CARTA DE BRAGA – “duas perguntas na parede” por António Oliveira

Há meia dúzia de meses e no Reino Unido, uma família simples, pai, mãe e filha, decidiu redecorar a casa que tinha comprado numa zona rural. 

E, num dia em que o pai não estava a trabalhar, meteram mãos à obra. A filha pegou num balde com água e uma esponja, para arrancar o papel da parede do quarto que lhe tinha sido destinado. Tudo normal até chegar à parede em frente da janela e, uns momentos depois, chamou os pais para lerem o misterioso poema que encontrou, escrito com lápis grosso, havia já algumas dezenas de anos! 

Eu estou aqui e tu estás aí, separada só pelo tempo.

Como será o futuro? Ou sou o passado?

A únicas resposta para isso – Tu és o meu futuro, eu sou o teu passado.

Tem um bom dia

1975   Eileen

O senhor, a esposa e a filha conversaram sobre o assunto, levantaram montes de hipóteses e depois de pesquisas várias nas redes sociais, receberam a mensagem de uma Eileen, afirmando-se a autora do texto, acrescentando ter na altura 14 ou 15 anos e, por então pensar muito nos problemas do tempo, nas viagens espaciais e como estaríamos todos conectados, escreveu na parede do quarto, aquela mensagem/poema. 

O tema da escrita e a própria mensagem, mostravam uma estranha e invulgar espiritualidade, muito mais por ser feita por uma jovem daquela idade, integrada numa civilização como a ocidental, ‘com uma visão particular da transcendência, baseada em dois pilares do capitalismo -a centralidade do indivíduo e a dominação da natureza’, como a caracterizou e escreveu, Boaventura Sousa Santos.

Mas se recorrermos a outro dos conhecedores dos problemas actuais, não só da Europa, mas deste mundo global que nos caiu em cima, contando com a nossa ‘ingenuidade’, com o ‘deixadismo’ de um consumo desenfreado, com as desigualdades e a precaridade que penamos, tudo o que nos vai arrastando para uma realidade delirante, mas real, nas palavras de Juan José Millás, jornalista, antropólogo e escritor, poderemos ter uma visão diferente. 

E diz Millás, ‘Se deixarmos de acreditar na Renault, ela vai desaparecer em quatro dias, por a gente já não lhe comprar mais automóveis. Essa é a diferença entre um delírio consensual a que chamamos realidade e um delírio real como é a pandemia. Tal como o Corte Inglês, que existe por acreditarmos nele. Se deixarmos de o fazer durará uma ou duas semanas. Mas, mesmo que deixemos de acreditar no vírus, ele continuará a existir’ 

Parece ser este o problema com que nos enfrentamos todos os dias, quaisquer que sejam as classes etárias da gente que temos em volta e a que também pertencemos – a enorme diferença existente entre a realidade imaginada e a realidade real – e, lamento mesmo pensar assim, não acredito que uma mensagem deste tipo seja possível nestes tempos!

Hoje conta muito mais a realidade virtual, via móvel, a não pôr de lado sem ‘arrebanhar’ qualquer lado da vida, dando-lhe a dimensão programada com antecedência pelos seus ‘managers’, estabelecendo um delírio consensual alimentado por figuras mais ou menos ridículas, com ou sem cabelo loiro, bem ou mal penteado, mas que ‘comandam’ indústrias, finanças, povos, costumes e consumos. 

Esta é uma questão iterativa e continuada ao longo do percurso histórico da Humanidade, quando houve e há mudança de valores e paradigmas, onde os principais afectados são também e sempre, os mais jovens. Basta ver o que disse o poeta grego Hesíodo, já no séc. VIII A.C., ‘Não tenho nenhuma esperança no futuro do país, se a juventude de hoje toma o poder amanhã, porque esta juventude é insuportável, às vezes desenfreada, simplesmente horrível’.

Esta acusação, reflectindo ideias similares, usando as mesmas ou outras palavras, foi repetindo-se ao longo dos tempos, por nem todos entenderem a inquietação, a rebeldia e a urgência nas respostas e nas coisas, porque este é o momento e o modelo que receberam de nós todos, com os valores que agora vivemos e já recebemos de outros, mas momento que lhes pertence, por o futuro ser já também deles e para eles. 

E a Eileen que escreveu o nome e o que pensava na parede, talvez o tenha deixado ali por não ter mais ninguém a quem o confessar, mesmo sendo alguém mais velho!

A distinção entre passado, presente e futuro é apenas uma ilusão teimosamente persistente, disse Einstein! Será?

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

 

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