MARRINER ECCLES, um homem muito à frente do seu tempo (anos 30) e do nosso também – 1. Alguns textos sobre Marriner Eccles, sobre o espírito de 33 e sobre os homens do New Deal: 1.17. Sobre a vida de Marriner Eccles e o seu legado macroeconómico duradouro (2/3).  Por Thorvald Grung Moe

A good many people believe Marriner Eccles is the only thing standing between the United States and disaster.” – TIME Magazine, 1936

Nota de editor:

Iniciámos no passado dia 1 de Fevereiro uma longa série – de mais de 50 textos – cuja última parte está ainda em preparação. Com o presente texto “Sobre a vida de Marriner Eccles e o seu legado macroeconómico duradouro, conclui-se a publicação do conjunto de 17 textos que compõem a 1ª parte 1. Alguns textos sobre Marriner Eccles, sobre o espírito de 33 e sobre os homens do New Deal”.

Esta série é, desde logo, o resultado do labor incansável e da mais elevada competência do seu autor, Júlio Marques Mota, e, como o próprio refere, é um trabalho que leva mais de um ano em preparação e “não foi um trabalho fácil porque, partindo do zero quase absoluto, tivemos de andar a deambular de texto em texto, aceitando uns, rejeitando outros, de referência bibliográfica em referência bibliográfica, cruzando textos e referências bibliográficas”.

É com grande satisfação e orgulho que publicamos na língua portuguesa estes textos em torno das ideias e ações de Marriner Eccles, o mais brilhante de todos os Presidentes do Conselho de Governadores do FED nas palavras de Michael Pettis (e que fazemos nossas). Como diz Júlio Mota, “Marriner Eccles é um dos maiores símbolos intelectuais da oposição fundamentada feita contra os teóricos criadores de catástrofes e os seus vassalos” e cujas ideias e ação, segundo a Time referia em 1936, “protegeram a América do abismo. Trata-se de ideias que na primeira metade do século XX ajudaram a fazer da América um grande país, e que vão contra as ideias destes falcões monetaristas (…) que querem fazer da Europa um insignificante continente”. E como conclui Júlio Mota os “… tempos de ontem, afinal, não diferem muito dos tempos de hoje, a lembrar a frase de Peter Kenen: o mundo mudou muito, mas os problemas são os mesmos. Os problemas são os mesmos e os políticos, pelo que se vê, são também os mesmos. É exatamente isto que confere uma extrema atualidade aos textos que iremos apresentar em torno da obra de Marriner Eccles.”

Em virtude da extensão do texto, apresentá-lo-emos em 3 partes. Publicamos hoje a 2ª parte.


Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

15 m de leitura

 

1. Alguns textos sobre Marriner Eccles, sobre o espírito de 33 e sobre os homens do New Deal

1.17. Sobre a vida de Marriner Eccles e o seu legado macroeconómico duradouro (2ª parte)

Marriner Eccles teve muitos pontos de vista pioneiros sobre as finanças públicas e a política monetária, e muitas das suas ideias ainda hoje são relevantes.

 

 Por Thorvald Grung Moe

Entrevista conduzida por David Beckworth do Mercatus Center

Publicado por de em 28 de Setembro de 2020 (Thorvald Grung Moe on the Life of Marriner Eccles and His Lasting Macroeconomic Legacy, ver aqui)

 

Pode ouvir a entrevista aqui,

 

(continuação)

 

Beckworth: Muito bem. Bem, passemos ao tema principal da nossa conversa de hoje e que é o seu trabalho sobre Marriner Eccles e o Tribunal Federal em 1951. E esse é um ótimo artigo, cheio de muitas histórias interessantes. Cobre o trabalho político de Eccles, tanto o seu trabalho inicial, antes de ele estar no Fed e depois no Fed. Mas estou curioso em saber como é que entrou neste tópico? O que o levou a querer olhar para Marriner Eccles?

 

O caminho para estudar Marriner Eccles

Grung Moe: Bem, sim. Não. Essa é uma boa pergunta porque absolutamente não era isso que eu pretendida. A minha intenção era escrever algo sobre Minsky.

Beckworth: A sério?

Grung Moe: E acabei por escrever sobre Eccles. Mas a história é assim. Comecei a escrever  sobre o sistema bancário paralelo e estruturas financeiras frágeis. E isso realmente levou-me a olhar de forma mais estreita para o sistema bancário como um problema. E então deparei-me com Henry Simons e Irving Fisher, como sabe. E houve aqui uma coincidência porque Minsky fez o seu trabalho de licenciatura em matemática em Chicago, na verdade. E aí mudou então para a Faculdade de Economia. E o corpo docente de economia da época era composto por economistas famosos, como Paul Douglas, Viner e Oskar Lange, mas também Frank Knight e Henry Simons. E Simons era na verdade um dos professores de Minsky. E ele admirava-o muito, embora eles tenham desenvolvido teorias bastante diferentes.

Grung Moe: E então, antes do artigo sobre Eccles, na verdade fiz outro artigo sobre a revisão do famoso artigo de Simons ‘Regras versus Autoridade’ que, como sabe, é uma espécie de referência fundamental para, juntamente com Kydland e Prescott, a discussão de consistência temporal e descobri aí que Simons realmente fez fortes referências à necessidade de controle das finanças antes que se pudesse ter um sistema monetário operacionalmente viável. Enfim, essa é uma história diferente. Mas, enquanto lia sobre Henry Simons, também me deparei com a discussão do grupo de Chicago sobre a necessidade de uma política orçamental ativa no início dos anos 30. E isso foi interessante porque foi na época em que Keynes realmente defendeu as operações de mercado aberto enquanto visitava Chicago. Mas aquele grupo de Chicago havia escrito em 33 e 34 textos em que, na verdade, defendiam uma política orçamental ativa para sair da depressão.

Grung Moe: E é aí, através desses trabalhos, que tropecei em Eccles porque havia neles referências à sua declaração no Congresso em 33, que achei uma declaração fabulosa. Voltaremos a ela . E então comecei a ler sobre ele. E, a facilitar o interesse nele, temos hoje os arquivos do Fed de St. Louis. Portanto, é uma maneira fácil de entrar nas actas do FOMC e em tudo mais. E isso abriu-me um caminho que realmente achei muito interessante. Além disso, estava intimamente relacionado com a discussão crítica da época sobre a necessidade de uma política orçamental mais ativa. Quer dizer, o meu amigo deve-se lembrar que após a crise que rebentou em 2008 houve um impulso para uma política orçamental ativa que foi abortado porque todos pensaram que estávamos fora da crise. E acho que foi em 2011 e 2012 que as pessoas ou, desculpem, os países recuaram e focaram-se mais na política monetária. Portanto, em suma, quero dizer, esse foi o pano de fundo para começar a ler Eccles.

Grung Moe: Eccles é uma história fascinante e bastante especial. Tornou-se governador do Conselho da Reserva Federal sob a direção de FDR, Roosevelt. Mas ele não estava destinado a isso de modo nenhum. O seu pai era um escocês muito, muito pobre que veio para os EUA com uma bolsa mórmon. Foram enviados para Utah onde ele começou a trabalhar com madeira e onde construiu uma fortuna durante a sua vida. Morreu quando Marriner tinha 22 anos. Marriner assumiu parte do negócio, mas acabou por assumir a maior parte do seu negócio e tornou-se um empresário muito proeminente nessa atividade. E durante os primeiros dias da depressão, ele tornou-se famoso por ter salvo o seu império bancário, ou conglomerado bancário, um dos poucos que realmente sobreviveram na região Oeste. E assim foram os seus antecedentes.

Beckworth: Tenho uma pergunta a fazer sobre isso.

Grung Moe: Sim. Claro.

Beckworth: Então ele era o mais velho de todos na família, de nove irmãos. Ele veio de uma família mórmon, por isso havia várias esposas envolvidas.

Grung Moe: Exatamente.

Beckworth: Havia nove dos seus irmãos da sua mãe, depois teve outros 12 meios-irmãos de outra esposa do pai. Mas ele era o mais velho, por isso assumiu o negócio, não é verdade? Porque ele era o mais velho de todos os filhos.

