Tempos de pandemia, de disfuncionamento da justiça, de disfuncionamento dos mercados, de apostas selvagens em Wall Street – 3. ARCHEGOS E AS APOSTAS SELVAGENS DE WALL STREET: 3A – OS PRODUTOS DERIVADOS: 10. O estouro alavancado: Como os bancos globais ficaram cegos perante a Archegos de Hwang. Por Erik Schatzker, Sridhar Natarajan e Sonali Basak

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

 

3A. Os produtos derivados – 10. O estouro alavancado: Como os bancos globais ficaram cegos perante a Archegos de Hwang

Por Erik Schatzker, Sridhar Natarajan e Sonali Basak

Publicado por em 02/04/2021 (ver aqui)

 

 

(Bloomberg) – As ações da empresa de “velhos media” dispararam quase 300% em semanas, e os pequenos investidores ficaram entusiasmados com teorias: está subvalorizado, como a GameStop! É um alvo de aquisição!

Dentro das principais empresas comerciais de Wall Street, no entanto, alguns executivos tinham uma ideia do que causou a mudança. Uma baleia comercial – Archegos Capital Management de Bill Hwang  – estava a construir uma posição massiva na ViacomCBS Inc.

Bancos de todo o mundo continuavam a dar a Hwang a alavancagem de que precisava para adquirir cada vez mais ações. O que eles não conseguiam ver, de acordo com pessoas com conhecimento da situação, era a dimensão total das suas apostas. Ele acumulou furtivamente 10 mil milhões de dólares de Viacom e posições colossais em algumas outras empresas.

Os buracos na supervisão e gestão de risco são uma das razões pelas quais os bancos estavam tão vulneráveis quando a aposta da Viacom se desvendou e a Archegos implodiu na semana passada.

Sublinhando o caos de uma situação de escalada, representantes do Credit Suisse Group AG apresentaram uma sugestão quando se reuniram na semana passada para enfrentar a realidade de uma chamada de margem tão excecional e considerar formas de mitigar os danos: Talvez esperar para ver se as suas ações recuperam? A Viacom, notaram alguns, parecia artificialmente baixa depois de ter ultrapassado os 100 dólares apenas dois dias antes.

No entanto, foram as próprias ordens de Hwang que ajudaram a fazer da Viacom o melhor executante do ano no S&P 500, forçando os investidores de benchmark-tracking e os fundos negociados em bolsa a comprar também. Sem ele criar essa dinâmica, a Viacom e as suas outras posições tinham poucas esperanças de recuperação.

Em vários pontos durante essas trocas, os banqueiros solicitaram a Hwang que comprasse espaço de manobra, vendendo algumas ações e angariando dinheiro para depositar garantias. Ele não cedeu, disseram as pessoas que participaram nas reuniões.

Agora, à medida que os reguladores avaliam as consequências, o hábito de Wall Street conceder empréstimos a clientes lucrativos com poucas perguntas feitas está a receber uma  atenção indesejada.

O escritório familiar de Hwang construiu posições em pelo menos nove ações suficientemente grandes para o classificar entre os maiores detentores, alimentado por um nível de alavancagem bancária que teria sido invulgar mesmo para um fundo de cobertura.

A Archegos foi capaz de colocar apostas de tamanho exagerado utilizando derivados e, como empresa familiar privada, evitar as divulgações exigidas à maioria dos investidores. Quase invisivelmente, acumulou uma carteira que algumas pessoas familiarizadas com as suas contas estimam em cerca de 100 mil milhões de dólares.

À medida que surgem mais detalhes sobre como os bancos desempenharam um papel tão instrumental para ajudar a Archegos a aumentar essas apostas, são cada vez mais evidentes os ângulos mortos que impedem a indústria de gerir eficazmente os riscos que cria.

Os reguladores já estão a deixar cair, a título privado, dicas de novas regras para futuro. Funcionários da Securities and Exchange Commission assinalaram aos bancos que tencionam fazer da divulgação de informações comerciais de fundos de cobertura (hedge funds) uma prioridade mais elevada, ao mesmo tempo que querem impor novas formas de abordar o risco e a alavancagem.

Os altos executivos financeiros reconhecem que é inevitável uma repressão de alguma forma, seja sobre empréstimos ou transparência, ou ambos.

