A Guerra na Ucrânia e os seus impactos — 8. O Dólar Devora o Euro.  Por Michael Hudson

 

 

Seleção e tradução de Francisco Tavares

10 m de leitura

8. O Dólar Devora o Euro 

 Por Michael Hudson

Publicado por em 7 de Abril de 2022 (original aqui)

 

É agora claro que a escalada atual da Nova Guerra Fria foi planeada há mais de um ano. O plano americano de bloquear o Nord Stream 2 fazia realmente parte da sua estratégia para bloquear a Europa Ocidental (“NATO”) de procurar prosperidade através do comércio e investimento mútuos com a China e a Rússia.

Como o Presidente Biden e os relatórios de segurança nacional dos EUA anunciaram, a China era vista como o inimigo principal. Isto apesar do papel útil da China em permitir às empresas americanas baixar as taxas salariais da mão-de-obra, desindustrializando a economia dos EUA a favor da industrialização chinesa. O crescimento da China foi reconhecido como o que representa o Último Terror: prosperidade através do socialismo. A industrialização socialista sempre foi vista como sendo o grande inimigo da economia rentista que tomou conta da maioria das nações no século desde o fim da Primeira Guerra Mundial, e especialmente desde a década de 1980. O resultado hoje é um choque de sistemas económicos – industrialização socialista versus capitalismo financeiro neoliberal.

Isso faz da Nova Guerra Fria contra a China um acto implícito de abertura do que ameaça ser uma Terceira Guerra Mundial de longa duração. A estratégia dos EUA consiste em afastar os mais prováveis aliados económicos da China, especialmente a Rússia, a Ásia Central, a Ásia do Sul e a Ásia Oriental. A questão era, onde começar a esculpir e a isolar.

A Rússia foi vista como a maior oportunidade para começar a isolar, tanto da China como da Zona Euro da NATO. Foi elaborada uma sequência de sanções cada vez mais severas – e, espera-se, fatais – contra a Rússia para impedir a NATO de negociar com ela. Tudo o que era necessário para acender o terramoto geopolítico como um casus belli.

Isso foi arranjado com bastante facilidade. A escalada da Nova Guerra Fria poderia ter sido lançada no Próximo Oriente – por causa da resistência à exploração dos campos petrolíferos iraquianos pela América, ou contra o Irão e países que o ajudam a sobreviver economicamente, ou na África Oriental. Planos de golpes, revoluções coloridas e mudança de regime foram elaborados para todas estas áreas, e o exército africano da América foi constituído especialmente rápido durante o último ano ou dois. Mas a Ucrânia foi sujeita a uma guerra civil apoiada pelos EUA durante oito anos, desde o golpe de Maidan de 2014, e ofereceu a oportunidade da maior primeira vitória neste confronto contra a China, a Rússia e os seus aliados.

Por isso, as regiões de língua russa de Donetsk e Luhansk foram bombardeadas com intensidade crescente, e quando a Rússia ainda se absteve de responder, foram elaborados planos para um grande confronto a começar em finais de Fevereiro – a começar por um ataque relâmpago ucraniano organizado por conselheiros norte-americanos e armado pela NATO.

A defesa preventiva da Rússia das duas províncias ucranianas orientais e a subsequente destruição militar do exército, marinha e força aérea ucranianas nos últimos dois meses tem sido usada como desculpa para começar a impor o programa de sanções desenhado pelos EUA que estamos a ver desenvolver-se hoje. A Europa Ocidental tem seguido com obediência todo o percurso. Em vez de comprar gás, petróleo e grãos alimentares russos, irá comprá-los aos Estados Unidos, juntamente com um aumento acentuado das importações de armas.

 

A queda esperada da taxa de câmbio euro/dólar

Por conseguinte, é conveniente analisar a forma como isto poderá afectar a balança de pagamentos da Europa Ocidental e, consequentemente, a taxa de câmbio do euro em relação ao dólar.

