Em Viagem pela Indochina – IV Vietname (7), por António Gomes Marques

Em Viagem pela Indochina

IV – Vietname (7)

Sétimo dia no país

por António Gomes Marques

De manhã, saiu-se para mais um passeio de barco, desta vez no Rio Perfume, que corta a cidade, destacando-se a chamada Cidade Imperial, uma cidadela murada, rodeada por um canal e à qual só se pode aceder por duas pontes e que terá sido construída tendo como modelo a Cidade Proibida de Pequim, morada dos imperadores chineses. Hué foi também nomeada Património Mundial pela UNESCO.

O nome do rio tem também a sua história, como é tradição nestas paragens. No caso do rio Perfume, a sua designação ter-se-á devido ao perfume que do rio se libertava no Outono devido às muitas flores existentes nas suas margens e que nesta estação caíam à água. Como passeei no rio no princípio de Março, não tive oportunidade de sentir esse perfume, mas também não vi assim tantas flores que me levem a admitir que ainda se possa sentir o referido perfume. Há que voltar a Hué num Outono de um qualquer ano para verificar, o que farei com todo o gosto se para isso tiver dinheiro e resistência, que cada vez será menor com o andar dos anos.

À espera do grupo tínhamos um dos muitos barcos do dragão, nome com nítida influência chinesa, primitivamente utilizado apenas pela família real:

Barco do dragão, no Rio Perfume, Hué (fotografia AGM)

Pagode Thien Mu, visto do rio Perfume (fotografia AGM, retirada do filme)

O passeio de barco tinha como principal objectivo a visita ao Pagode Thien Mu, fundado em 1601, que é o mais antigo da cidade, situado na aldeia de Huong Long, a menos de 6 km de Hué.

Como não poderia deixar de ser, tem associado uma lenda: «O nome do pagode vem de uma lenda. Há muito tempo, uma velha conhecida como Thien Mu (literalmente “Senhora do Céu”) apareceu na colina onde agora se encontra o pagode. Ela disse à população local que um dia um rei viria e construiria um templo budista para a prosperidade do país. Em 1601, ao ouvir esta lenda, o rei Nguyen Hoang iniciou a construção do pagode. Outras construções e renovações foram feitas durante os séculos seguintes e a Torre Phuoc Dien na entrada do complexo foi construída em 1864 (algumas fontes dizem 1844) pelo imperador Thieu Tri. A torre tem sete níveis, 21 metros de altura …» (1)

A torre é de grande beleza, como a fotografia acima mostra, mas o complexo, na sua totalidade, é também belo.

Subida a escadaria, quando entrei no complexo logo a minha atenção se concentrou num sino gigante de bronze e também num característico bombo gigante dos templos budistas.

Continuando a transcrever do mesmo «site» da citação anterior, podemos ler: «A oeste da torre está um pavilhão que abriga um sino gigante de bronze, conhecido como Dai Hong Chung. O sino foi lançado em 1710 por Nguyen Phuc Chu, pesa 3285 kg (7242 libras) e pode ser ouvido a 10 quilômetros de distância. O santuário principal, conhecido como Santuário Dai Hung, é dividido em dois segmentos separados – o saguão da frente é separado do santuário principal por várias portas dobráveis de madeira. O salão do santuário consagra três estátuas de Buda (que simbolizam vidas passadas, presentes e futuras), bem como várias outras relíquias importantes. Os residentes do Pagode Thien Mu – os monges budistas que adoram no santuário e o mantêm, também ocupam o Santuário Dai Hung.» (2)

Após a referida escadaria, eis o que é dado ver ao visitante:

Fotografia AGM

O sino, quando toca, dizem-me que pode ouvir-se a 10 km de distância. «E se for o bombo?», foi a pergunta que de imediato me ocorreu, mas o meu interlocutor não soube responder-me.

