Os Planos de Recuperação e Resiliência da União Europeia e dos Estados Unidos no contexto das Democracias em perigo: 3ª parte – Biden e o programa de Recuperação e Resiliência americano: virar de página sobre o legado de ruína de Milton Friedman? – 3.12. Esqueça Putin, Merkel e Macron. Os que precisam de lições sobre Democracia são Manchin, Sinema e Feinstein. Por Michael Tomasky

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

 

 Por Michael Tomasky

Publicado por  em 14 de Junho de 2021 (Forget Putin, Merkel, and Macron. It’s Manchin, Sinema, and Feinstein Who Need the Democracy Lecture, ver aqui)

 

Joe Biden está a construir algumas defesas necessárias da democracia no estrangeiro. Não posso deixar de desejar que ele as faça mais vigorosamente aqui em casa.

 

Toby Melville/Getty Images

 

O Presidente Joe Biden reúne-se com Vladimir Putin na quarta-feira, e prometeu comunicar algumas mensagens severas ao líder russo sobre os esforços deste último para minar a democracia.

Este trabalho começou durante o fim-de-semana: Biden esteve no G7 exortando os líderes europeus a juntarem-se a ele no investimento no mundo em desenvolvimento numa escala massiva para contrariar a Iniciativa de Uma Cintura e uma Estrada promovida pela China e provar aos povos do mundo que a democracia funciona. (A seguir é uma reunião da OTAN em Bruxelas, onde irão falar da Rússia, das alterações climáticas e do Afeganistão).

Estas são mensagens necessárias – para Putin e em Bruxelas, Biden diz que os processos legais da democracia não devem ser corrompidos. Aos seus homólogos europeus democráticos na Cornualha, ele enfatizou a relação entre democracia e economia. É bom que ele esteja a dizer estas coisas. Só não posso deixar de desejar que ele as dissesse com mais força aqui em casa.

Até certo ponto, Biden é apanhado numa armadilha; uma armadilha em que, em parte, ele próprio se meteu. Pode ser resumida nesta pergunta: Como pode ele explicar aos americanos que o Partido Republicano se tornou uma besta autoritária e antidemocrática com o qual a cooperação genuína é basicamente impossível, ao mesmo tempo que tenta cooperar com ele?

Este dilema está mais claramente exposto no que diz respeito às negociações em curso sobre infra-estruturas. Biden e a sua equipa continuam a dizer que gostariam de uma lei bipartidária. Estou certo de que as suas sondagens lhes mostram que a maioria das pessoas apoia isso, porque a maioria das pessoas ainda não parece compreender no que é que o Partido Republicano se tornou.

Assim, por qualquer razão, Biden vê a necessidade de tentar chegar a um acordo. Se os atuais negociadores do Senado chegam realmente a um acordo, ele não terá outra escolha senão assiná-lo.

Por um lado, isso está … OK. Seria uma grande redução de preço, de 2,2 milhões de dólares para 1,2 milhões de milhões de dólares. Mas 1,2 milhões de milhões de dólares é ainda muito dinheiro. Como ponto de comparação, voltei atrás e olhei para a etiqueta do valor da maior lei de infraestruturas da era Obama, a ideia de ” um banco de infra-estruturas” co-patrocinado por John Kerry e Kay Bailey Hutchison, que foi revelada numa conferência de imprensa do Capitólio de que me lembro ter participado e que, claro, não foi a lado nenhum. A fatura era de 10 mil milhões de dólares.

Assim, 1,2 milhões de milhões de dólares levarão a que se construa muita coisa. Mas, ao mesmo tempo, não satisfaz de modo nenhum as necessidades do país. Pior ainda, um acordo bipartidário permitiria aos republicanos reclamar algum crédito. Biden realizaria uma cerimónia de assinatura na qual felicitaria Mitt Romney e distribuiria canetas tanto aos democratas como aos republicanos.

Como explica ao povo americano que o outro partido é uma ameaça mortal à democracia quando acaba de fazer um acordo com ele, fazendo parecer às pessoas que não prestam muita atenção, e que é a maioria das pessoas, como se tudo fosse normal?

