MARRINER ECCLES, um homem muito à frente do seu tempo (anos 30) e do nosso também – 1. Alguns textos sobre Marriner Eccles, sobre o espírito de 33 e sobre os homens do New Deal: 1.15. O Sistema da Reserva Federal e o New Deal – 1933/1939 (1/5). Por Henk Verweij

A good many people believe Marriner Eccles is the only thing standing between the United States and disaster.” – TIME Magazine, 1936

Nota de editor:

Iniciámos no passado dia 1 de Fevereiro uma longa série – de mais de 50 textos – cuja última parte está ainda em preparação. O presente texto “O Sistema da Reserva Federal e o New Deal – 1933/1939, insere-se no conjunto de 17 textos que compõem a 1ª parte 1. Alguns textos sobre Marriner Eccles, sobre o espírito de 33 e sobre os homens do New Deal”.

Esta série é, desde logo, o resultado do labor incansável e da mais elevada competência do seu autor, Júlio Marques Mota, e, como o próprio refere, é um trabalho que leva mais de um ano em preparação e “não foi um trabalho fácil porque, partindo do zero quase absoluto, tivemos de andar a deambular de texto em texto, aceitando uns, rejeitando outros, de referência bibliográfica em referência bibliográfica, cruzando textos e referências bibliográficas”.

É com grande satisfação e orgulho que publicamos na língua portuguesa estes textos em torno das ideias e ações de Marriner Eccles, o mais brilhante de todos os Presidentes do Conselho de Governadores do FED nas palavras de Michael Pettis (e que fazemos nossas). Como diz Júlio Mota, “Marriner Eccles é um dos maiores símbolos intelectuais da oposição fundamentada feita contra os teóricos criadores de catástrofes e os seus vassalos” e cujas ideias e ação, segundo a Time referia em 1936, “protegeram a América do abismo. Trata-se de ideias que na primeira metade do século XX ajudaram a fazer da América um grande país, e que vão contra as ideias destes falcões monetaristas (…) que querem fazer da Europa um insignificante continente”. E como conclui Júlio Mota os “… tempos de ontem, afinal, não diferem muito dos tempos de hoje, a lembrar a frase de Peter Kenen: o mundo mudou muito, mas os problemas são os mesmos. Os problemas são os mesmos e os políticos, pelo que se vê, são também os mesmos. É exatamente isto que confere uma extrema atualidade aos textos que iremos apresentar em torno da obra de Marriner Eccles.”

Em virtude da grande extensão desta tese de mestrado de Henk Verewij (cerca de 100 páginas), e porque se autonomizam as conclusões finais, a mesma será publicada em 5 partes.


Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

35 m de leitura

 

1. Alguns textos sobre Marriner Eccles, sobre o espírito de 33 e sobre os homens do New Deal

1.15. O Sistema da Reserva Federal e o New Deal – 1933/1939 (1ª parte)

Por Henk Verweij

Tese de Mestrado em Estudos Norte-Americanos, Universidade de Leiden – em 15 de Janeiro de 2016

Supervisor: Dr. Eduard van de Bilt

Segundo leitor: Dr. Jeroen Touwen

Publicado em Teses de Estudantes da  (ver aqui)

 

Introdução.

Capítulo 1. A visão “radical lógica ” de Marriner S. Eccles.

Capítulo 2. “Uma fraca base sobre a qual apoiar-se”. Eccles e os historiadores sobre o fracasso do Sistema da Reserva Federal

Capítulo 3. Reconstrução da economia e “estar no banco de trás”. O Sistema da Reserva Federal na década de 1930.

Capítulo 4. A Luta com Henry Morgenthau e a “Recessão de Roosevelt” de 1937.

Conclusão: Legado de Eccles. O Sistema “no banco da frente” e a teoria padrão do “financiamento compensatório”

Bibliografia.

 

Introdução

No final de agosto de 1934, durante uma reunião com o Presidente Franklin D. Roosevelt na Casa Branca, o Secretário do Tesouro, Henry Morgenthau, sussurrou subitamente ao seu assistente Marriner Stoddard Eccles, “Marriner, tenho estado a falar com o Presidente sobre a hipótese de o senhor poder ocupar o lugar de Eugene Black [1]“. Dois meses antes, em junho, Eugene Black tinha apresentado a sua demissão como governador do Conselho da Reserva Federal. Quando, em Setembro, o Presidente perguntou formalmente a Eccles se estava interessado no cargo, respondeu que só aceitaria se o Sistema da Reserva Federal sofresse alterações de fundo na sua estrutura.

O Presidente Roosevelt aceitou e anunciou a nomeação do Eccles.

Este foi o início de uma longa carreira governamental de 17 anos de um mórmon de Ogden, Utah, banqueiro republicano, empresário e proprietário de uma variedade de empresas. Nos anos anteriores a 1940, Eccles foi o mais alto membro do Governo Federal a defender e, em última análise, a convencer o Presidente Roosevelt a adotar uma política orçamental baseada em princípios, que se assemelhavam fortemente aos princípios elaborados pelo economista britânico John Maynard Keynes no seu livro General Theory of Employment, Interest, and Money. Estes princípios continuariam a influenciar a política orçamental dos EUA durante várias décadas após 1945. Como é que Eccles se tornou um verdadeiro “despesista pela via do défice ” keynesiano e como lutou pelo reconhecimento dos seus pontos de vista é o primeiro tema desta tese. Eccles reorganizaria o Sistema da Reserva Federal, preparando o caminho para a poderosa instituição que o Sistema de Reserva Federal é hoje. Porquê e como o fez, é o segundo tema desta tese.

Já em 1932, Eccles estava convencido de que só a ação governamental poderia resolver os problemas económicos causados pela Depressão, que tinham começado em 1929. No entanto, foi apenas em 1934 que ele concluiu que o Sistema da Reserva Federal necessitava de ser reconstruído. Como mecanismo monetário, o Sistema tinha falhado claramente. A conceção do Sistema de 1913 – um acordo entre interesses privados e públicos – tinha perdido o seu equilíbrio. Agora servia apenas interesses privados. O Conselho de Administração em Washington estava impotente.

A maioria dos historiadores e economistas económicos de hoje concordam com a avaliação de Eccles de que o Sistema foi um fracasso de 1929 a 1933. Milton Friedman e John Kenneth Galbraith podem diferir em quase todas as questões económicas, mas concordam que o Sistema da Reserva Federal fez muito pouco para evitar o Grande Colapso de Outubro de 1929 e a Depressão que se lhe seguiu ou, quando atuou, as suas decisões só serviram para aprofundar a Depressão.

