‘Sofrer não serve para nada
Sofrer limita a eficiência espiritual
Sofrer é sempre culpa nossa
Sofrer é uma fraqueza’
Cesare Pavese
Estar sozinho é uma situação, muitas vezes apenas e só uma sensação, de que se foge quase sempre, por ser um caminho aberto para tristeza e para a negatividade, por sermos natural e inequivocamente sociáveis e a insatisfação se poder instalar por muito que a queiramos afastar.
Em questão está sempre a procura de um equilíbrio entre as omnipresentes imagens do telemóvel e da televisão e das que vamos buscar aos socalcos das memórias agradáveis e positivas, ou às leituras interessadas e atentas de uma obra já visitada, ou a uma qualquer outra que tenhamos visto ou para a qual fomos avisados.
Também se pode recorrer ao andar, passear, correr ou sair para pescar, mas, como quase tudo e quase sempre, são actividades de praticar sozinho, a olhar para um objectivo, ou esperar paciente que a boia mexa, ou a linha dê um esticão.
Viver só e tranquilo é, para a maioria, um passo necessário para princípio de vida, porque sempre se espera que alguém possa pôr fim ao tempo de procura, para ajudar a resolver problemas diários ou para iniciar um novo caminho acompanhado.
Como dizia Bauman, ‘o amor é a sobrevivência do “eu” através da alteridade do “eu”’, a única maneira de se viver em companhia.
A solidão pode fazer crescer interiormente, recomenda-se e pratica-se mesmo em todas as profissões ou modos de vida que necessitem de rituais iniciáticos, isolamentos, práticas e retiros, para a busca de paz e a harmonia.
Mas agora assistimos e ‘Estamos a viver num mundo de globalização incontrolada, de consumismo desenfreado, privatização a todo o custo, saúde e educação incluídas, um modelo económico destrutivo do planeta, fazendo da competitividade e da insularidade os padrões de vida’, afirma Manuel Castells.
É difícil estar acompanhado em momentos destes, tanto mais que, diz Pascal Bruckner, ‘Que tristeza a dessas pequenas cidades, a grande maioria na América do Norte e na Europa, divididas entre a habitação privada e as grandes superfícies, onde o espaço público é só o da rua que leva de uma à outra!’
Mas hoje e de qualquer maneira, são já numerosos os estudos, tanto sobre ciência política, como de sociologia ou psicologia, que se têm debruçado sobre o papel das emoções na actual pandemia, bem como das mudanças que poderá acarretar para as atitudes políticas das populações, a ver aliás pelos fenómenos políticos da crise da representação partidária e do ressurgimento em força dos populismos e extremismos.
A incerteza do presente e a desesperança no futuro, têm sido por eles consideradas, como a base de um medo paralisante, apreensivo e vulnerável, aliás patente nesta consideração da filósofa norte-americana Marta Nussbaum, ‘o medo tende a bloquear a deliberação racional, envenena a esperança e impede a cooperação construtiva para um futuro melhor’, marcado também pelo aparecimento nostálgico das alternativas mais injustas e perigosas.
Esta solidão stressante, é também o copo que se vai enchendo de amarguras variadas e diversas, com lembranças das coisas boas e menos boas do antigamente, com os curtos e raros tempos em que eventualmente se terá sido feliz, tudo o que também arrastou mentes e espíritos superiores, como o do poeta e escritor Cesare Pavese (1908/1950), autor de obras fundamentais como ‘A lua e as fogueiras’, ‘Diálogos com Leuco’ ou ‘O ofício de viver’, também combatente antifascista, preso e condenado ao degredo, militante do partido comunista depois da guerra, a procurar a solução final numa overdose de soníferos.
E num domingo, dia 27 de Agosto, encontraram-no num quarto de um hotel de Turim, com esta nota escrita na primeira página de ‘Diálogos com Leuco’ que tinha aberto ao lado, ‘Perdoo a todos e a todos peço perdão. Está bem? E não façam muitos mexericos. Deixo e assino, assim como um estela num buraco negro dos meus olhos, nesta página de um livro que ficará como diálogo da tristeza com o fim’.
Só tinha descalçado os sapatos!
Este é o grande e enorme problema da vida – como romper a própria solidão e como comunicar-se com os outros!
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor


