Em Viagem pela Indochina – IV Vietname (6), por António Gomes Marques

Em Viagem pela Indochina

IV – Vietname (6)

Sexto dia no país

por António Gomes Marques

 

De manhã cedo, pequeno-almoço tomado, partida para Hué, a Norte de Hoi An, de autocarro, para o que se terá de percorrer uma distância de cerca de 120 km.

Pormenor de Da Nang, na despedida (Fotografia AGM, retirada do filme)

Ao longo do trajecto podem ver-se as maravilhosas praias da zona de Da Nang, tão belas como as portuguesas. Vistas da montanha, tornam-se ainda mais belas. Viajando por esta região do centro leste do Vietname percebe-se a razão por que é tão procurada pelos turistas, turista que não me considero, pois penso que os turistas viajam para ver e eu viajo para conhecer.

Fotografia AGM (retirada do filme)

As últimas palavras que escrevi transportam-me para um dos meus poetas, Joaquim Namorado, que agora estou a reler na belíssima edição de 2020, apoiada integralmente pela Associação Promotora do Museu do Neo-Realismo, de que sou associado e de cuja Direcção fiz parte durante vários anos, não resistindo a transcrever para aqui um poema de que muito gosto (1):

TURISMO

 

                                                                     A paisagem é bela,

                                                                     cumpre o seu dever.

                                                                      E os turistas mandando-a

                                                                      em bilhetes postais à família,

                                                                      cumprem o seu.

 

Eu não mandei bilhetes postais à família, escrevo sobre a viagem para quem me quiser ler.

Primeira paragem na aldeia piscatória de Lang Co, mais ou menos a meio do percurso (cerca de 64 km), onde pude ver os viveiros de ostras e assistir à sua apanha de forma bem artesanal, mas não deixa de ser um contributo para a produção de mais de 2,5 toneladas por ano no Vietname. Aqui, vemos pneus de bicicleta já gastos a que as ostras se agarram e, depois, os pescadores a torcerem estes pneus com uma vara de modo a que as ostras se vão soltando, sendo de seguida seleccionadas, normalmente por mulheres.

Fotografia AGM

Prosseguiu a viagem em direcção à cidade imperial, com duas paragens antes da chegada ao hotel.

Primeiro, num mercado de incenso, onde se assiste à preparação dos vários aromas e à produção daquelas pequenas hastes, muito fininhas, que podemos adquirir e, ao queimá-las, encher uma casa de um ou vários aromas. Confesso que foi uma surpresa ver como se produzem, que até parece muito fácil ao olhar a artesã.

Foi numa pequena aldeia, cujo nome não anotei (Xuan Thuy?), que vi como eram feitas as hastes. Ouvi que estas hastes são feitas com eixo de bambu e mistura de resinas naturais, havendo aqui muitas casas onde se fabricam as hastes de incenso, com vários aromas —como o ágar (extraído de algas), canela e pinho, os mais vulgares— e de cores diferenciadas.

Percebi da explicação dada que o aroma escolhido é misturado com álcool a 96°, numa percentagem de 25% da essência aromática com uma percentagem de 75% de álcool, sendo depois as hastes submergidas, uma a uma, naquela mistura, mas o que vi foi serem as hastes retiradas da massa escura que se vê à direita da artesã, na fotografia abaixo, retirando primeiro o pó que tem à frente com uma pequena peça de madeira adaptada com uma pega, pó esse que espalha na mesa de trabalho, pressionando depois aquela massa em movimentos horizontais, massa essa que vai ficando cada vez mais estreita, até ao momento em que começa a surgir a haste, que a artesã, num movimento rápido, retira do conjunto que tem na mão esquerda e coloca debaixo da peça de madeira, embebendo-a no pó e na massa com os movimentos horizontais que já referi. Vê-se depois a artesã retirar essa haste, que junta às outras no recipiente que já tem no colo, de acordo com a fotografia. A primeira impressão é que a haste já parece estar na massa escura, mas um olhar mais atento mostra que não. Claro, estou a descrever o que vi e não sei dar outra explicação. A primeira impressão que se tem, como digo acima, é que, de facto, a haste parece já estar naquela massa escura. A velocidade e facilidade com que a artesã faz o seu trabalho cria essa primeira impressão que, depois, com mais atenção, se verifica que assim não é.

A artesã foi trabalhando e sorrindo com grande alegria para quem a estava a ver e mostrando alguma familiaridade com o guia da Agência organizadora da viagem, o Florian Cleirens, que acompanhou o grupo do primeiro ao último dia. Sabendo-se que o Florian é visita assídua, não é de estranhar tal familiaridade.

