MARRINER ECCLES, um homem muito à frente do seu tempo (anos 30) e do nosso também – 1. Alguns textos sobre Marriner Eccles, sobre o espírito de 33 e sobre os homens do New Deal: 1.15. O Sistema da Reserva Federal e o New Deal – 1933/1939 (2/5). Por Henk Verweij

A good many people believe Marriner Eccles is the only thing standing between the United States and disaster.” – TIME Magazine, 1936

Nota de editor:

Iniciámos no passado dia 1 de Fevereiro uma longa série – de mais de 50 textos – cuja última parte está ainda em preparação. O presente texto “O Sistema da Reserva Federal e o New Deal – 1933/1939, insere-se no conjunto de 17 textos que compõem a 1ª parte 1. Alguns textos sobre Marriner Eccles, sobre o espírito de 33 e sobre os homens do New Deal”.

Esta série é, desde logo, o resultado do labor incansável e da mais elevada competência do seu autor, Júlio Marques Mota, e, como o próprio refere, é um trabalho que leva mais de um ano em preparação e “não foi um trabalho fácil porque, partindo do zero quase absoluto, tivemos de andar a deambular de texto em texto, aceitando uns, rejeitando outros, de referência bibliográfica em referência bibliográfica, cruzando textos e referências bibliográficas”.

É com grande satisfação e orgulho que publicamos na língua portuguesa estes textos em torno das ideias e ações de Marriner Eccles, o mais brilhante de todos os Presidentes do Conselho de Governadores do FED nas palavras de Michael Pettis (e que fazemos nossas). Como diz Júlio Mota, “Marriner Eccles é um dos maiores símbolos intelectuais da oposição fundamentada feita contra os teóricos criadores de catástrofes e os seus vassalos” e cujas ideias e ação, segundo a Time referia em 1936, “protegeram a América do abismo. Trata-se de ideias que na primeira metade do século XX ajudaram a fazer da América um grande país, e que vão contra as ideias destes falcões monetaristas (…) que querem fazer da Europa um insignificante continente”. E como conclui Júlio Mota os “… tempos de ontem, afinal, não diferem muito dos tempos de hoje, a lembrar a frase de Peter Kenen: o mundo mudou muito, mas os problemas são os mesmos. Os problemas são os mesmos e os políticos, pelo que se vê, são também os mesmos. É exatamente isto que confere uma extrema atualidade aos textos que iremos apresentar em torno da obra de Marriner Eccles.”

Em virtude da grande extensão desta tese de mestrado de Henk Verewij (cerca de 100 páginas), e porque se autonomizam as conclusões finais, a mesma será publicada em 5 partes. Hoje é publicada a 2ª parte.


Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

35 m de leitura

 

1. Alguns textos sobre Marriner Eccles, sobre o espírito de 33 e sobre os homens do New Deal

1.15. O Sistema da Reserva Federal e o New Deal – 1933/1939 (2ª parte)

Por Henk Verweij

Tese de Mestrado em Estudos Norte-Americanos, Universidade de Leiden – em 15 de Janeiro de 2016

Supervisor: Dr. Eduard van de Bilt

Segundo leitor: Dr. Jeroen Touwen

Publicado em Teses de Estudantes da  (ver aqui)

 

Introdução.

Capítulo 1. A visão “radical lógica ” de Marriner S. Eccles.

Capítulo 2. “Uma fraca base sobre a qual apoiar-se”. Eccles e os historiadores sobre o fracasso do Sistema da Reserva Federal

Capítulo 3. Reconstrução da economia e “estar no banco de trás”. O Sistema da Reserva Federal na década de 1930.

Capítulo 4. A Luta com Henry Morgenthau e a “Recessão de Roosevelt” de 1937.

Conclusão: Legado de Eccles. O Sistema “no banco da frente” e a teoria padrão do “financiamento compensatório”

Bibliografia.

 

(continuação)

 

Capítulo 2. “Uma fraca base sobre a qual apoiar-se”. Eccles e os historiadores sobre o fracasso do Sistema da Reserva Federal

 

“Eu não estaria disponível para esse cargo sem uma boa base de apoio… a não ser que mudanças fundamentais possam ser feitas no Sistema da Reserva Federal… mas, Sr. Presidente, se ajudar a colocar em lei as mudanças legais necessárias … então gostaria de receber essa vossa consideração… para servir como governador”. Essa foi, de acordo com Hyman, a resposta contundente de Eccles quando, em setembro de 1934, o presidente Roosevelt lhe perguntou se ele aceitaria ser o governador do Conselho da Reserva Federal [44]. O próprio Eccles descreveu a sua reação de uma maneira mais contida: “Respondi que o posto seria atraente apenas se mudanças fundamentais fossem feitas [45].”

Hyman concluiu que depois de 1931, quando Eccles viu o colapso de muitos bancos, ele chegou a acreditar que a forma de influenciar a economia nacional era através de um Sistema de Reserva Federal reformado [46]. Esta conclusão não pode ser tirada diretamente dos discursos de Eccles. Naturalmente, ele culpou o Sistema da Reserva Federal pelo seu papel na Depressão. No entanto, ele colocou a responsabilidade pelo colapso principalmente no Governo Federal. Em 1931, observou que em 1928 e 1929 “as nossas autoridades bancárias centrais, influenciadas por alguns dos nossos principais banqueiros comerciais, falharam na sua responsabilidade de regular a oferta de moeda  [47]. A opinião de Eccles era que, para melhorar os níveis de preços, a Reserva Federal teria de ter aumentado o volume de moeda e de crédito mais do que tinha sido feito. O Sistema da Reserva Federal tinha falhado no seu trabalho [48].

No seu testemunho perante a Comissão de Finanças do Senado, reconheceu que o Banco da Reserva Federal tinha um papel a desempenhar em quaisquer novas políticas, mas apenas como implementador. A sua noção era que para desempenhar o seu papel adequado, o Sistema precisava de uma revisão completa, mas ele não foi tão longe no seu testemunho, nem nos seus discursos antes de 1934. Sobre o sistema bancário, apenas disse, sem explicar mais, que deveria haver “unificação sob a supervisão do Banco da Reserva Federal”. Mesmo no seu último discurso público, em Outubro de 1933, pouco antes da sua nomeação como Assistente do Secretário do Tesouro, não disse qualquer palavra sobre o Sistema da Reserva Federal. Em vez disso, sublinhou novamente que o Governo Federal deveria aumentar as suas despesas para sair da Depressão. A partir das estatísticas publicadas pelo Sistema da Reserva Federal, concluiu que o problema não era a falta de reservas de dinheiro para expandir o crédito. Ele pensou que o Governo Federal deveria fornecer o fósforo para iluminar esta pilha de combustível financeiro [49].

Qual é então a explicação para a resposta de “eu não estaria disponível para esse cargo sem uma boa base de apoio ” de Eccles ao Presidente? Em Beckoning Frontiers, Eccles escreve que explicou ao Presidente que o Sistema tinha perdido o equilíbrio entre os interesses privados e públicos que tinham feito parte da sua conceção, bem como perdido o equilíbrio entre as autoridades descentralizadas e centrais. Na sua opinião, os Bancos de Reserva que representavam os interesses privados dominavam agora o Sistema, e o Conselho de Reserva, que era suposto representar e salvaguardar o interesse público, estava impotente. Por conseguinte, concluiu, era necessária uma mudança fundamental [50].

O que estava errado com o Sistema da Reserva Federal ? Como é que o Conselho da Reserva Federal tinha fracassado como guardião do interesse público e porque é que se tornou um instrumento dos vários Bancos da Reserva como representantes dos interesses privados? Para Eccles este desenvolvimento foi o resultado de acontecimentos após a Primeira Guerra Mundial através dos quais “não teria sido possível imaginar meio mais eficaz de tornar mais difusa a responsabilidade e encorajar a inércia e a indecisão. [51]“.

Quando a guerra terminou, os Estados Unidos tinham uma dívida nacional de 27 mil milhões de dólares. Os Bancos da Reserva [Federal] descobriram que através da compra e venda de títulos ligados a essa dívida, poderiam influenciar o volume de reservas dos bancos membros e, a partir daí, influenciar o volume de depósitos e fundos disponíveis para os bancos comerciais para empréstimos. Perceberam também que o processo de compra e venda desses títulos necessitava de coordenação à escala nacional. Para o efeito, em 1923, formaram um comité composto pelos seus principais diretores executivos, chamados “governadores”, em representação dos seus bancos. Uma vez que a Lei da Reserva Federal de 1913 não regulamentou esta posição de governador, o Conselho da Reserva Federal não tinha jurisdição sobre estes governadores. Tinha apenas autoridade sobre a posição menos influente do Presidente do Conselho de Administração de cada Banco da Reserva Federal.

O pessoal que compõe esse comité de governadores, bem como o seu nome, alternou durante os anos, mas em 1930, todos os doze governadores do Banco da Reserva [Federal] eram membros do comité, agora denominado Conferência de Política de Mercado Aberto (OMPC). Após aprovação pela OMPC e pelo Conselho da Reserva Federal, um comité executivo de cinco governadores executava as decisões políticas. O Banco da Reserva Federal de Nova Iorque efetuou as transações de compra e venda. A criação deste comité foi uma decisão crucial, porque através de operações de mercado aberto a Reserva Federal podia controlar a oferta de dinheiro. Foi apenas em 1933 que a promulgação da Lei Bancária de 1933 colocou esta estrutura informal sobre uma base jurídica. Esta lei deixou intacto o direito de cada Banco da Reserva de não participar nas operações que o comité tinha decidido. Essa disposição, comentou Eccles sarcasticamente, não era um problema para o Banco da Reserva Federal de Nova Iorque “através do qual os interesses privados no distrito financeiro de Nova Iorque exerciam uma tão grande influência sobre a economia nacional [52]“.

Para Eccles o “vilão” óbvio era o Banco da Reserva Federal de Nova Iorque, que era o representante dos interesses financeiros da costa Leste dos USA. Estes interesses entravavam a implementação de políticas inflacionistas que Eccles pensava serem necessárias. Como tinha dito ao Comité Financeiro do Senado, o problema não era que não houvesse moeda suficiente para restaurar os preços. O problema era um “desajustamento” da moeda. O dinheiro estava concentrado nos centros financeiros da costa Leste, nos sectores credores. Durante a depressão, o fluxo de fundos provenientes destes credores da costa Leste, para as regiões da Costa Oeste, as regiões devedoras, tinha parado. Isso fez com que a velocidade da moeda, por Ecles definida como a rotação dos depósitos bancários [53], baixasse de 45 em 1929 para 16 no início de 1933. Este declínio de 64% foi relativamente maior do que o declínio de 22% no mesmo período para depósitos e moeda. A correção do “desajustamento” através da ação governamental, que Eccles considerou ser a única forma possível de fazer uma correção, iria aumentar a velocidade da moeda. Isso, por sua vez, resultaria em preços mais elevados. Se ele pretendia que esta ação governamental incluísse também a reforma do Sistema da Reserva Federal, Eccles não o disse [54].

Esta análise mostrou, segundo May, que Eccles “abrigou claramente um preconceito populista anti costa Leste, sem dúvida um legado da necessidade frequente de entrar nos mercados de capitais de Nova Iorque, a fim de desenvolver uma área na costa ocidental remota que gere cronicamente uma balança de pagamentos desfavorável nas suas negociações com o resto da nação [55]“. Parece que May usa a palavra “populista” mais para caracterizar a atitude de Eccles para com a costa Leste do que para sugerir a influência do movimento populista, que estava no seu ponto alto quando Eccles era ainda um rapazinho.

