Dê-se uma chance à paz, dê-se sentido de via a este nosso mundo — “A incomodidade de desabafar com alguém que não seja amigo íntimo”. Por Júlio Marques Mota

12 m de leitura

A incomodidade de desabafar com alguém que não seja amigo íntimo

 Por Júlio Marques Mota

Coimbra, em 15 de Maio de 2022

 

Um destes dias, já caída a noite desloquei-me para ir a casa da minha filha. Perto da sua casa encontro um conhecido meu de longa data, de conversas diversas na esplanada do nosso café, hoje fechado, o Trianon. Uma amizade que ficava por aqui, conversávamos e respeitávamo-nos.

Neste encontro depois das banalidades do género que faz por aqui, despedimo-nos, seguimos caminho inverso, mas dados dois três passos chamo-o para um desabafo, dando-lhe conta do meu mal-estar. E disse-lhe: estive a trabalhar sobre dois textos relativamente à guerra da Ucrânia e fiquei angustiado, e acrescentei: estou cada vez mais convencido de que são ambos responsáveis pelo desencadear desta guerra, Putin e Biden, com Zelensky pelo meio como ator. Olhe, os americanos querem enfraquecer a Rússia foi a sua resposta. E seguiu o seu caminho. Fiquei especado uns segundos e atordoado com esta resposta. Fiquei especado uns segundos e foi o suficiente para este meu conhecido voltar para trás e dizer: ouvi bem, eu? O senhor disse que considera Biden igual a Putin? Foi isso que ouvi? Não foi isso que eu disse: disse e repito, pelos textos que li, sou levado a crer que ambos são co-responsáveis pelo DESENCADEAR da guerra, e dei um tom específico à palavra Desencadear. E que disse eu: ali, caiu o Carmo e a Trindade no espaço físico que nos separava. E a sua agressividade subiu de tom quando diz que os americanos podem ter uma ponta, uma pontinha de responsabilidade, mas acha que é tudo igual, que é meio por meio? Acha? Não há fita métrica para medir, o que li leva-me só a afirmar que ambos são responsáveis pela guerra. E mais que esta era uma guerra procurada pelos americanos. Desencadeou-se um chorrilho de afirmações descabidas como Biden não é como Trump. E Trump é que é amigo de Putin e é igual a Putin. E isto sem que eu me tenha referido a Trump.

Continuou a dizer: É Trump que querem no poder e o azar é que vai voltar.

No fundo, estas são provocações derivadas da narrativa oficial. Virei-me para ele e disse-lhe: era mais decente que o senhor se interrogasse porque é que Trump ganhou contra Hillary Clinton. Mais, que se interrogue também porque numa Administração cheia de perigos e de loucuras como foi a de Trump, nas segundas eleições ele tenha ficado em igualdade no Senado. E já agora devia também interrogar-se sobre quais as razões objetivas que o levam, a si, a ter muito medo, e como eu tenho aliás, que Trump volte à Casa Branca. Isso é que seria honestidade intelectual. Não tenho que me interrogar, gritou. Foram os russos que manipularam as eleições, contrapôs, simulando com as mãos a manipulação por ele pensada.

Espantei-me com a resposta. Dado o seu nível cultural esperava outra resposta. Se fosse de dia ele veria que fiquei com os olhos esbugalhados com a resposta recebida. E retorqui: olhe, manipularam as eleições de 2016, manipularam aas eleições de 2020 o que levou a que Democratas e Republicanos tenham ficado empatados no Senado e agora tem medo que Trump volte porque os russos podem voltar a manipular as eleições. Um espanto de inocência para não lhe colocar outro adjetivo. E acrescentei: pode pensar o que quiser sobre tudo isto mas não lhe dou o direito de me ligar a Trump e Putin como também não lhe dou o direito de me ligar a Biden, o homem que também assinou todas as guerras dos últimos anos provocadas pelos Estados Unidos, diretamente ou por procuração, como é o caso desta. Já leu alguma coisa minha em que tenha defendido qualquer destes atores. Se ouviu, seria que eu tinha esperança que Biden deixasse de ser o falcão da guerra que sempre foi.