Fotografia AGM (retirada do filme)

O incenso pode ser confeccionado com massala (nome dado a uma mistura de ervas, especiarias e aromatizantes especiais, que na Índia se utilizam também na cozinha), pó de sândalo, ervas, óleo de essência. A partir da folha da casca vermelha de uma árvore —Litsea Glutinosa—, existente no planalto central do Vietname, podem fazer-se as hastes para o incenso, sendo considerado um produto de excelência para tal fim.

Não comprei as hastes de incenso, mas comprei o tradicional e célebre chapéu vietnamita.

Dada esta explicação, esperando eu não ter dito muitas asneiras, partiu-se daquela aldeia para poucos quilómetros depois, já muito perto da cidade de Hué, se proceder a nova paragem, desta vez para visita ao  Mausoléu Imperial Khai Dinh. Este mausoléu demorou cerca de 11 anos a ser contruído (1920-1931), o qual veio a ser reconhecido pela UNESCO como património cultural mundial. Está situado na montanha de Chau Chu, cidade de Huong Thay, às portas da antiga capital do Vietname, a cidade imperial de Hué.

Khai Dinh (1885-1925) foi o 12.º rei da dinastia Nguyen (1885-1925). Para chegar ao seu túmulo, temos de subir três lances de escadas.

Mausoléu Imperial Khai Dinh (fotografia AGM)

Um pormenor do exterior do Mausoléu (o autor com a camisete vietnamita. Fotografia Célia Marques)

O visitante depara-se com um monumento construído com uma mistura de arquitectura oriental e ocidental. Repare-se no seu interior na fotografia que abaixo se reproduz.

Quando olhei  para o conjunto edificado como mausoléu, não deixei de sentir alguma estranheza, provavelmente por ser um ocidental europeu; depois, com as respostas obtidas às minhas interrogações, fiquei a saber que as famílias reais passavam grande parte do seu tempo a preparar-se para a morte mandando edificar o seu túmulo e, como não deixariam de ter a esperança de viver uns bons anos, o conjunto era planeado de modo a que ali pudessem passar algum tempo, ou seja, antes de receber o monarca falecido —quando tivesse «montado as costas do dragão»—, o mausoléu tinha condições para servir como uma segunda habitação, como casa de campo. O monarca usava as instalações em vida e depois de morto. Temos de reconhecer que era uma forma inteligente de dar uma dupla utilização ao conjunto.

A estátua dourada do rei que se vê na fotografia foi feita em França, em 1920. A riqueza do interior do mausoléu é evidente, especialmente na parte principal, onde está a tumba, não só nos trabalhos que ornamentam as suas paredes e colunas, como também na pintura do dragão no tecto, havendo também os muitos objectos de cerâmica e porcelana existentes nesta parte do edifício. As paredes e o túmulo propriamente dito atraíram a minha atenção de modo muito particular.

Fotografia AGM

Realizada a visita, chegou o momento da partida para, por fim, se chegar à cidade de Hué, antiga capital do Império, percorrendo uma distância de cerca de 9 km. Foi a capital do Vietname durante o domínio da dinastia Nguyen, então chamada Phú Xuân, a última dinastia na história do país. Voltarei a esta questão no capítulo que dedicarei à história do país.

«Desde o século XVII, com o seu poder consolidado, os senhores Nguyen e os seus mandarins entregaram-se a uma vida de luxo desenfreado. Os haréns estavam a encher-se; o Senhor Nguyen Phuc Chu teve 146 filhos. Construíram muitos palácios, com madeiras preciosas, ricamente esculpidas, vestiam-se de seda e brocado; a capital Phú Xuân (atual Hué) assumiu as dimensões de uma metrópole.» (2).

O luxo do Mausoléu segue, portanto, as tradições da família Nguyen. Não há, assim, lugar a qualquer espanto.

NOTAS

Vietname – Sexto dia no país
  1. in: Joaquim Namorado, Incomodidade – Viagem ao País dos Nefelibatas, incluído em Sob uma Bandeira (Obra Poética), Organização, Prefácio e Notas de José Carlos Seabra Pereira, Edição Modo de Ler – Centro Literário Marinho, Lda., Design Editorial de Rui Mendonça, Porto,, s/d;
  2. in: Nguyen Khac Vien, Vietnam – una larga historia, Editorial The Gioi, Hanoi, 2015, 5ª. Edición, pág. 101, edição em castelhano.

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