CARTA DE BRAGA – “da Primavera e das cegonhas” por António Oliveira

O Ti Zé André, ali de um pequeno povoado, bem pequeno, à beira de um rio da região centro cá do Eucaliptal, não tinha relógio nem queria saber dele. Contava a passagem do tempo pelo cantar dos pássaros, das cotovias pela manhã e dos rouxinóis ao anoitecer. Também lhe serviam da guia as rolas, que gritavam ao aterrar e, depois, cantavam ‘co rru pto’ meia dúzia de vezes, para alguém se sentir ofendido, pois ‘era sinal que tinham atingido pelo menos um, e eles são muitos nestas terras’. 

Sabia da mudança das estações pelos insectos que o começavam a ‘chatear’ na altura deles e, tirando uma palmada com o boné, para os afastar, nem o ouvia usar o vernáculo, a não ser quando o correio lhe trazia mais uma conta para pagar e, ‘Vamos ter de pagar por cá andar em cima, até nos levaram lá para baixo!’ e despejava dois ou três palavrões, ‘para desafogar a alma, que isto está que não se pode!

Mas ali, a Primavera só começava, quando ele via chegar a cegonha, ‘Tá a ver aquela em cima daquele pau enorme que já nem folhas tem? Estou convencido que o pau só se aguenta, com aqueles dois ramos lá em cima para o ninho, por saber que ela vem quando chega a altura! Não sei se a companhia é a mesma dos outros anos; já ouvi dizer que elas não se divorciam nem se separam, como a gente, e que se mantêm juntos até uma delas cair para o lado’.

Esta é a tradução possível da linguagem que ele usava comigo e, ‘Qualquer dia elas não vão encontrar o pau alto, por causa dos eucaliptos! Nem sei onde isto irá parar!

Sempre que lá ia, tinha uma estória para mim e, naquele dia, por causa das cegonhas, contou-me uma ‘estória’, uma ‘lenda’ ou uma ‘narração’, sem data, por também já nem saber quem lha teria contado, mas que, pela sua originalidade, resolvi passar para aqui, com palavras minhas no lugar das dele, como já fiz atrás. 

Quando o Criador fez este mundo, para o homem mas também para os bichos todos, dos elefantes, às vacas, às cobras, às abelhas, aos mosquitos, mais aqueles que se escondem debaixo da terra, como os minhocas, as ratazanas, os lacraus e até que os andam dentro do homem e dos outros todos, como as lombrigas e sei lá que mais, ao ver aquela misturada toda, recolheu os mais ranhosos e entregou um saco com eles todos a um fulano em que ele confiava e mandou deitá-los ao mar, para se afogarem todos. Mas o tal fulano abriu o saco para ver o que lá estava dentro e a bicharada aproveitou para se raspar. 

Zangado, o Criador condenou-o a viver daquelas bichezas e transformou-o numa cegonha. Só que o tal fulano não se calava nem parava de refilar, e o Criador acabou por lhe tirar a língua! É por isso que as cegonhas têm aquele gralhar esquisito, só a bater o bico, mas até se conseguem entender entre elas! Mas são umas aves simpáticas, certinhas e, para mim o sinal mais claro de já ter vindo a Primavera! 

Mas não conte isto a ninguém, que ainda lhe vão chamar maluco, até por eu já nem saber onde a aprendi. Mas que é uma estória porreira, não tenha dúvida”.

E só por isso, volto ao princípio desta Carta, para citar o poeta António Machado, ‘O relógio é uma prova indirecta da crença do homem na sua mortalidade. Porque só um tempo finito pode ser medido. Isso parece óbvio. Nós, no entanto, ainda temos que nos perguntar por que o homem mede o pouco tempo de que dispõe. Porque sabemos que se pode medi-lo; mas por quê? Não se diga que o mede para o aproveitar e ordenar a atividade com que o preenche. Seria uma explicação utilitarista que nada explica para nós’.

De qualquer modo, tinha guardado há muito, duas frases de Jean-Paul Sarte que podem explicar bem melhor o que aqui quis contar. A primeira ‘Até o passado se pode modificar; os historiadores não param, de o demonstrar’ e a segunda é, penso eu, um óptimo final para uma Carta bem diferente ‘Um homem é sempre um contador de estórias. Ele vê tudo que lhe acontece através delas. E tenta viver a sua vida, como se estivesse a contar uma estória’. 

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

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