A Guerra na Ucrânia — Tornar o nazismo novamente grande. Por Pepe Escobar

Seleção e tradução de Francisco Tavares 

12 m de leitura

 

Tornar o nazismo novamente grande

 Por Pepe Escobar

Publicado por  em 24 março de 2022 (original aqui)

 

O alvo supremo é a mudança de regime na Rússia, a Ucrânia é apenas um peão no jogo – ou pior, mera carne para canhão.

 

 

Todos os olhos estão postos em Mariupol. A partir de quarta-feira à noite, mais de 70% das áreas residenciais estavam sob controlo das forças de Donetsk e russas, enquanto os fuzileiros russos, o 107º batalhão de Donetsk e o checheno Spetsnaz, liderado pelo carismático Adam Delimkhanov, tinham entrado na fábrica Azov-Stal – a sede do batalhão neonazi Azov.

A Azov foi enviado um último ultimato: rendição até à meia-noite – ou então, como numa auto-estrada do inferno, não se fazem prisioneiros.

Isto implica uma grande mudança de jogo no campo de batalha ucraniano; Mariupol está finalmente prestes a ser completamente desnazificada – uma vez que o contingente de Azov há muito entrincheirado na cidade e utilizando civis como escudos humanos foram a sua força de combate mais endurecida.

Entretanto, os ecos do Império das Mentiras quase desvendaram o jogo todo. Não há qualquer intenção em Washington de facilitar um plano de paz na Ucrânia – e isso explica as tácticas de empatar sem parar do Comediante Zelensky. O alvo supremo é a mudança de regime na Rússia, e para isso é necessário a Totalen Krieg – uma guerra total – contra a Rússia e todas as coisas russas. A Ucrânia é apenas um peão no jogo – ou pior, uma simples carne para canhão.

Isto também significa que as 14.000 mortes em Donbass nos últimos 8 anos devem ser diretamente atribuídas aos Excecionalistas. Quanto aos neo-nazis ucranianos de todo o tipo, eles são tão dispensáveis como os “rebeldes moderados” na Síria, sejam eles da Al-Qaeda ou ligados ao Daesh. Aqueles que podem eventualmente sobreviver podem sempre juntar-se ao Neo-Nazi Inc., o remix sórdido da década de 1980 da Jihad Inc. no Afeganistão. Eles serão devidamente “Kalibrated”.

 

Uma rápida recapitulação neonazi

Neste momento, apenas os cérebros mortos em toda a NATO – e há hordas – não têm conhecimento de Maidan em 2014. Contudo, poucos sabem que foi o então Ministro do Interior ucraniano Arsen Avakov, um antigo governador de Kharkov, que deu luz verde a um grupo de 12.000 paramilitares para se materializarem a partir dos hooligans de futebol da Sect 82 que apoiaram o Dynamo Kiev. Foi o nascimento do batalhão Azov, em Maio de 2014, liderado por Andriy Biletsky, também conhecido por Führer Branco, e antigo líder do bando neo-nazi Patriotas da Ucrânia.

Juntamente com o agente secreto da NATO Dmitro Yarosh, Biletsky fundou Pravy Sektor, financiado pelo padrinho da máfia ucraniana e bilionário judeu Ihor Kolomoysky (mais tarde o benfeitor da meta-conversão de Zelensky de comediante medíocre para presidente medíocre).

O Pravy Sektor era, por acaso, raivosamente anti-UE – digam isso a Ursula von der Leyen – e politicamente obcecado com a ligação da Europa Central e dos Países Bálticos num novo e vulgar Intermarium. Crucialmente, o Pravy Sektor e outros bandos nazis foram devidamente treinados por instrutores da NATO.

Biletsky e Yarosh são naturalmente discípulos do notório colaborador nazi Stepan Bandera da Segunda Guerra Mundial, para quem os ucranianos puros são proto-germânicos ou escandinavos, e os eslavos são untermenschen, ou seja um submundo.

Azov acabou por absorver quase todos os grupos neo-nazis na Ucrânia e foram enviados para lutar contra Donbass – com os seus acólitos a ganhar mais dinheiro do que os soldados regulares. Biletsky e outro líder neonazi, Oleh Petrenko, foram eleitos para a Rada. O Führer Branco ficou por sua conta. Petrenko decidiu apoiar o então Presidente Poroshenko. Rapidamente o batalhão Azov foi incorporado como o Regimento Azov na Guarda Nacional Ucraniana.

Depois, lançaram-se numa enorme atividade  de recrutamento de mercenários estrangeiros – com pessoas vindas da Europa Ocidental, Escandinávia e mesmo da América do Sul.