Grung Moe: Ele só assumiu, penso eu, dois ou três sétimos da herança do pai. Assumiu uma parte menor. Mas o seu instinto comercial era tão bom, tão bom que acabou por assumir o todo. Mas há algumas histórias numa das suas biografias sobre como ele foi determinado e agressivo nos seus primeiros dias. Ele comprou a Sego Milk Company e foi aí que começou o seu tipo de fortuna. E é uma história fascinante. É realmente um negociante muito ativo e um homem de negócios muito, muito esperto.

Beckworth: Sim. E mencionou que Eccles fundou a primeira holding bancária nos Estados Unidos. Então ele construiu o seu próprio pequeno império bancário na região Oeste. E os seus bancos sobreviveram de facto à Grande Depressão. Os seus bancos não fecharam. Mas isso é uma sequência interessante na sua própria introdução à reflexão sobre a Grande Depressão. Por isso, apresentou realmente uma leitura muito clara de como ele observou os seus clientes, as pessoas da sua comunidade, e todos eles estavam a lutar. E ele chegou assim a uma teoria de ciclos de negócios. E isso surpreendeu‑me. Porquê ele? Porque chegou ele a esta conclusão? Quero dizer, mais uma vez, ele observava a dor e o sofrimento à sua volta.

Beckworth: Pergunto-me, no entanto, se muitas pessoas na altura estavam a pensar sobre isto. Quer dizer, se se estava a viver a Grande Depressão, estamos a tentar compreender porquê, porquê toda esta dor e sofrimento. Imagino outros. Mas ele, ao contrário de outros, formulou uma ideia. E provavelmente a parte mais fascinante deste seu artigo. Ele era como um keynesiano antes de haver Keynes, certo? Ele acreditava na política macro contracíclica antes de Keynes escrever o seu trabalho.

 

Eccles e a Política Monetária Contracíclica

Grung Moe: Sim. Isso é verdade. Mas como aludi ao falar de Henry Simons e da escola de Chicago, ele não operou no vácuo, embora não fosse um académico. E houve interrogações sobre se ele leu alguma coisa sobre essas declarações dos economistas de Chicago. Mas penso que há uma combinação de duas coisas. Uma é, ele tinha uma ética de trabalho muito forte e um sentimento moral muito forte. Ele era muito justo. E por isso penso que reagiu quando… E ele era muito ativo em instituições de caridade. Assim, durante a depressão e em Utah em particular, ele observou como as pessoas tentavam fazer o seu melhor. Mas simplesmente com isso não o conseguiram, simplesmente não era suficiente o que conseguiam fazer. E assim foi parte disso que gradualmente o levou a reconhecer que alguém mais tinha de resolver as coisas. E a sua resposta foi que esse alguém era o governo e este precisava de intervir.

Grung Moe: Em termos de análise, penso que há alguma indicação de que ele tinha lido alguns dos teóricos do subconsumo. Não me lembro dos nomes, mas estes eram panfletos que circularam no final dos anos 20 e início dos anos 30. E há indícios de que ele tinha lido alguns destes. Assim, ele estava a desenvolver as suas próprias opiniões sobre as políticas de combate à escassez do consumo privado, em termos de o Estado ter de compensar o défice de consumo privado. Mas de certa forma, quer dizer, hoje em dia, há muita discussão sobre a Teoria Monetária Moderna (TMM). Na verdade, diria que algumas das suas opiniões estão em antecipação de algumas dessas coisas TMM porque ele tinha claramente uma perspetiva global sobre como a economia funciona. Portanto, isso foi interessante.

Beckworth: Sim. O senhor mencionou-o, ele testemunhou perante o Congresso no início da década de 30. E uma das suas preocupações é que não gostava muito dos apelos de FDR a um orçamento equilibrado. E, na verdade, ele recuou, de facto, e o senhor mencionou que foi chamado de socialista por causa disso. Mas mais uma vez, se olharmos para o seu passado, ele era um tipo de homem muito, como mencionou, muito justo, cuidava de si próprio, trabalhava no duro, fazia as coisas bem feitas. E tudo se resolvia. E ele viu que isso não estava a acontecer no início dos anos 30. Por isso começamos a pensar de forma mais ampla e talvez ele tenha lido estes panfletos, como mencionou. Mas ele tinha uma visão de um ciclo económico, uma visão contracíclica da política macro para o ciclo económico.