Quando Eccles se tornou governador do Conselho da Reserva Federal, as suas opiniões sobre como resolver a crise económica eram claras. Após o colapso de 1929, desenvolveu aquilo a que chamou o seu “radicalismo lógico”. Como banqueiro em Utah, ele viu as consequências da Depressão na zona Oeste dos EUA. As suas opiniões foram mais tarde caracterizadas como “keynesianas”, mas Eccles sempre negou a influência de Keynes, mesmo quando não negava que existiam analogias. Tal como Keynes, acreditava que a causa motora da Depressão era o subconsumo ou, como Keynes lhe chamava, a insuficiência da procura. O subconsumo era a causa do desemprego, e para Eccles este era não só um problema económico, mas também, mais ainda, um problema moral. A solução tinha de vir do governo federal através de despesa pública elevada. Além disso, para evitar futuras depressões, o governo tinha de desempenhar um papel ativo na economia. Embora nem Eccles nem o seu biógrafo Sydney Hyman escrevam sobre isso, a explicação mais provável para a visão de Eccles terá sido o seu passado mórmon. Na sociedade mórmon, a direção da economia pelo governo – ou seja, a Igreja Mórmon – era comum. Também comum entre os mórmons era que o mesmo governo proporcionava empregos de obras públicas aos desempregados em tempos difíceis.

A primeira vez que Eccles chamou a atenção nacional para as suas opiniões, foi em Fevereiro de 1933, quando testemunhou perante a Comissão de Finanças do Senado. Esta comissão estava a investigar os problemas económicos dos Estados Unidos, a fim de sugerir soluções. Ao contrário de outras testemunhas, que argumentavam que o governo deveria “equilibrar o orçamento”, e gastar apenas o que recebia para que a economia nacional recuperasse automaticamente, Eccles salientou que a intervenção do governo era a cura. As despesas governamentais estimulariam o consumo, disse ele. O subconsumo e o desemprego iriam desaparecer. Ceticismo e descrença quase unânimes foram as reações dos membros da Comissão de Finanças do Senado face às propostas do Eccles. [2]

Depois de testemunhar, Eccles conheceu Rexford Tugwell, um dos “cérebros de confiança” do presidente Roosevelt. Esta reunião levou ao convite a Eccles para se tornar membro da Administração Roosevelt. Em Janeiro de 1934, o Secretário do Tesouro, Henry Morgenthau, nomeou Eccles como Assistente sobre as Questões Monetárias e de Crédito. Mais tarde, nesse mesmo ano, o Presidente Roosevelt nomeou-o governador do Conselho da Reserva Federal.

Eccles serviria como governador, presidente e membro do Conselho da Reserva Federal de 1934 até 1951. A sua maior realização como Governador do Sistema da Reserva Federal foi a Lei Bancária de 1935, que reformou o Sistema da Reserva Federal, embora o grande impacto das reformas tivesse de esperar até depois da Segunda Guerra Mundial.

Embora a política monetária fosse a sua principal responsabilidade, a sua principal preocupação era a política orçamental. Segundo Eccles, apenas medidas orçamentais, utilizando o orçamento do governo, e não a política monetária pelo controlo da oferta de moeda, poderiam proporcionar uma solução para a crise económica dos anos 30. Em matéria de política orçamental, lutou permanentemente contra Henry Morgenthau, que, como Secretário do Tesouro, era o homem responsável pela política orçamental, e tinha um “compromisso obsessivo para com um orçamento equilibrado” [3]. Até “à Recessão de Roosevelt ” de 1937, Morgenthau teve disponível o ouvido do Presidente em muito maior medida do que Eccles. Morgenthau ultrapassou Eccles e era um velho amigo da família dos Roosevelts. Além disso, Roosevelt também era, embora de forma mais instintiva, a favor de um orçamento equilibrado. No final, foi Eccles a triunfar. Depois de 1937, pela primeira vez, o Presidente apresentou um orçamento baseado nos princípios da despesa sustentada pelo défice. Os pontos de vista de Eccles e a Lei da Reserva de Ouro de 1934 são as razões pelas quais, nas palavras de Alan Meltzer, o Sistema da Reserva Federal esteve “no banco de trás” do carro que conduzia a ação política de 1934 até 1951 [4].

Utilizando tanto fontes primárias como secundárias, nesta tese ir-se-á discutir os pontos de vista “radicais lógicos” que Eccles desenvolveu depois de 1929. Os documentos de Eccles e a sua autobiografia, Beckoning Frontiers, são uma importante fonte de informação. É dada atenção à sua opinião de que, depois de 1929, o Sistema da Reserva Federal não tinha agido de forma a evitar a crise. Sobre isso, Eccles não está sozinho. Historiadores e economistas como Milton Friedman, Herbert Stein, Alan Meltzer e John Kenneth Galbraith partilham esta opinião, embora divirjam sobre as causas desse fracasso. Podendo talvez estar a trair a análise enviesada de um tipo ocidental, mas Eccles não é o único, na sua opinião, a pensar que o Federal Reserve Bank de Nova Iorque foi especificamente o principal culpado.

Uma questão intrigante é por que razão dois defensores do orçamento equilibrado , Henry Morgenthau e Franklin Roosevelt, conhecendo as opiniões de Eccles, mesmo assim o indicaram e nomearam para estar à frente do Conselho da Reserva Federal. Porque permitiram que um defensor acérrimo da “despesa pública” pelo défice reconstruísse o Sistema da Reserva Federal através da Lei Bancária de 1935? Como é que essa Lei refletiu as mudanças que Eccles tinha proposto ao Presidente Roosevelt? Porque é que o Sistema desempenhou um papel menor após a sua reorganização?

A Lei da Banca de 1935 colocou Eccles numa posição poderosa. Ele tornou-se nessa posição o porta-voz mais poderoso do governo para aquilo a que Alan Brinkley chamou “os liberais do orçamento “, a ala que defendia a política de expansão pelo défice do New Deal e a que Dean May chamou “o ideólogo geralmente reconhecido dos despesistas do New Deal [5]“. Eccles recebeu apoio indispensável de Laughlin Currie, um economista profissional de Harvard e também um “pré-keynesiano”. Juntos fizeram propostas e criticaram propostas de orçamento que cheiravam a um orçamento equilibrado. Em 1938, quando a recessão de 1937 persuadiu o Presidente Roosevelt a apresentar um orçamento baseado nas opiniões do Eccles, Eccles e Currie triunfaram nessa altura sobre os defensores do equilíbrio orçamental ou isso foi antes uma vitória pírrica?

Esta nossa tese conclui-se com uma discussão sobre o legado de Eccles. Ele preparou o caminho para a poderosa e independente instituição bancária central que o Sistema da Reserva Federal é hoje, demasiado poderoso aos olhos de alguns, que lhe chamam “a Quarta Agência” ou “um Templo Sagrado [6]“. Eccles introduziu no governo dos Estados Unidos novas, e na altura até mesmo heréticas, ideias sobre a política orçamental. Essas ideias influenciariam a política orçamental dos EUA durante muitos anos, de tal forma que o Presidente Richard Nixon teria dito em 1971: “Agora somos todos keynesianos”.