Que Eccles veio para Washington com uma “desconfiança inata de todas as coisas da costa Leste”, sugere May, foi devido ao pai de Eccles, David, que gostava de apontar os tolos educados da costa Leste como exemplos a evitar. A atitude anti costa leste de Eccles aparece em Beckoning Frontiers onde ele descreve a costa Leste em termos bíblicos como “Egipto” onde viajou como “José” para lidar com o “faraó” Roosevelt. Até ao quadragésimo ano da sua vida, Eccles acreditou no que o seu pai acreditava [56]. Marriner Eccles “estava contente por ser o filho dos pensamentos do seu pai. Ele preocupava-se apenas com a riqueza da sua família (e) com coisas que podiam ser medidas em dólares e cêntimos [57]“. Eccles “tendia a seguir a inclinação que o seu pai tinha pelo presidente republicano McKinley [25º presidente dos EUA] [58]“. Como escreve o seu filho Marriner, David “não tinha ouvidos para as novas vozes na viragem do século que falavam do perigo de concentração das forças produtivas em menos mãos”. As advertências de Theodore Roosevelt e Louis Brandeis deixaram-no frio [59]. Presumivelmente, o mesmo se aplica ao movimento populista com o seu clamor pela reforma monetária, cooperação, reforma orçamental e intervenção governamental. Nem Eccles em Beckoning Frontiers, nem por extensão Hyman em Private Entrepreneur and Public Servant, dedica uma palavra ao movimento Populista. Em 1931, Eccles viu que o mundo do seu pai tinha desaparecido e as suas opiniões foram invalidadas. Testemunhando os efeitos sombrios da Depressão, ele repudiou as crenças do seu pai e voltou-se para a solução da intervenção governamental que tinha testemunhado em pequena escala na sociedade mórmon.

A ação governamental era necessária, salientou Eccles perante a Comissão de Finanças do Senado. No entanto, se isto também incluía a reforma do Sistema da Reserva Federal, ele não o disse. Provavelmente, foi durante o seu curto mandato em 1934, no Departamento do Tesouro, que desenvolveu plenamente a visão de que a correção do “desajustamento” significava uma revisão completa do Sistema da Reserva Federal. No Tesouro, ele conheceu Lauchlin Currie, que quase de certeza incentivou Eccles nessa mesma direção. Currie, um economista profissional de Harvard, também era um “pré-Keynesiano”. Foi um dos sete economistas de Harvard que em Janeiro de 1934 escreveram uma carta ao Presidente Roosevelt para apoiar as políticas monetárias e de despesas governamentais do Presidente, que estavam a ser criticadas pelos economistas profissionais [60]. Pouco depois de assinar esta carta ao Presidente, Currie mudou-se para Washington para trabalhar no Departamento do Tesouro.

Em abril de 1934, Currie publicou um artigo no qual criticava severamente o Sistema da Reserva Federal pelo seu fracasso em impedir a Depressão. “Graves erros foram cometidos pela administração da Reserva, seja por atos da sua incumbência seja por omissão”, escreveu ele [61]. O maior erro na sua opinião foi a intensificação da campanha da Reserva Federal contra a especulação na bolsa de valores, que forçou a subida das taxas de juro, após o que a atividade empresarial diminuiu [62]“. Esta política … contribuiu para provocar (a depressão)”. Currie concluiu que a preocupação da Reserva Federal “deveria ser com o quadro industrial nos seus aspetos mais amplos, (isto é) com os rendimentos monetários e … despesas em relação à produção dos bens dos consumidores e dos produtores. … Um pré-requisito necessário para uma política bancária mais sólida no futuro é uma modificação da conceção das administrações sobre a função de um banco central. … A menos que a administração da Reserva Federal esteja preparada para modificar (esta) conceção … não poderá beneficiar dos grandes avanços da teoria monetária [63]“. Um desses avanços foi ver a doutrina do colateral comercial [dos bilhetes verdadeiros – real bills doctrine] como uma causa da Depressão. Muito provavelmente Currie discutiu as suas crenças com Eccles: desta forma Eccles chegou à conclusão de que o Sistema da Reserva Federal necessitava ser reestruturado. Assim, não é surpresa que Currie tenha ajudado Eccles a preparar, e talvez até tenha escrito, o memorando, que Eccles utilizou para propor reformas da Reserva Federal ao Presidente Roosevelt [64].

Assim, a posição de Eccles sobre as causas e remédios da Depressão era, em suma, que a causa da Depressão era o subconsumo, para a qual o remédio era colocar dinheiro nas mãos dos consumidores. Ele insistiu que havia dinheiro suficiente para fazer exatamente isso. Contudo, devido a uma má regulamentação – um “desajustamento” -, os bancos financeiros da costa Leste tinham esse dinheiro retido. Só uma ação do governo federal e, por extensão, uma reconstrução do Sistema da Reserva Federal poderia libertar esse dinheiro das mãos dos interesses privados em Nova Iorque. Como esta visão corresponde ou difere das opiniões de outros historiadores ou economistas como Milton Friedman, Allan Meltzer, Herbert Stein e John Kenneth Galbraith, é a questão de que nos ocuparemos a seguir.

Milton Friedman, em cooperação com Anna Schwartz, escreveu mais de 120 páginas para explicar “A Grande Contracção de 1929-1933” na sua História Monetária dos Estados Unidos, 1867-1960 [65]. Na sua opinião, devido a uma política monetária incompetente, “o sistema monetário entrou em colapso, mas claramente não precisava de o ter feito [66]“. O Sistema da Reserva Federal deveria ter continuado as políticas que ele próprio tinha delineado nos anos 20, o período a que chamam “a maré alta do Sistema da Reserva”. Então, “a mais severa contração do ciclo económico … em toda a história dos EUA” não teria acontecido. Argumentam que se as autoridades monetárias tivessem impedido o declínio do stock de dinheiro, os resultados monetários não teriam diminuído para metade e os preços por grosso para um terço entre 1929 e 1933 [67].