A terminar esta discussão que não levava a lado nenhum, apenas à subida de tom, sugeri-lhe que lesse os textos sobre os quais estive a trabalhar e confirmasse as declarações das autoridades americanas citadas ( estão lá os links) para que não houvesse dúvidas e a resposta foi, de forma muito convincente com um tom de sobranceria , como se tivesse a certeza absoluta de que a razão estava totalmente do seu lado, mande-me isso, então. Havia alguma desconsideração no tom em que deu esta resposta mas também havia a certeza total de que os iria ler. De um homem de cultura não seria de esperar outra coisa que não seja a certeza de que os iria ler.

Depois escrevi-lhe a enviar-lhe textos preliminares aos da série Deem uma chance à paz, série esta que gerou o desabafo acima. Mas fiquei a saber, eu já o deveria saber, que é proibido desabafos fora de uma escala de gente muito próxima.

E escrevi o seguinte.

Não me esqueci do que lhe prometi. Depois de o deixar, fui trabalhar no terceiro texto da série que estou a preparar e esta série tem emblematicamente como título Deem uma chance à paz. Este terceiro texto é a transcrição de uma entrevista dada por um embaixador americano altamente cotado nos círculos políticos americanos. Trata-se do texto nº 3 da série.

Quanto a estes textos, eles são uma viagem ao horror da mentira da política ocidental- a outra, do lado de lá, sabemo-la bem- e em particular uma viagem que, como resulta da entrevista com o embaixador americano Chas Freeman, nos leva ao início de onde começa a tragédia de agora da guerra na Ucrânia , leva-nos de volta à década de 1990 com a administração de Bill Clinton que, em vez de ter caminhado para a transição pacífica e ordenada dos países de leste para Democracia real, avançou para a expansão imperial do belicismo americano a coberto da NATO, avançou com a violação das promessas que acompanharam o fim da União Soviética de não expandir a NATO até às fronteiras da Rússia. “Em 1994, [Bill] Clinton dizia para cada um dos lados coisas diferentes. Dizia aos russos que não tínhamos pressa em acrescentar membros à NATO e que o (…) caminho preferido era a Parceria para a Paz. Ao mesmo tempo, ele estava a insinuar às diásporas étnicas dos países russófobos da Europa Oriental (…) que, não, não, nós íamos introduzir estes países na NATO tão rapidamente quanto possível.” Neste contexto, deve ser relembrada também a tragédia da Jugoslávia, com o desmantelamento e destruição deste país.

“Há 28 anos que a Rússia, protestando contra o alargamento da NATO de formas que ignoravam os interesses da Rússia em matéria de autodefesa, tem vindo a avisar que em algum momento estalaria, e fê-lo de uma forma muito destrutiva, tanto em termos dos seus próprios interesses como em termos das perspetivas mais vastas de paz na Europa.”

Face a estes espantosos textos, mantenho todos os meus argumentos que lhe apresentei. Estes assentam em dois dados importantes: é preciso saber como se chegou até aqui, os textos explicam‑no, é preciso saber porque é que nunca se fala de negociações para a paz, os textos dizem-no. O senhor deu a resposta, uma resposta cruel em termos de humanidade: porque os americanos querem enfraquecer a Rússia. Foi o que o senhor disse. E pergunto-lhe: o que valem os ucranianos e russos que morrem? E respondo-lhe com a resposta das autoridades americanas explicadas nos textos: não valem nada face à importância de derrotar o inimigo. Foi assim no Vietname, foi assim no Iraque, foi assim na Líbia, foi assim no Afeganistão, foi assim na Síria, foi assim em todas as guerras por procuração – e Obama gabava-se de ter desencadeado 7 dessas guerras!

