MORREU OTELO SARAIVA DE CARVALHO, FIGURA DA REVOLUÇÃO PORTUGUESA. ATÉ UM DIA, CAMARADA! – por VALÉRIO ARCARY

Figure de la Révolution portugaise, Otelo Saraiva de Carvalho est mort. Au revoir camarade!, por Valério Arcary

Contretemps, 26 de Julho de 2021

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

Há pessoas que praticam atos tão extraordinários que ficam na história durante a sua vida. Otelo Saraiva de Carvalho era ainda um jovem quando, a 25 de Abril de 1974, liderou a revolta militar que derrubou o governo de Marcelo Caetano e a ditadura de Salazar, a forma portuguesa do regime fascista. A sua coragem merece admiração e respeito.

Os riscos não eram pequenos. Foi uma proeza, mesmo um feito  político-militar, até porque alguns meses antes uma revolta em Caldas da Rainha tinha falhado. A ditadura tinha quase meio século de existência. Fazê-la cair   requer coragem pessoal, articulação, organização meticulosa e lucidez estratégica.

Otelo foi o chefe do COPCON (Comando Operacional do Continente), uma unidade militar chave durante os dezoito meses decisivos da situação revolucionária. Tal como muitos outros oficiais de carreira das Forças Armadas, Otelo veio da classe média plebeia. Era um homem de ação, muito pró-ativo, com poucos conhecimentos políticos, mas radicalizou-se à esquerda como resultado da trágica experiência da guerra colonial, e ficou entusiasmado com a intensidade da mobilização popular após o 25 de Abril.

Otelo tinha uma personalidade carismática, repleta de sinceridade e paixão, algures entre Chávez e o Capitão Lamarca[1], ou seja, entre o heroísmo da organização da revolta e a deriva aventureira das suas relações posteriores com a FP-25, um grupo militarista, que o  levou a ser preso.  Felizmente, houve uma amnistia.

A história ensina-nos que em situações revolucionárias, os seres humanos ultrapassam-se  ou elevam-se acima de si mesmos, dando o melhor de si. O melhor e o pior do que eles têm emerge então. Os oficiais do MFA [Movimento das Forças Armadas, que derrubou a ditadura a 25 de Abril de 1974] foram protagonistas centrais da Revolução portuguesa. O lugar dos indivíduos ou a sua estatura foi então revelado.

Entre eles, Spínola era enérgico e perspicaz, um ultrarreacionário pomposo, fazendo-se passar por um general germanófilo com o seu  espantoso monóculo do século XIX. Costa Gomes, subtil e astuto, era, como um camaleão, um homem de oportunidades. Do MFA  surgiu a liderança do Salgueiro Maia ou Dinis de Almeida, militares corajosos e honrados, mas sem formação  política; Vasco Lourenço, de origem social popular, audacioso e arrogante, mas tortuoso; Melo Antunes, educado e sinuoso, o homem-chave do Grupo dos Nove, o feiticeiro que acaba por ficar  prisioneiro das suas manipulações; Varela Gomes, o homem da esquerda militar, discreto e digno; Vasco Gonçalves, menos trágico que Allende, mas também sem a bufonaria de Daniel Ortega. Foi também do exército que emergiu o “Bonaparte” Ramalho Eanes, sombrio e sinistro, que enterrou o MFA.

A guerra nas colónias mergulhou Portugal numa crise crónica. Um país de dez milhões de habitantes, claramente desfasado da prosperidade europeia dos anos 60, sangrado pela emigração de uma juventude em fuga do serviço militar e da pobreza, não podia manter indefinidamente um exército de ocupação de várias dezenas de milhares de homens numa guerra africana.

A reforma a partir de cima, através de mudanças internas no próprio Salazarismo, a transição negociada, a democratização pactuada, tantas vezes esperada, não chegou. O fascismo “defensivo” deste império desproporcionado e meio  autárcico sobreviveu a Salazar, permanecendo no poder durante  um incrível período de 48 anos. A burguesia desta pequena metrópole resistiu à onda de descolonização da década de 1950 durante um quarto de século.

A partir dos anos 60, Portugal arranjou força para combater uma guerra de guerrilha em África, na Guiné-Bissau, Angola e Moçambique, ainda que durante a maior parte desses longos anos tenha sido mais uma guerra de movimentos do que uma guerra de posições, sempre sem uma solução militar. Mas a guerra sem fim acabou por destruir a unidade das forças armadas. Ironicamente, foi o mesmo exército que deu origem à ditadura ao destruir a Primeira República (golpe de Estado de 1926), e que derrubou o salazarismo para assegurar o fim da guerra em 1974.

Clandestinamente, nas fileiras inferiores, o Movimento das Forças Armadas, o MFA, já estava a formar-se. A fraqueza do governo de Marcelo Caetano era tal que cairia como um fruto podre em poucas horas. A nação estava exausta com a guerra. Através da porta aberta pela revolução anti-imperialista nas colónias, entraria a revolução política e social na metrópole.