Isto estava rigorosamente proibido pelos Acordos de Minsk garantidos pela França e pela Alemanha (e agora de facto extintos). Azov criou campos de treino para adolescentes e em pouco tempo atingiu 10.000 membros. Erik “Blackwater” Prince, em 2020, fez um acordo com os militares ucranianos que permitiria à sua sociedade, rebatizada com o nome de Academi, supervisionar Azov.

Foi nada mais nada menos que a sinistra Victoria Nuland, a autora da frase “a Europa que se foda”, que sugeriu a Zelensky – ambos, a propósito, judeus ucranianos – que nomeasse o declaradamente nazi Yarosh como conselheiro do Comandante-em-Chefe das Forças Armadas Ucranianas, Gen Valerii Zaluzhnyi. O alvo: organizar uma guerra relâmpago sobre Donbass e a Crimeia – a mesma guerra relâmpago que a SVR, serviço de informação estrangeira russa, concluiu que seria lançada a 22 de Fevereiro, impulsionando assim o lançamento da Operação Z.

Tudo isto, na realidade apenas uma rápida recapitulação, mostra que na Ucrânia não há qualquer diferença entre os neonazis brancos e os castanhos al-Qaeda/ISIS/Daesh, tal como os neonazis são tão “cristãos” como os takfiri Salafi-jihadis são “muçulmanos”.

Quando Putin denunciou um “bando de neonazis” no poder em Kiev, o comediante respondeu que era impossível porque ele era judeu. Disparate. Zelensky e o seu patrono Kolomoysky, para todos os efeitos práticos, são zio-nazis.

Mesmo quando ramos do governo dos Estados Unidos admitiram que os neonazis estavam entrincheirados no aparelho de Kiev, a máquina Excepcionalista fez desaparecer os bombardeamentos diários sobre o Donbass durante 8 anos. Estes milhares de vítimas civis nunca existiram.

Os meios de comunicação social norte-americanos até se aventuraram a fazer uma peça ou reportagem estranha sobre Azov e os neonazis de Aidar. Mas depois uma narrativa neo-Orwelliana foi gravada em pedra: não há nazis na Ucrânia. A CIA começou mesmo a apagar registos sobre o treino de membros da Aidar. Recentemente, uma rede de notícias de merda promoveu devidamente um vídeo de um comandante Azov treinado e armado pela NATO – completo com iconografia nazi.

 

Porque é que a “desnazificação” faz sentido

A ideologia banderanista [N.T. referência ao pro-nazi Stepan Bandera] remonta a quando esta parte da Ucrânia era de facto controlada pelo império austro-húngaro, o império russo e a Polónia. Stepan Bandera nasceu na Austro-Hungria, em 1909, perto de Ivano-Frankovsk, no – então autónomo – Reino da Galiza.

A Primeira Guerra Mundial desmembrou impérios europeus em pequenas entidades frequentemente inviáveis. Na Ucrânia ocidental – um cruzamento imperial – isso inevitavelmente levou à proliferação de ideologias extremamente intolerantes.

Os ideólogos banderanistas lucraram com a chegada dos nazis em 1941 para tentarem proclamar um território independente. Mas Berlim não só o bloqueou como os enviou para campos de concentração. No entanto, em 1944 os nazis mudaram de tática: libertaram os banderanistas e manipularam-nos para o ódio anti-russo, criando assim uma força de desestabilização na URSS ucraniana.

Portanto, o nazismo não é exatamente o mesmo que os fanáticos de Bandera: são de facto ideologias concorrentes. O que aconteceu desde Maidan é que a CIA manteve um foco de laser em incitar ao ódio contra os russos por quaisquer grupos marginais que pudesse instrumentalizar. Portanto, a Ucrânia não é um caso de “nacionalismo branco” – para o dizer de forma suave – mas de nacionalismo ucraniano anti-russo, para todos os fins práticos manifestado através de saudações ao estilo nazi e símbolos ao estilo nazi.

Assim, quando Putin e a liderança russa se referem ao nazismo ucraniano, isso pode não ser 100% correto, conceptualmente, mas toca numa corda sensível em todos os russos.

Os russos rejeitam visceralmente o nazismo – considerando que praticamente todas as famílias russas têm pelo menos um antepassado morto durante a Grande Guerra Patriótica. Da perspetiva da psicologia da guerra, faz todo o sentido falar de “ukro-nazismo” ou, diretamente ao ponto, de uma campanha de “desnazificação”.

 

Como os Anglos [1] amavam os nazis

O governo dos Estados Unidos a liderarem abertamente os neo-nazis na Ucrânia dificilmente é uma novidade, considerando como apoiou Hitler ao lado da Inglaterra em 1933 por razões de equilíbrio de poder.

