A Guerra na Ucrânia: alguns antecedentes — “Um erro fatal”,  por George F. Kennan

 

Seleção de António Gomes Marques e tradução de Francisco Tavares

10 m de leitura

Um erro fatal

 Por George F. Kennan

Publicado por  em 5 de Fevereiro de 1997 (original aqui)

 

Em finais de 1996, foi permitido, ou provocado, a impressão de que, de alguma forma, se tinha tornado prevalecente e que algures se tinha decidido expandir a NATO até às fronteiras da Rússia. Isto apesar do facto de não poder ser tomada qualquer decisão formal antes da próxima cimeira da aliança, em Junho.

O momento desta revelação – coincidindo com as eleições presidenciais e as consequentes alterações de personalidades responsáveis em Washington – não tornou fácil para quem está de fora saber como ou onde inserir uma modesta palavra de comentário. Nem a garantia dada ao público de que a decisão, por mais preliminar que fosse, era irrevogável, encorajou uma opinião externa.

Mas algo da maior importância está aqui em jogo. E talvez não seja demasiado tarde para avançar uma visão que, creio, não é apenas minha, mas é partilhada por uma série de outros com vasta e, na maioria dos casos, mais recente experiência em assuntos russos. O ponto de vista, declarado sem rodeios, é que a expansão da NATO seria o erro mais fatídico da política americana em toda a era pós guerra fria.

É expectável que uma tal decisão inflame as tendências nacionalistas, anti-ocidentais e militaristas na opinião russa; tenha um efeito adverso no desenvolvimento da democracia russa; restabeleça a atmosfera da guerra fria nas relações Leste-Oeste, e impulsione a política externa russa em direcções decididamente não do nosso agrado. E, por último mas não menos importante, pode tornar muito mais difícil, se não impossível, assegurar a ratificação do acordo Start II pela Duma russa e a consecução de novas reduções do armamento nuclear [1].

É, evidentemente, lamentável que a Rússia seja confrontada com tal desafio numa altura em que o seu poder executivo se encontra num estado de grande incerteza e quase paralisia. E é duplamente lamentável considerando a total ausência de qualquer necessidade para esta mudança. Porquê, com todas as possibilidades esperançadoras geradas pelo fim da guerra fria, deveriam as relações Leste-Oeste centrar-se na questão de quem seria aliado de quem e, por implicação, contra quem em algum fantasioso futuro conflito militar, totalmente imprevisível e mais improvável?

Estou ciente, evidentemente, de que a NATO está a conduzir conversações com as autoridades russas na esperança de tornar a ideia de expansão tolerável e aceitável para a Rússia. Nas circunstâncias existentes, só se pode desejar sucesso a estes esforços. Mas qualquer pessoa que preste uma atenção séria à imprensa russa não pode deixar de notar que nem o público nem o governo estão à espera que a expansão proposta ocorra para reagirem a ela.

Os russos estão pouco impressionados com as garantias americanas de que não reflecte intenções hostis. Veriam o seu prestígio (sempre no mais alto da mente russa) e os seus interesses de segurança como afectados negativamente. Evidentemente, não teriam outra escolha senão aceitar a expansão como um facto consumado militar. Mas continuariam a considerá-la como uma rejeição do Ocidente e provavelmente procurariam noutros lugares garantias de um futuro seguro e esperançador para si próprios.

Não será obviamente fácil alterar uma decisão já tomada ou tacitamente aceite pelos 16 países membros da aliança. Mas restam alguns meses antes de a decisão ser definitiva; talvez se possa aproveitar este período para alterar a expansão proposta de forma a mitigar os efeitos infelizes que já está a ter na opinião e na política russas.

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Nota

[1] N.T. O START II (Tratado de Redução de Armas Estratégicas) é um acordo assinado por George H. W. Bush e Boris Yeltsin a 3 de Janeiro de 1993, que proibiu a utilização de ICBMs multi-warhead (MIRV). É o sucessor do START I. Este acordo histórico começou a tomar forma a 17 de Junho de 1999, com a assinatura da “Compreensão Mútua” pelos dois presidentes. A assinatura oficial de START II teve lugar a 3 de Janeiro de 1993. Foi ratificado pelo Senado dos EUA a 26 de Janeiro de 1996, por uma votação de 87 a 4. Contudo, a ratificação do tratado foi bloqueada na Duma durante vários anos. Foi adiada várias vezes em protesto contra as acções militares dos EUA no Iraque e no Kosovo e contra o alargamento da OTAN aos países de leste. Com o passar dos anos, o tratado perdeu relevância e ambas as partes perderam interesse no mesmo. Para os americanos, o maior problema foi a modificação do tratado ABM (que proibia os escudos de mísseis) para permitir aos EUA desenvolver um sistema de intercepção de mísseis balísticos (popularmente conhecido como Guerra das Estrelas), ao qual a Rússia fervorosamente se opôs. A 14 de Abril de 2000, a Duma aprovou finalmente o tratado, dando um passo simbólico para tentar preservar o tratado ABM, o que já era claro que os EUA não fariam.

O START II foi oficialmente substituído pelo tratado SORT, acordado por George W. Bush e Vladimir Putin numa reunião bilateral em Novembro de 2001 e assinado em Moscovo a 24 de Maio de 2002. Neste tratado ambos os lados se comprometeram a abandonar as linhas gerais do tratado anterior, que tinha estabelecido uma limitação específica do número de mísseis. Em vez disso, comprometeram-se a cortar unilateralmente o número de ogivas nucleares. (Wikipedia, aqui)

 


O autor: George F. Kennan [1904-2005], também conhecido como o “senhor X”, foi um diplomata norte-americano e historiador. Era mais conhecido como um defensor de uma política de contenção da expansão soviética durante a Guerra Fria. Deu amplas palestras e escreveu histórias académicas sobre as relações entre a URSS e os Estados Unidos da América. Foi também um dos anciãos do grupo de políticos estrangeiros conhecidos como “The Wise Men” (Os Sábios). Durante os finais dos anos 40, os seus escritos inspiraram a Doutrina Truman e a política externa dos EUA de “conter” a União Soviética. O seu “Long Telegram” de Moscovo durante 1946 e o subsequente artigo de 1947 The Sources of Soviet Conduct argumentou que o regime soviético era inerentemente expansionista e que a sua influência tinha de ser “contida” em áreas de importância estratégica vital para os Estados Unidos. Estes textos justificavam a nova política anti-soviética da administração Truman. Kennan desempenhou um papel importante no desenvolvimento de programas e instituições definitivas da Guerra Fria, nomeadamente o Plano Marshall.

Pouco depois de os seus conceitos se terem tornado política dos EUA, Kennan começou a criticar as políticas externas que tinha ajudado a articular. Em finais de 1948, Kennan tornou-se confiante de que o diálogo positivo poderia começar com o governo soviético. As suas propostas foram descartadas pela administração Truman e a influência de Kennan foi marginalizada, particularmente depois de Dean Acheson ter sido nomeado Secretário de Estado em 1949. Pouco depois, a estratégia da Guerra Fria dos EUA assumiu uma qualidade mais assertiva e militarista, levando Kennan a lamentar o que acreditava ser uma revogação das suas avaliações anteriores.Em 1950, Kennan deixou o Departamento de Estado – excepto por uma breve estadia como embaixador em Moscovo e uma estadia mais longa na Jugoslávia – e tornou-se um crítico realista da política externa dos EUA. Continuou a analisar os assuntos internacionais como membro docente do Instituto de Estudos Avançados desde 1956 até à sua morte em 2005, aos 101 anos de idade.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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