Porque é que o Sistema não continuou a sua política “ativa, vigorosa, autoconfiante” dos anos 20 e porque é que depois de 1929 foi “passivo, defensivo, hesitante”, perguntam-se Friedman e Schwartz [68]. O seu ponto de vista é que em todos os momentos eram tecnicamente possíveis políticas alternativas. Medidas adequadas teriam e poderiam ter evitado as três crises bancárias de 1930, 1931 e 1933 [69]. A sua resposta é clara: houve uma falta de liderança, bem como uma falta de conhecimento das questões monetárias. Desde 1914 até à sua morte em 1928, Benjamin Strong, o Governador do Federal Reserve Bank de Nova Iorque, foi o líder indiscutível do Sistema. Nova Iorque era não só o mercado financeiro mais importante do país, mas também o único mercado internacional dos EUA. Os países estrangeiros viam Strong como o banqueiro central dos Estados Unidos e ele desempenhou esse papel. Era o homólogo e concorrente dos presidentes dos grandes bancos centrais da Grã-Bretanha, França e Alemanha, Montagu Norman, Emile Moreau e Hjalmar Schacht. Assim, o Banco da Reserva Federal de Nova Iorque foi o único Banco da Reserva com uma perspetiva nacional e internacional, através do qual alcançou uma “profunda consciência das relações monetárias e um sensível reconhecimento dos efeitos das ações monetárias…Essas qualidades estavam claramente ausentes na maioria das outras Bancos da Reserva…ou no Conselho da Reserva Federal [70]“.

Após a morte de Strong, os outros Bancos da Reserva e o Conselho de Administração recusaram-se a aceitar por mais tempo o papel de liderança do Banco da Reserva Federal de Nova Iorque. Em 1930, isto resultou numa mudança de poder no seio do Sistema da Reserva Federal. As decisões sobre transações de mercado aberto passaram do Comité de Investimento de Mercado Aberto (OMIC), um comité de cinco governadores de Bancos da Reserva presidido e dominado pelo governador do Banco da Reserva Federal de Nova Iorque, para a Conferência de Política de Mercado Aberto (OMPC), da qual todos os doze governadores dos Bancos da Reserva eram membros. O OMIC continuou como um comité rebaixado que administrava e executava as decisões do OMPC. Contudo, embora todos os governadores tenham participado nas discussões no OMPC, não se comprometeram a executar as transações de mercado aberto que o OPMC recomendou [71].

De acordo com Friedman e Schwarz, para tomar ações decisivas numa tal estrutura de comité, exigia-se uma personalidade forte e dominadora, como Strong tinha. O sucessor de Strong, George Harrison, era um homem com uma personalidade diferente. O Conselho da Reserva não podia apresentar a liderança necessária porque apenas tinha desempenhado o papel de supervisor e revisor nos anos anteriores a 1929. Os outros governadores dos Bancos da Reserva não possuíam os conhecimentos monetários necessários. Além disso, estavam ocupados com os seus interesses regionais. Esta falta de liderança decisiva aconteceu num clima intelectual particular, em que a opinião dominante era a de que a depressão era uma correção desejável e necessária na economia.

Para Friedman e Schwartz a descoberta mais surpreendente foi a influência esmagadora de pessoas que estiveram presentes na criação do Sistema da Reserva Federal, tais como H. Parker Willis [72]. A opinião geral dos fundadores era que o Sistema tinha resolvido o problema da liquidez [73]. A ideia era que uma operação de resgate como a da Knickerbocker Trust Company, em 1907, já não era necessária. É por isso que, como Friedman e Schwartz argumentam, o “Knickerbocker de 1930,” – o Banco dos Estados Unidos – faliu. Foi por isso que a Reserva Federal reagiu tão passivamente às crises bancárias de 1930, 1931 e finalmente de 1933, quando o sistema entrou em colapso e se seguiu um feriado bancário sem precedentes de seis ou mais dias, durante os quais todos os bancos restringiram as suas atividades de uma forma nunca vista. A opinião predominante era que uma falência bancária era um problema de gestão bancária, e não uma preocupação para o Sistema. Contudo, o Banco da Reserva Federal de Nova Iorque, sabendo o que significava a falência de um banco, o que qualquer outro banco da Reserva Federal não sabia, ainda assim não conseguiu persuadir os outros Bancos ou Conselho da Reserva Federal dos seus pontos de vista [74].

Tal como Friedman e Schwartz, Meltzer dedica mais de 100 páginas para encontrar uma resposta à questão “Porque é que a Política Monetária falhou nos anos trinta [75]? Ele concorda com a opinião consensual de que a profundidade e a duração da Depressão foi o resultado de ações ou inações monetárias. Por vezes, Metzler analisa criticamente as interpretações de outros historiadores e economistas, entre eles Milton Friedman, Elmus Wicker e Barry Eichengreen. Meltzer argumenta que “a principal razão para o fracasso da política monetária na depressão foi a dependência de um conjunto inadequado de crenças sobre excessos especulativos e a doutrina do colateral comercial (real bills doctrine) … incrustado no quadro de Riefler-Burgess, (que) dirigia a atenção para as taxas de juro de mercado a curto prazo e empréstimos bancários dos membros [76]“. Porque o Sistema da Reserva Federal acreditava em 1928-1929 que a utilização do crédito para especulação na bolsa de valores era um erro, foi tomada uma decisão errada de não interferir quando a moeda e o crédito se contraíram e a apareceu a deflação [77].