Beckworth: E era interessante ouvi-lo apenas com as suas próprias palavras. Porque o cita, vou ler este excerto, em que ele mostra ter compreendido a falácia de se entender um orçamento governamental como um orçamento familiar. E vou citá-lo aqui a partir do seu texto. Ele diz: “Pedimos emprestado a nós próprios e quando pagamos os juros da nossa dívida, pagamos o capital a nós próprios, estamos a pagar a nós próprios”. E ele prossegue. E então você mostra como Eccles compreendeu que as finanças públicas são diferentes das finanças domésticas, o que deve ter sido muito original nessa altura. Será que outras pessoas lhe terão “soprado” esta afirmação ou será que ele era algo de único no seu género, argumentando deste modo no início dos anos 30?

 

A visão pioneira de Marriner Eccles sobre as Finanças Públicas

Grung Moe: Acho que ele era único. Embora, novamente, algumas dessas ideias circulassem pelos meios académicos, não creio que ele estivesse muito ciente disso. Mas não, ele era alguém de um grande carater. E eu diria que, quer dizer, o meu amigo poderia levanta a questão: porquê Eccles? Porquê Eccles hoje? Quer dizer, porque interessar-se agora por Eccles? Mas eu acho que reler Eccles é hoje tão inspirador para compreender a nossa situação atual, e enquanto que poderá preferir falar da situação do seu próprio país na situação de pandemia que está a viver e com o Congresso meio imobilizado e fortes discussões sobre medidas de apoio e outras coisas, deixe-me citar o que ele disse ao Congresso em 1933. E devo acrescentar que ele foi chamado como testemunha no final das audições e todos os outros 120, todos eles eram empresários proeminentes, todos eles a dizerem que precisamos de equilibrar o orçamento para criar um sentimento de negócios que seja bom para o investimento.

Grung Moe: E aí vem esse milionário ou bilionário da região Oeste e faz aquelas declarações! E a razão pela qual elas são muito interessantes é que elas podem e devem, na minha opinião, ser relevantes também para hoje. E eu apenas as listo muito rapidamente. Ele disse primeiro: “Forneça fundos amplos para todos os estados, para serem utilizados no apoio aos necessitados e desempregados.” Em segundo lugar, “Alocar fundos para obras públicas para estabelecer essas empresas e estados numa base liberal com baixas taxas de juro”. E depois ele tinha um plano para o problema dos preços e da produção agrícola que não é relevante hoje. O quarto ponto era: “Refinanciar hipotecas em maior escala e no longo prazo com taxas de juro baixas”. E, finalmente, e isso estava relacionado com a liquidação da dívida entre as guerras, “Um acordo permanente sobre o pagamento das dívidas soberanas em bases sólidas, sendo preferível o seu cancelamento.” Quer dizer, tudo isso é realmente algo que deveria ser aplicado hoje. na atual situação.

Beckworth: Muito radical para aquela época, certo? Era uma visão muito radical.

Grung Moe: Muito radical. E como pode imaginar e, mais uma vez, imagine que ele ainda estava no comando de seu império de negócios, deve-se dizer, quando fez estas declarações. E os seus acionistas não estavam absolutamente satisfeitos com as suas opiniões, obviamente. E, a propósito, Marriner Eccles era um republicano. Quer dizer, por filiação partidária, não um republicano ativo. E depois, finalmente, foi para Washington e obviamente havia pessoas em torno de FDR que ouviram falar dos seus pontos de vista, entenderam-nos, e o facto de ele ser um empresário proeminente tornava-o ainda mais interessante, porque não se tratava de um maluco vindo da região Oeste. Foi realmente, quero dizer … acho que ele era a pessoa mais rica da região Oeste das Montanhas Rochosas na época.

Beckworth: Então ele não era um académico enfiado numa torre de marfim e inventando uma qualquer teoria radical maluca. Ele era um capitalista. Ele era um capitalista, um mórmon, um conservador, um homem de fé e muito justo. E aqui está ele com essas ideias radicais para a altura, muito radicais mesmo.

Grung Moe: Mas ele era um capitalista com o coração certo e no lugar certo.