 

Capítulo 1. A visão “radical lógica ” de Marriner S. Eccles

“Na confusão louca e no medo causado pela nossa economia desordenada, nós precisamos … mais do que em qualquer outro momento da nossa história … de uma nova filosofia económica e … de mudanças no nosso sistema social. A economia do século XIX já não servirá o nosso propósito; uma idade económica de 150 anos chegou ao fim. O sistema capitalista ortodoxo de individualismo descontrolado com a sua livre concorrência já não servirá o nosso propósito. Devemos pensar em termos da era da máquina científica, tecnológica e interdependente, que só pode sobreviver e funcionar sob um sistema capitalista modificado controlado e regulado a partir do topo pelo governo [7]“.

Com este credo, Marriner Eccles começou o seu testemunho perante a Comissão de Finanças do Senado a 24 de fevereiro de 1933. Uma vez que estas ideias vieram de um republicano, um autoassumido conservador, um milionário empresário e banqueiro da zona Oeste, não era de admirar que os senadores ficassem perplexos ao ouvir que o americano laissez faire, o sistema de livre iniciativa, era considerado obsoleto. Talvez tenha sido ainda mais surpreendente ouvirem dizer que só o governo podia e devia regular e controlar a economia. Foi um duro golpe para o ideal Jeffersoniano do papel minimalista do governo.

A visão do mundo que Eccles rejeitava na sequência da experiência da Depressão era a visão ortodoxa clássica que herdou do seu pai David. David Eccles emigrou da Escócia em 1863, onde a sua família se tinha convertido ao mormonismo. Tornou-se um empresário milionário feito à sua própria custa em Ogden, Utah. Quando morreu em 1912, era proprietário ou participava em mais de vinte empresas muito diferentes, desde a madeira e açúcar até à construção e transporte. O seu património ascendia a mais de 7 milhões de dólares. David deixou 2 esposas e 21 filhos. Marriner era o filho mais velho de David e da sua segunda esposa, Ellen.

Sem ter deixado um testamento, de acordo com a lei de Utah, os bens de David foram para a sua primeira esposa e para os seus filhos desta sua mulher. No entanto, David tinha dado a Ellen e aos seus filhos ações em algumas das suas empresas. Recusando-se a juntar as suas ações numa holding comum com a primeira esposa e os filhos de David, Marriner e Ellen criaram uma holding separada para gerir as suas ações, a Eccles Investment Company. Esta empresa tornou-se a base da cadeia de negócios da qual Marriner foi presidente, vice-presidente, diretor ou tesoureiro, facto que mencionou 20 anos mais tarde perante a Comissão de Finanças do Senado [8].

David Eccles acreditava que num sistema de livre iniciativa todos poderiam alcançar o que ele tinha alcançado se fossem parcimoniosos e trabalhassem arduamente. Ele sentia que o governo não tinha lugar no sistema económico. O seu único papel era manter as suas despesas em equilíbrio com as suas receitas. Ele pensava que um orçamento em equilíbrio promoveria a confiança e estimularia a poupança, formando assim capital para investir em mais empresas produtivas. O próprio David Eccles nunca utilizou capital formado a partir de poupanças de outros. No início da sua carreira, decidiu nunca ficar dependente de outros. Portanto, nunca pediu dinheiro emprestado, e ao contrário de outros homens de negócios da zona Oeste, nunca procurou capital na região Leste. Alargou o seu império empresarial através do reinvestimento dos lucros que obteve. No entanto, esta atitude, que, como Marriner escreve nas suas memórias, teria tornado os bancos supérfluos, não impediu David de ter interesses em bancos. É claro que David viu a miséria dos pânicos e depressões da segunda metade do século XIX. No entanto, ele via tudo isto como autocorreções naturais e purgatórias do sistema económico. Instituições caritativas como a própria Igreja Mórmon de David deveriam cuidar de pessoas necessitadas [9].

O primeiro cargo que Marriner Eccles mencionou à Comissão de Finanças do Senado em Fevereiro de 1933 foi o seu papel como Presidente da First Security Corporation. Era o porta-estandarte da sua frota de empresas de açúcar, leite, madeira e construção. Na altura, a sua Companhia de Construção de Utah era a empresa líder das seis que estavam a construir a Barragem de Boulder. Marriner Eccles fundou a First Security em 1928. Durante o ano após a morte do seu pai em 1912, para além dos interesses nos bancos que herdou do seu pai, começou a adquirir mais bancos, não só em Utah mas também em Idaho. Em 1920, trocando ações com os filhos da primeira mulher de David, Eccles obteve uma participação de controlo em dois bancos em Salt Lake City. Quando tinha trinta anos, o seu negócio bancário era o maior em Salt Lake City e um dos maiores do Estado de Utah [10].

Depois de 1920, Eccles adquiriu mais bancos e em 1928, a Eccles Investment possuía 17 bancos. Todos eles operavam de forma autónoma e, portanto, não não tinham uma boa relação custo-eficiência. A partilha de algumas funções tais como auditoria, publicidade e inspeções de crédito era vista como uma medida de redução de custos. Para justificar uma organização separada para prestar estes serviços, era necessária uma escala suficientemente grande. Eccles estimou que seriam necessários entre 15 a 20 bancos para alcançar essa escala. O problema era, contudo, saber como criar uma organização que não violasse a Lei da Banca Nacional de 1863. Nessa altura, o consenso interpretava essa lei como proibindo a atividade bancária interestadual. Por conseguinte, não era possível uma fusão direta dos seus bancos numa única organização. O dispositivo escolhido pela Eccles foi, em vez disso, a sociedade holding. Ele foi o primeiro a aplicar esta forma de organização ao negócio bancário. Em Junho de 1928, cada um dos acionistas dos bancos Eccles trocou as suas ações por ações de uma nova sociedade holding, denominada First Security Corporation, uma entidade constituída de acordo com as leis de Delaware. Esta holding, ela própria e não um banco, tornou-se a única proprietária dos bancos de Eccles. Estes bancos, cada um deles com um alvará, um presidente e diretores, mantiveram-se nominalmente independentes e autónomos. Na prática, porém, a holding geria-os e orientava-os. Com esta inovação, Eccles tinha encontrado uma forma de contornar uma fraqueza do sistema bancário americano, uma fraqueza que se tornou evidente durante a Depressão. No espaço de um ano, 11 outros bancos em Utah e Idaho juntaram-se ao grupo e os depósitos duplicaram [11].

Como Hyman observa, “em 1929, aos trinta e oito anos de idade, (Eccles) pôde ver como a sua própria ascensão no mundo dos negócios afirmava as verdades e os preceitos que tinha recebido do seu pai … relativamente ao trabalho, parcimónia, produção, autossuficiência … um sistema económico a funcionar segundo as linhas do laissez-faire”. Eccles acreditava realmente que a economia da América era sólida e que as depressões e o pânico estavam ultrapassados. O índice de preços ao consumidor estava em declínio. O rendimento federal excedia as despesas. Os impostos eram baixos e os lucros das empresas estavam a aumentar. O sistema económico estava livre de interferência governamental [12].