Em 1933, Roosevelt emprestou a Hitler um milhar de milhões de dólares de ouro, enquanto a Inglaterra lhe emprestou dois milhares de milhões de dólares de ouro. Isto deve ser multiplicado 200 vezes para se chegar aos dólares de hoje. Os anglo-americanos queriam construir a Alemanha como um baluarte contra a Rússia. Em 1941 Roosevelt escreveu a Hitler que se ele invadisse a Rússia, os EUA tomariam o partido da Rússia, e escreveu a Estaline que se Estaline invadisse a Alemanha, os EUA apoiariam a Alemanha. Fala-se de uma ilustração gráfica do equilíbrio de poder mackinderesco.

Os britânicos tinham ficado muito preocupados com a ascensão do poder russo sob Estaline, enquanto observavam que a Alemanha estava de joelhos com 50% de desemprego em 1933, se se contassem os alemães itinerantes não registados.

Até mesmo Lloyd George teve dúvidas sobre o Tratado de Versalhes, que enfraquecia insuportavelmente a Alemanha após a sua rendição na Primeira Guerra Mundial. O objetivo da Primeira Guerra Mundial, na visão do mundo de Lloyd George, era destruir tanto a Rússia como a Alemanha. A Alemanha estava a ameaçar a Inglaterra com o Kaiser a construir uma frota para controlar os mares enquanto o Czar estava demasiado perto da Índia para a Inglaterra se sentir confortável. Durante algum tempo, a Britânia ganhou – e continuou a dominar as ondas dos mares.

Depois o reforço da Alemanha para combater a Rússia tornou-se a prioridade número um – completado com a reescrita da História. A união dos alemães da Áustria e dos alemães dos Sudetas com a Alemanha, por exemplo, foi totalmente aprovada pelos britânicos.

Mas depois veio o problema polaco. Quando a Alemanha invadiu a Polónia, a França e a Grã-Bretanha ficaram à margem. Isso colocou a Alemanha na fronteira da Rússia, e a Alemanha e a Rússia dividiram a Polónia. Era exatamente isso que a Grã-Bretanha e a França queriam. A Grã-Bretanha e a França tinham prometido à Polónia que iriam invadir a Alemanha a partir do Ocidente, enquanto a Polónia lutava contra a Alemanha a partir do Oriente.

No final, os polacos foram traídos duas vezes. Churchill até elogiou a Rússia por ter invadido a Polónia. Hitler foi avisado pelo MI6 que Inglaterra e França não iriam invadir a Polónia – como parte do seu plano para uma guerra germano-russa. Hitler tinha sido apoiado financeiramente desde os anos 20 pelo MI6 pelas suas palavras favoráveis sobre a Inglaterra no Mein Kampf. O MI6 encorajou de facto Hitler a invadir a Rússia.

Avancemos rapidamente para 2022, e aqui encontramos de novo – como farsa, com os anglo-americanos a “encorajar” a Alemanha sob o fraco Scholz a voltar a juntar-se militarmente, com 100 mil milhões de euros (que os alemães não têm), e a criar em tese uma força europeia renovada para mais tarde ir para a guerra contra a Rússia.

Sinalização da histeria Russofóbica nos media anglo-americanos sobre a parceria estratégica Rússia-China. O medo mortífero anglo-americano é Mackinder/Mahan/Spykman/Kissinger/Brzezinski, todos enrolados numa só estratégia: Rússia-China, como gémeos concorrentes, ganham o controlo da massa terrestre eurasiática – a “Iniciativa Uma Cintura, Uma Rota” encontra-se com a Parceria da Grande Eurásia – e assim governam o planeta, com os EUA relegados para um estatuto insular inconsequente, tal como o anterior “Rule Britannia”.

A Inglaterra, a França e mais tarde os americanos tinham impedido isso quando a Alemanha aspirou a fazer o mesmo, controlando a Eurásia lado a lado com o Japão, desde o Canal da Mancha até ao Pacífico. Agora é um jogo de bola completamente diferente.

Assim, a Ucrânia, com os seus patéticos gangues neonazis, é apenas um peão – dispensável – na tentativa desesperada de parar algo que está para além do anátema, sob o ponto de vista de Washington: uma Nova Rota da Seda totalmente pacífica germano-russa-chinesa.

A russofobia, impressa massivamente no ADN do Ocidente, nunca desapareceu realmente. Cultivada pelos britânicos desde Catarina, a Grande – e depois com O Grande Jogo. Pelos franceses desde Napoleão. Pelos Alemães porque o Exército Vermelho libertou Berlim. Pelos americanos porque Estaline lhes forçou a cartografia da Europa – e depois continuou e continuou durante toda a Guerra Fria.

