A Guerra na Ucrânia — O Regresso da Cortina de Ferro.  Por Alain de Benoist

 

Seleção de Francisco Tavares

15 m de leitura

O Regresso da Cortina de Ferro

 Por Alain de Benoist

Publicado pela revista  de Junho/Julho nº 196

Tradução de Alfredo Barroso (vd. aqui João Gonçalves no Facebook em 3 de Junho às 18.41 e em 4 de Junho às 10.34)

 

 

Nota de editor:

Reproduzo a nota de Alfredo Barroso, tradutor deste texto, e que subscrevo inteiramente:

Parece que “em Washington estão todos prontos a bater-se até ao último ucraniano”! Tal como em Bruxelas e em Lisboa! [Risos]

Reproduzo, a seguir, o texto do notável Editorial de Alain de Benoist (filósofo francês que é um dos fundadores da Nova Direita), na revista «éléments» de Junho / Julho de 2022 (número 196). Devo esclarecer que partilho com ele a crítica que faz do imperialismo americano, do neoliberalismo e do chamado “mercado livre”, mas não, como é óbvio, a sua rejeição da democracia e a reformulação ideológica da direita…

Aqui vai, então, o magnífico texto do Editorial de Alain de Benoist sobre a guerra na Ucrânia, que subscrevo na íntegra.


 

Os Estados-Unidos exaltam os méritos da concorrência, mas detestam ter concorrentes. Também detestam a ideia de um mundo multipolar. Saídos como os grandes vencedores da II Guerra Mundial, desde há lustros que a sua política externa consiste em impedir a emergência de potências rivais que possam ameaçar a sua hegemonia. Tendo já neutralizado e tornado a Europa um seu vassalo, restam a China e a Rússia, que eles tentam enfraquecer por todos os meios.

Para o fazer, os EUA dispõem das bases da NATO como um utensílio de primeiro plano. A NATO, que devia ter desaparecido ao mesmo tempo que o Pacto de Varsóvia, tornou-se hoje a «global NATO», ou seja, uma polícia internacional incumbida de proteger os interesses americanos em toda a parte do mundo, exercendo sobre os aliados aquilo a que o general De Gaulle chamava uma «tutela pesada» (une «pesante tutelle»). Ao fazer entrar para a NATO os antigos países do bloco de Leste, os EUA tentam desafiar e cercar a Rússia. Em vão politólogos americanos do mais alto gabarito, como Henry Kissinger, John Mearsheimer, George Kennan, Paul Nitze. Robert McNamara e outros, alertaram, desde a década de 1990, para as consequências dramáticas de uma expansão da NATO até às fronteiras da Rússia, o que Kennan qualificava como sendo um «erro fatídico».

Todavia, os Americanos nunca deixaram de afirmar que a Ucrânia está vocacionada para entrar, também ela, na NATO. No seu livro Le Grand échiquier (1997), Zbigniew Brzezinski explicou porquê: «A América tem absolutamente de tomar conta da Ucrânia, porque a Ucrânia é o pivô do poderio russo na Europa. Separada a Ucrânia da Rússia, esta nunca mais será uma ameaça».

 

O GOLPE DE ESTADO MENOS DISSIMULADO DA HISTÓRIA

Sabe-se desde Montesquieu que há os que desencadeiam as guerras e os que as tornam inevitáveis. Os Estados-Unidos e a NATO fizeram tudo para tornar inevitável a guerra na Ucrânia. Uma guerra que não começou apenas em Fevereiro de 2022, mas sim oito anos antes, em Fevereiro de 2014, quando já se contavam 14.000 mortos no Donbass quando o Exército russo interveio.

O golpe de Estado de 22 de Fevereiro de 2014, chamado golpe do Euro-Maidan, foi preparado, organizado e financiado pelos Estados-Unidos (com qualquer coisa como 5.000.000.000, cinco mil milhões de dólares) – foi «o golpe de Estado menos dissimulado da História», como o qualificou o politólogo americano George Friedman –, e não tinha por objectivo tornar a Ucrânia mais democrática, mas apenas torná-la mais ocidental, ou seja, anti-russa. Permitiu a destituição do presidente Ianukovytch, que tinha sido regularmente eleito em 2010, e a chamada ao poder de uma equipa de políticos pró-Ocidentais cujo primeiro acto legislativo foi a abolição da língua russa como língua oficial. Em 2019, sucedeu-lhe um governo fantoche, corrompido até ao tutano, amplamente dominado por uma escumalha de escroques dirigida por Volodymyr Zelensky, um ex-rei do «show business». Os Americanos, durante todo este período, nunca deixaram de ameaçar, de ignorar e de humilhar a Rússia.