Como Meltzer explica, na década de 1920, duas conceções políticas guiaram as ações do Sistema da Reserva Federal. A primeira – a doutrina dos bilhetes verdadeiros ou do colateral comercial- foi uma das pedras angulares da Lei da Reserva Federal de 1913. A segunda foi a doutrina pós-Primeira Guerra Mundial, a que Meltzer chama a doutrina de Riefler-Burgess, tendo como seus autores, Winfield Riefler, um economista no Conselho da Reserva, e W. Randolph Burgess da Reserva de Nova Iorque. Substituiu o padrão de ouro como princípio orientador da economia. Embora fosse uma pedra angular da Lei da Reserva Federal de 1913, o Sistema abandonou-a porque tão poucos países mantinham a sua adesão ao padrão-ouro. Ambas as doutrinas visavam prevenir a inflação, adaptando a moeda e o crédito às mudanças na produção. A doutrina do colateral comercial (doutrina dos bilhetes reais) significava que os bancos só deveriam criar crédito e dinheiro contra papel comercial de curto prazo – colateral comercial  – ou seja, notas resultantes de transações que têm a ver com bens e serviços reais. Se os bancos fornecessem fundos apenas para financiar transações de bens e serviços reais e não para transações especulativas de stocks ou hipotecas, o fornecimento de moeda variaria automaticamente com a produção e comércio de bens e serviços. De acordo com a doutrina de Riefler-Burgess, contudo, eram possíveis variações de curto prazo entre o stock de moeda e a produção. O instrumento para lidar com isso foi a política de mercado aberto, desenvolvida em 1922.

Para os economistas modernos é surpreendente que o Sistema não fizesse distinção entre taxas de juro nominais e reais [78]. Meltzer chama a isto um dos seus maiores erros. E isto foi assim porque a doutrina do colateral comercial negou o papel da moeda como tal e, por definição, negou que a inflação ou deflação pudesse existir. Não admira, Irving Fischer, que tinha explicado a relação crucial entre as duas taxas, era considerado “um brilhante mas irritante excêntrico ” para os partidários da teoria do colateral comercial [79]. Quando o Sistema da Reserva Federal baixou a taxa de desconto após 1929, começando em Nova Iorque de 6% no Outono de 1929 para 1,5% dois anos mais tarde, os outros Bancos da Reserva seguiram-no de forma limitada. O Sistema da Reserva Federal pensou realmente que poderia estimular a economia através da facilidade de criar moeda mas não reconheceu, contudo, os efeitos da deflação, que agiu para manter as taxas de juro reais elevadas. Só em combinação com um aumento da oferta de dinheiro, uma taxa de desconto mais baixa teria ajudado. As taxas de juro reais eram historicamente elevadas depois de 1930. Estas subiram de 5% em dezembro de 1929 para 10% em Dezembro de 1931 e até 15% em Dezembro de 1932 [80].

Meltzer conclui que a adesão à doutrina do colateral comercial (real bills doctrine) e à doutrina Riefler-Burgess, e ignorando a diferença entre juros nominais e reais, levou o Conselho da Reserva Federal e os Governadores dos Bancos da Reserva a uma situação em “que a queda do volume monetário mais do que compensou o efeito expansivo da queda dos preços nos balanços reais. Se a Reserva Federal tivesse impedido o declínio da moeda, a queda dos preços teria … estimulado as despesas, e limitado ou acabado com o declínio [81]“.

Escrevendo no início da década de 1950 sobre o grande colapso do mercado bolsista de Outubro de 1929, John Kenneth Galbraith dedica o último capítulo do seu livro The Great Crash 1929 à Grande Depressão que se seguiu ao colapso. Sobre a causa do próprio colapso, Galbraith é categórico. Foi a especulação, tornada possível através do pedido de margem na especulação ou da compra de ações principalmente com dinheiro emprestado. O Sistema da Reserva Federal não estava disposto a refrear esta especulação. “A Reserva Federal estava indefesa porque o quis estar”. Não “pediu ao Congresso autoridade … para estabelecer requisitos de margem [82]“. Mostrou uma “timidez sem precedentes e aceitou a incompetência”, como ele escreve num livro posterior, A Short History of Financial Euphoria.[83]

De acordo com Galbraith, havia “cinco causas plausíveis” do porquê de uma recessão aparentemente normal que começou como uma recessão familiar de inventários alguns meses antes do colapso de Wall Street se transformar numa depressão profunda, que durou anos [84]. A primeira foi a distribuição de rendimentos. Uns meros 5% da população recebia um terço de todos os rendimentos pessoais, tornando as despesas e investimentos (também) dependentes de uma parte (demasiado) pequena e próspera da população. Depois, havia a má estrutura empresarial, ou seja, as holdings e as sociedades fiduciárias, que apresentavam o perigo de “alavancagem invertida”. As holdings pagavam os seus empréstimos com os lucros das suas empresas holding. Quando não havia lucros, as sociedades holding simplesmente não pagavam os seus empréstimos e entravam em incumprimento. A terceira causa foi a fraca estrutura bancária com os seus milhares de pequenos bancos independentes. Como quarta causa, Galbraith menciona a balança comercial. Após a Primeira Guerra Mundial, os Estados Unidos passaram de devedor a credor. Não aceitando as consequências dessa posição, os Estados Unidos recusaram-se a permitir que os países que dele tinham recebido empréstimos reembolsassem a dívida com as exportações de bens e serviços para os Estados Unidos. Pelo contrário, o Presidente Hoover aumentou as tarifas [85].

