JAIME NEVES E O 25 DE NOVEMBRO – ESTRANHO HERÓI, O VOSSO – por DIOGO MARTINS

 

Publicamos este artigo três dias depois de o Diogo Martins o ter colocado no seu facebook. A importância do tema justifica que o incluamos aqui mesmo com uns dias de atraso. Ao Diogo, um grande abraço. 

 

Hoje é dia 25 de Novembro. Trata-se portanto da época do ano em que setores pouco recomendáveis tecem loas a Jaime Neves. Para eles, é o homem da democracia, que impediu uma ditadura comunista em Portugal.

Para desarmar essas pobres almas nem é preciso contra-argumentar. Basta perguntar-lhes: “ai, sim, então que ações concretas desenvolveu Jaime Neves nesse dia?”. Irão constatar que 95% dos que se desfazem em panegíricos não fazem ideia do que ele fez. Rezam a um santo a que desconhecem as obras.

Se as pobres almas se dignassem a sustentar a sua crença, saberiam que Jaime Neves comandou uma unidade de comandos para ir tomar a Polícia Militar. Saberiam também que Polícia Militar estava de prevenção dentro do quartel, mas não tinha tomado nenhuma ação ofensiva no golpe. Saberiam que o Vasco Lourenço tinha conseguido obter a rendição de Campos Andrade, o comandante da Polícia Militar momentos antes da saída da unidade de comandos ordenada por Ramalho Eanes. Saberiam que Vasco Lourenço comunica a rendição da polícia militar a Ramalho Eanes, mas que este alega (suspeitos) problemas nas comunicações de rádio para fazer recuar os Comandos. Saberiam também que, em face dessa incapacidade, Vasco Lourenço ordena que um tenente-coronel que se encontrava com ele em Belém tente intercetar a coluna de Jaime Neves, dando-lhe a notícia. Saberiam que Jaime Neves ignorou a informação da rendição da unidade e preferiu avançar. Rebentou o portão do quartel da Polícia Militar e houve troca de tiros, que resultaram em três mortos. As hostilidades só cessariam por insistência, via rádio, de Vasco Lourenço e Ramalho Eanes.

Saberiam também que, após o Golpe, Jaime Neves celebremente diz a Costa Gomes que os “Comandos ainda não estão satisfeitos, meu General”. Subtexto: Deve proceder-se à ilegalização política de todas as forças associadas à esquerda militar, Gonçalvistas e Otelistas. Isto é, deveriam ser ilegalizadas todas as forças de esquerda à esquerda do Partido Socialista. Concluiriam que tal não seria possível sem uma massiva ação repressiva sobre as populações que apoiavam esses partidos, que seria incompatível com qualquer regime democrático. Apenas a oposição de nomes como Melo Antunes ou Vasco Lourenço impediu que o desejo de Jaime Neves fosse concretizado.

O 25 de Novembro foi um golpe promovido pelo Grupo dos Nove, que esperava o pretexto que a ingénua ação dos paraquedistas lhes deu para porem em marcha um plano militar e político, organizado por uma aliança de setores do PS à extrema-direita fascista, que se encontrava em preparação há meses e envolveria uma invasão de potências militares estrangeiras, se tal fosse necessário, tal como assegurou o próprio Mário Soares. A 25 de Novembro, o Grupo dos Nove brincou à roleta russa com a democracia portuguesa. Porque, na sua heterogeneidade, havia quem apenas pretendesse restabelecer a unidade de comando na Região Militar de Lisboa para enfraquecer a esquerda militar (como seria o caso de Vasco Lourenço), mas havia também amplos setores que pretendiam fazer recuar as liberdades democráticas, como no caso de Jaime Neves.

Jaime Neves foi um criminoso de guerra em Moçambique, tomou decisões que causaram mortes desnecessárias a 25 de Novembro e apelou ativamente ao condicionamento da democracia após o golpe, apelando à ilegalização de forças democráticas.

Estranho herói o vosso.

(1936 – 2013)

Para lerem este artigo do Diogo Martins no original cliquem: 

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