Espuma dos dias — “George W. Bush faz um retorno brutal na nossa psique”. Por Marisa Kabas

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

10 m de leitura

George W. Bush faz um retorno brutal na nossa psique

A recente gafe do antigo presidente sobre a invasão da Ucrânia-ou-Iraque foi uma dose elevada de honestidade acidental – e de nostalgia dolorosa.

 Por Marisa Kabas

Publicado por  em 20 de Maio de 2022 (original aqui)

 

O antigo presidente George W. Bush. Aude Guerrucci /Getty Images

 

Esta semana, o ex-presidente George W. Bush detonou uma bomba de nostalgia no meu cérebro: No meio de uma crítica ao governo russo num discurso em Dallas na quarta-feira, Bush disse o seguinte: “O resultado é uma ausência de controlos e equilíbrios na Rússia, e a decisão de um homem de lançar uma invasão totalmente injustificada e brutal do Iraque”. Depois parou, abanou a cabeça e disse: “Quero dizer, da Ucrânia”. E em voz baixa, como se não houvesse microfone, câmaras fotográficas, ou audiência à sua frente, murmurou: “Iraque, também”.

Não conseguia acreditar no que estava a ouvir. Pensei: “É absolutamente impossível que ele tenha dito aquilo”.

E, num instante, a gafe leva-me a retroceder 17 anos no tempo. Acabei de chegar da escola, e eu devia estar mesmo a fazer os meus trabalhos de casa de pré-calculus, mas em vez disso estou sentada à secretária em frente do Dell de cinza-carvão da minha família, onde tiro uma lista de números de telefone para ligar em nome do antigo senador de Massachusetts John Kerry. Não tenho idade suficiente para votar, vivo em Long Island, e honestamente não tinha ouvido falar do senador Kerry até este ano. Mas sou uma finalista de liceu irritada, e a minha maior preocupação neste momento é garantir que George W. Bush não seja reeleito presidente. Por isso pego no telefone sem fios e começo a marcar.

“Olá, o meu nome é Marisa. Tem um minuto para falar sobre a campanha de John Kerry para presidente”? Uma nova mensagem AIM cai no monitor do computador e eu olho para ela, mas não tenho tempo para responder porque estou no meio de negócios importantes, muito para além de meras aplicações universitárias. Estou a cumprir o meu dever cívico, certa de que as minhas chamadas – e os alfinetes na minha mochila que comprei no website de Kerry – nos livrarão de Dubya [diminutivo de Goerge W. Bush]. Não interessa o meu colega que ridicularizou o meu alfinete “Kids for Kerry”, lembrando-me, “As crianças não podem votar”. Se eu conseguir convencer estes estranhos do outro lado da linha que está na hora de uma nova liderança na Casa Branca, salvaremos o país.

Agora estamos em 2022, e sabemos como esta história terminou. Mais de 20 anos após o 11 de Setembro, a maioria dos americanos parece concordar que a Guerra do Iraque estava errada; o consenso entre as elites também parece ser que Bush não era assim tão mau (particularmente em comparação com Trump). Isto provavelmente não deveria ser surpreendente: Dizem que a ausência faz com que o coração se afeiçoe mais, e Bush esforçou-se ao máximo para se fazer ausente na sua pós-presidência. Mas depois ele vai e admite a sua cumplicidade numa guerra destrutiva e sem propósito naquilo que tem de ser a forma mais Dubya possível: uma gafe verbal.

Nas suas breves observações de quarta-feira, Bush, que nos últimos anos se tornou principalmente conhecido pela sua tranquila reforma, pelas suas encantadoras pinturas de animais de estimação e figuras históricas, e pelas suas ocasionais brincadeiras com Michelle Obama, fez algo que eu nunca pensei que acontecesse na minha vida. Ele apresentou-se perante nós inadvertidamente admitindo que a invasão do Iraque foi precisamente aquilo que poucos dos “adultos na sala” tiveram a coragem de lhe chamar na altura: injustificada. Brutal.

Quem me dera poder dizer que fiquei satisfeita com o deslize, mas ouvir a semi-confissão de Bush foi, à sua maneira, brutal. Foi como se o meu cérebro tivesse deixado o meu corpo, e recuasse através do tempo até à altura em que tinha 17 anos. Queria dizer ao meu eu mais jovem que a coisa que eu mais queria que as pessoas no poder na altura admitissem tinha finalmente saído da boca do septuagenário.