A última causa da Depressão, segundo Galbraith, foi o “mau estado da inteligência económica”. Com isto, ele quis dizer que aqueles que aconselhavam os decisores políticos eram “excecionalmente perversos”, porque tudo o que diziam tornava as coisas piores. Naqueles tempos, os conselheiros económicos responsáveis promoveram sempre a recuperação através de um orçamento equilibrado que, segundo eles, daria confiança à comunidade empresarial. Enquanto decorria a “deflação mais violenta”, estes mesmos conselheiros, recordando a inflação da Primeira Guerra Mundial, temiam uma repetição porque os Estados Unidos tinham acumulado um grande stock de ouro na década de 1920. Um orçamento equilibrado e o medo da inflação tornaram impossível a realização de medidas como a redução da taxa de juro ou a flexibilização da contração de empréstimos. A desvalorização do dólar era também tabu. Até 1933, ambos os partidos políticos partilhavam estes pontos de vista. Para Galbraith, esta harmonia dos partidos era um feito notável dos conselheiros económicos. Eles “tinham tanto a unanimidade como a autoridade para forçar os líderes de ambos os partidos a recusar todos os passos disponíveis para combater a deflação e a depressão… para deixar que triunfe o dogma sobre o pensamento [86]“. Especificamente, nos Bancos da Reserva Federal, o medo da inflação era elevado. Muito lentamente, o Sistema, liderado pelo Banco da Reserva Federal de Nova Iorque, baixou a taxa de desconto. Até 1932, evitou o caminho mais óbvio, argumenta Galbraith: inundar os bancos com fundos comprando títulos do governo [87].

Em The Great Crash 1929, Galbraith não é claro se ele vê o colapso em si como uma causa importante. “Entre os problemas na avaliação das causas da depressão (nenhum problema) é mais intratável do que a responsabilidade (da) queda da bolsa de valores [88]“. Quarenta anos mais tarde, porém, em Financial Euphoria, ele apresenta uma posição mais clara. “O colapso de 1929 marcou o início dos anos sombrios da Grande Depressão, pelos quais, o colapso da bolsa de valores deve, com razão, ser considerado claramente responsável”. Galbraith defende que, devido ao colapso, a procura de bens enfraqueceu e o mundo empresarial perdeu a confiança. O colapso “quebrou uma estrutura económica frágil”. A procura de “fatores mais profundos, incluindo uma Política da Reserva Federal insuficientemente flexível … é uma evasão que ronda o absurdo [89]“. Aparentemente, ao agir de forma incompetente para evitar o colapso em Wall Street, o Sistema da Reserva Federal foi mais culpado pelas suas políticas antes de outubro de 1929 do que pelas suas políticas durante os anos da Depressão. Em 1990, no mesmo ano em que Galbraith publicou as suas novas posições, Christina Romer deu apoio à visão atualizada de Galbraith. Com base em provas estatísticas, ela argumentou que havia uma forte ligação entre o Colapso de 1929 e a Depressão. A sua opinião é que os clientes retardaram as suas compras em bens, porque estavam incertos quanto aos seus rendimentos futuros [90].

De acordo com Herbert Stein, quando Franklin D. Roosevelt se tornou presidente, aconteceu uma verdadeira revolução orçamental. No seu livro The Fiscal Revolution in America, Stein começa a sua discussão sobre esta revolução com um capítulo que ele apropriadamente chama “Pre-revolutionary Fiscal Policy: The regime of Herbert Hoover.” Ele explica de forma positiva, como o Presidente Hoover confrontou a Depressão “com um pacote de atitudes e ideias, que ainda hoje soam modernas [91]“.

Stein admite que, em última análise, Hoover falhou. Contudo, isso não aconteceu porque ele se tenha “vergado ao laissez faire e ao equilíbrio orçamental”. Stein escreve que Hoover acreditava que a era do laissez faire já tinha passado há muito, que as depressões não eram Actos de Deus, e que a economia precisava da “aplicação social deliberada do conhecimento”. Hoover não concordava que as depressões fossem naturais e inevitáveis para purgar o sistema, um ponto de vista que ele chamava “o liquidacionismo do laissez faire “, e que era defendido por Andrew Mellon, o seu Secretário do Tesouro [92]. Hoover via o desemprego como “a sua cruz pessoal” e pensava que as suas medidas iriam proporcionar emprego. Ele não se opôs a gastar dinheiro em obras públicas para reduzir o desemprego. Um dos seus primeiros atos em 1929 foi exigir aos empregadores que não baixassem as taxas salariais. Viu-se a si próprio como pertencendo à escola do “Fazer Algo [93] “.

No entanto, para Hoover isto não significava que o governo deveria ter “um papel como gestor da economia”. Em vez disso, tentou gerir a economia “falando com todas as forças vitais”. Hoover tentou que todos os elementos da sociedade, governos federais, estaduais e locais, empresas e indivíduos cooperassem para alcançar os objetivos da sociedade. O papel do Presidente era o de apontar o caminho. Hoover trabalhou incansavelmente para este objetivo, convocando conferências, aconselhando todos os sectores da sociedade, e criando organizações para a cooperação. Em Março de 1929, a cooperação voluntária foi um dos temas da Hoover no seu discurso inaugural. No mês seguinte, ele propôs a criação de uma organização de agricultores, o Conselho Federal de Agricultura, mas não ofereceu qualquer apoio governamental [94].

Stein argumenta que Hoover também aceitou o princípio de que um orçamento deve estar em equilíbrio. Hoover sabia, contudo, que tal conceito era elástico. Hoover não pensava que um orçamento tivesse de estar em equilíbrio ano após ano. As despesas com a redução da dívida podiam ser incluídas ou excluídas. Por mais elástico que o conceito fosse, Hoover também acreditava claramente que um orçamento equilibrado era necessário para a recuperação. Um orçamento equilibrado garantiria a disponibilidade de crédito aos mutuários das empresas, e estimularia as despesas com investimentos [95]. Este pensamento expandiu-se em 1931 na Reconstruction Finance Company.