Em 1925, Eccles demonstrou a sua crença neste ponto de vista, quando, como novo presidente da Associação de Banqueiros de Utah, prestou homenagem ao seu pai dizendo: “o progresso só vem através do trabalho, da economia e da parcimónia e só estes são a força ativa que cria a estrutura duradoura”. Neste discurso, advertiu também os seus ouvintes para esquecerem “alguns dos desejos extravagantes nascidos das condições de guerra, se quisermos continuar a marcha firme do progresso”. À luz das suas opiniões posteriores, o uso da palavra “extravagante” é aqui notável. Também notável para um banqueiro do Centro-Oeste, foi a amplitude dos seus pontos de vista. Saudou a eleição de Hindenburg como Presidente da Alemanha; elogiou a Grã-Bretanha e outros países, por exemplo a Holanda, por restabelecerem o padrão ouro. Perdoou à Grã-Bretanha por não ter equilibrado o seu orçamento durante cinco anos, porque tinha reduzido o seu endividamento. Eccles não avaliou as realizações do sistema financeiro, criado pela Lei da Reserva Federal dez anos antes, exceto para mencionar o crescimento dos depósitos e o aumento do stock de ouro [13]. Nessa altura, provavelmente não teve muitas críticas ao Sistema da Reserva Federal. Em 1928, elogiou-o, dizendo que desde a sua criação tinha evitado o pânico [14].

Eccles testemunhou as crises de 1921, 1924 e 1927, mas estas crises não chocaram a sua confiança na correção fundamental do sistema económico. A crise que começou em 1929, contudo, deixou-lhe claro que algo estava fundamental e terrivelmente errado. “Durante 1930, acordei e encontrei-me no fundo de um poço”, escreve ele. Apesar de dezassete anos de experiência com o mundo das finanças, ele sentiu que nada sabia dos seus efeitos económicos e sociais. A depressão foi para ele uma afronta pessoal. Porque é que a queda dos preços e o aumento do desemprego tornaram o dólar “mais sólido”? O que poderiam os banqueiros fazer quando os valores em declínio impossibilitavam os agricultores de pagar os empréstimos, nas explorações agrícolas, na criação de gado e nos títulos? Porque é que os “homens nas quintas e os homens nas cidades” não podiam comercializar os bens necessários aos outros? Quem é que deveria fazer alguma coisa? O Governo, como algumas pessoas propuseram? Porquê o Governo [15]?

Levou dois anos até Eccles pensar que tinha algumas respostas e que podia conceptualizar o que estava errado, ou o que tinha causado a depressão, ou quais eram as soluções. Ele desenvolveu a sua visão do caminho a seguir, ao mesmo tempo que salvava os seus e outros bancos do fracasso com bluff, inteligência e sorte. Que nem um só depositante nos bancos de Eccles tenha perdido o seu dinheiro reforçou a reputação e autoridade de Eccles, e deu peso às suas ideias. Desprezá-lo como um radical insensato não era coisa fácil de fazer. A luta para salvar os seus próprios bancos levou-o questionar a conduta de outros banqueiros durante os tempos de depressão, e especular se eles próprios não tinham piorado a situação [16].

Pela primeira vez em Março de 1931, Eccles falou publicamente sobre o desenvolvimento das suas ideias num discurso, muito vagamente intitulado “A banca em relação às condições económicas”. Ele proferiu este discurso numa conferência de banqueiros em Salt Lake City. O que ele diria de forma mais coerente dois anos mais tarde à Comissão de Finanças do Senado já era evidente neste discurso. Tinha desaparecido a ideia de um progresso mais ou menos automático através da parcimónia, aforro, trabalho e não-interferência governamental na atividade económica. “A solução da depressão não é fácil e não se corrigirá por si mesma”, disse, acrescentando que os banqueiros eram impotentes como indivíduos para resolver os problemas, pois “a banca não é uma coisa à parte” da economia. Ele apresentou a opinião de que os fatores mundiais sobre os quais os banqueiros individualmente têm um controlo limitado, são largamente determinados e grandemente influenciados pela ausência de depósitos, empréstimos, investimentos, juros e despesas. Um destes fatores mundiais parece ter sido a política de banco central da América. Essa política tinha falhado claramente no ano passado. “Em 1928 e 1929 … as nossas autoridades bancárias centrais … não estiveram à altura das suas responsabilidades … de regular a oferta de moeda bem como para a manter disponível segundo a necessidade dos negócios e não de jogos de azar na bolsa”. Culpou o Sistema da Reserva Federal por ter permitido a deflação, que se seguiu ao colapso. Observou que o fracasso em regular a oferta de moeda era de tal forma que havia um nível de preços estável que desequilibrou “a nossa maquinaria industrial mundial” e provocou uma situação de subconsumo. Eccles viu isto não só como uma questão económica, mas também como uma questão moral. Ele citou com aprovação Owen D. Young (da reconstrução de 1929 e das Reparações de Guerra da Alemanha) que argumentou que “a estabilidade do poder de compra da moeda faz parte da própria base da vida”, e que, quando subitamente mudou, “toca em todo o tipo de questões morais e todo o tipo de obrigações [17]“.

Um ano depois, em Junho de 1932, Eccles proferiu outro discurso aos Banqueiros de Utah. Desta vez, o título foi menos vago: “Depressão, Causas, Efeitos e Sugestões de Remédios”. A ideia central de Eccles de o subconsumo ser a raiz do problema era claramente discernível neste discurso. “A nossa depressão não foi provocada por extravagância (e) elevada tributação … Consumimos muito menos do que produzimos”. Prosseguiu dizendo que após a Primeira Guerra Mundial, surgiu um desequilíbrio entre o capital e o consumo. O governo pagou as suas dívidas e equilibrou o seu orçamento. Um dos maiores erros, segundo Eccles, foi a eliminação dos impostos sobre as sociedades e dos impostos sobre os lucros excessivos assim como também foi um erro a redução dos impostos sobre as sucessões, o que estimulou os investimentos de capital. Assim, “sempre que a nossa acumulação de capital atinge um ponto em que a nossa produção está para além da capacidade de consumir bens … devido à falta de poder de compra, temos uma depressão”. A culpa foi do Federal Reserve Bank por ter tornado possível em 1927 e 1928 e possivelmente 1926 … a expansão desnecessária e indevida do crédito nos anos 1927 e 1928 [18]“.

Eccles tinha perdido claramente a confiança nas suas crenças de seis anos atrás de que “o progresso é o resultado apenas do trabalho, do aforro e da parcimónia”. Agora, repudiando o que dizia o seu pai, disse Marriner Eccles: “A teoria do trabalho duro e da parcimónia como meio de nos puxar e tirar para fora da crise é economicamente insensata. O verdadeiro trabalho árduo significa mais produção; aforro e parcimónia significam menos consumo”. Para reconciliar estas forças opostas, a solução de Eccles era dar poder de compra aos consumidores. Mais poder de compra significaria mais consumo, e mais consumo significaria menos desemprego. A única instituição capaz de conseguir esta reviravolta era o Governo Federal. “Existe apenas uma agência, que pode virar o ciclo para cima e esta agência é o Governo”. Ao contrário das cidades, condados e estados, explicou ele, o Governo Federal não tinha de equilibrar o seu orçamento e tinha o poder de controlar a moeda e o crédito [19].