Beckworth: Sim. Coração no lugar certo. Sim. Então, apenas para reiterar, ele chegou à conclusão de que há lugar para uma política macroeconómica contra cíclica. E o senhor mencionou que ele tinha um termo, uma frase, ele disse: “O governo precisa de fornecer uma força compensadora à economia”. Então, quero dizer, isto parece-se muito provavelmente com uma visão moderna da política macroeconómica contra cíclica. E também mencionarei, embora ele tenha apelado e vamos falar sobre isso com outros detalhes mais tarde no programa, mas mesmo que ele tenha resistido aos apelos de FDR por um orçamento equilibrado, ele acabou por acreditar em equilibrar o ciclo comercial, é isso? Equilibrar o orçamento ao longo do ciclo de negócios. Então para ele não se tratava simplesmente de administrar défices orçamentais para sempre. Ele estava a dizer, olhe durante uma recessão, uma desaceleração, é isto que tem de ser feito.

Beckworth: Então, ele tinha uma visão matizada. E, finalmente, outra coisa que quero destacar antes de prosseguirmos a nossa conversa e falar da sua carreira em Washington DC, é a sua visão da Grande Depressão. Portanto, era uma visão sobre a procura agregada que era insuficiente. Mas ele tinha uma visão única ao ressaltar que esse colapso na procura agregada estava ligado à concessão excessiva do crédito, o que, por sua vez, estava ligado à desigualdade de rendimento. E quando qualquer um de nós lê isso, fica-se espantadíssimo, é como se esteja a ler uma versão dos anos de 1930 das ideias de Sufi e Mian expressas no livro Housing Debt sobre o colapso de 2008. Diremos assim, que o que ele nos diz assemelha-se e em muito ao que muitas pessoas estavam a dizer sobre o que estava a acontecer em 2008. O que, de novo, é interessante pois é ver alguém naquela época a dizer tudo isto a ressoar ao que aconteceu novamente na última crise.

Grung Moe: Mas, novamente, eu diria que isso é ainda mais relevante hoje do que em 2008, no sentido de que as disparidades e a distribuição de rendimento pioraram ainda mais. E [Eccles] colocou bem em realce a desigualdade na repartição. Lembre-se de novo, ele era muitíssimo rico. Ele estava, na verdade, a defender políticas que o poderiam prejudicar a si mesmo até porque defendia uma tributação forte e progressiva. E ele ressaltou que os rendimentos que são captados pelos ricos não geram consumo porque eles economizam muito. Então, isso quer dizer, não há procura agregada que surja desse lado de toda a maneira, tomando como referência o ponto de vista macro. Marriner Eccles foi claramente um homem muito progressista e isto pode e deve ser dito de modo claro, absoluto. E, novamente, tudo isto é hoje muito relevante.

Beckworth: Mais uma coisa sobre a sua vida pessoal antes de seguirmos em frente quanto à relação existente entre o vice-presidente da Reserva Federal, Randy Quarles, e Marriner Eccles.

Grung Moe: Eu sei.

Beckworth: Certo? Que a esposa de Randy é família dos Eccles. Não é verdade?

Grung Moe: A sua mulher é uma sobrinha-neta de Eccles. Ouvi dizer isso no outro dia.

Beckworth: Sim. Tão interessante. Ao chegar ao círculo completo, temos aqui um Eccles.

Grung Moe: Na verdade, posso acrescentar um ponto aqui?

Beckworth: Sim.

Grung Moe: Porque havia uma coisa que não era destacado no meu texto, que descobri agora ao relê-lo, é que Eccles defendia fortemente a banca unitária. Ele estava muito preocupado com a divisão de responsabilidade pela supervisão entre o OCC (Office of the Comptroller of the Currency-regulador e supervisor do sistema bancário) e a Federal Deposit Insurance Corporation e o FED. E tentou repetidamente fazer com que FDR lhe permitisse fazer algo com isto no Congresso. Mas FDR não queria levar a cabo mais uma espécie de batalha. Ele já tinha batalhas suficientes com que lidar. Mas isto está mais uma vez relacionado com a sua nova posição no FED onde é o vice-presidente para a supervisão, certo?

Beckworth: Isso é correto.

Grung Moe: Por isso, lembrei-me de…

Beckworth: Sim, eu sei. É interessante.

