Em Viagem pela Indochina – IV Vietname (4), por António Gomes Marques

Em Viagem pela Indochina

IV – Vietname (4)

Quarto dia no país

por António Gomes Marques

No dia seguinte, passada a noite no barco, foi o regresso a Hanói, num percurso já conhecido, mas sempre agradável, com os rios e os arrozais a prenderam-nos os olhos.

Mas a grande cidade guardava uma surpresa a todo o grupo, absolutamente inesperada, pois o objectivo primeiro era o almoço, antes da despedida da capital do país.

Previa-se uma viagem tranquila dentro da cidade, com paragem apenas no restaurante marcado; no entanto, apenas se chegou ao destino mais de uma hora depois do que estava programado, o que se ficou a dever à resolução do Presidente da Coreia do Norte —o Gordito, como se lhe referiam os vietnamitas—, de regressar antecipadamente ao seu país, com a justificação pública de que foi a pedido do seu povo, o qual não conseguia dormir há três dias, inquieto e inseguro com a ausência do seu líder —«Como é possível ainda haver um país assim», disse-me um vietnamita—, sendo a nossa demora provocada pelo encerramento das vias que Kim Jong-un e a sua comitiva teriam de percorrer até ao aeroporto. Normalmente, como já mostrei, o trânsito é muito intenso em Hanói, mas não há paragens nem acidentes; com algumas ruas fechadas ao trânsito, tudo se complica como, de facto, se complicou.

Acabado o almoço, lá foi o grupo para o aeroporto, onde apanhou o avião da Vietnam Airlines, com destino a Da Nang, e, dali, em pequenos autocarros, até Hoi An, nas margens do rio Thu Bon, classificada pela UNESCO como Património da Humanidade

Da Nang

Da Nang é uma cidade moderna, cheia de hotéis e «resorts», para além de apartamentos de luxo, ou seja, será uma das cidades mais turísticas do Vietname, mas não será deste aspecto que vou tratar neste texto, acrescentando, no entanto, que tem quase um milhão de habitantes. Quem quiser saber mais sobre esta matéria, basta procurar no Google.

Mais interessante me parece pensar que andar por estas paragens e não falar de navegadores e exploradores portugueses será imperdoável, para não dizer impossível, o que me leva a pensar de imediato em Fernão Mendes Pinto e outros aventureiros, piratas ou como quiserem classificá-los, embora não devamos esquecer a forma como se vivia e como se relacionavam não só os povos como também os que ousavam aventurar-se na procura de uma vida mais consentânea com as suas ambições na época em que por lá andaram.

Da Nang é um bom exemplo para recuarmos até ao século XVI, mais precisamente a 1516, ano em que, pela primeira vez, os portugueses chegaram à Cochinchina ou mais propriamente ao Vietname, e o Capitão António de Faria, em 1535, daqui saiu para tentar estabelecer um posto comercial na cidade costeira de Faifo, a não mais de 20 km de Da Nang, a actual cidade. O desejado enclave português não teve êxito, como tinham tido os de Macau e Goa.

Já agora, é interessante referir de onde saiu este nome Cochinchina, que é, espantem-se!, da responsabilidade de António de Faria, embora eu tenha algumas dúvidas.

Havia, e há!, a cidade de Cochim, na região sudoeste da Índia, cidade portuária desde, pelo menos, meados do século XIV, e, pela derivação dos caracteres chineses, o Vietname era conhecido como Giao Chi, o que levou o capitão e pirata português a chamar ao Vietname Cauchi e, depois, para não haver confusão com aquele porto indiano, acrescentou-lhe China, nascendo daqui a designação de Cochin China, que os franceses, quando colonizaram a zona, adoptaram para designar o Vietname do Sul. (1)

Se continuarmos a seguir este texto da Wikipédia sobre este fidalgo, aventureiro, capitão, mercador, embaixador, navegador, guerreiro, pirata, e corsário português, fica a saber-se que António de Faria conheceu Fernão Mendes Pinto em Patane, situada próximo da moderna Tailândia, na província de Pattani, estando este a comandar uma Embaixada do primo em quinto grau daquele António de Faria, Pero de Faria, ao rei de Patane, indicando-se naquele texto a data de 1537 como sendo o ano do encontro dos dois aventureiros, o que me parece ser um erro. Vejamos:

O próprio Fernão Mendes Pinto, na sua obra-prima «Peregrinação», na versão para português actual (antes do último e aberrante Acordo Ortográfico) de Maria Alberta Menéres, informa-nos de que «Aos onze dias do mês de Março do ano de mil e quinhentos e trinta e sete, parti deste reino em uma armada de cinco naus, …». (2)

No capítulo 21 de «Peregrinação» escreve Fernão Mendes Pinto: «E embarcando-me uma terça-feira pela manhã, aos cinco dias de Outubro do ano de 1539, continuei meu caminho até ao domingo seguinte, em que cheguei ao rio de Puneticão, onde está situada a cidade de Aaru.» (3)

Depois, no capítulo 36, diz Fernão Mendes Pinto: «Havendo já vinte e seis dias que eu estava aqui em Patane acabando de aviar uma pouca de fazenda que viera da China, para me ir embora logo, chegou uma fusta de Malaca, de que vinha como capitão um tal António de Faria de Sousa, …» (4), ou seja, é este o momento em que os dois se conhecem e a partir do qual se tornam companheiros durante grande parte das viagens de ambos pelo Oriente.

