Tempos de pandemia, de disfuncionamento da justiça, de disfuncionamento dos mercados, de apostas selvagens em Wall Street – 2. GREENSILL E A DESREGULAÇÃO DOS MERCADOS GLOBAIS : 2.12 Documentos apresentados mostram que a financeira-tecnológica Earnd, propriedade da Greensil, deve dinheiro a uma ex-Secretária do Interior e a uma ex-conselheira de Theresa May. Por Callum Burroughs e Shona Ghosh

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

 

2.12 Documentos apresentados mostram que a financeira-tecnológica Earnd [1], propriedade da Greensil, deve dinheiro a uma ex-Secretária do Interior e a uma ex-conselheira de Theresa May

 Por Callum Burroughs e  Shona Ghosh

Publicado por em 15/04/2021 (ver aqui)

 

A empresa falida, a financeira-tecnológica Earnd deve dinheiro ao ex-Ministro do Interior David Blunkett e a um ex-conselheiro de Theresa May.

A Earnd entrou para a administração no mês passado, após o colapso da firma mãe, a Greensill Capital.

Os documentos apresentados mostram que, tal como a Greensill Capital, a Earnd também tinha no seu redil conselheiros de alto nível.

 

Earnd, a empresa financeira-tecnológica pertencente à cadeia de fornecimento atingida pelo escândalo financeiro, Greensill Capital, deve milhões de libras à sua empresa-mãe, bem como deve também ao antigo Ministro do Interior David Blunkett, e à “unidade de toque”, Behavioural Insights Ltd, uma instituição criada sob a direção de David Cameron para aplicação das ciências comportamentais à politica, criada sob a direcção do antigo Primeiro-Ministro David Cameron. Isto é o que revelam os documentos

Também deve milhares de libras a uma ex-conselheiro de Theresa May.

A Earnd fez uma parceria com organizações para dar aos empregados acesso antecipado aos seus salários. Os seus clientes incluíam o retalhista  de material desportivo, JD Sports, e os trusts [2] do Serviço Nacional de Saúde.

Entrou para a administração sedeada no Reino Unido em Março, quando o seu proprietário, a Greensill Capital, escandalosamente entrou em colapso, privando a Earnd de fundos. Cerca de 30 empregados foram despedidos.

A administração no Reino Unido do ponto de vista das falências funciona aproximadamente de forma equivalente à Administração americana no seu Capítulo 11 de insolvências, com os administradores nomeados – Grant Thornton neste caso – a tentarem vender a empresa ou os seus ativos para pagar aos vários credores. Tal como está, Grant Thornton propôs a liquidação voluntária.

Documentos  apersentados  na quarta-feira mostram que a entidade britânica Earnd deve mais de £2.000 ($2.800) a David Blunkett, antigo Ministro do Interior do Reino Unido e agora membro da Câmara dos Lordes. Blunkett foi nomeado conselheiro da Earnd em Setembro de 2020 até Fevereiro deste ano.

Lord Blunkett recusou-se a comentar para além de afirmar que não tinha quaisquer relações com a Greensill Capital nem com o seu fundador Lex Greensill.

Segundo os documentos a Earnd também deve £18.330 ($25.000) à Behavioural Insights Ltd, a “unidade de toque” criada pelo governo do ex-Primeiro Ministro David Cameron em 2010 e que se transformou numa empresa independente em 2014. A unidade foi formada em 2010, numa tentativa de aplicar a economia comportamental às políticas públicas.

A Behavioral Insights não respondeu imediatamente a um pedido de comentários.

Cameron enfrenta actualmente uma investigação conduzida pelo governo do Reino Unido pelo seu papel, após ser primeiro ministro, de conselheiro remunerado e lobista da Greensill Capital. O Wall Street Journal relatou na terça-feira que Cameron foi encarregado de enviar um e-mail a potenciais clientes da Earnd para lançar o seu negócio de acesso antecipado aos salários. O Times também relatou que Cameron tinha tido uma reunião à volta de um copo  com o Ministro da Saúde Matt Hancock em Outubro de 2019, após a qual Earnd foi lançado em algumas partes do SNS – sem abertura de concurso.

Outro credor da Earnd citado  nos documentos é Mat Ilic, um antigo conselheiro especial da ex-Primeira-Ministra Theresa May. De acordo com os documentos da administração, a Ilic são devidas £4.167 ($5.700). Um comunicado de imprensa de Novembro de 2020 cita Ilic como membro do conselho consultivo de Earnd, juntamente com Lord Blunkett.