Embora algumas dessas empresas tenham divulgado o impacto financeiro do seu papel no colapso da Archegos, nenhuma está disposta a comentar como ou porque é que permitiram que Hwang se tornasse uma tal força no mercado. Hwang recusou-se a comentar através de um seu representante.

 

Visibilidade limitada

O que é claro, de acordo com as pessoas envolvidas na chamada de margem e no  que se seguiu, é que os financiadores de Hwang, as unidades de corretagem de primeira linha de Nomura Holdings Inc., Goldman Sachs Group Inc., Morgan Stanley, Credit Suisse e outros, tinham pistas sobre o que a Archegos estava a fazer. Estas empresas sabiam dos negócios que tinham financiado, claro, e também tinham alguma visibilidade sobre o total dos seus empréstimos, dizem as pessoas.

Mas os credores não conseguiam ver que Hwang estava a tomar posições paralelas em várias empresas, acumulando mais alavancagem sobre as mesmas poucas ações, de acordo com as pessoas que questionámos. Embora a maioria dos clientes insista nesta opacidade, ela tem implicações óbvias para a capacidade de um credor de gerir o risco: Desenrolar uma série de apostas grandes e alavancadas feitas por uma única conta é uma coisa; fazê-lo quando bancos rivais estão a liquidar as mesmas posições detidas pelo mesmo cliente é uma outra coisa bem diferente.

A 25 de Março, os corretores de primeiro nível de Hwang voltaram a encontrar-se e discutiram a possibilidade de se retirarem temporariamente para deixar as tensões abrandarem, de acordo com as pessoas que participaram nas conversações. Mas qualquer tentativa de solidariedade revelou-se de curta duração. Nesse dia, alguns enviaram avisos de incumprimento a Archegos, abrindo o caminho para vender as suas posições.

Os analistas da JPMorgan Chase & Co. estimam que alguns dos bancos podem acabar por absorver até 10 mil milhões de dólares em perdas combinadas.

“Esperemos que isto faça com que as  corretoras de primeira linha das organizações bancárias regulamentadas (e os seus supervisores) reavaliem as suas relações como fundos de cobertura altamente alavancados”, disse Sheila Bair, uma ex-presidente da Federal Deposit Insurance Corp.

Hwang já tinha vivido uma crise. Em 2012, apresentou uma confissão de culpa em nome do seu fundo de cobertura a uma acusação de fraude bancária, e resolveu as reclamações civis relacionadas com o abuso de informação privilegiada sem admitir ou negar a prática de actos ilícitos. A Archegos é o escritório familiar que formou após a dissolução daquela empresa, a Tiger Asia Management.

Os corretoras de primeira linha começaram a fazer fila para ajudar o novo negócio. Morgan Stanley foi um dos seus primeiros apoiantes. O Deutsche Bank AG assinou com ele como cliente a pedido de pelo menos um executivo sénior que não se deixava perturbar pela mácula do negócio de iniciados (fraude) e não acreditava que Hwang tivesse feito algo de errado, de acordo com uma pessoa familiarizada com essa decisão.

Uma empresa resistiu ao engodo. A Archegos aproximou-se do JPMorgan algures entre 2016 e 2018 e foi rejeitada, de acordo com uma pessoa informada sobre a situação. Na altura, a JPMorgan ainda estava a renovar a unidade de corretagem principal de acções que tinha adquirido com a Bear Stearns durante a crise financeira de 2008. Pura sorte ou não, o banco esquivou-se a uma bala.

Outro resistente foi a Goldman Sachs. Durante anos, os executivos da sua divisão de acções tentaram abrir uma conta para a Hwang, e o departamento de Conformidade disse consistentemente que não. A Goldman acabou por se apressar nos últimos meses de 2020, tempo suficiente para acelerar os negócios com a Archegos e aterrar no meio da confusão da semana passada.

 

A liquidação dos swaps

O negócio, na Goldman e em muitos otros lados, eram swaps. Os swaps são acordos entre um banco e o seu cliente que são liquidados com base na variação dos preços dos ativos subjacentes – tais como as acções da Viacom.

Um dos benefícios dos swaps é que permitem a grandes investidores como Hwang construir posições anónimas sobre ações. Um corretor principal compraria as acções e apresentar-se-ia como o proprietário beneficiário quando na realidade é a Archegos que estava a suportar o risco económico.

