A Guerra na Ucrânia: alguns antecedentes — “Relações externas; agora uma palavra do senhor X”, por Thomas L. Friedman

 

Seleção de António Gomes Marques e tradução de Francisco Tavares

10 m de leitura

Relações externas; agora uma palavra do senhor X [1]

 Por Thomas L. Friedman

Publicado por em 2 de Maio de 1998 (original aqui)

 

A sua voz é agora um pouco frágil, mas a mente, mesmo aos 94 anos de idade, é tão aguçada como sempre. Assim, quando cheguei a George Kennan por telefone para obter a sua reacção à ratificação da expansão da NATO pelo Senado, não foi surpresa nenhuma descobrir que o homem que foi o arquitecto da contenção bem sucedida da União Soviética na América e um dos grandes estadistas americanos do século XX estava pronto com uma resposta.

“Penso que é o início de uma nova guerra fria”, disse o Sr. Kennan da sua casa em Princeton. “Penso que os russos irão reagir gradualmente de forma bastante adversa e isso irá afectar as suas políticas. Penso que se trata de um erro trágico. Não havia qualquer razão para isto. Ninguém estava a ameaçar mais ninguém. Esta expansão faria com que os Pais Fundadores deste país dessem voltas nas suas sepulturas. Inscrevemo-nos para proteger toda uma série de países, apesar de não termos nem os recursos nem a intenção de o fazer de forma séria. [A expansão da NATO] foi simplesmente uma acção ligeira de um Senado que não tem qualquer interesse real nos assuntos externos”.

“O que me incomoda é o quão superficial e mal informado foi todo o debate no Senado”, acrescentou Kennan, que esteve presente na criação da NATO e cujo artigo anónimo de 1947 na revista Foreign Affairs, assinado “X”, definiu a política de contenção da guerra fria da América durante 40 anos. “”Fiquei particularmente incomodado com as referências à Rússia como um país desejoso de atacar a Europa Ocidental. Será que as pessoas não compreendem? As nossas diferenças na Guerra Fria foram com o regime comunista soviético. E agora estamos a virar as costas ao próprio povo que montou a maior revolução sem derramamento de sangue da história para eliminar esse regime soviético.

“E a democracia da Rússia está tão avançada, se não mais, como qualquer destes países com que acabámos de nos comprometer a defender da Rússia”, disse o Sr. Kennan, que entrou para o Departamento de Estado em 1926 e foi embaixador dos EUA em Moscovo em 1952. “Isto mostra uma tão fraca compreensão da história russa e da história soviética”. Claro que vai haver uma má reacção da Rússia, e então [os partidários da expansão da NATO] dirão que sempre vos dissemos que os russos são assim – mas isso está simplesmente errado”.

Só nos perguntamos o que dirão os futuros historiadores. Se tivermos sorte, eles dirão que a expansão da NATO para a Polónia, Hungria e República Checa simplesmente não importava, porque o vácuo que era suposto preencher já tinha sido preenchido, apenas a equipa Clinton não o conseguia ver. Dirão que as forças da globalização integrando a Europa, juntamente com os novos acordos de controlo de armamento, provaram ser tão poderosas que a Rússia, apesar da expansão da NATO, avançou com a democratização e a ocidentalização, e foi gradualmente atraída para uma Europa vagamente unificada. Se tivermos azar, dirão que, tal como o Sr. Kennan previu, a expansão da NATO criou uma situação em que a NATO tem agora de se expandir até à fronteira da Rússia, desencadeando uma nova guerra fria, ou parar de se expandir depois destes três novos países e criar uma nova linha divisória através da Europa.

Mas há uma coisa que os historiadores do futuro certamente comentarão, e que é a absoluta pobreza de imaginação que caracterizou a política externa dos EUA do final da década de 1990. Notarão que um dos acontecimentos seminais deste século teve lugar entre 1989 e 1992 — o colapso do Império Soviético, que tinha a capacidade, intenções imperiais e ideologia de ameaçar verdadeiramente todo o mundo livre. Graças à determinação ocidental e à coragem dos democratas russos, esse império soviético desmoronou-se sem um tiro, dando origem a uma Rússia democrática, libertando as antigas repúblicas soviéticas e levando a acordos sem precedentes de controlo de armas com os EUA.

E qual foi a resposta dos Estados Unidos? Foi expandir a aliança da guerra fria da NATO contra a Rússia e aproximá-la das fronteiras da Rússia.

Sim, diga aos seus filhos, e aos filhos dos seus filhos, que viveu na era de Bill Clinton e William Cohen, na era de Madeleine Albright e Sandy Berger, na era de Trent Lott e Joe Lieberman, e que também esteve presente na criação da ordem pós guerra fria, quando estes Titãs da política externa juntaram as suas cabeças e pariram… um rato.

Estamos na era dos anões. A única boa notícia é que chegámos até aqui inteiros porque havia outra era – a dos grandes estadistas que tinham tanto imaginação como coragem.

Ao despedir-se de mim ao telefone, o Sr. Kennan acrescentou apenas mais uma coisa: “Esta tem sido a minha vida, e dói-me vê-la tão lixada no final”.

 


Nota

[1] N.T. George F. Kennan, diplomata dos EUA, ficou conhecido como o senhor X.

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O autor: Thomas L. Friedman [1953-] é um comentarista político e escritor estado-unidense. Ganhou três vezes o Prémio Pulitzer e é colunista semanal do The New York Times. Tem escrito muito sobre assuntos externos, comércio mundial, Médio Oriente, globalização e questões do meio ambiente.

 

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