A GALIZA COMO TAREFA – o jardim de Cícero – Ernesto V. Souza

Nunca pensei que seria tão clara de perceber uma mudança histórica arredor. Sempre fui mais de pensar que o pessoal dos tempos anteriores não era quem de perceber o momento histórico no que se vivia. Mas talvez isso é apenas bonomia desculpatória minha e ilusão com a humanidade, porque sou consciente de ter ido lendo arredor das grandes catástrofes, tragédias e conflitos dos séculos passados a voz e testemunhas de contemporâneos lúcidos entre a massa movimentada e a loucura dos césares, reis, bispos, governantes e tsares.

Não é apenas a derrota completa da esquerda, como parecem entender os meus contemporâneos, é mais a derrota, pouco e pouco, e sempre do pensamento, da crítica. Não é algo novo, fomos vendo nas últimas décadas, uma e outra vez, como se ia desprezando, ignorando, esmagando passo a passo, pessoa a pessoa, a crítica, o pensamento alternativo.

Hoje em dia, mais uma vez, é tudo ausência de razão, lógica, discrepância, filosofia e pensamento próprio. Tudo se conduz sob capa e mão de cor de normalização procedimental, de aparato crítico formal, de indicadores, contagens e resultados numéricos a perguntas pré-definidas.

Não se questiona nada. A contrário, tudo se aceita. O resultado é a crescente arbitrariedade das coisas. E a mensagem é que é bom aceitar, dentro de uma ordem estabelecida que termina ou por folclorizar e fazer bom e norma um passado senão inexistente sim de um exagerado convencionalismo; numa preferência de tudo quanto de conservador fôramos desbotando, na crença de que por essa pátina de pó obsoleto era a tradição.

Por outra está a pós-modernidade, o pensamento líquido que a tudo o novo e mais radical formalizado dá like, sem mirar pelas contradições, avançando em círculos, tomando como bússola ou guiero, simples cata-ventos que marcam e correm a marcar o último ar como verdade e guião. Também tudo é aceite, estabelecido, a-crítico, formalizado em carreiros trilhados aos que se mudam apenas indicadores e cartazes coloridos.

AMERICAN BUNGALOW SUMMER – Laura Wilder

Capitalismo triunfante, publicidade, individualismo, improvisação, constante, ausência de planificações quanto de seriedade; medir o valor da gente pelos quartos, propriedades ou pelo poder que detentam no hoje, escrever em quadros preparados, pesquisar sob metodologias e esquemas fechados, num discurso cada vez mais agressivo e de torcida de futebol.

O mundo caminha a contrário do que eu gostaria. Até nos espaços que antes me eram comuns e refúgio. A Galiza, os movimentos associativos, a defesa da língua e da cultura galega. Salvo pessoas, mas os discursos, os projetos, as organizações de uma banda ou outra não me apaixonam, não me convencem, não me interessam mais.

Mudei eu? Talvez. Mas de mais em mais só me interessa a minha gente, família, os poucos amigos, as nossas músicas, os meus livros e as minhas ferramentas. Diria que o  meu projeto mais querido seria recolher-me a uma horta murada e casa ciceroniana, no campo castelhano perto ou em qualquer costa do mar no longe, com uma boa biblioteca e um espaço para trabalhar madeiras e dar novo uso a peças desbotadas e refugalhos.

Afinal é o ideal do estoico, não podendo fazer nada no senado, na política ou no ativismo social, que cousa melhor que se dedicar ao estudo do passado e ao pensamento introspetivo, entanto cuidamos da horta, da casa e procuramos tudo integrar na natureza doméstica, num pequeno universo sob controle. Com isso e algum bom amigo a quem escrever epístolas vai-se passando e se não safando do mundo e as suas tristuras, quando menos se anestesiando.

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