BRASIL DE FATO – BOLETIM PONTO – .150 – A FADA, O CAÇADOR E O BICHO-PAPÃO DE MINISTÉRIOS


O retrato de um país estagnado onde o futuro é conquistado com extremo sacrifício ficou claro nas Olimpíadas. É impossível não notar o contraste entre esses jovens e as velhas raposas do governo – Wander Roberto / COB

 

Sexta-feira, 30 de Julho de 2021

 

Olá! Enquanto o centrão avança sobre os ministérios e o governo faz propaganda das milícias rurais, o futuro do país depende de um grupo de jovens atletas. Não é conto de fadas, é a hora do pesadelo da realidade brasileira.

 

.Fica tudo para depois? Com Ciro Nogueira na Casa Civil e sem pressão suficiente vinda das ruas, a vida política no Brasil parece um jogo empatado a ser decidido em 2022. No governo, o centrão civil invade e desaloja o território do centrão fardado, justo num momento em que o STF e a PGR estão pagando para ver as cartas do golpe de Braga Netto na mesa. Já para Renan Calheiros, a habilidade de Ciro Nogueira não será suficiente para reverter a minoria do governo no Senado e nem barrar os avanços da CPI da Covid. Mesmo a adesão do PP ao governo não é automática. A possibilidade de Bolsonaro ingressar na sigla desagrada os deputados, afinal comprometeria alianças locais com a oposição, em especial no nordeste, e redirecionaria o fundo partidário das campanhas parlamentares para uma estrutura mais profissional na campanha presidencial. Além disso, colaria o partido na queda de popularidade do governo. “Hoje, 90% do eleitor de direita gostaria de uma opção diferente”, disse um deputado do Progressistas à Veja. Além da possibilidade de uma traição do centrão, o movimento de Bolsonaro pode ser visto por alguns como um estelionato eleitoral aos princípios que o elegeram. Mas, apesar do apreço dos deputados pelas eleições, a presença do centrão não freia o golpismo, como se viu na live carregada de fake news sobre o voto impresso, provando que o alvo de Bolsonaro e dos generais continua sendo o STF. Enquanto isso, defensores do capitão apostam na distância das eleições, na recuperação da economia pelas commodities, pela vacinação e por um novo programa de renda para os mais pobres para chegar competitivo em 2022. Para o governo, a classe média é um caso perdido e os mais pobres seriam “mais sensíveis à economia e menos engajados em discussões sobre democracia e covid”. Já Lula, na metáfora de Andrea Jubé, joga parado, evitando as bolas divididas e não parte desesperado para o ataque. Não é um jogo que enche os olhos, mas tem se mostrado eficiente. Vale inclusive acenar para a torcida adversária: PP, PL, PTB, PROS, PSC, Avante e Patriota.

.Com quem será? Quem também já se conformou de que o jogo será decidido entre Bolsonaro e Lula é o mercado financeiro. Para desespero de Luiz Felipe D’Avila e seus colegas do Estadão, que reclamam que parte da elite sonha com um lulismo de coexistência entre mercado e agenda social e outra parte que acha o petismo inaceitável e não vê outra alternativa senão manter-se próximo a Bolsonaro. Mas o sucesso da manobra também dependerá da habilidade de Lula em conciliar interesses contraditórios. Nesse sentido, Thaís Oyama alerta que o sinal da dificuldade já apareceu quando Lula resolveu manifestar-se contra a taxação das grandes fortunas, levando uma surra nas redes sociais. Obviamente o governo conta com uma retomada econômica e a recuperação de dez dos treze setores industriais mais importantes parece contribuir para isso. O sinal positivo veio do FMI, que revisou para cima a projeção de crescimento do PIB brasileiro para este ano para cerca de 5,3%. Porém, avisam os industriais, só com avanço da vacinação e sem disseminação da variante delta. Além disso, o “centrão financeiro”, que negocia as reformas diretamente com Arthur Lira, gostaria de ver as privatizações avançando, mas dificilmente o governo cumprirá suas próprias metas, além do foco do mercado estar voltado agora para as privatizações em estados e municípios, principalmente a partir do novo marco regulatório do saneamento. Já o ex-vice-presidente do Banco Mundial Otaviano Canuto não vê um cenário promissor no futuro. Para o economista, as commodities não serão suficientes para alavancar a economia e os investimentos internacionais não vão aportar no país, em parte pela péssima imagem no exterior. Mas não é só do andar de cima que depende a sorte do governo e da oposição. Segundo o Banco Central, o endividamento das famílias atingiu o maior índice da série histórica iniciada em 2005. Isso num quadro em que a inflação já atingiu sua mais alta taxa dos últimos 17 anos para o mês de julho e que ainda pode piorar devido aos efeitos negativos das geadas para a agricultura.