Ilic disse a Insider, através de um representante, que se juntou ao conselho consultivo da Earnd em Agosto passado, com um compromisso de seis dias de trabalho por ano e com um “honorário”, ou comissão nominal. Ele deixou de trabalhar com a Earnd em Dezembro.

Ilic acrescentou que se encontrou uma vez com Lex Greensill durante a reunião inaugural do conselho.

As maiores dívidas da Earnd são à sua empresa-mãe Greensill Capital e uma filial, com £4 milhões devidos à Greensill Capital e mais £6,2 milhões à Greensill Capital Management, um total de £10,2 milhões ($14 milhões).

A Earnd, anteriormente Freeup Finance no Reino Unido, foi comprada pela Greensill Capital por um valor estimado de £20 milhões em 2019. Os documentos da administração indicam que a Wagestream, outra empresa financeira especializada em  facilidades de crédito sobre salários, adquiriu o ramo australiano da Earnd por apenas £86.090 ($119.000).

A Greensill Capital não respondeu a um pedido de comentário.

 

O desaparecimento da Greensill colocou a actividade de lobby sob escrutínio

 

O desaparecimento da Greensill Capital colocou a indústria até agora obscura da cadeia de abastecimento sob as luzes da ribalta.

Também trouxe um escrutínio adicional à questão de antigos políticos de alto nível que pressionavam os governos em nome de empresas privadas. Tal como a sua empresa-mãe, a Earnd beneficiou de conselheiros com ligações políticas de alto nível, com os seus outros membros do conselho consultivo, como Dame Louise Casey, e uma outra antiga conselheira do Primeiro-ministro, Ruth Turner.

O financiamento da cadeia de abastecimento envolve uma empresa – como a Greensill – que assume as dívidas de um fornecedor através das suas facturas aprovadas. O fornecedor é pago mais rapidamente, mas com desconto ou a título oneroso. O fornecedor desse finjanciamnento sobre faturas  eventualmente  recupera do comprador o montante total da factura.

Contudo, a Greensill fez pagamentos a clientes com base em facturas futuras previstas – considerada uma estratégia mais arriscada. A empresa entrou em colapso após ter efectuado pagamentos baseados em facturas que não se materializaram ou, de acordo com o Financial Times, não puderam ser comprovadas. Em Março, o seu credor Credit Suisse suspendeu 10 mil milhões de dólares em fundos, cortando uma fonte de financiamento chave, informou o Financial Times. E em Maio passado, vários clientes importantes da Greensill entraram em incumprimento, informou também o FT.

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Notas

[1] N.T. Empresa que presta um serviço financeiro aos empregados, na sua maioria com salários baixos ou pagos à hora, que consiste em antecipar alguma parte do salário já acumulado antes do fim do ciclo de pagamento. (ver wikipedia, aqui)

[2] N.T. Os trusts do NHS são unidades organizacionais dentro do Serviço Nacional de Saúde na Inglaterra e no País de Gales. São de facto empresas do setor público. (ver wikipedia, aqui)

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Os autores

Callum Burroughs é um repórter, na Business Insider desde Novembro de 2020, sobre financeiras-tecnológicas e Startups com sedeado em Londres. Ele cobre tudo, desde os startups de tecnologia de ponta até ao investimento de VC verde. Callum também reporta sobre outras partes da indústria tecnológica, incluindo seguros, mobilidade, e o futuro dos alimentos. Foi repórter no Trade and Export Finance (TXF), sedeado em Londres. É licenciado em História e Política pela Universidade de Exeter.

Shona Ghosh é a editora técnica do Business Insider no Reino Unido, com sede em Londres. Ela supervisiona a cobertura da equipa técnica do Reino Unido, gerindo as notícias do dia-a-dia e investigações aprofundadas. É jornalista técnica há uma década, tendo publicado no The Guardian, The Telegraph, Al Jazeera e NME.com. Antes do BI, ela foi editora de tecnologia na campanha de publicidade do Reino Unido. Na sua qualidade de Editora Tecnológica no BI, e como repórter sénior antes disso, escreveu artigos de investigação sobre empresas como Amazon, WeWork, Deliveroo, e Snapchat. Ela aparece regularmente na BBC e na Sky News para falar sobre novidades tecnológicas de ponta, tendências e negócios. Licenciada em Inglês pela Universidade de Warwick e mestre em jornalismo pela City, Universidade de Londres.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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