Se aceitarmos a opinião de Aquilino Ribeiro, de que falarei um pouco mais à frente, tudo isto que acabo de escrever sobre o encontro dos dois aventureiros cai por terra.

Falando ainda dos portugueses no Extremo Oriente, devemos lembrar, seguindo João Paulo Costa, «… que a fixação em Macau não é somente um marco da história luso-chinesa, mas representa também a consolidação da presença portuguesa no Extremo Oriente. O porto chinês era a peça que faltava para que o comércio japonês florescesse, e facilitou depois o desenvolvimento de outras rotas comerciais, nomeadamente em direcção às Filipinas e ao Vietname. Macau tornou-se, pois, o ponto nevrálgico coordenador da actividade dos Portugueses na Ásia oriental.» (5)

No Dicionário de História dos Descobrimentos Portugueses, sob a Direcção de Luís Albuquerque, na entrada Cochinchina, transcrevo: «A dinastia Lê (1428-1788), que restabeleceu a independência do país após uma episódica dominação chinesa (1407-1428) sob os Ming, iniciou, após uma retumbante vitória sobre os Chames, em 1470, a conquista do Champá e a colonização do Sul, que iam em progresso aquando da chegada dos Portugueses à região. País de economia essencialmente agrícola, sem grande actividade mercantil, a Cochinchina não atraiu nos primeiros tempos as atenções dos Portugueses, a despeito de ser produtor de mercadorias assaz apreciadas, como ouro, prata, calambuco ou lenho aloés, sedas e porcelanas. Enquanto outros países da península indochinesa, como o Sião e o Pegu, receberam logo após a tomada de Malaca embaixadas portuguesas, a Cochinchina só em 1516 veio a ser costeada pela armada de Fernão Peres de Andrade, em rota para a China (…). Depois da fundação de Macau, em 1557, as costas vietnamitas, que não haviam nunca atraído as atenções do comércio oficial português, começam a ser frequentadas por numerosos mercadores privados, mestiços e convertidos na sua maior parte, sediados na Cidade do Nome de Deus.» (6)

Também em outro Dicionário, este sob a Direcção de Francisco Contente Domingues, que teve como seu mestre Luís Albuquerque, Dicionário da Expansão Portuguesa, pode ler-se na entrada com o mesmo título, Cochinchina, a confirmação do que está referido na citação anterior e, a terminar essa entrada, é-nos dito que «Com os mercadores portugueses chegaram os missionários jesuítas, que em 1615 fundaram uma missão católica relativamente influente. Os jesuítas portugueses vão desempenhar um papel de relevo tanto no conhecimento da realidade geográfica e cultural vietnamita, como na difusão pela Europa de notícias sobre aquelas remotas paragens asiáticas, pela edição regular de cartas e relações.

A mediação lusófona, efectivamente, foi essencial no desvendamento do mundo vietnamita.» (7)

Mas não resisto a voltar a Fernão Mendes Pinto com uma interrogação: e se Fernão Mendes Pinto e o capitão António de Faria fossem uma e a mesma pessoa?

Um dos maiores vultos da História da Literatura Portuguesa, Aquilino Ribeiro, incluiu no seu livro «Portugueses das Sete Partidas» um texto, «Fernão Mendes Pinto e a sua Máscara de Pirata», em que afirma ser uma hipótese bem verosímil que um e outro sejam a mesma pessoa. Lendo este texto do grande escritor, adiro sem dificuldade a que assim seja. Claro que uma pequena dúvida subsiste. Se o leitor tiver a mesma curiosidade que eu tive, e ler Aquilino é sempre tempo ganho, provavelmente ficará predisposto a aderir à tese do grande escritor, embora, no meu caso, não possa deixar de confessar que uma réstia de dúvida permanece; não obstante, após aquela leitura, essa dúvida não seja mais do que uma luz muitíssimo pouco brilhante. Faço apenas a transcrição que se segue: «Agora, se de facto Fernão Mendes Pinto e António de Faria são uma e a mesma pessoa, a maneira de destrocer a intriga de modo incontrastável dando-lhe um desfecho, era aquela, recorrendo, como nos dramas antigos, ao deus ex-machina, que é o trespasse. Pelo fogo, pelo ferro, ou pela água. E acabou-se. O aventureiro despiu a cabaia do corsário e seguiu pelos caminhos comuns de Cristo com o seu gibão pobre de fabiano.

