CARTA DE BRAGA – “de pardais e pesadelos” por António Oliveira

A passear, há alguns dias à volta de casa, fiquei parado a olhar um bando de pardais! 

Um espanto por, nos últimos meses, só ter visto alguns, poucos e isolados, saltitando entre ervas, galhos e ramos secos ainda não arrebanhados pelos ‘varredores’, por aquelas pessoas que nos vão limpando dos restos, dos trastes, das misérias e das tristezas, as que vamos deixando cair ou atirando para a rua para eles limparem, sem respeito pela sua humildade e grandeza, por tão grandes serem as deles, nestes tempos!

Aliás, até acontece que, ao repararmos numa rua menos limpa, logo os culpamos por não a limparem como deve ser, mas incapazes de nos culparmos por a termos deixado assim.

É mais um dos problemas daquela responsabilização que o egoísmo quase nunca nos deixa ver, entretidos que estamos a ver quanto nos poderá caber, de uma qualquer eventual, ambicionada e sonhada partilha ou distribuição. 

Mas, voltando àquele bando de pardais, são muitos os jornais e revistas a darem relevo ao desaparecimento destas avezinhas, bem como de muitas outras (não só as mais próximas do homem), devido à multiplicidade das contaminações e desinfestações que lhes vão arrebatando os habitats naturais. 

E, por isso também, chamei a atenção de quem me acompanhava, por estarem entretidos a bicar no chão e a saltitar entre eles, bem no meio de uma rua onde há mais de uma hora não passava um só automóvel. 

E ali fiquei um bom bocado a olhá-los, porque aquele bando de pardalitos me ter trazido de volta imagens de outras Primaveras, de já lá vão há muitos anos, a que ali, só faltariam os sulcos que os arados deixam na terra para as sementeiras, mais as vinhas a mostrar os primeiros verdes e as oliveiras a deixar pingar o verdolengo frutescer. 

Sou da cidade, mas também passei alguns e bons tempos numa aldeia do vale do Mondego, onde se cuidava das coisas simples da terra, o azeite, o vinho e o milho, porque trigos e centeios ficavam para as lhanuras dos altos dos montes e da serra. 

E ao lembrar e ver aquela dúzia e picos de pardalitos, ao voltar a procurá-los depois também da minha janela, a modesta ligação ao mundo da minha reclusão confinada, só consegui concluir que podemos e, se calhar até dominamos muitas coisas, mas quando se trata da natureza, somos muito mais frágeis do imaginamos. 

E, como um pensamento arrasta outro e logo mais outro, fui ter ao ‘velhinho’ Freud, por ter afirmado que, também a olhar os gregos, viu como o mundo se movia entre ‘Eros’ e ‘Tanatos’. 

Explicava depois que, ao primeiro, a Eros, o deus do amor, estão ligados o impulso para gozar a vida, o amor, a procriação, a sexualidade, o prazer e, ao segundo, Tanatos, o deus da morte, o impulso para a destruição, a perversidade e a violência. 

Só pelo facto de o impulso da vida ser superior ao da morte, nos permitimos sentir como este mundo continua a girar, mesmo a ‘trancos e barrancos’, como soe dizer-se, pois se assim não fosse, já teríamos desaparecido há muito. 

Aliás, Max Horkheimer, o filósofo e sociólogo que em 1933, abandonou Berlim para se fixar nos EUA, quando os nazis lhe fecharam o Instituto de Pesquisas Sociais, deixou escrito ‘Devemos lutar para que a humanidade não fique desmoralizada para sempre, pelos acontecimentos do presente, para que a fé num futuro feliz da sociedade, um futuro de paz digno do homem, não desapareça da terra’.

E hoje, vivemos também um paradoxo, entre a exaltação da globalização, das finanças e mercados, mais as loas à cultura de massas, frente a um mundo individualista, xenófobo e outras coisas mais, onde cada um, ‘devidamente mascarado’ encerrado na própria ‘bolha’ e se calhar também só, lava mesmo as mãos muitas vezes, só para se defender do que entendem como uma ‘moléstia’ global, o aparecimento do outro, do diferente, daquele que só pede solidariedade e receber um pouco daquilo que lhe foi tirado durante séculos! 

A pensar em tudo o que passou e nas palavras de Horkheimer, à espera de saber como e quando tudo isto irá acabar, lembrei-me do que afirmou Alfred Hitchcok, o feiticeiro do cinema, depois de terminar a rodagem de ‘Os pássaros’, uma das suas melhores realizações, ‘Não há maior prazer do que acordar depois de um pesadelo’. 

Espero sinceramente, poder vir a dar-lhe razão! 

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

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