Para Eccles, o desemprego não era apenas um problema económico, mas também um problema moral. Perguntou-se a si-mesmo porque não era um problema gastar milhares de milhões para financiar a Primeira Guerra Mundial, ou porque não era um problema em 1918 ter um défice orçamental de oito mil milhões de dólares e em 1919 de treze mil milhões de dólares. Se estes eram aparentemente aceitáveis, por que razão então era um problema fornecer crédito ou dinheiro para cuidar dos desempregados através de obras públicas ou de um subsídio de desemprego “para dar a homens capazes e dignos e dispostos a trabalhar a oportunidade de trabalhar e de lhes garantir o sustento das suas famílias e a proteção contra a miséria e a falta de recursos “? A sua resposta foi, portanto, que o governo deveria gastar 5 mil milhões de dólares para criar emprego. Curiosamente, aqui Eccles mostrou uma consciência do efeito multiplicador. Antecipando críticas, respondeu à questão de como pagar os 5 mil milhões de dólares quando observou que os rendimentos, a produção e o consumo aumentariam, dando assim à sociedade uma maior capacidade de reembolsar este montante [20].

Em ambos os discursos, apontou também o problema das dívidas entre aliados. Os Estados Unidos tinham mudado de uma grande nação devedora para uma grande nação credora. Tinham recolhido um grande stock de ouro. Durante a Primeira Guerra Mundial, emprestou grandes quantias aos países europeus. O pagamento destes empréstimos em bens e serviços era difícil devido às elevadas tarifas impostas pelos Estados Unidos. Para Eccles, o problema das dívidas internacionais estava também na origem dos problemas económicos.

Sete meses mais tarde, em Fevereiro de 1933, quando Eccles compareceu perante a Comissão de Finanças do Senado, os seus pontos de vista foram plenamente desenvolvidos. Ele já não acreditava na ideia ortodoxa e geralmente aceite de que as depressões se deviam a leis económicas determinadas por Deus, sobre as quais os humanos não tinham qualquer controlo. Não, a economia era feita pelo homem e a Humanidade tinha-a desenvolvido. Para Eccles a economia era “a produção e distribuição da riqueza trazida pela aplicação de trabalho às matérias-primas”. A ideia de a economia ser dada por Deus nada mais era do que homens com grande poder económico a estipular as regras do jogo económico, e a moldar as ações do governo para fazer cumprir essas regras. Só quando era do interesse destes homens é que o governo tomava medidas. Isto é, concluiu Eccles, a razão pela qual o Presidente Hoover fundou a Reconstruction Finance Corporation (RFC). Quando os bancos da região Leste se depararam com problemas porque os seus empréstimos aos bancos da região ocidental não eram pagos, precisavam da RFC para cobrir as suas perdas [21].

Eccles também tinha concluído que a depressão não se devia a ser-se demasiado gastador. Pelo contrário, “éramos excessivamente parcimoniosos”. Até 1929, elevados níveis de emprego eram financiados através de uma grande expansão da dívida criada com a concessão de crédito pelos bancos, por exemplo sob a forma de hipotecas sobre casas, dívidas a prestações de consumidores e empréstimos para especulação bolsista. Essa expansão parou em 1929 e provocou a depressão com a diminuição do consumo, preços, rendimentos, salários e emprego.

Para Eccles, a solução não era restaurar a confiança da comunidade empresarial através da existência de orçamento federal equilibrado. Equilibrar a economia é que levaria a que se ganhasse a confiança o que, por seu lado, levaria a que se alcançasse um orçamento equilibrado. Ele acreditava que um orçamento desequilibrado era um efeito, não uma causa, da falta de confiança. A única forma de sair da depressão era colocar o poder de compra nas mãos das pessoas através da ação governamental. Este papel ativista do governo em Eccles relacionava-se com um credo maior que ele formulou na altura: a principal preocupação da economia é assegurar o máximo emprego a todos os seus membros. A forma de o conseguir, se a sociedade quiser aderir ao capitalismo, era confiar na iniciativa privada. O governo pode e deve insistir em padrões mínimos de decência para o seu povo, e isto significaria um rendimento mínimo, uma idade mínima para a escolaridade e emprego, uma idade máxima para a reforma, condições de trabalho decentes e seguras, benefícios para o trabalho devido ao aumento da produtividade, proteção e segurança para os idosos e desempregados, e instalações de ensino e formação, de saúde e recreativas adequadas [22].

Nas suas observações iniciais à Comissão de Finanças do Senado, Eccles pediu à Comissão que reconhecesse que a rutura do sistema económico se devia ao fracasso da liderança política e financeira em lidar inteligentemente com o problema da moeda. O sistema monetário não tinha proporcionado poder de compra suficiente para permitir ao povo obter os bens que a nação estava a produzir. “O sistema capitalista ortodoxo … já não servirá o nosso propósito … [e] o nosso mundo monetário … é o nosso tirano e o nosso dono “. Ele explicou que o problema era o subconsumo, não a sobreprodução, que a deflação tinha aumentado o peso da dívida, medido em termos reais, e que só o governo podia fornecer o remédio. Perguntou aos senadores: “Porque foi que durante a (Primeira Guerra Mundial), quando não havia depressão, não insistimos em equilibrar o orçamento … para manter o crédito do Governo quando tivemos um défice de 9 mil milhões de dólares em 1918 e 13 mil milhões de dólares em 1919? Por que razão não havia desemprego nessa altura e a quantidade de moeda era insuficiente”? Depois de enumerar que, após a Primeira Guerra Mundial, o governo tinha equilibrado o seu orçamento, e pago 10 mil milhões de dólares da sua dívida, que países estrangeiros tinham recebido créditos no montante de 10 mil milhões de dólares e que o capital tinha acumulado outros 100 mil milhões de dólares, perguntou: “Será necessário conservar o crédito do governo até ao ponto de haver fome para milhões numa terra de superabundância ?” [23]

O que o governo tinha de fazer era aumentar o nível de preços das matérias-primas e aumentar o emprego a fim de aumentar a procura de bens de consumo. Para o conseguir, Eccles apresentou o seu “programa de cinco pontos” de medidas de primeiros socorros, que ele chamou em Beckoning Frontiers uma “silhueta (das) empresas do New Deal [24]“. Repetidamente interrompido pelos senadores, continuou, no entanto, a explicar os cinco pontos. A sua primeira proposta era fornecer aos Estados, como uma dádiva e não como um empréstimo, 500 milhões de dólares para cuidar “dos indigentes e desempregados”. Chamando-lhe “desgraça nacional” por permitir o sofrimento e observando que era incompreensível que o povo continuasse “a estupidez” de ter filas de gente a viver da sopa dos pobres, suicídios e desespero, advertiu: “Ou adotamos um plano que irá ao encontro desta situação sob o capitalismo ou um plano será adotado para nós, que irá funcionar sem capitalismo [25]“.