Agora tudo parece irremediavelmente ingénuo, eu a pensar que através de pura força de vontade eu impediria Bush de ganhar um segundo mandato. Mas em 2004, alimentada pelo constante The Daily Show With Jon Stewart e da revista New York (impressa), estava tão certa de que, apesar de ser jovem, os adultos deste país conseguiam ver as coisas pelo que eram: que o Presidente Bush tinha trazido o nosso país para uma guerra no Iraque sob falsos pretextos. Crianças poucos meses mais velhas do que eu eram enviadas para um país que a maioria não conseguia encontrar num mapa, ordenadas a arriscar as suas vidas numa missão que ostensivamente se destinava a proteger a democracia americana em casa.

Mas enquanto pensamos no passado, vamos falar honestamente sobre isso. Chegar à idade política durante a presidência de George W. Bush foi como aprender sobre relações saudáveis com a Gone Girl [película americana de suspense psicológico, realizada em 2014 por David Fincher]. O governo ordeiro e justo que aprendemos na escola primária e a Constituição que fomos treinados para reverenciar nas nossas aulas de civismo sofreu um rude golpe nas eleições presidenciais de 2000. Uma populaça apática sorriu e encolheu os ombros quando um homem que foi empossado com a força de uma opinião anónima de um Supremo Tribunal conservador ganhou o poder de fazer a guerra. A pessoa que era suposto admirar – o presidente!- era uma pessoa recrutada por nepotismo mal conseguia alinhavar uma frase. 

É fácil para alguns olhar para os anos Bush através de um filtro de cor Trump e lembrá-lo carinhosamente. Bush era um republicano dito “normal” que mantinha a sua corrupção bem abotoada atrás de retórica folclórica e algum toque patriótico. Com Trump, a América passou mais de meia década a receber um fluxo de disparates embrutecedores e de enganos sem fim. Bush não tinha uma conta no Twitter para sobrecarregar o público com todos os seus pensamentos ou sarna, necessidade desesperada de estar em todas as manchetes ou no topo de todos os pacotes de notícias por cabo.

Havia uma maneira fácil de ser um crítico de Bush naquela altura: Podias-te rir das suas gafes e sentires-te superior à ovelha negra da família Bush. Mas o facto era que ele era o comandante em chefe das forças armadas dos Estados Unidos e nós éramos um país em guerra. Uma ruidosa e corajosa minoria tomou um caminho mais difícil: Eles saíram às ruas para se oporem à invasão e à falsa pretensão sob a qual ela começou; inspiraram jovens como eu a falar sobre o mal perpetrado em nosso nome.

Mas não seria suficiente: Sob a hipnose de memes [frases, imagens, vídeos] de American Idol e Napoleon Dynamite, o país reelegeu o presidente mais perigoso de uma geração com um bocejo e um aceno de cabeça, e os adultos sábios não salvaram a situação. Foram os Swift Boat Veterans for Truth e outros mentirosos semelhantes que se elevaram e prevaleceram. Até hoje, aqueles que conheciam o resultado desde o início, compreenderam que a Segunda Guerra do Iraque estava errada e se opuseram veementemente a ela, nunca desfrutaram realmente do seu dia ao sol. Se alguma coisa, as pessoas que apregoaram e apoiaram esta grande loucura ainda possuem mais capital político do que aqueles que tinham razão. A última gaffe de Bush é tudo o que recebemos pelos nossos problemas.

De volta à minha viagem no tempo de 2004, estou estendida no sofá-cama na sala de computadores da minha família enquanto a CNN pisca no ecrã, o volume quase inaudível. Há um novo episódio de America’s Next Top Model mais tarde, mas não tenho a certeza se vou estar com disposição para assistir. Hoje faltei às aulas porque ontem foi dia de eleições, e John Kerry perdeu, e tudo o que eu esperava no último ano foi reduzido a pó. Candidatei-me a duas faculdades em Washington, D.C., mas não sei se é realmente o lugar para mim, porque, como a minha breve vida me ensinou, a política não é mais do que um desgosto e cinismo. Penso no 11 de Setembro que aconteceu durante a minha primeira semana de liceu e a triste lista de peças que o meu melhor amigo me enviou pelo Limewire para aliviar a dor. Pergunto-me se é simplesmente assim que o mundo funciona. E eu tinha provavelmente razão.

____________

A autora: Marisa Kabas é uma escritora freelance e estratega política baseada em Brooklyn. É a co-criadora de Crush the Midterms – uma plataforma de organização digital – e a sua escrita apareceu no The Washington Post, NBC News, Harper’s Bazaar, entre outros.

 

Leave a Reply