É difícil. Pode não ser impossível. Há tantas frentes nas quais os republicanos estão a montar um ataque diário à democracia que há muitas outras maçãs no barril para apanhar. Republicanos de cada vez mais estados estão a olhar atentamente para o Arizona para aprenderem como é que um resultado eleitoral legítimo pode ser minado, se não invertido, e lançar as bases para o próximo Grande Roubo das eleições de 2024. Além disso, há um enorme esforço em curso para aprovar leis de supressão de votos, promulgadas até agora em 14 estados, com muitas mais em preparação.

A administração está a lutar contra isto. Foi bom ver Merrick Garland anunciar na sexta-feira passada que está a duplicar o número de pessoas do pessoal do Departamento de Justiça que lutam contra a supressão de votantes. Mas a administração Biden e os Democratas precisam de ser muito mais enérgicos em público sobre o que continua a ser a questão óbvia número um na sua agenda.

Lutar contra a supressão de votantes significa lutar contra os Republicanos, mas significa também pressionar alguns Democratas. Parece inconcebível que enquanto Biden está fora a dizer ao resto do mundo que estamos presos num confronto existencial entre democracia e autoritarismo, alguns membros do seu próprio partido não conseguem ver os contornos da batalha aqui em casa. Mas esta é evidente, no entanto.

Joe Manchin é o primeiro alvo óbvio. Ele parece realmente disposto a deixar os Republicanos manipular a democracia, mesmo quando afirma estar a defendê-la. Já que estamos no assunto – e este é um ponto que não tenho visto ser trabalhado com frequência suficiente, na minha opinião – porquê toda esta elaborada dança bipartidária sobre infra-estruturas? Isso é quase totalmente em benefício de Manchin. A Casa Branca precisa de lhe provar que tentou e tentou, e tentou, e tentou levar 10 republicanos a assinar o acordo, porque parece que só depois de Manchin estar satisfeito com o facto de a Casa Branca ter cortejado o Partido Republicano de todas as maneiras concebíveis, tudo em vão, ele poderia finalmente alinhar com uma medida de reconciliação só para os democratas.

Kyrsten Sinema, a outra senadora mais fortemente associada ao bloqueio da agenda do seu partido, enfrenta agora alguma pressão no Arizona, felizmente. Na semana passada, uma maioria dos legisladores democratas do Estado enviou-lhe uma carta dizendo, basicamente, deixa-te de tretas e toma medidas em relação à obstrução. Ela não se apresenta a ser reeleita até 2024, mas seja qual for o poder que os liberais do Arizona tenham, agora é a altura de o exercer.

E finalmente, há Dianne Feinstein, com a sua imperecível observação da semana passada de que “se a democracia estivesse em perigo, eu quereria protegê-la”, mas “não a vejo em perigo neste momento”. Meu Deus. Onde estava ela no dia 6 de Janeiro? A comer uma tigela de sopa de feijão com o seu amigo Chuck Grassley?

A democracia está sob ameaça em todo o mundo. É bom ver os líderes do mundo democrático, ainda que tardiamente, acordarem para esta realidade. Mas é terrivelmente difícil combater a ameaça global quando a maior ameaça à democracia mais antiga do mundo não é externa, mas interna. E é ainda mais difícil quando algumas das pessoas que optam por se recusarem a ver essa ameaça são membros do partido que supostamente está a assumir a função da defesa da democracia.

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O autor: Michael Tomasky [1960-], jornalista norte-americano, é editor do The New Republic e editor chefe de Democracy. É correspondente especial de Newsweek/The Daily Beast e colaborador de The American Prospect e de The New York Review of Books. Estudou Ciências Políticas na Universidade de Nova Iorque. É autor de Left for Dead: The Life, Death, and Possible Resurrection of Progressive Politics in America (1996), e de Hillary’s Turn: Inside Her Improbable, Victorious Senate Campaign (2001)

 

 

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