Se não valem nada, do ponto de vista americano, e o que os textos mostram é que esta guerra é por agora feita por procuração, deixe-me ser amargamente crítico e perguntar-lhe: se não valem nada porquê a sua revolta contra a guerra que mata russos e ucranianos? Quando aceita que os americanos façam isto não está mentalmente a ser tão assassino quanto eles, isto do ponto de vista lógico?  E isto, meu caro, não passa de uma provocação lógica, mais nada que isso

Não é mais lógica a minha posição de dizer não à guerra, de dizer não ao belicismo das duas partes, de dizer sim a negociações imediatas cuja exigência deve ser expressa por todo o mundo, de dizer sim à paz, em vez da histeria coletiva a que assistimos de mais armas e mais guerra?

Quanto a esta histeria, diz-nos o embaixador Freeman:

“E o Ocidente estava basicamente a dizer, “lutaremos até ao último ucraniano pela independência ucraniana”, que continua a ser essencialmente a nossa posição.  É bastante cínico, apesar de todo o fervor patriótico.  E acrescentaria, ouvi dizer, conheço pessoas que têm tentado ser objetivas sobre isto, e são imediatamente acusadas de serem agentes russos.  Ou digamos apenas, o preço a pagar para se falar sobre este assunto é juntarmo-nos às raparigas animadoras da claque num frenesim de apoio à nossa posição, e se não fizermos parte do coro, não estamos autorizados a dizer nada, e não podemos cantar.”

 

Mas dizer não à guerra, dizer sim à paz, não se faz diabolizando tudo e todos que não têm o mesmo discurso que nós. Faz-se, não com a agressividade de toda a gente que alinha na narrativa Washington-Kiev, mas faz-se com diplomacia a sério. Como diz ainda o embaixador Freeman:

“Penso que o embaixador chinês no outro dia foi a um dos talk shows de domingo, e na medida em que o deixaram falar, disse muito claramente – e concordo com ele – que a condenação não serve para grande coisa e o que é necessário é uma diplomacia séria, e o que tem faltado tem sido uma diplomacia séria. “

Quanto à ideia de que foram os russos que elegeram Trump na primeira eleição e que quase o elegeram na segunda em que o Senado ficou empatado, desculpem-me mas isso é querer meter a cabeça na areia quanto ao que foram as políticas dos democratas nestes últimos mandatos. Três curtos exemplos: Clinton revoga a Lei Glass-Steagall, dias depois Rubin (Robert Rubin, secretário do Tesouro de Bill Clinton de 1995 a 1999) senta-se na cadeira de diretor do Citi Corporation a 50 milhões de remuneração anual e cerca de 7 anos depois vivemos a tragédia do crash financeiro de 2008. Face a este crash que nos diz Obama? Que não houve nada de ilegal, o que houve foi de ordem moral!!!   Vejam o filme Inside Job sobre o crash! E a pretendente ao cargo, Hillary Clinton, como é que ela classificou os que não iam votar nela? Uns “deploráveis”, foi o que ela disse, se calhar a lembrar-se, por parecença das palavras, dos Miseráveis de Vítor Hugo. E quanto à desigualdade de rendimentos nunca houve quem falasse tanto do tema como Obama mas nunca ela cresceu tanto como no seu reinado

Esta espécie de carta a um grande e velho amigo meu a propósito de uma discordância quanto à guerra da Ucrânia, não encerra nenhum acinte, há apenas uma discordância posta preto no branco. Mais nada que isso.

Os textos que constituem a presente série são:

  1. Como evitar a terceira guerra mundial?, entrevista a Noam Chomsky
  2. Os Estados Unidos contam fazer a guerra “até ao último ucraniano“, por Politicoboy
  3. Entrevista com Chas Freeman – EUA combate a Rússia “até ao último ucraniano”: diz um veterano diplomata americano
  4. É tempo de se falar em termos de paz com a Rússia, por Jeffrey D. Sachs
  5. Pôr fim à Guerra de Desgaste na Ucrânia, por Jeffrey D. Sachs
  6. Dê-se sentido à pandemia dos pobres, por Liz Theoharis
  7. A grande crise dos preços dos bens alimentares, por Victor Hill
  8. Reforma da Governança após a Ucrânia: Cinco Lições de Bretton Woods, por James Boughton
  9. A guerra na Ucrânia pode ser impossível de parar. E os EUA merecem grande parte da culpa, por Christopher Caldwell

 

Leave a Reply