O comércio e o investimento europeus antes da Guerra para Impor Sanções tinham prometido uma crescente prosperidade mútua entre a Alemanha, França e outros países da NATO vis-à-vis a Rússia e a China. A Rússia estava a fornecer energia abundante a um preço competitivo, e esta energia devia dar um salto qualitativo com o Nord Stream 2. A Europa deveria ganhar as divisas estrangeiras para pagar este crescente comércio de importação através de uma combinação de exportação de mais manufacturas industriais para a Rússia e investimento de capital no desenvolvimento da economia russa, por exemplo, por empresas automóveis alemãs e investimento financeiro. Este comércio e investimento bilateral está agora parado – e continuará parado durante muitos, muitos anos, dada a confiscação pela NATO das reservas estrangeiras da Rússia mantidas em euros e libras esterlinas, e a Russofobia da Europa a ser atiçada pelos meios de propaganda dos EUA.

Em vez disso, os países da NATO comprarão gás dos EUA – mas terão de gastar milhares de milhões de dólares na construção de capacidade portuária suficiente, o que poderá demorar até talvez 2024. (Boa sorte até lá.) A escassez de energia irá aumentar acentuadamente o preço mundial do gás e do petróleo. Os países da NATO também aumentarão as suas compras de armas ao complexo militar-industrial dos EUA. A compra quase de pânico também aumentará o preço das armas. E os preços dos alimentos também aumentarão em consequência da escassez desesperada de cereais resultante da cessação das importações da Rússia e da Ucrânia, por um lado, e da escassez de fertilizante de amoníaco feito de gás.

Todas estas três dinâmicas comerciais irão reforçar o dólar em relação ao euro. A questão é, como irá a Europa equilibrar os seus pagamentos internacionais com os Estados Unidos? O que terá de exportar que a economia dos EUA aceite enquanto os seus próprios interesses proteccionistas ganham influência, agora que o comércio livre global está a morrer rapidamente?

A resposta é, não muito. Então o que é que a Europa fará?

Eu poderia fazer uma proposta modesta. Agora que a Europa deixou praticamente de ser um Estado politicamente independente, começa a parecer-se mais com o Panamá e a Libéria – centros bancários extraterritoriais de “bandeira de conveniência” que não são verdadeiros “estados” porque não emitem a sua própria moeda, mas utilizam o dólar americano. Uma vez que a zona euro foi criada com algemas monetárias limitando a sua capacidade de criar dinheiro para gastar na economia para além do limite de 3% do PIB, porque não simplesmente atirar ao chão a toalha financeira e adoptar o dólar americano, como o Equador, a Somália e as Ilhas Turcas e Caicos? Isso daria aos investidores estrangeiros segurança contra a desvalorização da moeda no seu crescente comércio com a Europa e no seu financiamento à exportação.

Para a Europa, a alternativa é que o custo em dólares da sua dívida externa contraída para financiar o seu crescente défice comercial com os Estados Unidos para petróleo, armas e alimentos vai explodir. O custo em euros será ainda maior à medida que a moeda cair em relação ao dólar. As taxas de juro aumentarão, abrandando o investimento e tornando a Europa ainda mais dependente das importações. A zona euro irá transformar-se numa zona morta economicamente.

Para os Estados Unidos, isto é Hegemonia do dólar sobre esteróides – pelo menos em relação à Europa. O continente tornar-se-ia uma versão um pouco maior de Porto Rico.

 

O dólar face às moedas do Sul global

A versão completa é a Nova Guerra Fria a transformar-se na salva de abertura da Terceira Guerra Mundial desencadeada pela “Guerra da Ucrânia”, que deverá durar pelo menos uma década, talvez duas, à medida que os EUA alargam a luta entre o neoliberalismo e o socialismo para englobar um conflito mundial. Para além da conquista económica da Europa pelos EUA, os seus estrategas estão a procurar encerrar os países africanos, sul-americanos e asiáticos em linhas semelhantes ao que tem sido planeado para a Europa.

A subida acentuada dos preços da energia e dos alimentos irá atingir duramente as economias com défices alimentares e petrolíferos – ao mesmo tempo que as suas dívidas externas em dólares aos obrigacionistas e aos bancos estão a vencer e a taxa de câmbio do dólar está a subir em relação à sua própria moeda. Muitos países africanos e latino-americanos – especialmente o Norte de África – enfrentam uma escolha entre passar fome, reduzir o seu consumo de gasolina e electricidade, ou pedir emprestado os dólares para cobrir a sua dependência do comércio com os Estados Unidos.