As questões, colocadas pelos senadores a Eccles, centraram-se na razão pela qual os estados, especificamente estados ricos como Nova Iorque, Ohio, Massachusetts e Illinois, não foram capazes de financiar o apoio às populações por si próprios. Eccles explicou que o Governo Federal deveria financiar os programas delineados porque a sua notação de crédito era muito melhor do que a dos estados. O mercado para títulos emitidos por um estado simplesmente não é tão bom como o dos títulos do Governo Federal, explicou ele. Isto não foi fácil para Eccles. Os senadores não compreenderam ou acreditaram que o Governo Federal deveria ser ele a fornecer os fundos de auxílio aos estados.

A sua segunda proposta era aumentar o montante disponível para a Reconstruction Finance Corporation para 2,5 mil milhões de dólares ou mais, conforme necessário, para projetos de autoliquidação, empréstimos que se pagam pelos rendimentos gerados pelos próprios projetos que financiam, e empréstimos a juros baixos a cidades, especificamente para obras públicas. Segundo Eccles, este conceito tornou-se a base de um projeto do New Deal: a Administração de Obras Públicas (Public Works Administration.) [26]. Depois da discussão sobre como financiar esta proposta, Eccles mencionou que tinha uma alternativa melhor para esta proposta. Era uma versão adaptada de uma ideia que ele tinha lido recentemente na revista Harper’s Magazine. Eccles propôs compensar os depósitos perdidos após 1929 e adotar um plano de garantia de depósitos. Esta garantia tinha de cobrir todos os bancos, porque a exclusão de um banco significaria a destruição desse banco. Eccles alegou mais tarde que a Federal Deposit Insurance Company, criada um ano depois, incorporou esta ideia [27]. Para o Senador Thomas Gore, este plano tinha um erro fundamental. Não conseguia distinguir entre banqueiros honestos e competentes e banqueiros desonestos e incompetentes [28].

A regulação da produção de trigo e milho foi a terceira medida de emergência do Eccles, um plano de atribuição. O seu objetivo era aumentar o preço destes produtos para o nível dos preços mundiais. Evidentemente, isto também aumentaria o custo para o consumidor e, de um modo mais geral, o nível geral de preços de outros produtos agrícolas como arroz, legumes e lacticínios. Ao mesmo tempo, o poder de compra de todos os agricultores, e não apenas dos produtores de algodão e trigo, aumentaria, e estes comprariam mais bens e serviços, aumentando assim o emprego. Mais importante ainda, o rendimento geral aumentaria muito mais do que o aumento total dos custos para o consumidor devido ao que Eccles chamou a “velocidade da moeda”, e ao que os economistas de hoje chamariam o efeito multiplicador. Aos senadores céticos ele disse que na Dinamarca e na Holanda estava em funcionamento um plano deste tipo. O plano de atribuição de Eccles iniciou a discussão que acabaria por conduzir à Lei de Ajustamento Agrícola, e esta era a pretensão de Eccles [29].

Na sua quarta proposta, apelou ao refinanciamento das hipotecas agrícolas para acompanhar o plano de atribuição. As hipotecas agrícolas existentes deveriam ser reembolsadas a longo prazo e a uma taxa de juro baixa. Para assumir as hipotecas agrícolas, o plano propunha que os bancos fundiários federais levantassem 5 mil milhões de dólares, através da venda de obrigações com garantia federal. Os agricultores, pagando uma anuidade de 5%, com 3% de juros e 0,7% para despesas, reembolsariam o empréstimo durante 40 anos. Os benefícios deste reembolso “tornariam líquidos milhares de milhões de dólares de ativos para os quais não existe atualmente mercado (e) trariam uma redução de pelo menos um terço da média dos pagamentos anuais da dívida agrícola”. Ambos os planos, o plano de atribuição e o plano de refinanciamento de hipotecas, prometeram salvar o setor agrícola do colapso e, ao mesmo tempo, expandir o seu poder de compra. Notoriamente, não houve discussão sobre o plano de hipoteca entre Eccles e/ou os senadores do Comité. Eccles recordou que o seu plano “teve uma receção totalmente indiferente” por parte dos membros do Comité. No entanto, um mês depois, de acordo com Eccles, a Administração Roosevelt atuando em linha com estas recomendações, criou a Administração de Crédito Agrícola para refinanciar a indústria agrícola. [30]

O último ponto do Eccles era uma regularização permanente de dívidas entre aliados. Para Eccles esse acordo era uma condição necessária para iniciar a recuperação económica nos Estados Unidos. Eccles explicou aos senadores que o pagamento dessas dívidas pelos devedores, dos quais a França e a Grã-Bretanha eram os mais importantes, só era possível quando tivessem uma situação de balança comercial favorável com os Estados Unidos, ou quando exportassem ouro. Tarifas elevadas (Eccles provavelmente estava aqui a referir-se à Lei Smoot-Hartley de 1930) tornaram a exportação para os Estados Unidos quase impossível. O reembolso de dívidas através da exportação de ouro para os Estados Unidos depreciava a moeda de um devedor em relação ao dólar, tornando assim impossível importar bens dos Estados Unidos. Estas duas soluções – derrubar o muro tarifário e anular a dívida – eram, segundo Eccles, soluções matemáticas e não morais, das quais a mão-de-obra e a agricultura americanas beneficiariam grandemente. Ficou claro o que Eccles preferia: o cancelamento das dívidas entre aliados [31].

Concluindo a explicação do seu plano de cinco pontos, Eccles salientou que o seu plano era um plano de emergência destinado a impulsionar a recuperação da economia. Para evitar futuras depressões, aconselhou ele, o governo precisava de mais controlo do sistema económico, um controlo mais eficaz do fornecimento da moeda e do crédito, e precisava de unificar o sistema bancário sob a supervisão da Reserva Federal. Além disso, Eccles pensava que o governo devia cobrar elevados impostos sobre rendimentos e sucessões para controlar as acumulações de capital, e devia adotar leis sobre trabalho infantil, salário mínimo, desemprego e velhice. Eccles pensava que o governo federal deveria aprovar as emissões de capital e os financiamentos externos e controlar o transporte e as comunicações. Ele propôs que um Conselho Nacional de Planeamento coordenasse as atividades públicas e privadas. Eccles advertiu, “Têm de cuidar dos desempregados ou vão ter uma revolução neste país… Quando tiverem desempregados suficientes, controlarão o Governo e mudarão o nosso atual sistema político, social e económico [32]“. Para sua grande satisfação pessoal dois anos depois, a revista de negócios Fortune, referindo-se aos cinco pontos de Eccles, escreveu que em comparação “com a economia da atual administração … M. S. Eccles de Ogden, Utah era não só um mórmon mas também um profeta [33]“.

