Os Planos de Recuperação e Resiliência da União Europeia e dos Estados Unidos no contexto das Democracias em perigo: 3ª parte – Biden e o programa de Recuperação e Resiliência americano: virar de página sobre o legado de ruína de Milton Friedman? – 3.10. Hipócritas do Ano – Summers e Rubin. Por Robert Kuttner

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

 

Por Robert Kuttner

Publicado por  em 14 de Junho de 2021 (Hypocrites of the Year—Summers and Rubin, ver aqui)

 

SUSAN WALSH/AP PHOTO

 

Quando Summers foi o principal responsável pela política económica, o orçamento do IRS foi cortado em cerca de 20% e o seu pessoal de auditoria foi cortado em um terço.

 

Na semana passada, nada menos que cinco ex-secretários do Tesouro [N.T. equivalente a ministro das Finanças], Republicanos e Democratas, publicaram conjuntamente um artigo de opinião no The New York Times, aplaudindo o esforço do Presidente Biden para aumentar as receitas através da redução das fraudes fiscais através do aumento dos recursos para o IRS.

A peça, escrita por Tim Geithner, Jack Lew, Hank Paulson, Bob Rubin, e Larry Summers, tinha o título “Nós dirigimos outrora o Departamento do Tesouro. É assim que se resolve a evasão fiscal”. A peça salientava que o governo perde cerca de 600 mil milhões de dólares por ano em impostos que ilegalmente escapam ao fisco e que poderiam ser cobrados por um Internal Revenue Service [a autoridade tributária] reforçado.

Grande ponto de vista. Ao ler esta a peça, nunca se saberia que estes patifes presidiram ao desmantelamento do IRS e da redução do seu pessoal especializado, quando tinham o poder de fazer o contrário.

Larry Summers é famoso por escrever artigos deixando entender que as suas opiniões enquanto detinha o poder eram o oposto do que na realidade elas  eram realmente, mas este é um novo ponto baixo mesmo para Summers. É também descuidado, porque os números são uma questão de registo público.

Sob Obama, quando Summers era o principal responsável pela política económica, o orçamento do IRS foi reduzido em cerca de 20% e o seu pessoal de auditoria foi reduzido em um terço, para apenas 9.500 auditores, o número mais baixo desde 1953, quando a economia era muito mais pequena e o código fiscal era muito mais simples.

O New York Times Times informou recentemente que o setor financeiro dos fundos privados de investimento, ferozmente defendido por Rubin e Summers, basicamente não paga impostos porque é demasiado complexo para o IRS. As participações privadas não existiam em 1953.

Mesmo antes de Trump o reduzir ainda mais, o IRS realizou menos 675.000 auditorias em 2017 do que em 2010, um declínio de 42 por cento. Durante o mesmo período da presidência Obama, as investigações sobre pessoas que não apresentaram retornos caíram completamente de 2,3 milhões para apenas 360.000. (Estas estatísticas são de um artigo de investigação da ProPublica, que vale a pena ler na sua totalidade).

Pretende-se considerar que foi o Congresso dominado pelos Republicanos, com a sua especial animosidade para com o IRS, que obrigou os Democratas a fazê-lo. Mas esse álibi não serve, porque o presidente deve aprovar o orçamento e tem uma influência não desprezível nas negociações. A mesma tendência à baixa ocorreu sob Clinton.

Obviamente, proteger o IRS foi uma prioridade muito baixa para Clinton, Obama, e para os seus secretários do Tesouro. A desregulamentação era o grande objetivo que os fazia levantar cedo.

Desde o discurso de despedida de Eisenhower alertando para a influência do complexo militar-industrial, acontece que os antigos líderes ocasionalmente convertem-se no seu leito de morte e abraçam políticas que eram o oposto das que prosseguiram durante o seu mandato.

Não precisamos destes tipos para se juntarem ao comboio do IRS. Já saiu da estação. A conversão de Rubin, Summers, et al. para a causa da aplicação de impostos nem sequer atinge o nível “de mais vale tarde que nunca”. É uma pura hipocrisia , e inteiramente uma falta de caráter.

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O autor: Robert Kuttner (1943-) é um jornalista americano e escritor cujos livros apresentam pontos de vista liberal/progressistas. É co-fundador e co-editor do The American Prospect criado em 1990 e professor na Brandeis University’s Heller School. Durante 20 anos foi colunista no Business Week e no The Boston Globe. Atualmente continua a escrever no Huffington Post. É também um dos cinco fundadores do Economic Policy Institute em 1986, integrando presentemente o seu comité executivo. Entre 2007 e 2014, Kuttner aderiu ao centro liberal de investigação e política Demos como ilustree membro senior. O seu último livro é Can democracy Survive Global Capitalism?

 

 

 

 

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