão.

Depois há o Greensill. Este foi um banco de tecnologia financeira [‘fintech’] criado pelo antigo executivo do Morgan Stanley e do Citibank, Lex Greensill. Especializou-se em “financiamento da cadeia de abastecimento”, ou seja, ou seja, na compra de faturas de empresas com dívidas de fornecedores estrangeiros com desconto, para posteriormente cobrar as dívidas com lucro. Faz o que se chama financiamento por “factoring inverso”, por contraponto ao financiamento por factoring,

Nota de tradutor:

Vejamos o significado dos conceitos de factoring e factoring inverso

A)  O que é o Factoring?

Factoring é um mecanismo financeiro, colocado à disposição das empresas com dificuldades de gestão da sua tesouraria, que consiste na aquisição de créditos de curto prazo (faturas), resultantes do fornecimento de bens ou serviços, permitindo uma liquidez imediata. Este processo encontra-se enquadrado no Decreto-Lei nº 171/95 de 18 de Julho que regula as Sociedades de Factoring e o Contrato de Factoring. O Factoring é uma operação financeira realizada por bancos ou sociedades de factoring que permite às empresas aumentar a sua liquidez através de um adiantamento do pagamento dos seus clientes, num funcionamento idêntico a um crédito.

Num contrato de factoring, podemos encontrar três intervenientes:

    • Factor – entidade a quem é cedido o crédito;
    • Aderente – a empresa que requer os serviços;
    • Devedor – o Cliente do aderente

Conhecidos os intervenientes deste processo, podemos resumir o Factoring como uma atividade que consiste na cedência dos créditos comerciais de curto prazo por parte de uma empresa (Aderente), a uma instituição financeira (Factor) referente às vendas a crédito realizadas aos seus clientes (Devedores).

Quem é o Fator?

O Fator é uma entidade financeira que age como intermediária neste processo. Ou seja, o Fator aceita pagar ao Aderente o valor da fatura do Devedor onde subtrai um valor de comissão e taxas. Embora não receba o valor na totalidade, o Aderente consegue assim antecipar o recebimento do valor das faturas em dívida, permitindo alcançar mais rapidamente liquidez.

B)  O que é o Factoring inverso?

O factoring inverso é um tipo de solução de financiamento de fornecedores que as empresas podem utilizar para oferecer pagamentos antecipados aos seus fornecedores com base em faturas aprovadas. Os fornecedores que participam num programa de factoring inverso podem solicitar o pagamento antecipado de faturas ao banco ou outro fornecedor financeiro, com o comprador a enviar o pagamento para a instituição financeira na data de vencimento da fatura. Ao dar aos fornecedores acesso ao factoring inverso, os compradores podem reduzir o risco de perturbação nas suas cadeias de fornecimento e reforçar as suas relações com os fornecedores, ao mesmo tempo que melhoram a sua própria posição de capital de exploração.

O factoring inverso é também amplamente conhecido como financiamento da cadeia de abastecimento, embora o termo “financiamento da cadeia de abastecimento” seja também ocasionalmente utilizado como um termo de enquadramento para incluir uma gama de soluções de financiamento de fornecedores.

O termo “factoring inverso” diferencia esta forma de financiamento do factoring, outro tipo de financiamento de créditos em que uma empresa vende as suas faturas a um fator com desconto. Os clientes da empresa enviarão então o pagamento das suas faturas para a empresa de factoring.

Com uma solução de factoring invertido, o programa é iniciado não pelo fornecedor, mas pela empresa que compra bens ou serviços (o comprador). Consequentemente, a taxa de juro cobrada pela instituição financeira é baseada na classificação de crédito do comprador em vez da do fornecedor, o que normalmente resulta num custo de financiamento mais baixo do que o fornecedor poderia obter de outra forma.

O factoring inverso pode incluir programas fornecidos por um único banco, bem como plataformas que permitem a várias instituições financeiras diferentes oferecer financiamento.

Ao implementar um programa de factoring inverso, uma consideração importante é o tratamento contabilístico: as empresas terão de se certificar de que o programa é classificado como uma solução extrapatrimonial e não como dívida bancária.

Como funciona o factoring inverso? Há uma série de etapas no processo:

1.       O comprador compra bens ou serviços ao fornecedor

2.       O fornecedor carrega uma fatura para a plataforma de factoring inverso, com pagamento devido numa data futura

3.       O comprador aprova a fatura

4.       O fornecedor solicita o pagamento antecipado na fatura

5.       O fornecedor recebe o pagamento, menos uma pequena taxa

6.       O comprador envia o pagamento para o financiador na data de vencimento

O financiamento da cadeia de abastecimento acelera as transações num mercado global em rápida evolução. Mas isto coloca o ónus do pagamento sobre o fator, o financiador, que no nosso caso é a Greensill.

 

A inovação revolucionária da Lex Greensill foi dar um passo em frente para concretizar e agrupar estas faturas em fundos de investimento a serem vendidos aos bancos – tal como os grandes bancos de investimento transformaram as hipotecas subprime em títulos antes da crise financeira de 2008.