Eccles sempre sustentou que os seus conceitos, mais tarde chamados “Keynesianos”, não tinham vindo de John Maynard Keynes. Argumentou que nunca tinha lido os livros de Keynes, exceto alguns pequenos excertos. “As minhas conceções baseavam-se na observação a olho nu na região intermontanhosa [34]“. Isso é difícil de acreditar, a menos que se aceite que existe a explicação mais profunda e plausível, que o historiador Jonathan Hughes apresenta. É a sua herança mórmon. Na última metade do século XIX, Brigham Young criou, quando estava a desenvolver o Oeste, uma “mistura única de democracia teocrática e igualitária, com propriedade e responsabilidade individual e comunitária em assuntos económicos”. Nessa sociedade, os indivíduos deveriam, de acordo com a Parábola dos Talentos, melhorar “os seus tesouros terrenos” através de trabalho árduo, mas não sem se preocuparem com os desafortunados. Porque a igualdade económica servia a unidade da Igreja, havia uma certa ideia de uma justa distribuição de rendimento e riqueza. Um mórmon não era um dono da propriedade, mas um mordomo da propriedade. Um imposto progressivo era uma boa forma de equalizar os rendimentos. Desta forma, ligando o espiritual ao temporal, a Igreja tinha a autoridade para dirigir a economia. Os meios para o fazer eram proporcionados pelos 10% de dízimo que cada mórmon tinha de pagar todos os anos. Desta forma, Eccles aprendeu que um poder central podia ser eficaz e não uma ameaça à propriedade privada [35].

May também defende que a herança mórmom de Eccles foi o factor decisivo nas suas crenças. Brigham Young e os seus sucessores construíram a Igreja Mórmon e Utah, fornecendo empregos a imigrantes em obras públicas como templos e canais, financiados pela Igreja. Desta forma, desenvolveram-se duas atitudes entre os mórmons. Primeiro, eles acreditavam que a Igreja tinha o direito e o dever de planear e dirigir a economia da região. Segundo, os mórmons pensavam que a Igreja devia proporcionar empregos aos necessitados quando os tempos eram difíceis [36].

Mark Nelson apoia este ponto de vista. Quando David Eccles chegou a Utah, a Igreja Mórmon estava a encorajar e a investir em empresas privadas, uma das quais era a empresa de beterraba de David Eccles. A Igreja também promoveu cooperativas. Distribuía as contribuições acumuladas dos seus membros aos necessitados. Isto devia ter tido influência na opinião da Eccles sobre a “interação entre as empresas e o governo”. Além disso, Nelson argumenta, que Keynes influenciou efetivamente Eccles. “Ao longo de 1931 e 1932, Keynes foi mencionado no Salt Lake Times e no Ogden Standard-Examiner. Para quem se mantivesse a par do pensamento económico no início da década de 1930, como era claramente o caso de Eccles, a exposição ao economista britânico era quase inevitável [37]“.

David Eccles e os seus descendentes sempre viveram em Utah, onde existia um ambiente económico em que o “governo”, neste caso a Igreja Mórmon, intervinha na economia e fornecia empregos aos desempregados e nada disto era visto como um desvio ou como abominação socialista. Nesta economia relativamente pequena e fechada, um observador atento como Marriner Eccles pôde ver como funcionavam os processos macroeconómicos. Ele tinha bem compreendido como o governo ao construir estradas e barragens ajudava a indústria privada, incluindo as suas próprias empresas. Tudo isto foi “solo fértil para o seu posterior desenvolvimento de uma dada lógica, recomendando ação governamental para estimular a lenta economia nacional dos anos 30 [38]“.

É bastante curioso que nem o próprio Eccles, nem o seu biógrafo Hyman, nada tenham escrito sobre a influência óbvia da sociedade mórmon para explicar as crenças que Eccles desenvolveu depois de 1931. Nesse ano, acordou, sentindo-se como José no seu poço, perguntando-se qual era a sua culpa e sentindo a depressão económica como uma afronta pessoal. Porque é que ele tinha estes sentimentos e levantava essas questões, aparentemente era uma pergunta de base que não levantava a si mesmo ou, mais provavelmente, não a queria fazer. Claramente, o facto de que o desemprego para Eccles era, antes de mais, um problema moral era devido às suas raízes mórmons.

Para compreender o que se passava após o colapso de 1929 e, mais importante ainda, para saber o que fazer a esse respeito, Eccles não procurou economistas profissionais. De acordo com Hyman, Eccles, em 1931, tentando sair do seu poço, descobriu os escritos pós-1929 de William F. Foster. Este economista não profissional levantou duas grandes questões, que agradaram muito a Eccles: A causa da Depressão não era a despesa desordenada, mas sim a poupança desordenada; a solução era aumentar o poder de compra. O “solo fértil” de Eccles embebeu-se prontamente com estas palavras.

Em 1928, Foster tinha sido co-autor de The Road to Plenty com Waddill Catchings, um antigo industrial de ferro. Foster e Catchings foram dos primeiros a iniciar o debate sobre a Lei Say ou a Lei dos Mercados, até à Depressão, uma pedra angular indiscutível do pensamento económico clássico. Esta lei é muitas vezes mal compreendida, por exemplo pelo próprio Keynes, ao dizer que a oferta cria a sua própria procura, significando no final, que a oferta e a procura de bens e serviços são sempre iguais no ponto em que todos os recursos são plenamente utilizados. Um excesso da oferta sobre a procura, um excedente de poupança, por definição, não é possível [39]. Os rendimentos gerados pelas vendas são sempre suficientes para comprar os bens disponíveis. Assim, uma economia capitalista tende naturalmente para o pleno emprego e prosperidade, desde que o governo não interfira. Esta lei foi a base da doutrina ortodoxa do laissez faire, o que significa economia não regulamentada e livre iniciativa, na qual as depressões e recessões são apenas correções naturais no caminho para um novo equilíbrio.

Foster e Catchings argumentaram em The Road to Plenty que a Lei de Say não se aplicava a uma economia monetária, devido ao que chamaram o Dilema da Poupança, o que os levou ao seu tema central de subconsumo. Perguntaram-se estes autores sobre qual a razão que tornava impossível para as pessoas, enquanto consumidores, adquirirem as mercadorias que podem e estão disponíveis para fabricar. A resposta foi que indivíduos e empresas tinham de aforrar uma parte do dinheiro que recebiam, restringindo assim o seu poder de compra. O resultado é um desequilíbrio entre a oferta e a procura. Além disso, a poupança, quando investida em novas capacidades, cria uma oferta adicional de bens, agravando o problema. A menos que os rendimentos aumentem para comprar os bens disponíveis, a produção irá diminuir e o desemprego irá aumentar. A oferta e a procura podem atingir um novo equilíbrio, mas a um nível inferior em que nem todos os recursos são plenamente utilizados. Para se ter pleno emprego de todos os recursos, é necessário um nível adequado de rendimentos. A única instituição capaz de “colocar dinheiro nas mãos dos consumidores” é o governo.

Foster e Catchings reconheceram que para o fazer o Governo teria de pedir dinheiro emprestado e aumentar a Dívida Nacional. Não viram essa dívida como um grande problema, porque era uma dívida que o povo americano devia a si próprio [40]. Apenas oito anos mais tarde, nas palavras de Paul Krugman, Keynes fez a sua inovação crítica ao “demolir” a lei de Say na sua Teoria Geral. Tal como Foster e Catchings, Keynes argumentou que a Lei de Say funcionava numa economia de permuta, mas não funcionaria numa economia em que o dinheiro e os preços enquanto tal desempenhassem um papel.