A estela que se vê à esquerda tem uma longa inscrição, em caracteres chineses ou vietnamitas (não sei qual a diferença), inscrição essa que, hoje, seria feita com caracteres ocidentais —é esta a minha convicção—, correspondência que foi feita por jesuítas, o que procurarei descrever no capítulo respectivo.

Fui também atraído, quando me dirigia para o templo antigo, pelas imagens dos guardiões budistas, pela estátua do Buda que sorri para nós, mas é chegado o momento de entrar no templo antigo.

O interior deste santuário é merecedor de visita. Antes de entrar, há que deixar os sapatos à entrada, costume que não é exclusivo da religião muçulmana.

Pormenor do santuário, com os 3 budas -um tapado pelas flores (fotografia AGM, retirada do filme)

No caminho da saída, deve aproveitar-se para ver com mais pormenor os jardins, com as características plantas tropicais e umas tantas esculturas religiosas. De repente, sou surpreendido pela exposição de um automóvel, aparentemente muito bem conservado (matrícula: DBA – 599), que me causa estranheza por me parecer, na primeira impressão, nada ter a ver com o templo que visitava. Havia que colocar, portanto, mais uma questão a quem pudesse esclarecer-me, o que não foi difícil.

O primeiro presidente do Vietname do Sul, Ngo Dinh Diem —voltarei a falar dele quando tratar da história do Vietname e, em particular da Guerra do Vietname, em que o principal opositor foi o país que se conhece como EUA, como se no continente americano não existissem outros países—, o qual logo ao assumir a presidência declarou que, a partir daquela data, o Vietname do Sul se tornaria seguidor da Igreja Católica e de Jesus Cristo, ignorando que o budismo era a religião com larga maioria de seguidores, entre 70 a 90% da população na época. Pior do que tal declaração, foi a institucionalização de políticas discriminatórias em relação ao budismo.

A declaração de Ngo Dinh Diem provocou um grande descontentamento e, em Maio de 1963, esse descontentamento foi agravado com uma cerimónia pública com exposição de grande quantidade de cruzes cristãs, sendo proibida, dois dias depois, a bandeira budista, o que levou os budistas a responderem com muitos protestos, aproveitando as festividades de comemoração do aniversário de Buda para saírem à rua com as suas bandeiras na mão, sendo recebidos a tiro junto à sede da rádio governamental, de que resultaram nove mortos.

A 10 de Junho começaram a ouvir-se rumores de que algo de grave iria acontecer, o que levou alguns repórteres, poucos, a marcar presença, entre os quais o fotógrafo Malcolm Browne, que registou o momento de auto-imolação do monge budista, Thích  Quang Duc, no dia 11 de Junho de 1963, o qual se havia deslocado no automóvel que a fotografia abaixo mostra e que vi no templo budista na margem do rio Perfume, como acima refiro.

Automóvel que transportou o monge budista Thích Quang Duc (fotografia AGM)

Fotografia de Malcolm Browne
in: https://www.megacurioso.com.br/fotografia/103239-o-monge-em-chamas-conheca-a-historia-por-tras-dessa-terrivel-imagem.htm (3)

A acção do monge Thích Quang Duc motivou outras auto-imolações (4) e uma perturbação por motivos religiosos, que levariam, após 9 anos de governo despótico, ao derrube e à morte de Ngo Dinh Diem, em 1 de Novembro de 1963, no seguimento de um golpe de estado liderado pelo general Duong Van Minh.

Do jardim, de grande beleza, guardo a imagem de uma das árvores de que mais gosto, a bonsai, bem representada neste jardim com vários exemplares.

Fotografia AGM (retirada do filme)

Bonsai é o nome japonês, mas esquecemo-nos, no Ocidente, de que se trata de uma criação japonesa a partir de uma arte chinesa tradicional, com algumas diferenças, ou seja, os japoneses inspiraram-se naquela arte chinesa.

