Ainda os Planos de Recuperação e Resiliência da União Europeia e dos Estados Unidos no contexto das Democracias em perigo: 6ª parte – Acompanhando o decurso da batalha entre democratas e republicanos nos Estados Unidos – 6.8. “Uma Carta Aberta em Defesa da Democracia”. Por Todd Gitlin, Jeffrey C. Isaac e William Kristol

 

Nota de editor:

Dissemos em Outubro passado, ao apresentar a 5ª parte desta série:

“A batalha em curso nos Estados Unidos mantém em suspense o resultado que sairá da luta entre os apoiam os planos de Biden (a maioria do partido democrata) e aqueles que os querem ver fracassar (os republicanos e alguns democratas). De entre estes últimos, salientam-se Dianne Feinstein, Kyrsten Sinema e Joe Manchin. Tendo em conta a margem estreita de que goza Joe Biden, corre-se o risco do programa de Biden-Sanders ficar prisioneiro destes senadores altamente comprometidos com o capital financeiro, com Wall Street, pelo que iremos assistir em Washington a uma intensa batalha a dois níveis, entre Republicanos e Democratas e entre Democratas Progressistas e Democratas conservadores. A estes senadores e fora do plano da decisão política juntam-se as manobras do establishment político conservador dos democratas, entre os quais estão homens de peso como Larry Summers, Jason Furman, homens que foram pilares das políticas de compromisso desenhadas por Clinton e Obama e que eleitoralmente levaram à vitória de Trump e dificultaram a vitória de Joe Biden.

Iremos pois assistir a uma batalha de grande importância para os Estados Unidos e para o mundo, batalha esta que procuraremos acompanhar de perto.

Dado o clima de incerteza existente neste momento quanto ao desfecho dessa batalha, com esta 5ª parte manteremos esta série em aberto para acolher notícias sobre a evolução que ocorrerá. “

Enquanto os democratas de matriz conservadora e neoliberal, na racionalidade que lhes é própria, fazem campanha contra os programas de recuperação de Biden, como é o caso de Summers e outros, enquanto senadores como Joe Manchin, Sinema e Feinstein bloqueiam as iniciativas da esquerda democrata no Senado, impondo cortes sobre cortes e abrindo caminho a uma vitória de Trump nas eleições intercalares, o mercado financeiro na “racionalidade” que lhe é própria, começa a preparar a estrutura financeira para alimentar a campanha que poderá levar de novo Trump à Casa Branca.

Na 6ª parte desta série (que permanecerá em aberto), apresentamos textos sobre a luta que decorre neste momento no Capitólio dos Estados Unidos e fora dele, entre Democratas e Republicanos, e também no seio dos próprios Democratas, como é o caso do projeto de lei Build Back Better aprovado pela Câmara dos Representantes em 19 de Novembro e que agora transita para o Senado.

 


Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

 

6.8. Uma Carta Aberta em Defesa da Democracia

Por Todd Gitlin, Jeffrey C. Isaac e William Kristol

Publicado por  em 27 de Outubro de 2021 (An Open Letter in Defense of Democracy, original aqui)

Esta carta aberta está a ser publicada simultaneamente por The New Republic e The Bulwark.

 

Ilustração por TARA JACOBY

 

O futuro da democracia nos Estados Unidos está em perigo.

 

Somos escritores, académicos, e ativistas políticos que desde há muito tempo discordamos sobre muitas coisas.

Alguns de nós somos democratas e outros republicanos. Alguns identificam-se com a esquerda, outros com a direita, e outros com nenhum dos dois. Já discordámos no passado, e esperamos poder discordar, produtivamente, durante anos. Porque acreditamos no pluralismo que está no cerne da democracia.

Mas neste momento estamos de acordo sobre um ponto fundamental: Precisamos de nos unir para defender a democracia liberal.

Porque a própria democracia liberal está em sério perigo. A democracia liberal depende de eleições livres e justas, do respeito pelos direitos dos outros, do Estado de direito, de um compromisso para com a verdade e a tolerância no nosso discurso público. Tudo isto está  agora em sério perigo.

A principal fonte deste perigo é um dos nossos dois maiores partidos nacionais, o Partido Republicano, que permanece sob o domínio de Donald Trump e do autoritarismo trumpista. Sem se preocuparem com a derrota de Trump em 2020, e sem se incomodarem com a insurreição de 6 de Janeiro, Trump e os seus apoiantes trabalham ativamente para explorar ansiedades e preconceitos, para promover uma hostilidade irrefletida à verdade e aos americanos que discordam deles, e para desacreditar a própria prática de eleições livres e justas em que vencedores e vencidos respeitam a transferência pacífica do poder.

Por isso, nós, que divergimos tanto no passado – e que continuamos a divergir em muito hoje – reunimo-nos para dizer:

Opomo-nos vigorosamente aos esforços republicanos em curso para alterar as leis eleitorais estaduais de modo a limitar a participação dos eleitores.

Opomo-nos vigorosamente aos esforços republicanos em curso no sentido de conferir poderes às legislaturas estaduais para poderem ultrapassar os funcionários eleitorais devidamente nomeados e interferir com a certificação adequada dos resultados eleitorais, substituindo assim as suas próprias preferências políticas às preferências manifestadas pelos cidadãos nas urnas.

Opomo-nos vigorosamente à promoção incessante e interminável de “auditorias eleitorais” não profissionais e falsas que levam a que se desperdice dinheiro público, que ameaçam os dados eleitorais públicos e as máquinas de votação, e geram a paranoia sobre a legitimidade das eleições.

Exortamos o Congresso controlado pelos Democratas a aprovar legislação nacional eficaz para proteger o ato de votar, o voto e as nossas eleições, e, se necessário, a  anular a regra de obstrução do Senado.

E exortamos todos os cidadãos responsáveis que se preocupam com a democracia – funcionários públicos, jornalistas, educadores, ativistas, cidadãos comuns – a fazer da defesa da democracia uma prioridade urgente agora.

Agora é o momento de os líderes de todos os quadrantes da vida – cidadãos de todos os quadrantes políticos e de todas as convicções – virem em auxílio da República.

 

Assinam:

Todd Gitlin, professor de jornalismo, sociologia e comunicação na Universidade de Columbia

Jeffrey C. Isaac, professor de ciência política na James H. Rudy, Universidade de Indiana, Bloomington

William Kristol, Editor e director em The Bulwark

Co-assinantes:

A lista é longa e disponível aqui

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