O exame psicológico da Peregrinação, em especial as páginas votadas à pirataria, por um lado; por outro, a necessidade que Fernão Mendes Pinto tinha de ajustar a sua pessoa moral ao ambiente português de Seiscentos, beato, respeitador, leva-nos a concluir que o grande pirata do golfo da China e ele eram um só e mesmo indivíduo. Mendes Pinto teve pejo, se não justificado receio, de exibir-se antigo capitão de corso, e pôs máscara. Embora o seu vulto, como tal, seja dos mais avantajados da Ilíada portuguesa, não teve nem podia ter a cobrir-lhe os actos de rapina o jacq de uma nação constituída e responsável.» (8)

Mas acrescentemos mais um pouco de rigor: «No Oriente foram também os nossos navios vítimas de numerosos assaltos de mouros e gentios. Os piratas do rio Cunhal e do rio Sanguicer caíam sobre os nossos navios de Goa, causando grandes prejuízos. Também os Portugueses não hesitavam em recorrer ao corso e à pirataria, apresando os navios, mesmo munidos de cartaz, e matando os muçulmanos e outros tripulantes com requintes de crueldade, o que nos acarretou desde cedo a má vontade das populações orientais. O corso foi por nós estabelecido como regra dos mares do Oriente. Competia-nos dar caça aos romeiros que subiam ao mar Roxo, nas peregrinações de Meca. As presas eram divididas pelo rei e pelas guarnições. Bandos de piratas portugueses estabeleciam-se nas costas da Indochina; assim nasceu Macau.» (9) Era assim naquele tempo.

Para além dos navegantes e/ou piratas portugueses, foi um porto muito utilizado pelos missionários europeus e, no século XIX, a cidade viria a ser ocupada pelas forças francesas de Napoleão III na sua conquista da Cochinchina, que decorreu entre 1862 e 1867, na construção do seu império colonial na Indochina, de que a Cochinchina foi parte, ao que já fiz referência nos capítulos em que tratei da história do Camboja e do Laos, para onde remeto o leitor. Quando abordar a história do Vietname, voltarei ao assunto.

Durante a Guerra da Indochina, que opôs franceses, apoiados pelos EUA, e vietnamitas, que contaram com o apoio da União Soviética e da China, guerra essa que se iniciou em 1946 e que terminaria com a histórica derrota francesa, em 1954, na batalha de Dien Bien-Phu, que consagraria como um dos heróis do Vietname e um dos grandes estrategas do século XX o General Vo Nguyen Giap, Da Nang foi considerada uma das cinco cidades mais importantes da península.

Mas o sofrimento dos habitantes da cidade não ficaria por aqui; na Guerra do Vietname, que opôs a América do Norte ao Vietname, foi em Da Nang que desembarcou o primeiro contingente americano de fuzileiros navais, em 1965, tornando-se a cidade na principal base aérea para abastecimento dos necessários suprimentos das forças armadas americanas.

 

NOTAS

Vietname – Quarto dia no país

 

  1. in: https://pt.wikipedia.org/wiki/Ant%C3%B3nio_de_Faria;
  2. in: Fernão Mendes Pinto, Peregrinação, versão Maria Alberta Menéres, volume 1, pág. 5, Fernando Ribeiro de Melo – Edições Afrodite, Lisboa, Novembro de 1979;
  3. in: o. c. nota 2- volume 2, pág. 66;
  4. in: o. c. na nota 2, pág. 112;
  5. in: João Paulo Costa, Os Portugueses na China, capítulo incluído em Portugal no Mundo, direcção de Luís Albuquerque, volume 4, pág. 194, Publicações Alfa, S. A., Lisboa, 1989. Para quem se mostrar interessado na acção portuguesa no Oriente, veja, por exemplo, «Os Portugueses e o Oriente», Vitorino Magalhães Godinho, in Ensaios, volume 2, Livraria Sá da Costa, Editora, 1.ª edição, Lisboa, 1968;
  6. Luís Filipe Thomaz, Cochinchina, in: Luís Albuquerque (direcção de), Dicionário de História dos Descobrimentos Portugueses, vol. I, Círculo de Leitores, Junho de 1994, págs. 255/6. Quem quiser aprofundar este tema, poderá encontrar informações preciosas, para além das que transcrevo, nesta entrada do Dicionário;
  7. Rui Manuel Loureiro, Cochinchina, in Francisco Contente Domingues (direcção de), Dicionário da Expansão Portuguesa 1415-1600, 1.ª edição, Janeiro de 2016, vol. 1, Círculo de Leitores, págs. 285/6.
  8. Aquilino Ribeiro, Portugueses das Sete Partidas (Viajantes, aventureiros, troca-tintas), 6.ª edição, pág. 243, Bertrand Editora, Venda Nova, Abril de 1992. O livro de Aquilino Ribeiro aqui citado encontra-se esgotado, cabendo-me agradecer à D. Paula Gonçalves, da Biblioteca Aquilino Ribeiro, de Paredes de Coura, o envio do texto de Aquilino de que me servi;
  9. Maria Emília Cordeiro Ferreira, Pirataria (corso), in: Joel Serrão (dirigido por), Dicionário de História de Portugal, Vol. III, pág. 401, Iniciativas Editoriais.

Leave a Reply