No Outono de 1931, o Presidente Hoover fez exatamente o oposto do que o Presidente Kennedy faria na mesma situação cerca de 30 anos mais tarde. Hoover aumentou os impostos. Kennedy baixou-os. Para Stein, a decisão do Presidente Kennedy caracteriza a revolução orçamental sobre a qual escreve e, nesta revolução, devem-se diminuir os impostos quando o desemprego é elevado e os défices orçamentais ameaçam. Stein perdoa a Hoover a sua “loucura desesperada”, uma vez que Hoover estava a agir numa situação em que as taxas de juro estavam a subir, os preços das obrigações a descer, as falências bancárias a aumentar e o ouro a sair porque a Grã-Bretanha tinha deixado o padrão de ouro em Setembro de 1931. Hoover estava “do lado da expansão monetária”. Para aumentar a oferta monetária, precisava da cooperação do Sistema da Reserva Federal. O Sistema recusou essa cooperação. Hoover sentiu-se impotente contra o Sistema da Reserva Federal, que tinha “uma efetiva independência face ao governo”. O governo “não podia obrigar à cooperação [96]“.

Apanhado entre a dureza de um Sistema de Reserva Federal não cooperante e o lugar difícil da sua crença num orçamento equilibrado, Hoover pensou que tinha de aumentar os impostos para fazer o que o Sistema da Reserva Federal deveria ter feito. Assim, não é de admirar que Stein concorde fortemente com Friedman e Schwartz que a contração monetária não era inevitável e que, por isso mesmo, o Sistema da Reserva Federal é o culpado pelo fracasso de Hoover em recuperar ou aliviar a espiral económica descendente.

Eccles obteve claramente o apoio de economistas e historiadores de renome às suas críticas ao Sistema da Reserva Federal. Apesar de diferirem em quase todas as questões económicas, o monetarista Friedman e o Keynesiano Galbraith concordam em culpar o Sistema da Reserva Federal. Eles diferem largamente sobre as razões pelas quais o Sistema da Reserva falhou. Tal como Eccles, Galbraith vê o subconsumo como a raiz dos problemas. Tal como Eccles, Friedman e Schwartz apontam para o fracasso da estrutura do Sistema. Para Eccles, o Sistema ignorou o interesse público e serviu principalmente interesses privados. O centro desses interesses privados era Nova Iorque e o Banco da Reserva Federal de Nova Iorque dominava o Sistema. Para Friedman e Schwartz “Nova Iorque” era um grande problema, mas visto a partir de outra direção. O Banco da Reserva Federal de Nova Iorque tinha perdido a sua posição dominante e por causa disso, o Sistema tomou as decisões erradas e não deu continuidade às políticas bem sucedidas dos anos 20, não conseguindo assim evitar uma contração da oferta de moeda.

Para Meltzer, a adesão aos princípios errados desempenhou um papel fundamental no fracasso do Sistema após 1929. Naturalmente, Meltzer também apontou para o domínio e a posição de liderança do Banco da Reserva Federal de Nova Iorque. Também descreveu os desacordos entre os Bancos da Reserva e o Conselho de Administração em Washington. Aparentemente, porém, Meltzer não considerou que o “equilíbrio de poder” entre os Bancos da Reserva, especificamente o domínio do Banco de Nova Iorque, fosse um fator relevante no fracasso do Sistema. Para ele, os verdadeiros vilões eram os princípios errados. Friedman e Schwartz, como verdadeiros monetaristas, concordam inteiramente que os princípios estavam errados. Na opinião destes autores, a doutrina do colateral comercial [real bills doctrine] significava que a oferta de moeda se adaptava automaticamente ao volume de comércio e, por conseguinte, não estava sob o controlo das autoridades monetárias. Por esta razão, o Sistema não prestou qualquer atenção ao volume da massa monetária na década de 1920 [97].

Concordando com Friedman e Schwartz sobre o fracasso do Sistema, Stein, tal como Eccles e Galbraith, salienta que os esforços do Presidente Hoover para resolver a crise foram limitados pelo quadro da ortodoxia económica de um orçamento equilibrado. Uma vez que o Sistema recusou a expansão monetária, Hoover foi vítima da inação da Reserva Federal, e não teve outra opção que não fosse aumentar os impostos [98].

Pequenas diferenças de opinião à parte, o consenso foi que o Sistema da Reserva Federal falhou após o colapso de Wall Street. Eccles, Galbraith, Friedman, Schwartz, Stein e Meltzer concordariam certamente com a conclusão amarga a que o Presidente Herbert Hoover chegou no seu balanço sobre as suas políticas durante os Anos de Depressão de 1929-1933: o Conselho da Reserva Federal era “uma base de apoio muito fraca para uma nação se poder apoiar em tempos de dificuldades” [99]. Fortificar e fortalecer essa base de apoio começou a ser feita em 1934, quando Eccles se tornou Governador do Sistema da Reserva Federal.

(continua)

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Notas

[44] Ibid., 154-155.

[45] Eccles e Hyman, Beckoning Frontiers, 166.

[46] Hyman, Marriner S. Eccles, 153.

[47]  Eccles, “Banking as related to Economic Conditions,” 5.

[48] Ibid., 10.

[49] Marriner S. Eccles, “Reconstructing Economic Thinking.” (October 27 1933) Papers. University of Utah, Salt Lake City, Utah.

[50] Eccles e Hyman, Beckoning Frontiers, 166.

[51] Eccles e Hyman, Beckoning Frontiers, 170.

[52] Ibid., 167-171.