Para executar um tal swap, a Archegos colocaria como margem uma percentagem do valor da posição em dinheiro. O resto do swap seria financiado pelo corretor principal.

Uma vez que os swaps são liquidados diariamente, com os ganhos e perdas compensados, a Archegos também tinha de colocar um segundo tipo de garantia conhecido como margem de variação, caso o valor da sua carteira baixasse. Se o seu valor aumentasse, o banco pagaria à empresa em dinheiro.

Um aspeto que protegia os credores de Hwang era o direito, no caso de não poder cumprir uma exigência de margem, de confiscarem todas as garantias nas suas contas de swap e vender as posições. Foi o que aconteceu na semana passada depois de a Viacom se ter afundado.

A compra de Hwang tinha ajudado a conduzir as acções acima dos 100 dólares pela primeira vez, dando à sua posição um valor de mercado de cerca de 10 mil milhões de dólares. O detentor seguinte era o gigante indexador Vanguard Group, com uma participação 40% menor, de acordo com os dados compilados pela Bloomberg.

No final do dia 22 de Março, a Viacom anunciou uma venda de 3 mil milhões de dólares de acções e de dívida convertível. Nos dois dias seguintes, as acções da Viacom caíram 30%, empurrando a Archegos para além dos seus limites de margem e disparando os alarmes nos seus corretores principais. Em reuniões urgentes, finalmente perceberam a extensão total das suas apostas.

 

Recusa de Hwang

Inicialmente, alguns dos credores de Hwang mostraram-se relutantes em abandoná-lo. O grupo solicitou a Hwang que reduzisse as suas posições, uma decisão que o obrigaria a aceitar algumas perdas. Ele recusou.

No fecho da negociação a 25 de Março, uma quinta-feira, a Viacom estava a perder mais 5,3%, a cair para 66,35 dólares. Numa das sessões de emergência, os representantes do Credit Suisse sugeriram algum tipo de acordo de suspensão – adiar a venda da garantia de Hwang para ver se as acções iriam ser negociadas em alta.

Na sexta-feira, muito antes das 9:30 da manhã de abertura das transações em Nova Iorque, o Goldman já estava a oferecer 3,3 mil milhões de dólares das acções detidas pela Archegos em blocos maciços. A Morgan Stanley e a Wells Fargo & Co. logo a seguir. Na segunda-feira em Zurique, o Credit Suisse revelou que enfrentou uma perda “altamente significativa”, que desde então tem estado ligada à Archegos e que se prevê que atinja os milhares de milhões de dólares. Nomura poderá perder 2 mil milhões de dólares.

“Os controlos de risco ainda não estão onde deveriam estar”, disse David Herro, um dos maiores accionistas do Credit Suisse, numa entrevista à Bloomberg TV, na quarta-feira. “Esperemos que este seja um alerta para acelerar a mudança cultural que é necessária nesta empresa”.

A SEC já abriu uma investigação preliminar sobre os negócios da Hwang e está a chamar outros grandes investidores para se informar sobre a sua utilização de swaps e acesso à alavancagem dos principais corretores. Uma sombra regulamentar está a alastrar sobre todo o setor financeiro.

______________

Os autores

Erik Schatzker, editor da Bloomberg TV desde Outubro de 2007. É licenciado em Letras pela Universidade de Victoria em Toronto.

 Sridhar Natarajan é repórter da Bloomberg TV desde Abril de 2012. Anteriormente trabalhou para a Medill National Security Journalism Initiative (2011) e para a Tiger Sports Marketing (2008/10). Licenciado em Tecnologia de Informação pela Universidade APJ Abdul Kalam em Kerela na Índia. Mestre em Jornalismo pela Universidade Northwestern, no Illinois (EUA).

 Sonali Basak é repórter da Bloomberg TV desde Janeiro de 2014. Anteriormente foi correspondente de tecnologia em regime independente e diretora de edição em Techli.com (2013), colaboradora no County Seat Newspaper (2009/12) e trabalhou no gabinete do presidente da Universidade de Bucknell (2010/12). Licenciada em Letras pela Universidade de Bucknell, e mestre em Ciência pela Northwestern University e MBA pela Universidade de Nova Iorque.

 

 

 

 

Leave a Reply