CARTA DE BRAGA – “da digitalização e dos humanos” por António Oliveira

A digitalização crescente da sociedade está a comandar-nos a vida, mesmo a daqueles para quem um qualquer minúsculo ordenador –o telemóvel– é um sonho impossível, pois invadiu e ‘sentou-se’ no mundo das nossas relações individuais, institucionais e outras, numa espécie de vampirização de todas as ligações públicas ou particulares. 

Todos os dias estamos ou ficamos –pendurados– em senhas, contrassenhas, assinaturas digitais e certificados, para ‘garantirem’ a nossa autenticidade perante ordenadores que até já nos dão ordens, que falam mas sem nos escutar, ou nos impõem a leitura de um rol infindável de condições e instruções, antes de carregarmos na tecla ‘aceitar’. 

Não nos podemos esquecer que cada passo andado no mundo da comunicação, desde as gravações em cerâmica, aos pergaminhos, aos incunábulos e depois à imprensa e à rádio, abriu e criou um novo mundo, onde cada um de nós tinha uma parte activa, tanto no fazer, como no usufruir e beneficiar daquelas formas de comunicação, sabendo-se pertença de um grupo, de uma comunidade e de uma sociedade. 

Hoje, a maioria dos jornais e dos meios de comunicação –sejam quais forem– todos eles consequências da invenção de Gutenberg, mas já bem superada, há alguns anos, pelos ordenadores e seus acessórios, vai-se mantendo como exemplo e memória de outros tempos, pouco mais do que uns quase-cadáveres na fila para a mumificação, tentando sobreviver à custa do prazer e amor pela leitura, de um resto de eventuais assinantes, embora o ‘lifestyle’ tenda a ocupar a maior parte do espaço disponível. 

Na verdade e, para Viriato Soromenho Marques, numa das suas crónicas no ‘DN’, ‘O entusiasmo tecnológico transformou-se não só numa ideologia (o technological fix, segundo a qual todos os problemas têm uma solução tecnológica, incluindo aqueles que são provocados pela tecnologia…), mas sobretudo numa espécie de pensamento mágico secularizado, que visa substituir a natural angústia das mentes saudáveis, perante o conturbado espectáculo das complicações do mundo contemporâneo, por uma cega e acrítica confiança na capacidade, dita ilimitada, do engenho humano’.

E ainda teremos de considerar os ‘ciberataques’ recentes a várias instituições deste país, pois como disse um especialista nestes temas, ‘com a vida humana cada vez mais digitalizada, transferindo riqueza de valor do mundo físico para o digital, deve-se encarar com naturalidade que o crime se direcione para este meio’ (DN,09.02), pois começa no ciberespaço, mas muito complicado se premeditado e com objectivos escolhidos, se propaga ao mundo físico, preparado com muita antecedência.

A técnica’, escreve Daniel Innerarity no ‘La Vanguardia’, ‘dá soluções a uma quantidade de problemas, ocasiona outros específicos, mas acima de tudo, impõe a exigência de, democraticamente, decidir quais os temas em que é relevante e em que medida. O grande debate democrático sobre as tecnologias, consiste em situá-las num espaço alargado, mais além do mundo calculável, por a tecnologia alterar a paisagem onde têm lugar as interacções humanas’.

Mas ainda teremos muito mais para ‘descobrir’, porque o senhor Zuckerberg quer ganhar muito mais dinheiro à custa de uma ‘lavagem’ ao nundo misterioso, sombrio e nebuloso do Facebook, apelando-nos a segui-lo no ‘Metaverso’, um outro mundo de maravilhas entre o real e o imaginário, de que não devo dizer mais, por nem no primeiro o ter seguido alguma vez e por o ver ameaçar da possibilidade de abandonar a Europa, se não puder transferir todos os nossos dados para os states

Só que também não posso nem podemos esquecer, afirma o sociólogo Harmuth Rosa, autor do livro ‘Resonance’, como naquele mundo essencialmente digital, ‘as emoções e as decisões são tão rápidas e urgentes, que nos tornam seres de corpos arcaicos e incómodos, que nos impossibilita entrar no videojogo’. 

Um mundo onde, para Edgar Morin, ‘Os discursos tóxicos, baseados numa mistura explosiva de relativismo, irracionalidade, rumores, sectarismo e emoção, que milhares de pessoas em todo o mundo consomem, acabam por ter o maior espaço na política e nos meios de comunicação, inclusivamente na academia. É um desastre!

Crítica dura também, a opinião do antigo presidente uruguaio Pepe Mujica, ‘Não se deve navegar sem leme, mas esquecemos isso na globalização. É conduzida pela força do mercado e da tecnologia e não houve consciência política neste processo. O velho liberalismo mudou, fez-se liberismo e abandonou o humanismo’.

E a terminar, ainda mais uma opinião, a do enorme teórico das teorias da comunicação que foi Paul Watzlawick, ‘De todas as ilusões, a mais perigosa é a de pensar que não existe senão uma única verdade: a própria’. A de quem?

Desconfio, pelo andar da carruagem que, um dia destes, vamos também a acabar por nos perguntar, como um dia o fez Bertrand Russel, se nós, os humanos, ainda seremos necessários pois, afirma ainda Innerarity, ‘As tecnologias digitais não são apenas um meio, implicam uma outra maneira de entender a comunicação, o espaço, o tempo, o trabalho ou a opinião, bem diferente das analógicas. A democracia no mundo digital, terá características que, em boa parte, ainda desconhecemos’.

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

 

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