[53] Eccles acrescentou que se referia aqui aos débitos bancários, que poderiam ser o resultado de pagamentos em cheque, saques garantidos ou um levantamento de fundos de uma conta. Trata-se de uma medida da atividade económica. A descrição de Eccles da velocidade do dinheiro tem uma forte semelhança com a V na fórmula clássica de Irving Fisher MV=PT, na qual M = quantidade de moeda e depósitos, P = nível geral de preços e T = volume de transações comerciais. A moeda e os depósitos poderiam ter a sua própria velocidade. A fórmula então é M1V1+M2V2=PT, na qual M1 e M2 = quantidade de moeda, resp. quantidade de depósitos à ordem e V1 e V2 velocidades de respetivamente. moeda e de depósitos à ordem.

[54] Marriner S. Eccles, “Statement of M. S. Eccles, President First Security Corporation, Ogden, Utah.” (February 23 1933) Papers. University of Utah, Salt Lake City, Utah, 710-712.

[55] May, From New Deal to New Economics, 46

[56] Eccles e Hyman, Beckoning Frontiers, 37.

[57] Hyman, Marriner S. Eccles, 7.

[58] May, From New Deal to New Economics, 44.

[59] Eccles e Hyman, Beckoning Frontiers, 37.

[60] Roger J. Sandilands, “The New Deal and ‘Domesticated Keynesianism’ in America.” In Economist with a Public Purpose: Essays in Honour of John Kenneth Galbraith (London: Routledge, 2001), 261-262.

[61] Lauchlin Currie, “The Failure of Monetary Policy to Prevent the Depression of 1929-1932.” Journal of Political Economy 42-2 (1934), 145.

[62] Currie, “The Failure of Monetary Policy, 170.

[63] Ibid., 176-177.

[64] Sandilands, “The New Deal and ‘Domesticated Keynesianism’, 13; Hyman, Marriner S. Eccles, 155.

[65] Milton Friedman e  Anna J. Schwartz, A Monetary History of the United States 1867-1960 (Princeton: Princeton University Press, 1971), 299-419.

[66] Friedman and Schwartz, A Monetary History, 407.

[67] Ibid., 299.

[68] Ibid., 411.

[69] Ibid., 391.

[70] Ibid., 374.

[71] Friedman e Schwartz, A Monetary History, 368.

[72] H. Parker Willis foi um dos redatores da Lei da Reserva Federal de 1913 e um antigo secretário do Conselho da Reserva Federal. Ele era altamente crítico das operações de mercado aberto e das políticas de Benjamin Strong. Meltzer, a History of the Federal Reserve, notes on 70- 71, 171-172.

[73] Friedman e Schwartz, A Monetary History, 411. Friedman and Schwartz referem-se aqui ao papel do Banco Central do Sistema como emprestador de último recurso, que é fornecer fundos suficientes aos bancos para converter depósitos à ordem em moeda a qualquer momento quando os depositantes quiserem levantar os seus depósitos.

[74] Friedman and Schwartz, A Monetary History, 311, 358.

[75] Meltzer, a History of the Federal Reserve, 269-414.

[76] Ibid., 282.

[77] Ibid., 277.

[78] A taxa de juro real é a taxa de juro nominal ajustada à inflação ou à deflação. Para a enquadrar de outra forma, a hipótese é que a taxa de juro nominal inclui uma compensação pela inflação ou deflação. A parte restante da taxa nominal é a taxa “real” para disponibilizar uma quantia de dinheiro, por exemplo, uma poupança, ou custos quando alguém toma o dinheiro emprestado. É por isso que essa parte restante é chamada de juros reais. Assim, se a taxa nominal for 4% e a inflação for 3%, os juros reais são (quase) 1%. A fórmula para calcular os juros reais é 1,04/103= 1,0097. O juro real também é (quase) 1% se a taxa nominal for 15% e a inflação 14%, ou mais exatamente 1,15/1,14=1,0088. Este foi o caso por volta de 1980. Quando a taxa nominal é 6% e a taxa de deflação 3%, então a taxa de juro real é cerca de 9%, exatamente 1.06/.97 = 1.0927 É também (mais de) 9% quando a taxa nominal é 1% e a deflação 8% ou exatamente 1.01/.92 = 1.0978. Esta foi a situação durante a Depressão.

[79] Meltzer, a History of the Federal Reserve, 53.

[80] Ibid., 412.

[81] Meltzer, a History of the Federal Reserve, 412

[82] John Kenneth Galbraith, The Great Crash 1929 (London, Penguin Books, 1992), 58.

[83] John Kenneth Galbraith, A Short History of Financial Euphoria (New York, Penguin Books, 1994). 75. 84 Galbraith, The Great Crash, 192.

[84] Galbraith, The Great Crash, 192.

[85] Ibid., 194-200.

[86] Galbraith, The Great Crash, 200-202.

[87] Galbraith, Money, Whence it Came, 196-197.

[88] Ibid., 186.

[89] Galbraith, A Short History of Financial Euphoria, 88-89.

[90] Christina D. Romer, “The Great Crash and the Onset of the Great Depression.” The Quarterly Journal of Economics 105 (1990), 598.

[91] Herbert Stein, The Fiscal Revolution in America, Chicago (Chicago University Press, 1969), 12. By “Today” Stein refere-se a 1969, a data em que publicou o seu livro.

[92] A mais famosa expressão de Mellon do liquidacionismo foi de que este era: ”liquidar o trabalho , liquidar os  stocks, liquidar os agricultores, liquidar o setor imobiliário.”

[93] Stein, The Fiscal Revolution, 6-8.

[94] Stein, The Fiscal Revolution, 12-14.

[95] Ibid., 28-31.

[96] Ibid., 3, 34, 35, 13, 15.

[97] Eccles e Hyman, Beckoning Frontiers, 370, 371.

[98] Meltzer, a History of the Federal Reserve, 441.

[99] Herbert Hoover, The Memoirs of Herbert Hoover, The Great Depression 1929-1941, (New York: McMillan, 1952) 212; Friedman and Schwartz, A Monetary History, 328; Meltzer, a History of the Federal Reserve, 413.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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