Grung Moe: … uma discussão interminável sobre a responsabilidade de supervisão nos EUA. Seja como for.

Beckworth: Portanto, o vice-presidente Quarles entra no legado do Mariner a muitos níveis. Ele está na Reserva Federal, está envolvido na regulação bancária e preocupado com questões semelhantes. Por isso, é fascinante ver esta ligação ali e como ela funciona na família. E, claro, o edifício da Reserva Federal recebe o nome de Edifício Eccles, em sua honra. É uma história muito fascinante como pano de fundo, mas passemos à sua verdadeira carreira em DC. Assim já mencionámos, ele veio e prestou testemunho como homem de negócios. E esse tipo de testemunho colocou-o no mapa. Mas diga-nos, como é que ele entrou no governo de FDR? O que o é que o levou para lá ? Que papel desempenhou ele? E como é que isso o levou a entrar na Reserva Federal?

 

A saída de Eccles do Governo para o FED

Grung Moe: Sim. Depois de apresentar o seu testemunho, ele foi para Nova Iorque e aí conheceu algumas das pessoas ligadas a FDR, nomeadamente Tugwell e alguns outros que eram próximos de FDR. E eles discutiram principalmente sem nenhum compromisso com coisa alguma, e voltou para Utah. Aí ouviu com consternação os contínuos sermões de FDR sobre o orçamento equilibrado, mas ele não podia fazer muito com isso. E então, finalmente, Marriner Eccles foi chamado para se voltar a encontrar com algumas das mesmas pessoas. Então voltou e teve algumas reuniões. E o que finalmente surgiu foi uma oferta para ingressar no Tesouro sob o comando de Morgenthau. E terá dito, bem, que não estava realmente preparado para desistir dos seus interesses comerciais. Regressou, resolveu as coisas com o seu irmão e assim por diante. E então foi nomeado assistente do Secretário do Tesouro em 1933. Não me lembro exatamente da data.

Grung Moe: E aí, inicialmente, foi convidado a fazer alguns trabalhos dispersos dentro do ministério, mas rapidamente ficou envolvido na redação da nova Lei de Habitação. E isso foi interessante do ponto de vista bancário porque foi uma via de abertura de um grande potencial para os bancos comerciais entrarem no negócio de hipotecas. E antes disso, havia apenas empréstimos de balão [1]. E então eis que, quero dizer … Na verdade, houve um assistente de Mariner Eccles chamado Lauchlin Currie, que inventou a hipoteca e permitiu que os bancos comerciais entrassem no negócio de hipotecas em larga escala.

Grung Moe: E enquanto trabalhava nisso, ele conheceu FDR em algumas ocasiões. E então, a certa altura, ele disse ter ouvido rumores de que estaria a ser considerado para o cargo vago de governador do conselho do Federal Reserve. E, por fim, Eccles encontrou-se com FDR, que lhe disse: “Bem, Marriner, está preparado para assumir o cargo?” E este recusou categoricamente e disse: “Eu não aceito, a menos que haja grandes reformas no sistema.” E FDR ficou intrigado e perguntou-lhe: “Bem, quais são as suas propostas?” E Marriner Eccles respondeu: “Dê-me alguns dias”. E depois voltou com uma proposta que acabou por dar origem à Lei Bancária de 1935, título II da Lei Bancária. E foi assim que ele acabou como Presidente da Reserva Federal.

Grung Moe: Devo acrescentar que, como sabe, o senador Glass foi o fundador original da lei da Reserva Federal em 1913 e na altura estava ainda no Senado. E houve dois incidentes infelizes que tornaram na altura a vida um tanto complicada  para Eccles. Um deles foi que FDR, ao indicá-lo para o cargo de governador, não informou Glass com antecedência e Glass ficou muito chateado com isso. Aí Glass terá dito que Eccles só iria assumir o cargo por cima do seu cadáver. E o segundo foi em termos da lei bancária de 1935 e da mudança de sua legislação de partida. Isso revelou-se um processo difícil porque, concretamente, apesar da promessa feita por Eccles de lhe mostrar previamente a proposta de lei, o projeto foi tornado público antes de qualquer deles ter conhecimento da proposta de lei ou do texto para publicação. E Glass ficou muitíssimo chateado.