Fiéis à doutrina Monroe, os Americanos nunca admitiram intervenções estrangeiras na sua esfera de influência, mas eles próprios não param de intervir nas esferas de influência dos outros. Desde a crise de Cuba, em 1962, sabemos bem que nenhum presidente americano aceitaria que fossem instalados mísseis, por exemplo, no Canadá ou no México. Então, porque carga d’água terá Putin de aceitar que mísseis dos EUA sejam instalados na Polónia e às portas da Rússia? A integração da Ucrânia na NATO representaria para a Federação Russa uma séria ameaça à sua própria segurança. Por outras palavras, linha vermelha a não violar. Ora, os Ocidentais violaram-na, não deixando a Putin outra opção que não fosse a intervenção militar, para satisfazer as legítimas reivindicações que a Rússia nunca conseguiu que tivessem vencimento por meios políticos ou diplomáticos. Eis o que se passou em 24 de Fevereiro de 2022.

 

O POVO RUSSO, UM NOVO POVO PÁRIA

Putin, que não tem minimamente a intenção de recriar a antiga URSS (em 2010, na Ucrânia, os ucranianos eram mais numerosos do que os Russos: 62% contra 45%), sabe, em contrapartida, que a segurança dum país está dependente, numa grande medida, da noção de profundidade estratégica, a qual implica a existência de um Estado-tampão. Antecipando-se a nova ofensiva ucraniana com o objectivo de retomar o Donbass pela força, que estava prevista para o fim do Inverno, a «operação militar especial» da Rússia teve três causas imediatas: a vontade da NATO de se implantar às portas da Rússia; a recusa obstinada do governo de Kiev de aplicar os Acordos de Minsk de Setembro de 2014 e Fevereiro de 2015, prevendo simultaneamente a integridade territorial da Ucrânia e a autonomia do Donbass; e os ataques contínuos contra as populações civis russófonas do Donbass.

Ora, os Americanos – que, ao que parece, nunca terão bombardeado populações civis (Hiroshima), nem mesmo atacado um país soberano (Iraque), nem cruzado ilegalmente quaisquer fronteiras (Afeganistão, Líbia, Síria, Somália), nem bombardeado recentemente uma capital europeia (Belgrado) – reagiram segundo a táctica habitual dos Anglo-Saxões: impondo pacotes de sanções e um embargo, versão moderna do bloqueio; recorrendo à desqualificação moral; invertendo todas as acusações; fulminando as opiniões públicas com propaganda emotiva; martelando mediaticamente os telespectadores; e criminalizando o inimigo (Vladimir Putin ditador louco, criminoso de guerra paranóico, novo Hitler, carniceiro sedento de sangue, etc.). Táctica que tem por consequência tornar impossível qualquer regresso à paz através dum acordo negociado do conflito, porque obviamente não se negoceia com um «criminoso» ou um «louco».

À maneira da «cultura do cancelamento», a russofobia ambiente desacredita tudo o que é russo, de Dostoïevski a Soljenitsyne, passando por Gagarine, todos vítimas da mesma «reductio ad Putinum». Jogadores de ténis, músicos, artistas plásticos, atletas deficientes físicos e, mesmo, gatos russos, estão todos a ser excluídos dos espectáculos, dos museus e das competições. Trata-se de fazer do povo russo um povo pária. Os «discursos de ódio», outrora desacreditados, são agora autorizados, inclusive nas redes sociais, desde que sejam discursos antirussos.

O objectivo é claro. Não podendo fazer a Rússia evaporar-se, trata-se de a excluir do concerto das nações, de a estigmatizar para sempre, de a separar definitivamente de qualquer tipo de relacionamento com a Alemanha, a França, com toda a Europa ocidental, graças a um cordão sanitário que a isolará do resto do mundo. Nesta perspectiva, claro que é do interesse dos Americanos fazer com que esta guerra dure o mais tempo possível. Em Washington, estão todos prontos a bater-se até ao último ucraniano. Em 1956, os insurrectos de Budapeste não tiveram direito a um apoio como este.

 

 

UMA NOVA CORTINA DE FERRO FOI ERGUIDA [PELO OCIDENTE]

É evidente que não se pode dizer que «não se faz a guerra contra a Rússia» e, ao mesmo tempo, decretar contra a Rússia sanções com uma dimensão sem precedentes, e promover publicamente uma «guerra económica e financeira total à Rússia» (declaração do ministro das finanças da França, Bruno Le Maire), e fornecer armas aos Ucranianos.

Os Europeus aceitaram docilmente decretar contra a Rússia sanções de que serão eles as primeiras vítimas, de tal modo são contrárias aos seus próprios interesses, designadamente os energéticos e industriais (a Rússia é mais auto-suficiente do que a Europa).

Por outro lado, ao aceitarem fornecer à Ucrânia armas pesadas e aviões, não com a intenção de restabelecer a paz mas com o objectivo de prolongar a guerra, os países ocidentais assumiram o gravíssimo risco de serem considerados como cobeligerantes.

Saímos, portanto, do pós-Guerra Fria. Uma nova ‘cortina de ferro’ foi erguida, desta vez por iniciativa dos países Ocidentais. O continente euroasiático está de novo cortado em duas partes.