Penjing
in: https://www.bonsaitreegardener.net/general/chinese-penjing-influences-japanese-bonsai

Estas árvores minúsculas começaram a ser cultivadas em pequenos vasos ornamentais durante a dinastia chinesa Tang (618-907), primeiro apenas nas famílias reais, arte esta levada para o Japão por monges budistas, havendo várias teorias sobre o desenvolvimento que esta arte teve no país do Sol Nascente (Nippon ou, nome arcaico, Jippon, que significa «Origem do Sol») de que não vou falar aqui.

«O penjing chinês se refere ao processo de criação de paisagens em miniatura por meio do cultivo de diferentes tipos de árvores minúsculas ao lado de vários objetos naturais e / ou não naturais, como coberturas de solo, pedras e pequenas estatuetas.

A arte do penjing é muito mais irrestrita em termos das diferentes paisagens que podem ser trazidas à vida – é tudo sobre a imaginação do artista penjing.

O bonsai japonês engloba a arte e a ciência por trás do cultivo de árvores em miniatura ou arbustos em recipientes minúsculos, a fim de obter uma versão em miniatura autêntica de como uma árvore / arbusto cresceria livremente na selva.» (5). Exemplos abaixo de vários tipos de bonsai, que poderão comparar-se com o exemplar penjing imediatamente anterior:

Bonsai
in: https://www.bonsaitreegardener.net/general/chinese-penjing-influences-japanese-bonsai
(Fonte da imagem: https://www.pinterest.com/pin/527343437588649419/)

Mas a antiga cidade imperial tem mais para ver, a começar no mercado popular mais importante de Hué com dois pisos, o mercado Dong Ba. Não é daqueles mercados preparados para turista ver, este é o mercado quotidiano dos habitantes pobres da cidade e de grandes dimensões, com centenas e centenas de pequenas lojas que apenas distingui pelo contador de electricidade, ou seja, cada uma das lojas tem um contador e, só assim, o visitante percebe que cada um daqueles pequenos espaços é uma tenda com o seu dono, atulhadas com variadíssimos produtos, tão variados que desafiam a imaginação de qualquer pessoa: todo o tipo de aparelhos eléctricos, roupas, sandálias, chinelos, sapatos (predominando os ténis), frutas, café, chá, carne, peixe, marisco, os mais variados e excelentes temperos, etc. O leitor pode imaginar o que quiser, dirige-se ao mercado de Dong Ba e, atrevo-me a dizer, ali encontrará o que procura. Segundo o guia, os preços neste mercado são baixos.

O grupo foi avisado para ter cuidado com os carteiristas, sobretudo nas zonas escuras, ou com algum popular que apareça a querer conduzir-nos a comprar qualquer produto para depois reivindicar uma comissão ao vendedor. Enfim, é necessário fazer pela vida.

O mercado estava cheio de pessoas, com larguíssima maioria vietnamita. Eu e a Célia nada ali comprámos, limitámo-nos a passear por aqueles corredores apertados, onde circular não é fácil.

Pormenor do Mercado de Dong Ba (fotografia AGM, retirada do filme)

Segiu-se a visita mais importante: a Cidade Imperial.

Situada a meio do país, a cidade de Hué foi a capital do Vietname da dinastia Nguyen, dinastia esta que viria a ser a última do Vietname, reinando entre 1802 e 1945.

A cidade é cortada pelo já por mim referido Rio Perfume, e a Cidade Imperial é uma cidadela murada, cercada por um canal e com aceso apenas por duas pontes, tendo sido considerado, este conjunto de monumentos de Hué, Património Mundial pela UNESCO, em 1993. Uma parte da cidadela foi destruída pelos bombardeamentos americanos, em 1968, aquando da chamada guerra do Vietname.

Quando caminhava para a entrada, com a máquina de filmar ligada, fui surpreendido por quatro lindas jovens vietnamitas, vestindo o chamado traje vietnamita —Ao Dai—em que uma delas, ao aperceber-se que estava a ser filmada, mostrou o habitual sorriso vietnamita de simpatia.