Tem-se falado de questões do FMI sobre novos Direitos de Saque Especiais (DSE) para financiar os crescentes défices comerciais e de pagamentos. Mas este tipo de crédito vem sempre com condições. O FMI tem a sua própria política de sancionar os países que não obedecem à política dos EUA. A primeira exigência dos EUA será que estes países boicotem a Rússia, a China e a sua aliança emergente de auto-ajuda comercial e monetária. “Por que razão devemos dar-vos DSE ou conceder-vos novos empréstimos em dólares, se vão simplesmente gastá-los na Rússia, China e outros países que declarámos como inimigos”, perguntarão os responsáveis estado-unidenses.

Pelo menos, este é o plano. Não me surpreenderia ver algum país africano tornar-se a “próxima Ucrânia”, com tropas de procuração dos EUA (ainda há muitos defensores e mercenários Wahabi) a lutar contra os exércitos e populações de países que procuram alimentar-se com cereais de explorações agrícolas russas, e alimentar as suas economias com petróleo ou gás de poços russos – para não falar da participação na Iniciativa de Cinturão e Estradas da China que foi, afinal, o gatilho para o lançamento da sua nova guerra pela hegemonia neoliberal global.

A economia mundial está a ser inflamada, e os Estados Unidos prepararam-se para uma resposta militar e a militarização do seu próprio comércio de exportação de petróleo e produtos agrícolas, comércio de armas e a exigência para que os países escolham a que lado da Nova Cortina de Ferro desejam aderir.

Mas o que é que isto oferece à Europa? Os sindicatos de trabalhadores gregos já se manifestam contra as sanções que estão a ser impostas. E na Hungria, o Primeiro-Ministro Viktor Orban acaba de ganhar uma eleição sobre o que é basicamente uma visão do mundo anti-UE e anti-EUA, começando por pagar o gás russo em rublos. Quantos outros países irão quebrar as fileiras – e quanto tempo vai isso demorar?

O que é que isto oferece aos países do Sul global a serem espremidos – não apenas como “danos colaterais” à profunda escassez e ao aumento dos preços da energia e dos alimentos, mas como o próprio objectivo da estratégia dos EUA ao inaugurar a grande divisão da economia mundial em duas? A Índia já disse aos diplomatas norte-americanos que a sua economia está naturalmente ligada às da Rússia e da China.

Do ponto de vista dos EUA, basta responder à seguinte pergunta: “O que é que isso proporciona aos políticos locais e oligarquias clientelares que recompensamos por entregarem os seus países?”

É isso que torna a iminente Terceira Guerra Mundial uma verdadeira guerra de sistemas económicos. Que lado escolherão os países: o seu próprio interesse económico e coesão social, ou a diplomacia dos EUA colocada nas mãos dos seus líderes políticos? Quando combinado com a ingerência dos EUA da linha dos 5 mil milhões de dólares que a Secretária de Estado Adjunta, Victoria Nuland, se gabou de ter investido nos partidos neonazis da Ucrânia há oito anos para iniciar os combates que irrompem na guerra de hoje, há muito a considerar.

Face a toda estas ingerências políticas e propaganda mediática, quanto tempo levará o resto do mundo a perceber que existe uma guerra global à medida que esta se expande para a Terceira Guerra Mundial? O verdadeiro problema é que, quando compreender o que está a acontecer, a fractura global já terá permitido à Rússia, à China e à Eurásia criar uma verdadeira Nova Ordem Mundial não-neoliberal que não precisa dos países da NATO, tendo perdido a confiança e a esperança de ganhos económicos mútuos. O campo de batalha militar estará repleto de cadáveres económicos.

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O autor: Michael Hudson é Presidente do The Institute for the Study of Long-Term Economic Trends (ISLET), Analista Financeiro de Wall Street, Distinto Professor de Investigação de Economia na Universidade do Missouri, Kansas City. É o autor de Super-Imperialism: The Economic Strategy of American Empire (Editions 1968, 2003, 2021), “and forgve them their debts” (2018), J is for Junk Economics (2017), Killing the Host (2015), The Bubble and Beyond (2012), Trade, Development and Foreign Debt (1992 & 2009) e de The Myth of Aid (1971), entre muitos outros.

A ISLET dedica-se à investigação sobre finanças nacionais e internacionais, rendimentos nacionais e contabilidade de balanço no que diz respeito a bens imóveis, e envolve-se também na história económica do antigo Próximo Oriente.

Michael actua como consultor económico de governos de todo o mundo, incluindo a China, Islândia e Letónia sobre finanças e direito fiscal.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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