Sanjeev Gupta

A Greensill também aceitou depósitos de empresas e autarquias locais para investir na sua operação aparentemente lucrativa, oferecendo taxas elevadas e encontrando fundos e empréstimos para clientes quando os grandes bancos não emprestassem. A empresa prosperou rapidamente e assumiu a exposição em empréstimos no valor de 143 mil milhões de dólares até 2019 com dez milhões de clientes. Em particular, financiou o magnata dos metais Sanjeev Gupta, que detém a terceira maior empresa siderúrgica do Reino Unido.

Mas a Greenshill faliu porque já não conseguia encontrar financiamento suficiente para os seus compromissos de empréstimo em constante expansão e taxas de depósito elevadas. Os trabalhadores siderúrgicos de Gupta poderiam agora perder os seus empregos e as autarquias locais alemãs poderiam levar um golpe de 500 milhões de dólares.

O escândalo continua a desenrolar-se, pois parece que a Greensill nunca teve financiamento suficiente para assumir as enormes responsabilidades (dívidas) que as empresas siderúrgicas de Gupta tinham. Pior, também parece que as empresas de Gupta estavam a utilizar faturas para contrair empréstimos da Greensill que foram emitidas por outras partes do complexo empresarial – por outras palavras, apresentando receitas potenciais como garantia à Greensill que eram realmente dívidas de outras partes da empresa! Entretanto, o grupo de Gupta estava a receber empréstimos de emergência do Covid apoiados pelo Estado, para fazer face aos seus negócios durante a pandemia. Assim, Gupta completou a compra de uma casa em Londres no valor de 42 milhões de libras esterlinas. Crê-se que Gupta se encontre agora no Dubai. O governo do Reino Unido sob a liderança de Boris Johnson pode muito bem ser forçado a “nacionalizar” a Liberty Steel de Gupta para salvar o negócio. Elaborou um plano de contingência para gerir a Liberty Steel utilizando dinheiro público enquanto procurava um comprador. Assim, esta derrocada financeira será resolvida com o público britânico a pagar, à semelhança da forma como o Tesouro apoiou a British Steel em 2019, com um custo para os contribuintes de quase 600 milhões de libras esterlinas.

Portanto, nada mudou desde quando Marx escreveu sobre “uma nova aristocracia financeira, uma nova variedade de parasitas sob a forma de promotores, especuladores e simplesmente diretores nominais; todo um sistema de fraude e burla através da promoção de empresas, emissão de ações, e especulação de ações“.

Na ascensão das finanças, “desaparecem todos os padrões de medida, todas as desculpas mais ou menos ainda justificadas sob a produção capitalista”. …. uma vez que aqui existe propriedade sob a forma de títulos, o seu movimento e transferência tornam-se puramente resultado do jogo na bolsa de valores, onde os pequenos peixes são engolidos pelos tubarões e os cordeiros pelos lobos da bolsa de valores.

O que é novo são as formas destas vigarices. Tem havido um enorme aumento no que é chamado a “banca sombra”, ou seja, empréstimos e financiamento por não bancos (NBFI), que se expandiu enormemente desde o fim da Grande Crise Financeira e é agora quase metade de todos os “ativos” financeiros. O nosso novo moralista financeiro, o antigo governador do Banco de Inglaterra, Mark Carney, adverte que: “mais de 20 mil milhões de libras esterlinas de ativos são detidos em fundos que prometem liquidez diária aos investidores apesar de investirem em ativos subjacentes potencialmente ilíquidos“. Carney considera que fundos como os geridos pelo desgraçado gestor Neil Woodford “são construídos sobre uma mentira e podem constituir uma ameaça para a economia global. Estes fundos estão a deter ativos que são difíceis de vender à pressa – ao mesmo tempo que permitem aos investidores retirar o seu dinheiro a pedido – são um risco crescente para o sistema financeiro“.

https://www.fsb.org/…/global-monitoring-report-on-non…/

 

Voltemos de novo a Marx. “As duas características imanentes no sistema de crédito são, por um lado, desenvolver o incentivo da produção capitalista, desde o enriquecimento através da exploração do trabalho dos outros, até à mais pura e colossal forma de jogo e burla“. Assim, o sector financeiro prossegue tal como antes, envolvendo-se em especulação e os reguladores não podem impedi-los, e não os impedem.

À medida que os mercados bolsistas mundiais atingem novos máximos de sempre e os bancos centrais continuam a fornecer quase ilimitadamente dinheiro de crédito ao sector financeiro, na segunda parte desta discussão sobre colapsos financeiros, passarei em revista algumas novas ficções financeiras e o seu inevitável disfuncionamento e colapso.


O autor: Michael Roberts [1938-], economista britânico marxista. Trabalhou durante mais de 30 anos como analista económico na City de Londres. É editor do blog The next recession. Publicou, entre outros ensaios, Marx200: a Review of Marx’s economics 200 years after his birth (2018), The long Depression: Marxism and The Global Crisis of Capitalism (2016), The Great recession: a Marxist view (2009).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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