O serviço militar obrigatório era de quatro anos, dos quais pelo menos dois eram para ser feitos no ultramar. Mais de dez mil pessoas morreram, sem contar os feridos e mutilados, que foram dezenas de milhares. Foi no seio  deste exército de alistamento obrigatório que surge um dos actores políticos decisivos do processo revolucionário, o MFA.

Respondendo à radicalização da classe média na metrópole e também à pressão da classe trabalhadora em que uma parte destes oficiais de classe média tinham a sua origem de classe, cansados da guerra e querendo liberdade, estes militares romperam com o regime. Estas pressões sociais também explicam os limites políticos do próprio MFA, e ajudam a compreender por que razão, depois de derrubar Caetano, entregaram o poder a Spínola.

O próprio Otelo, um destes militares, a partir do 11 de Março, partidário do projeto de transformação do MFA num movimento de libertação nacional, à maneira dos movimentos militares dos países periféricos, como no Peru no início dos anos 70, faz um balanço com uma franqueza desconcertante:

“Este sentimento inveterado de subordinação à hierarquia, da necessidade de um chefe que, acima de nós, nos guiasse no caminho ‘certo’, perseguir-nos-ia  até ao fim”.

Esta confissão continua a ser uma das chaves para interpretar o  chamado PREC (Processo Revolucionário em Progresso), os doze meses durante os quais Vasco Gonçalves chefiou os 2º, 3º, 4º e 5º governos provisórios. Ironicamente, tal como muitos capitães estavam inclinados a depositar confiança excessiva nos generais, parte da esquerda confiou a liderança do processo aos capitães, ou à fórmula de unidade do povo com o MFA, promovida pelo PCP.

Mas a Revolução portuguesa foi muito mais do que o fim tardio e diferido de uma ditadura obsoleta, arcaica e criminosa. Tem-se dito que as revoluções tardias são as mais radicais. Derrotados militarmente por uma guerra sem fim, esgotados politicamente pela ausência de uma base social interna, esgotados economicamente por uma pobreza que contrastava com o padrão europeu, e cansados culturalmente pelo atraso obscurantista que impôs durante décadas, algumas horas foram suficientes para uma rendição incondicional. Foi nesta altura que começou o processo revolucionário que pôs Portugal em marcha.

A insurreição militar tornou-se uma revolução democrática quando as massas vieram para a rua. Mas a revolução social que nasceu das entranhas da revolução política foi derrotada. A caracterização da revolução social pode ser surpreendente, mas cada revolução é uma luta contínua, uma disputa, uma aposta em que reina a incerteza.

Quando Otelo visitou Cuba em 1975

Na história, não se pode explicar o que aconteceu considerando apenas o resultado, caso contrário, sucumbe-se à ilusão ótica do relógio da história. O fim de um processo não o explica. Pelo contrário, o oposto é que é verdadeiro. O futuro não decifra o passado. As revoluções não podem ser analisadas apenas a partir do seu desenlace final.

Estes explicam mais facilmente a contrarrevolução do que a revolução. As liberdades democráticas nasceram das entranhas da revolução, quando tudo parecia possível. Mas o regime democrático semipresidencialista que existe hoje em Portugal não nasceu do processo de lutas que teve início a 25 de Abril de 1974. Foi imposta após um golpe de Estado das Forças Armadas, organizado pelo Grupo dos Nove em 25 de Novembro de 1975.

A reação triunfou após as eleições presidenciais de 1976. Foi necessário recorrer aos métodos da contrarrevolução de Novembro de 1975 para restabelecer a ordem hierárquica no quartel e dissolver o MFA, que tinha feito o 25 de Abril. É verdade que a reação utilizou táticas democráticas, dispensando os métodos genocidas utilizados no Chile em 1973. Não é por acaso que o primeiro presidente eleito foi Ramalho Eanes, o general que esteve no centro da organização do 25 de Novembro. Nesta primeira eleição presidencial, a 25 de Abril de 1976, Otelo era um candidato contra Ramalho Eanes.

Otelo anuncia a sua candidatura às eleições presidenciais de 1976

Eu estava lá, mas não pude votar porque não sou, oficialmente, um cidadão português. Na hora solene da sua morte, a gratidão, o reconhecimento e a justiça devem prevalecer, e Otelo foi grande.

Tinha de ser com emoção. Até um dia,  Otelo.


[1] (NT) Segundo a Wikipédia: Carlos Lamarca foi um militar desertor e guerrilheiro brasileiro, um dos líderes da luta armada contra a ditadura militar instaurada no país em 1964.

1 Comment

  1. Não há dúvida de que, para os mesmos factos, existe uma miríade de possíveis interpretações, todas necessariamente diferentes entre si.
    Se lhe interessar uma visão diferente, convido a visitar https://mosaicosemportugues.blogspot.com/2021/07/otelo-o-espinho-que-nem-morte-arrancou.html , onde refleti, de forma que procurei que fosse objetiva, sobre Otelo Saraiva de Carvalho e os seus feitos.
    Terei sempre gosto em ler a sua opinião.

Leave a Reply