.Tão longe de nós. O retrato de um país estagnado onde o futuro é conquistado com extremo sacrifício ficou claro nas Olimpíadas. Ítalo Ferreira aprendeu a surfar numa tampa de isopor. Fernando Scheffer treinou para os jogos olímpicos nadando num açude. A skatista Rayssa Leal, a Fadinha, teve que enfrentar o estigma de um esporte criminalizado e dominado por homens. Quando criança, a ginasta Rebeca Andrade tinha que caminhar duas horas para chegar no ginásio onde treinava. É impossível não notar o contraste entre esses jovens e as velhas raposas do governo que ignoram as necessidades da maioria e fazem do Estado um biombo de interesses particulares. Somos governados por um simpatizante da extrema-direita europeia e, agora sabemos, com vínculos antigos com grupos nazistas brasileiros. Bolsonaro fechou o Ministério dos Esportes e aproveitou a pandemia para realizar enormes cortes na Bolsa Atleta. A Secretaria Especial do Esporte, vinculada ao Ministério da Cidadania, é gerida atualmente por um amigo pessoal de Flávio Bolsonaro. Na educação e na ciência, além de dar a Medalha do Mérito Oswaldo Cruz para sua própria esposa, Bolsonaro nomeou a seu bel prazer reitores não-eleitos em 40% das universidades federais. E quando seu aliado Onyx Lorenzoni ficou sem cargo, o capitão deu um jeito de achar um cantinho pra ele, dividindo o latifúndio improdutivo de Paulo Guedes e recriando o Ministério do Trabalho, sem nenhum debate sobre a política trabalhista. Mas os ministros e secretários do governo não ficam atrás de seu chefe. A “homenagem” da Secretaria de Comunicação ao dia dos agricultores é mais uma propaganda armamentista do que uma homenagem. Frente ao incêndio da Cinemateca Brasileira, o Secretário da Cultura Mario Frias lavou suas mãos levantando a hipótese de que tenha sido um ato criminoso. E o ministro da Ciência e Tecnologia resume-se a fazer sala para a representante da ultradireita alemã e para o embaixador estadunidense, enquanto o apagão de dados no CNPq já dura quase uma semana sem solução, prejudicando a pesquisa nacional.

.O fim está próximo? Ao longo do último mês, as taxas de casos e óbitos de Covid-19 diminuíram de forma consistente no Brasil. Mas será que essa curva descendente vai prosseguir? As experiências de outros países indicam que não. Drauzio Varella alerta que a disseminação da variante delta pode gerar no Brasil uma situação similar à europeia: a chegada de uma nova onda da pandemia mesmo com o avanço da vacinação. No nosso caso, avanço lento, diga-se de passagem. Outro agravante é o movimento antivacina, que ganhou impulso nos Estados Unidos, mas que aqui também tem seus influenciadores. Há também uma grave desigualdade no acesso à imunização. O LabCidade mostra que regiões da periferia urbana são verdadeiros “desertos vacinais”. Assim como a pandemia não acabou, também não cessaram seus efeitos políticos. O depoimento de Eduardo Pazuello à Polícia Federal e a auditoria do TCU sobre o caso Covaxin de certa forma adiantam o fim do recesso da CPI. Já estão agendados depoimentos do reverendo Hamilton Gomes de Paula, envolvido no caso da Davati, e Francisco Maximiano, ligado à Precisa Medicamentos. O caso da AstraZeneca ainda pode dar pano pra manga. Em janeiro de 2021, a farmacêutica teria informado o Ministério da Saúde que não negociava através de intermediários, mas mesmo assim o governo brasileiro prosseguiu fazendo tratativas com a Davati Medical Supply. Por fim, a suspensão da autorização para importar a Covaxin por parte da Anvisa não vai impedir que as investigações sobre o caso prossigam. Afinal, como revela a Piauí, as redes de relações que deram origem a esse esquema se iniciaram ainda em maio de 2020, com um jantar entre o advogado Marcos Tolentino e o então ministro Eduardo Pazuello. Ou seja, a CPI promete dar muita dor de cabeça ainda para Pazuello e Bolsonaro.

. Ponto Final: nossas recomendações.

.Três por Quatro. A partir desta semana, toda sexta-feira o jornalista Igor Felipe recebe Carol Proner, José Dirceu e Juliane Furno para discutir a conjuntura política no novo podcast do Brasil de Fato.

.Quando as Olimpíadas eram anticapitalistas. No Outras Palavras, Gabriela Leite resgata a história das Olimpíadas dos Trabalhadores que ocorreram na Europa entre 1925 e 1937.

.O Brasil de Bolsonaro – um anão no cenário internacional. A agência de notícias alemã DW critica de forma contundente a recepção da deputada neonazista pelo governo: “Bolsonaro reduziu o Brasil a mero peso-mosca. É como se Merkel marcasse uma reunião com o deputado Tiririca”.

.Bolsonaro, Fidel e Covid-19: como Cuba superou o Brasil na corrida das vacinas. No Repórter Brasil, Diego Junqueira conta como, sem trocar emails com a Pfizer, a pequena ilha produziu duas vacinas locais e superou os gigantes do continente.

.A ‘fábrica de oficiais’ por onde passa a política brasileira dos militares. O El País mostra como funciona a Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), onde Bolsonaro e seus generais foram formados, um ambiente politizado e fechado em si mesmo.

.A inovadora parceria entre o iFood e as milícias. No Diplô Brasil, Leo Vinicius Liberato descreve as ligações perigosas entre a plataforma de aplicativos e grupos criminosos para coagir entregadores.

.Derrubar estátuas não apaga a história, faz com que a vejamos com mais clareza. O professor Enzo Traverso, da Universidade de Cornell, discute os argumentos dos críticos europeus à derrubada de estátuas racistas.

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Ponto é uma publicação do Brasil de Fato. Editado por Lauro Allan Almeida Duvoisin e Miguel Enrique Stédile.

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