A Finlândia e a Suécia querem entrar na NATO, a Suíça abandona a neutralidade, a Alemanha rearma-se gastando 100.000.000 (cem mil milhões) de euros, a União Europeia assume o papel de fornecedor de armas, e os que até ontem eram defensores da abolição de todas as fronteiras proclamam agora que as fronteiras da Ucrânia são invioláveis. Uma reviravolta histórica. Cujas consequências serão, também elas, históricas.

O antigo presidente da República Checa Vacláv Klaus afirmou-o sem subterfúgios: feita refém pela NATO, a Ucrânia é, desde o princípio, «unicamente um pião no tabuleiro de um jogo de xadrez bastante mais vasto». O primeiro perdedor deste caso tão sério é, obviamente, o infeliz povo ucraniano, hoje sujeito aos bombardeamentos russos, depois de ter sido cinicamente utilizado como pião no tabuleiro estratégico dos EUA.

Os outros grandes perdedores são os Europeus que, ao alinharem de forma quase unânime com as posições dos Estados-Unidos da América, mais uma vez demonstraram que não contam para nada.

Uma Europa independente e não alinhada teria podido trabalhar no sentido de se encontrar uma solução para o conflito, de se chegar a um acordo negociado, assim como participar na reconstrução de um novo espaço de segurança colectiva à escala continental, apto a respeitar tanto os interesses dos Europeus como os dos Russos.

Também poderia ter-se dotado de um equivalente da ‘doutrina Monroe’. Mas não foi isso que se passou. Ao decidir sujeitar-se placidamente aos ‘diktats’ anglo-saxónicos e ao adoptar medidas que são tão-só mais petróleo na fogueira, a União Europeia perdeu toda a credibilidade.

 

NÓS NÃO SOMOS OCIDENTAIS, SOMOS EUROPEUS

Trata-se, de facto, de duas guerras distintas que estão em curso neste momento. A primeira é uma guerra fratricida, dado que opõe dois países saídos da mesma matriz histórica e que foram associados durante séculos. Mas não se trata de uma guerra civil. Também não é uma guerra entre dois nacionalismos, russo e ucraniano. É, sobretudo, uma guerra entre a lógica do Estado-nação e a lógica do império (que nunca teve na Rússia uma dimensão étnica).

Mas é também uma «proxy war», uma guerra por procuração de Washington contra o Kremlin por interposta Ucrânia. O que, ao mesmo tempo, levanta o véu sobre a natureza mais profunda da segunda guerra, a dos EUA contra a Rússia.

Guerra que vai muito para além da Ucrânia, dado que é uma guerra dos mundos: guerra pró ou contra a hegemonia neoliberal; dos Estados civilizacionais contra o universalismo sem solo; dos povos ciosos da sua continuidade histórica contra as «sociedades abertas»; das forças do enraizamento contra as forças da dissolução; das potências continentais contra as «democracias marítimas» (EUA, Grã-Bretanha, Austrália, Canadá). Uma guerra com significação mundial. Uma guerra pelo poderio mundial.

Que o mesmo é dizer que os apelos à «solidariedade ocidental» de Joseph Robinette Biden, o morto-vivo da Casa Branca, nos deixam perfeitamente frios. Por uma excelente razão: é que nós não somos Ocidentais, somos Europeus.

(Traduzido por Alfredo Barroso em 3 de Junho de 2022)

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O autor: Alain de Benoist [1943-], filósofo francês que é um dos fundadores da Nova Direita. membro fundador da Nouvelle Droite e líder do grupo de reflexão etno-nacionalista Groupement de recherche et d’études pour la civilisation européenne (GRECE). O seu objectivo era, segundo Pierre-André Taguieff, “rearmar intelectualmente a direita em França” a fim de enfrentar a hegemonia cultural da esquerda (neste sentido ele descreveu o Nouvelle Droite como gramarianismo de direita, porque o objectivo era ganhar terreno gradual e pacientemente sobre o inimigo).

Influenciado principalmente por pensadores do movimento revolucionário conservador, de Benoist opõe-se ao cristianismo, ao iusnaturalismo, ao neo-liberalismo, à democracia representativa, ao igualitarismo; e ao que ele vê como a personificação e promoção destes valores, nomeadamente os Estados Unidos. Ele desenvolveu a noção de “etnopluralismo”, um conceito chave nas ideias da nova direita francesa baseado na preservação e respeito mútuo das regiões etnoculturais individuais e limitadas.

Benoist é o editor de duas revistas: Nouvelle Ecole desde 1968 e Krisis desde 1988. Os seus escritos têm aparecido em Tyr, Chronicles e vários jornais, como Le Figaro. Benoist exibiu o seu trabalho em publicações sobre racismo científico e supremacia branca, como Mankind Quarterly e The Occidental Quarterly e a revista de nova esquerda Telos.

O seu trabalho tem sido influente no desenvolvimento da nova extrema-direita nos Estados Unidos. Apresentou mesmo uma palestra sobre identidade étnica numa conferência do Instituto Nacional de Política – organizada por Richard B. Spencer; contudo, distanciou-se do movimento.

 

 

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