A possibilidade do subconsumo, tal como delineado por Foster e Catchings, ou a insuficiência da procura agregada, tal como foi resumido por Keynes, ter causado a Depressão, foi – para usar uma expressão holandesa – estar a “praguejar na igreja”. Como escreveu John Kenneth Galbraith, “Say era o teste com que se distinguia os economistas reputados daqueles que eram lunáticos… nenhum candidato a um doutoramento numa grande Universidade americana que falasse seriamente sobre a penúria do poder de compra como causa da recessão seria aprovado” [41]. Franklin D. Roosevelt leu The Road to Plenty e pensou que era demasiado bom para ser verdade [42] .

Muito provavelmente, foram Foster e Catchings mas também talvez Keynes que influenciaram Eccles na sua opinião de que o subconsumo era a principal causa da Depressão. Finalmente, de acordo com Hyman, a interpretação de Marriner S. Eccles do subconsumo e a sua análise da Grande Depressão ultrapassou a de Foster e Catchings, pelo seu caracter concreto, incisivo e robustez de argumentação assim como instrumento para pôr em causa o raciocínio dos principais leaders de opinião de então do mundo dos negócios. [43]

 

(continua)


Notas

[1] Marriner S. Eccles e Sydney Hyman, Beckoning Frontiers, Public and Personal Recollections (New York: Alfred A. Knopf, 1951), 165.

[2] Sydney Hyman. Marriner S. Eccles, Private Entrepreneur and Public Servant (Stanford, California: Graduate School of Business Stanford University, 1976), 110.

[3] Alan Brinkley, The End of Reform, New Deal Liberalism in Recession and War (New York: Vintage Books, 1995), 27

[4] Allan H. Meltzer, a History of the Federal Reserve. Vol.1: 1913-1951. (Chicago: University of Chicago Press, 2003), 415, 576.

[5] Dean L. May, From New Deal to New Economics: The American Liberal Response to the Recession of 1937 (New York: Garland Publishing Company, 1981), 123.

[6] Bernard Shull, The Fourth Branch, the Federal Reserve’s Unlikely Rise to Power and Influence (Westport, Connecticut: Praeger, 2005); William Greider, Secrets of the Temple, How the Federal Reserve Runs the Country (New York: Simon and Schuster, 1987).

[7] Committee on Finance United States Senate, 72 nd Congress, Second Session, “Hearings on Investigation of Economic Problems” (February 13-28, 1933), 705-706.

[8] Hyman, Marriner S. Eccles, 12, 43.

[9] Hyman, Marriner S. Eccles, 22, 43-44.

[10] Ibid., 58.

[11] Hyman, Marriner S. Eccles, 62-64.

[12] Ibid., 68-69.

[13] Marriner S. Eccles, “Speech to the Utah Bankers Association.” (June 1925) Papers. University of Utah, Salt Lake City, Utah, 3-5.

[14] Eccles and Hyman, Beckoning Frontiers, 54-55.

[15] Eccles and Hyman, Beckoning Frontiers, 54-55.

[16] Para conhecer a própria história de Ecclese de ioond eveio, veja-se Eccles and Hyman, Beckoning Frontiers, capítulo 2.

[17] Marriner S. Eccles, “Banking as related to Economic Conditions.” (March 26, 1931) Papers. University of Utah, Salt Lake City, Utah.

[18] Marriner S. Eccles, “Depression, its causes, effects and suggested remedies.” (June 17, 1932) Papers. University of Utah, Salt Lake City, Utah, 2-4.

[19] Eccles, “Depression, its causes”, 5.

[20] Ibid., 6, 7.

[21] Eccles e Hyman, Beckoning Frontiers, 102.

[22] Eccles e Hyman, Beckoning Frontiers, 73-81.

[23] Committee on Finance United States Senate 72nd Congress, Second Session, “Hearings on Investigation of Economic Problems” (February 13-28, 1933), 708.

[24] Eccles e  Hyman, Beckoning Frontiers, 105.

[25] Committee on Finance United States Senate 72nd Congress, Second Session, “Hearings on Investigation of Economic Problems” (February 13-28, 1933), 713. 26 Eccles and Hyman, Beckoning Frontiers, 107. 27 Ibid., 108.

[26] Eccles e Hyman, Beckoning Frontiers, 107.

[27] Ibid., 108.

[28] Em princípio, o Senador Gore tinha razão. Hoje diríamos que o senador apontava o dedo para o risco moral: os banqueiros poderiam incorrer em todos os riscos com os depósitos dos seus clientes, porque o fundo de garantia recuperaria todas as perdas potenciais.

[29] Eccles and Hyman, Beckoning Frontiers, 110.

[30] Ibid., 111

[31] Criticar as tarifas elevadas foi bastante corajoso pela parte de Eccles. O Senador Smoot, um dos dois patrocinadores da Lei de 1930, foi presidente do Comité, no qual Eccles testemunhou. Além disso, o Senador Smoot representou Utah no Senado. O outro senador de Utah, o democrata William King, também era membro da Comissão de Finanças. Eccles recebeu o convite para testemunhar do Senador King.

[32] Committee on Finance United States Senate 72nd Congress, Second Session “Hearings Investigation of Economic Problems” (February 13-28, 1933) 730-731, 733.

[33] Eccles e Hyman, Beckoning Frontiers, 113.

[34] Eccles e Hyman, Beckoning Frontiers, 132.

[35] Jonathan Hughes, The Vital Few, the Entrepreneurs & American Economic Progress. (Oxford: Oxford University Press, 1996), 94, 95.

[36] May, From New Deal to New Economic, 40-41.

[37] Mark W. Nelson, Jumping the Abyss: Marriner S. Eccles and the New Deal 1933-1940. Ph.D. Dissertation. (Claremont Graduate University, 2012), 54, 72-73.

[38] May, From New Deal to New Economics, 42-43.

[39] A partir de 1803, quando Jean-Baptiste Say formulou a primeira versão da sua lei, até hoje ainda se discute, como mostra uma rápida navegação na Internet. Thomas Malthus e John Stuart Mill já questionavam a ideia de que a poupança em excesso não era possível.

[40] Hyman. Marriner S. Eccles, 71; Alan H. Gleason, “Foster and Catchings; A Reappraisal”. Journal of Political Economy 67-2 (1959), 157-159; Brinkley, The End of Reform, 75-77.

[41] John Kenneth Galbraith, Money, Whence it Came, Where it Went (New York: Penguin Books, 1976), 231.

[42] Arthur M. Schlesinger Jr., The Age of Roosevelt, The Crisis of the Old Order, 1919-1933 (Boston: Houghton Mifflin, 1957), 136.

[43] Hyman, Marriner S. Eccles, 73.

 

 

 

 

 

 

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