Cuba – Entre os protestos sociais e o embargo dos EUA: vontade de mudança radical ou explosão momentânea de dieta escassa em comida e farta em pandemia ? Deve Cuba ser defendida? – 5. Se Biden é uma fotocópia de Trump. Por Guido Moltedo

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

5. Se Biden é uma fotocópia de Trump

Cuba. Entre os protestos sociais e o embargo dos EUA

 

 Por Guido Moltedo

Publicado por em 18/07/2021 (ver aqui)

 

              O presidente dos EUA, Joe Biden. © Ap

 

Antes de ser eleito presidente dos Estados Unidos, tinha dito ao website CiberCuba que, uma vez na Casa Branca, levantaria as sanções impostas por Trump, cujo único resultado foi “ter infligido sofrimento ao povo cubano sem ter conseguido nada para fazer avançar a democracia e os direitos humanos”. Em Cuba, a eleição de Biden foi, portanto, saudada com alívio e esperança, tanto pelo governo cubano como por aqueles que atualmente desafiam o governo cubano nas ruas. A sua eleição era o sinal de um ponto de viragem, mesmo para aqueles em Cuba que nunca tinham ouvido falar dele mas que tinham ouvido Donald Trump falar e agir contra a ilha com dureza cínica durante quatro anos.

Sob a sua [de Trump] presidência, foram acrescentadas 243 medidas restritivas ao embargo em vigor contra Cuba desde 1962, 50 das quais foram impostas durante a pandemia de Covid. Só por si, a mudança na liderança dos EUA era suficiente para imaginar o início de uma nova era para Cuba. Após seis meses na Casa Branca, os cubanos continuam à espera que o presidente democrata dê seguimento às suas promessas eleitorais, eliminando ao menos algumas das medidas decididas por Trump. Estamos a falar de cubanos que vivem na ilha, não daqueles que vivem em Miami ou Nova Iorque, porque estes é exatamente isso que esperam de Biden: que faça exatamente como o seu antecessor, continuando no caminho do duro embargo, ainda mais duro. Com o cálculo de que um maior aperto em torno da ilha possa levar à queda definitiva da liderança cubana.

Os cubanos de Miami, Califórnia, Nova Jersey e Nova Iorque sabem muito bem de que um tal cálculo poderia levar a um banho de sangue, mas isso não lhes importa, porque para eles Cuba é uma bandeira ideológica, não a realidade diária em que vivem aqueles que lá vivem. Joe Biden sabe-o ainda melhor, ele sabe que a escalada da crise pode acabar em derramamento de sangue. Também o sabe o Conselho Nacional de Segurança. O Departamento de Estado. O Pentágono. Sabem-no perfeitamente o democrata Bob Menendez e os republicanos Marco Rubio e Ted Cruz, os senadores mais proeminentes e que mais falam dos latinos e especialmente dos cubano-americanos. Sabem-no os Democratas da Florida, que consideram a situação em Cuba uma “oportunidade de ouro” para derrubar o “regime”.

Biden parece incapaz de enfrentar uma situação por si só difícil, que os seus estrategas consideram, além disso, insidiosa devido às repercussões que poderia ter na política interna, tendo em vista as importantes eleições intercalares do próximo ano. A administração teme os ‘falcões’ que sempre ditaram a linha anti-Cuba e que agora se tornaram ainda mais determinados.

Nos próximos dias, contudo, compreender-se-á se estamos a caminhar para um agravamento da crise, que eles assim o esperam, ou se, vice-versa, estamos a caminhar para um abrandamento da tensão na ilha e nas relações entre Cuba e os Estados Unidos. Neste segundo caso, se há sinais positivos na direção de um desanuviamento, por mais relativo que seja, será também porque nestas horas a diplomacia está a trabalhar fora de vistas entre Washington e Havana, também com a triangulação via México. Neste sentido, o próprio facto de Biden não ter endurecido as medidas anti-cubanas após a detenção de uma centena de manifestantes e a morte de um deles deve ser tomado como um sinal positivo. O seu anúncio de que pretende fornecer vacinas à população cubana, desde que sejam distribuídas e administradas por organizações internacionais de saúde, também vai nesse sentido. Esta é uma concessão ridícula, considerando que Cuba – o único país da América Latina [que] – desenvolveu a sua própria vacina anti-covid mas, devido ao embargo, carece das seringas e do equipamento médico para a distribuir adequadamente. No entanto, 27% da população já foi vacinada, pelo menos com uma dose.

O medo da Casa Branca de perder lugares cruciais em Estados onde a questão cubana é politicamente jogada pela direita, e assim perder a sua maioria na Câmara, deve no entanto contar com a presença agora forte no Partido Democrata de uma esquerda que intervém decisivamente na política internacional, desde o Médio Oriente a Cuba, onde em tempos, não há muito tempo, havia um consenso quase inquestionável. Hoje, as vozes de Bernie Sanders e de Alexandria Ocasio-Cortez, e a posição clara de Black Lives Matter contra o embargo, ecoam também nas correntes principais do Partido Democrata.

Em Março passado, oitenta congressistas escreveram uma carta a Biden pedindo-lhe que adoptasse uma abordagem “mais construtiva” em relação a Cuba, “regressando imediatamente à política de compromisso e normalização das relações da administração Obama Biden”. Se tivesse respondido a estes apelos, Biden não seria agora refém dos Trumpistas, uma condição que também tem a vantagem de o impedir de perder terreno para eles. É precisamente ao concordar com eles que de facto tornará os candidatos de direita mais fortes.


O autor: Guido Moltedo, jornalista italiano, fundador e diretor da revista ytali., uma associação de jornalistas independentes.

 

 

 

 

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