Fotografia AGM (retirada do filme)

A construção da cidadela imperial está cheia do simbolismo caracteristicamente oriental, construção essa relacionada com os pontos cardeais e os cinco elementos da natureza, segundo as informações que me foram prestadas. Ora, o relacionamento com os pontos cardeais é algo que qualquer ocidental pode compreender, mas o relacionamento com os cinco elementos da natureza, presumindo eu que a referência é aos cinco elementos da natureza da cultura chinesa —Madeira (expansão), Fogo (ascendência), Terra (neutralidade), Metal (contracção), Água (movimento descendente)—, já se me torna difícil ver na sua construção tal referência a esses cinco elementos da natureza, provavelmente por falta de imaginação do ocidental que não deixo de ser e, assim, ter de aprofundar o conhecimento da cultura oriental.

Thai Hoa Palace. (in: https://pt.vietnamitasenmadrid.com/2011/07/cidade-imperial-de-hue.html)

Gia Long, o Imperador, pretendia, segundo o que reza a história, que a cidadela fosse uma cópia em menores dimensões da Cidade Proibida de Pequim, mas parece-me, pelos filmes, fotografias e descrições que tenho lido, dado ainda não conhecer Pequim, que há substanciais diferenças, a começar pela orientação de um palácio e outro, a cidadela de Hué para Este e o complexo de Pequim para Sul.

Sala do Trono, Palácio Tha’i Ho (in: http://www.viajeuniversal.com/vietnam/provinciahue/.htm)

A cidadela tem uma área quadrada rodeada pela referida muralha de 2 km de lado e esta por um fosso com água vinda do Rio Perfume (Huong Giang).

Dentro da cidadela há o que resta da Cidade Imperial, ainda bem preservada, e, dentro desta, a cerca imperial, a chamada Cidade Proibida Púrpura, utilizada em exclusivo pela já referida Família Imperial Nguyen, a qual é composta por vários palácios, com os seus portões e pátios, destacando-se o Palácio da Paz Suprema (Palácio Tha’i Ho), exclusivo da família imperial, com a sua Sala do Trono, ele também rodeado por uma outra muralha e um fosso com água.

Ao Palácio Imperial juntaram-se outros edifícios, como o Teatro Imperial, palácios, pátios e portões.

Interior do teatro da Cidade Imperial (Fotografia AGM)

Visitada a Cidade Imperial, era tempo de ir para o aeroporto a fim de tomar o avião da Vietnam Airlines que conduziria o grupo à grande cidade Ho Chi Minh, que engloba a antiga Saigão, Bien Hoa, Di Na, Thu Dau Mot e mais umas tantas cidades que rodeavam Saigão, assim ganhando o estatuto de Província.

Após instalação em mais um dos excelentes hotéis de 5 estrelas com que o Vietname está dotado, foi chegado o momento do jantar num restaurante local, seguindo-se o necessário descanso para aguentar o dia seguinte, lembrando que a vida de um viajante é dura.

 

NOTAS

Vietname – Sétimo dia no país
  1. in: https://pt.sacredsites.com/%C3%81sia/Vietn%C3%A3/thien_mu_pagoda_hue.html;
  2. idem, idem;
  3. no «link» indicado –https://www.megacurioso.com.br/fotografia/103239-o-monge-em-chamas-conheca-a-historia-por-tras-dessa-terrivel-imagem.htm-, com texto de Maria Luciana Rincón, a história é contada com mais pormenores e ilustrada com mais fotografias da imolação do monge, da autoria de Malcolm Browne;
  4. Poderei estar a especular, mas ninguém me tira da cabeça que Jan Palach pensou no monge Thích Quang Duc quando decidiu autoimolar-se na Praça Venceslau-Praga, em 19 de Janeiro de 1969, no seu repúdio pela invasão soviética e outras forças de países do Pacto de Varsóvia, que levou à liquidação da Primavera de Praga;
  5. in: https://www.bonsaitreegardener.net/general/chinese-penjing-influences-japanese-bonsai;

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