Cuba – Entre os protestos sociais e o embargo dos EUA: vontade de mudança radical ou explosão momentânea de dieta escassa em comida e farta em pandemia ? Deve Cuba ser defendida? – 1. Cuba sem rede, uma morte e uma guerra de informação. Por Roberto Livi

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

1. Cuba sem rede, uma morte e uma guerra de informação

América Latina. A historiadora Ivette García González: ‘Protestos previsíveis, mas as causas são profundas’.

 

Prisões efetuadas em Cuba © Ap

 

Por Roberto Livi, em Havana

Publicado por  em 15/07/2021 (ver aqui)

 

Um homem de 36 anos de idade morreu na segunda-feira durante uma manifestação no bairro periférico de Arroyo Naranjo, um dos mais pobres e turbulentos de Havana. Isto foi confirmado por uma nota do Ministério do Interior, que dizia que a vítima fazia parte de um bando de pessoas que tentava invadir uma esquadra de polícia depois de causar estragos na rua e de atear fogo a caixotes de lixo e postes de iluminação. Várias pessoas foram feridas no confronto, incluindo um polícia, e foram efetuadas detenções.

TER DADOS CONFIRMADOS para fazer uma avaliação global das dezenas de manifestações populares que tiveram lugar por toda a ilha é difícil. Embora ontem ainda não houvesse ligação à Internet, continuavam a circular “notícias”, especialmente nas redes sociais anti-Castro, de outras mortes e 150 pessoas presas, das quais nada se sabe. Contudo, foi confirmada a prisão de uma jornalista da revista espanhola Abc. Nas fileiras da oposição, as aplicações estão a ser utilizadas para fugir ao bloqueio whatsapp e fazer circular fotos de violência policial que são difíceis de confirmar. O website do governo Cubadebate forneceu provas claras de imagens falsas vindas principalmente do estrangeiro e passadas como imagens de protestos e de ações brutais da polícia na ilha.

AS RUAS DE HAVANA estavam também ontem sob o controlo de uma grande força policial. Nos subúrbios mais problemáticos, foram destacadas patrulhas da brigada anti-motim. Em geral, as pessoas evitam sair exceto em caso de necessidade urgente. A tensão é evidente. E é também agravada por um balanço dramático da Covid-19: ontem 6080 infetados e 51 mortos. O número mais alto desde o início da pandemia.

Ontem, o Ministro dos Negócios Estrangeiros Bruno Rodríguez reiterou a sua acusação de que os Estados Unidos estavam “diretamente envolvidos e tinham sérias responsabilidades pelos incidentes que ocorreram a 11 de Julho”. Washington, continuou, “será responsável pelas consequências se continuar a sua política de estrangulamento do nosso país”.

UMA DAS CONSEQUÊNCIAS ventilada era de uma possível intervenção “humanitária” direta por parte dos EUA, desejada também pela oposição cubana. Bob Menéndez, o chefe democrata da Comissão de Relações Exteriores do Senado e principal conselheiro do Presidente Joe Biden para as relações com Cuba, negou este facto. “Não haverá intervenção militar dos Estados Unidos”, disse Menéndez, confirmando que a administração Biden prosseguia a sua ‘revisão’ da política de Washington em relação a Havana. Por outras palavras, a tarefa de desestabilizar o governo socialista está confiada às medidas de estrangulamento da ilha desejado por Donald Trump e mantidas pelo presidente democrata Joe Biden.

É EM SUBSTÂNCIA o que nos diz Bernie Sanders, o expoente mais conhecido da esquerda americana, afirmando que o seu país era responsável por contribuir para as condições miseráveis em que os cubanos vivem. “Todas as pessoas”, disse ele, “têm o direito de protestar e de viver numa sociedade democrática. Mas também é tempo de pôr fim ao embargo unilateral dos EUA contra Cuba, que apenas prejudicou, e não ajudou, o povo cubano”.

Os intelectuais socialistas que desde há muito que pedem ao governo para acelerar as reformas estruturais, estão também de acordo eram em que o poderoso vizinho do norte é diretamente responsável. “Os protestos sem precedentes de domingo passado eram previsíveis”, argumenta a historiadora Ivette García González. “Houve fatores detonantes, mas as causas são profundas”. Estas residem na lentidão de um processo de reforma iniciado pelo então presidente Raúl Castro, os investimentos concentraram-se no sector do turismo em detrimento da agricultura e da assistência social.

GARCÍA GONZÁLEZ APELA ao governo para abandonar todas as formas de repressão e implementar uma política de conciliação nacional para gerir a emergência – Covid-19 e a crise alimentar – e proporcionar uma solução política para o conflito. Uma posição que foi partilhada por artistas famosos que certamente não são da oposição, tais como o grupo histórico Los Van Van, músicos como Adalberto Alvarez, Elio Revé – que tomaram posição “ao lado do povo cubano, que tem o direito de expressar pacificamente o seu mal-estar e as suas aspirações”.

O compositor Leo Brouwer fez um comentário amargo, indignado porque “a polícia revolucionária usou bastões contra pessoas indefesas que suportaram enormes privações durante tanto tempo”. A par das críticas está o apelo à unidade nacional para proteger a revolução cubana e construir uma “Cuba melhor”. Este é o desafio histórico enfrentado pelo governo da nova geração que substituiu os Castros.

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O autor: Roberto Livi, jornalista aposentado, correspondente de Il Manifesto em Havana.

 

 

 

 

 

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