FRATERNIZAR – O triunfo do Mal cresce no mundo a um ritmo alucinante – A QUEM RESPONSABILIZAR, DEUS OU OS SERES HUMANOS? – por MÁRIO DE OLIVEIRA

 

Recordo-me bem daquele dia 28 de maio 2006, em que o então papa Bento XVI visitou o campo de concentração de Auschwitz (Polónia), o maior centro de extermínio nazista, onde foram mortas 1.100.000 pessoas, 90% das quais judeus. Depois de um pesado e prolongado tempo de silêncio, leu para o mundo um longo discurso que já levava previamente escrito para ser pronunciado naquele momento e naquele local. E entre todos os disparates teológicos que proferiu, lá estão as famigeradas perguntas, típicas do cristianismo, da sua Bíblia judeo-cristã e da sua teologia deísta e idolátrica, ‘Onde estava Deus naqueles dias? Por que Ele silenciou? Como pôde tolerar este excesso de destruição, este triunfo do mal?’ Vai, depois, ainda mais longe em depravação teológica e cita como justificação o salmo 44, sinal inequívoco de que irá morrer sem nunca ter chegado a perceber que toda a Bíblia – Salmos e Profetas incluídos – mais não é do que um Manual de instruções do Poder, sem a qual os seus sucessivos agentes históricos, os grandes e os menos grandes, ficariam a descoberto como criminosos institucionais e as vítimas deles sem o ópio que as leva a gemer e chorar neste vale de lágrimas, mas sem nunca se rebelarem politicamente e de forma desarmada.

Antes dele, já havia lá ido o seu imediato predecessor, João Paulo II, polaco de nascimento, depressa canonizado, após a sua morte e, desse modo, convertido num mito mais. Para que jamais alguém o acuse de todos os crimes que cometeu, nomeadamente, contra os milhões de vítimas da pedofilia dos clérigos católicos, dos quais foi sabedor, mas escondeu-os sob um pesado manto de silêncio que só agora começa a ter voz. E também já lá esteve o seu imediato sucessor, o actual papa Francisco, jesuíta. Os três, a uma só voz, reproduzem a mesma cartilha e interpelam deus, o da Bíblia, sem perceberem que ele, todo-poderoso, como dizem que é, só pode ser um monstro que se alimenta de gente e ainda legitima o Poder, mai-los seus agentes de turno, todos criminosos institucionais. Fora e acima da Humanidade, por isso, todos sem salvação. Uma vez que só dentro dela ela acontece de verdade.

É por isso que, perante todo o Mal institucional e não-institucional, hoje, cientificamente produzido e organizado, aí a crescer de forma galopante nesta nossa Casa comum que é a Terra, onde as alterações climáticas estão na ordem do dia e cada vez mais incontroláveis – o caso do vulcão de La Palma é um minúsculo exemplo – é imperioso perguntar, A quem havemos de responsabilizar, Deus ou os seres humanos? Os três papas antes referidos, sucessores todos de S. Pedro, o negador-mor de Jesus histórico e do seu Projecto político alternativo ao do Poder, e o seguidor-mor do mítico Cristo davídico, sempre se viram para o deus, não para eles próprios. E, perplexos, perguntam, Onde estás tu, Senhor, e por que te silencias perante tanto mal que ocorre na história?

Com este seu falar e interpelar, é manifesto que todos eles, como todos os crentes, não crentes e até ateus convictos, publicamente assumidos, culpam deus. Chegam inclusive a perguntar, Que mal fiz eu a deus, para que isto me acontecesse? Por isso, sempre se autoabsolvem e absolvem todos os demais agentes do Poder de turno. E, de tão cegos e surdos, ei-los aí, geração após geração, a praticar toda a espécie de crimes institucionais, sem que os povos, suas vítimas, lhes possam ir à mão. Pelo contrário, num regime de democracia partidária, como a dos países ocidentais, estes ainda correm a votar neles. Sem nunca perceberem que apenas escolhem os seus sucessivos algozes.

Só seres humanos e Povos que se mantêm filhos de mulher do nascer ao morrer, como acontece de forma paradigmática com Jesus histórico, jamais se viram para Deus que nunca ninguém viu a interpelá-lO e a acusá-lO. Pelo contrário, sempre se viram para o Poder, seu deus todo-poderoso, e todos os seus agentes históricos. Porque, com a Luz que é Jesus histórico, sua Fé política e sua Teologia, nos antípodas da fé religiosa-cristã e respectiva teologia, sabem que tudo o que acontece na História é da nossa exclusiva responsabilidade, por acção ou omissão, nunca de Deus Abba-Mãe, a Omnifragilidade máxima que urge escutar no Vento, nos Sinais dos tempos e, sobretudo, no clamor do incontável número de vítimas produzidas pelo Poder e seus agentes. De modo científico.

Neste particular, é bom ler-escutar o meu mais recente Livro e darmo-nos conta que aquela Pergunta que Jesus histórico, já crucificado, instantes antes de dar ‘um grande grito’ e expirar, formula, ‘Meu deus, meu deus por que me abandonaste?’, faz explodir, de uma vez por todas, a Bíblia e o deus dela, o mesmo de todas as fés religiosas e cristãs, bem como de todos os ateísmos. Cabe-nos, por isso, viver na História como se Deus que nunca ninguém viu não existisse. Por outras palavras, cabe-nos viver, ontologicamente sempre com-Deus – somos habitados por Ele! – mas, existencialmente, sempre sem-Deus. Tal e qual como o próprio Jesus histórico, o filho de Maria, vive. É por isso que ele é o alfa e o ómega da Humanidade na sua diversidade de seres humanos e de povos.

 

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