Grung Moe: Portanto, foi uma luta difícil conseguir a sua aprovação no Congresso. Mas sobre a questão de fundo, quero dizer, o problema de Eccles na época era que o banco distrital da Reserva Federal estava realmente na mó de cima e o conselho não era realmente um órgão muito forte. E isso foi indicado por um dos governadores que realmente escolheu voltar para o seu banco regional em vez de ficar em Washington. Portanto, não tinha realmente muita influência na política monetária, se é que se pode chamar a isso de política monetária. Não, o controlo bancário não estava realmente centralizado. E assim, as principais mudanças que Eccles propôs consistiam em concentrar o poder nas mãos do Conselho. E, obviamente, mais uma vez, a isso resistiram os bancos regionais, bem como algo chamado Conselho ou Comité consultivo da Reserva Federal, que eram banqueiros privados das regiões que assessoravam o conselho.

Grung Moe: E eles disseram: “O senhor não pode fazer isso.” E Eccles apenas disse: “Isso, é o que vou fazer, gostem ou não.” E assim, acabámos por ter esse novo sistema, que se manteve atá aos nossos dias com as operações de mercado aberto a serem centralizadas no conselho de governadores e no comité de mercado aberto, com o poder para definir exigências de reservas obrigatórias em conjunto também com o conselho de governadores e as novas políticas de garantia que, por seu lado, desempenharam um papel muito importante no financiamento de uma parte do esforço de guerra em termos de se ter introduzido o Tesouro como nova garantia para operações monetárias.

Grung Moe: Então foi assim que ele foi parar ao FED. E, na verdade, havia um Conselho completamente novo estabelecido com novos candidatos. E tudo acabou por ser aprovado pelo Congresso. Mas, novamente, como vimos várias vezes, quero dizer, o estabelecimento da Reserva Federal em 1913, como você sabe, é o resultado de uma disputa acirrada entre diferentes fações e muitas lutas internas. E aqui, novamente, houve empate na votação para Eccles como governador, que finalmente se inclinou a seu favor e o título II da lei bancária também só foi aceite pelo Congresso após uma intervenção direta de FDR. Então, tudo isso fica sempre em equilíbrio.

 

(continua)


Nota

[1] N.T. Trata-se de empréstimos reembolsáveis numa única prestação de capital na data de vencimento.

 


O entrevistado: Thorvald Grung Moe é consultor especial no Norges Bank, o banco central da Noruega, onde trabalha desde 1985. Ocupou aí uma vasta gama de posições, cobrindo tópicos como controlo cambial, estabilidade financeira, política monetária, política de sistemas de pagamento, e planeamento estratégico. Anteriormente, foi director de departamento na ala de Estabilidade Financeira e representou o banco central no conselho da Autoridade de Supervisão Financeira da Noruega. Foi também observador no Comité das Autoridades Europeias de Supervisão Bancária. Antes de se juntar ao Norges Bank, Moe trabalhou no Banco Mundial e no Ministério das Finanças norueguês. Realizou numerosas consultas com o Fundo Monetário Internacional no Médio Oriente, América Latina, e Europa de Leste. Publicou livros e artigos sobre regulação bancária, bancos transfronteiriços e a crise financeira. A sua investigação recente centra-se na independência do banco central, nas políticas de concessão de empréstimos de última instância, nos bancos-sombra e na interface entre a estabilidade financeira e a política monetária.

O entrevistador:  David Beckworth, é investigador Sénior no Centro Mercatus da Universidade George Mason e um antigo economista internacional no Departamento do Tesouro dos EUA. É o autor de Boom and Bust Banking: As Causas e Curas da Grande Recessão. A sua pesquisa centra-se na política monetária, e o seu trabalho foi citado pelo Wall Street Journal, o Financial Times, o New York Times, a Bloomberg Businessweek, e o Economist. Aconselhou os funcionários do Congresso sobre política monetária e escreveu para Barron’s, Investor’s Business Daily, the New Republic, the Atlantic, e National Review. David é o autor do blog Macro Musings e é também anfitrião do podcast semanal Macro Musings.

 

 

 

 

 

Leave a Reply