Estamos apenas na fase inicial do impulso final do Império moribundo para tentar deter o fluxo da História. Estão a ser superados, já estão a ser ultrapassados pela maior potência militar do mundo, e serão derrotados com um xeque-mate. Existencialmente, não estão equipados para matar o Urso – e isso dói. Cosmicamente.

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Nota

[1] N.T. Os Anglos eram um dos povos germânicos do norte da Europa que ocuparam alguns territórios que pertenciam anteriormente ao Império Romano Ocidental. Instalaram-se na Inglaterra actual e, juntamente com os saxões, tornaram-se os anglo-saxões, que mais tarde se tornaram os ingleses (ver wikipedia aqui).

 


O autor: Pepe Escobar [1954-] é um jornalista e analista geopolítico brasileiro. A sua coluna “The Roving Eye” para o Asia Times discute regularmente a “competição multinacional pelo domínio sobre o Médio Oriente e a Ásia Central”.

Em 2011, o jornalista Arnaud de Borchgrave descreveu Escobar como “bem conhecido por contar histórias no mundo árabe e muçulmano”. Em Agosto de 2000, os Talibãs prenderam Escobar e dois outros jornalistas e confiscaram o seu filme, acusando-os de tirarem fotografias num jogo de futebol. Em 30 de Agosto de 2001, a sua coluna no The Asia Times alertou para o perigo de Osama bin Laden numa peça que tem sido chamada “profética. A entrevista de Escobar de 2001 com o principal comandante da oposição do Afeganistão contra os Taliban foi também amplamente citada. A sua peça de 26 de Outubro de 2001 para o Asia Times, “Anatomia de uma ONG ‘terrorista’”, descreveu a história e os métodos do Al Rashid Trust.

“Pipelineistão” é um termo cunhado por Escobar para descrever “a vasta rede de oleodutos e gasodutos que atravessam os potenciais campos de batalha imperiais do planeta”, particularmente na Ásia Central. Artigos de Escobar sobre a sua teoria do “Pipelineistão”, muitos publicados pela primeira vez em TomDispatch, foram republicados na Al-Jazeera, Grist, Mother Jones, The Nation, e noutros locais. Como Escobar argumentou num artigo de 2009 publicado pela CBS News, a exploração de condutas de energia das nações ricas em energia perto do Mar Cáspio permitiria à Europa estar menos dependente do gás natural que actualmente recebe da Rússia, e ajudaria potencialmente o Ocidente a depender menos da OPEP. Esta situação resulta num conflito de interesses internacional sobre a região. Escobar afirmou que a guerra do Ocidente contra o terrorismo é “sempre por causa da energia”.

De acordo com Arnaud De Borchgrave, durante a Guerra Civil Líbia em 2011, Escobar escreveu uma peça “desvendando” os antecedentes de Abdelhakim Belhaj, cuja liderança militar contra Kadhafi estava a ser auxiliada pela NATO, e que tinha treinado com a Al-Qaeda no Afeganistão. Segundo a história de Escobar, publicada pelo Asia Times a 30 de Agosto de 2011, os antecedentes de Belhaj eram bem conhecidos dos serviços secretos ocidentais, mas tinham sido ocultados ao público. Entrevistado sobre a sua história pela Rádio Nova Zelândia, Escobar avisou que Belhaj e os seus colaboradores mais próximos eram fundamentalistas cujo objectivo era impor a lei islâmica uma vez que derrotassem Kadhafi.

O Global Engagement Center (GEC) do Departamento de Estado dos EUA identificou vários pontos de venda que publicam ou republicam trabalhos de Escobar como sendo utilizados pela Rússia para propaganda e desinformação. Em 2020, o GEC declarou que tanto a Fundação de Cultura Estratégica (SCF) como a Global Research, duas revistas online onde o trabalho de Escobar tem aparecido, actuaram como sítios de propaganda pró-russa. Escobar tem sido também comentador de RT e Sputnik News; ambos os pontos de venda foram destacados num relatório de 2022 da GEC como membros do “ecossistema de desinformação e propaganda da Rússia”. Em 2012, Jesse Zwick na The New Republic perguntou a Escobar porque estava disposto a trabalhar com a RT; Escobar respondeu: “Eu conhecia o envolvimento do Kremlin, mas disse, porque não usá-lo? Passados alguns meses, fiquei muito impressionado com a audiência americana. Há dezenas de milhares de espectadores. Uma história muito simples pode obter 20.000 visitas no YouTube. O feedback foi enorme”.

(fonte, Wikipedia, ver aqui)

 

 

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