A GALIZA COMO TAREFA – procura – Ernesto V. Souza

Há poucas coisas mais revivificadoras que uma viagem. Mesmo que seja fisicamente cansativa, que os anos não passam por passar, e a sequencia de pouco sono, posturas incómodas e carreiras para tomar em tempo transportes ao jeito de Phileas Fogg deixam ressaca.

Saímos numa manhã de sábado de Valhadolid, comboio, cercanias, transfer, embarque em Madrid, avião, Stansted, passaportes, comboio, carrinha que havia um problema na linha regular, comboio, metro em Londres e comboio com destino a Royal Leamington Spa, onde finalmente chegamos sobre as 22:30 hora britânica.

12 horas de viagem, para fecharmos uma conta de banco e umas feridas mal saradas. Coisas que ficaram abertas na nossa precipitada saída do Reino Unido em finais 2019. A tranquila cidade continuava mais ou menos igual, com essa mistura de conservadorismo e modernidade, lojas, restaurantes, colorido social, idosos, crianças, universitários, variedade multicultural, tudo mergulhado nesse tranquilo tempo próprio estabelecido e amabilidade das gentes.

Como Domingo e Segunda os bancos estavam fechados, percorremos as numerosas “charity shops” do centro, na procura de livros e alguma lembrança; parando para café, chá, alguma cerveja ou petiscar. Levava para terminar de ler o livro de Hamsun, mas estava no destino que ia continuar na mesma. Na primeira loja, e por 1,99 £. tinha um livro de Steinbeck do que nunca ouvira falar: Travels with Charley (1962).

Um livro, em tela editoral, amarelo, dos anos 60, como conferi rapidamente, e com um subtítulo empolegante: “In Search of America”. Com a primeira página de prólogo já decidi não apenas que levava, senão que ia gostar.

Travels with Charley : in search of America (London: The companion Book Club, 1964)

E efetivamente, acompanhou-me toda a viagem e mais a volta. Nas esperas, nos trânsitos, nas pausas e nas noites de hotel. Descobri quem era Charley e apaixonei-me de novo pelo estilo de Steinbeck. Resultou-me fascinante ler essa pequena Odisseia, que decorre em 1961, pouco antes do Nobel e apenas uns anos antes da sua morte em 1968. Tem um ponto de urgência e de legado.

As conversas com personagens no caminho, e as próprias reflexões do narrador quando para, guia ou prepara as suas coisas para dormir, jantar ou descansar.

Durante o longo percurso circular, de costa Leste a costa Oeste e de Norte a Sul, o narrador vai descrevendo a enormidade do país, tratando de apanhar o “espírito” da Nação e as gentes, as diferenças de taxas, legislação, indicadores, a paisagem descomunal, os tipos, as variações regionais e dialetais que estão a desaparecer, as sensações e as reflexões que lhe produz a América na altura. E sempre um bocadinho em contraste com as gente e a América da Grande Depressão. A América das suas viagens e circunstâncias de mocidade, com ele próprio e as suas lembranças.

A viagem tem não pouco de desafio pessoal, de reencontro também consigo e com o eu da mocidade, de renuncia à vida mole. É uma exibição de energia masculina confrontada com o declínio da saúde e a sombra da velhice.

Para além dos grandes episódios e conversas, algumas já incorporadas ao imaginário cultural e local norte-americano, das grandes paisagens, dos locais, fascina-me a perceção das mudanças que acontecem na sociedade americana e que ele destaca como novidades. E mais porquanto essas mudanças são hoje a realidade global, ou quando menos do primeiro mundo. Não apenas o packing, plástico e as hambúrguer, a maneira de comer e viver, o auto-serviço que se impõe, quanto também o espetáculo, o lixo, a obsolescência já programada, o individualismo, a homogeneização da sociedade e da língua, a política polarizada pelas eleições Kennedy-Nixon, a necessidade de ter um inimigo fixo mas distante (os russos), as mensagens de publicidade e as grandes corporações informativas que vão devorando o local.

A primeira parte da viagem, compreendida a preparação e equipamento de Rocinante (o seu camper-truck com vivenda), em companhia do seu cão Charley, até Chicago é demorada e relativamente tranquila. Depois o esforço e as peripécias vão mudando os focos do narrador que torna mais contemplativo.

O ritmo da crónica acelera-se ao final, comunicando a canseira do viajante, após a parada sentimental na Califórnia natal, no Texas e a dor que lhe produz a contemplação dos distúrbios produzidos pela incorporação dos alunos de cor nas escolas, nos Estados do Sul.

Uma boa leitura. Que para além vinha com um presente inesperado para galegos. No reencontro em Salinas, para além dos tópicos, do impossível retorno dos emigrados senão a memória, aparece uma personagem à que o narrador se refere uma e outra vez como galego (*10 p. 164-166):

There was a touching reunion in Johnny Garcia’s bar in Monterrey, with tears and embraces, speeches and endearments, in the poco Spanish of my youth. […]

We sat at the bar, and Johnny Garcia regarded us with this tear-blown Gallego eyes. […]

I must admit i felt the old surge of love and oratory and I haven’t a drop of Galician blood. “Cuñado mio!” I sad sadly, “I live in New York now.” […]

I gazeed at my empty glass “these Gallegos have no manners.

 

Nota.

A escrever isto localizo uma referencia a Garcia e às “Viagens com o Charley”, num artigo do Luzes da Galiza.

 

 

 

 

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