Espuma dos dias – Sobre o futuro do Sistema Monetário Internacional: uma verdadeira incógnita — “Introdução”, por Francisco Tavares e Júlio Marques Mota

10 m de leitura

Introdução

 

Por Francisco Tavares e Júlio Marques Mota

Em 10 de Junho de 2022

 

Com a atual guerra na Ucrânia e, em particular, com as sanções económicas e financeiras sobre a Rússia, os comentadores e analistas têm-se debruçado sobre as eventuais consequências de tais medidas sobre o estatuto do dólar enquanto moeda de reserva mundial e de moeda preferencial nas trocas internacionais. Sobre este assunto iremos publicar um conjunto de 13 textos, a saber:

Cancele o funeral do dólar: o “paciente” acaba de saltar do caixão, por Charles Hugh Smith (em 28/03/2022)

Guerra financeira: haverá uma reacção negativa em relação ao dólar? Por Robin Wigglesworth, Polina Ivanova e Colby Smith (em 07/04/2022)

O Rei Dólar não está em risco de perder a sua coroa financeira mundial, por Megan Greene (em 11/04/2022)

O dólar usado como arma poderá explodir na cara dos Estados Unidos, por Brian McGlinchey (em 10/04/2022)

Porque é que o ouro irá beneficiar com a remodelação inevitável do Sistema Monetário Internacional, Por Ronni Stoerfele (em 15/04/2022)

Chegou a hora de um novo Bretton Woods, por Rana Foroohar (em 18/04/2022)

O colapso do dólar está a acontecer diante dos nossos olhos, por Jim Rickards (em 03/05/2022)

O início de uma Nova Era, por George Friedman (em 03/05/2022)

Desdolarizar: sinónimo de soberania, por Pablo Jofre Leal (em 13/08/2020)

O colapso da Europa, por Charles Gave (em 23/05/2022)

Porquê pagar o gás russo com rublos? Por Jean Claude Werrebrouck (em O1/05/2022)

Podem os impérios russo e chinês fragilizar a ordem monetária e financeira internacional? Por Jean Claude Werrebrouck (em 05/05/2022)

A crise decisiva, a grande bifurcação e o fim da hiper-globalização financeira? Por Olivier Passet (em 16/05/2022)

 

Começamos com um texto de Charles Hugh Smith que coloca pertinentes questões quanto aos requisitos que uma moeda de reserva mundial deve cumprir. No entanto, ao erigir os auto-suficientes mercados em deus supremo das regras ditas transparentes, omite desde logo uma atribuição que é determinada não pelos mercados mas, fora deles, pelos bancos centrais: a definição da taxa de juro de referência, elemento essencial no funcionamento dos mercados.

O texto de Robin Wigglesworth, Polina Ivanova e Colby Smith refere as dificuldades que a moeda russa – o rublo – e sobretudo a moeda chinesa ainda enfrentam para poderem aceder ao estatuto de moeda de reserva mundial ou preferente no comércio internacional.

Megan Greene diz, “num mundo multipolar, podemos eventualmente estar a falar de alternativas ao dólar. Mas não o substituiremos”.

John Rubino realça os dois pilares fundamentais em que assenta o domínio do dólar: principal moeda de reserva do mundo (…) e principal moeda utilizada no comércio internacional. Chama a atenção porém para desenvolvimentos que “sugerem que a utilização do dólar americano como arma pode voltar-se contra os Estados Unidos, com consequências profundas e duradouras” com um possível afastamento, gradual, do padrão dólar. A concretizar-se esse afastamento teria consequências danosas para os EUA, mas teria um efeito positivo global se vier sob a forma de um retorno global às moedas apoiadas em matérias-primas.

Matthew Piepenburg, em introdução ao texto de Ronni Stoerfele, diz que “As recentes sanções e a “militarização da moeda” concebidas para atingir a Rússia estão de facto a prejudicar o Ocidente igualmente, se não mais, especialmente no que diz respeito ao enfraquecimento da proeminência do dólar e do euro” e acrescenta: “… o mundo está agora a reconhecer a crescente probabilidade de desacoplamento do dólar como moeda de reserva mundial. Isto, claro, não acontecerá da noite para o dia, nem o Yuan irá simplesmente emergir como a moeda preferida”. Ronni Stoerfele assinala o dia 27 de Fevereiro de 2022 como um ponto de viragem de uma época: “… pouco depois da sanção das reservas cambiais, surgiram as primeiras dúvidas sobre se esta medida não poderia prejudicar seriamente o Ocidente a longo prazo, mais especificamente o dólar americano e o euro…. “. Continua Stoerfele: “A “militarização das reservas cambiais” privou a moeda de reserva mundial, o dólar americano, da sua neutralidade, uma neutralidade que é indispensável para uma moeda universal.(…) 50 anos após o fecho da janela de ouro, as hipóteses são de que o ouro possa voltar a desempenhar um papel na inevitável remodelação da ordem monetária mundial. (…) Esta formação de uma nova ordem monetária mundial não acontecerá da noite para o dia. (…) A forma como o futuro sistema monetário global será concebido ainda está completamente em aberto”.

No texto de Rana Foroohar a autora reconhece que são necessárias novas regras, que é necessária “uma mudança de pêndulo”. Mas com a condição de que se submetam às particulares regras e valores das democracias liberais.

Jim Rickards deixa a pergunta: “De que serve manter dólares nas suas posições de reserva se os EUA podem congelar essas contas a seu bel-prazer?” E acrescenta: “A partir de agora, não existe nenhuma moeda global que esteja em boa posição para substituir o dólar como principal moeda de reserva. Mas existe um activo monetário que poderia substituir o dólar em posições de reserva, embora não seja emitido por um banco central. (…) é o ouro. (…) O meu conselho aos investidores é que quando se tem ouro, deve-se pensar na quantidade de ouro por peso, e não no preço do dólar.”

George Friedman, presidente da Geopolitical Futures, diz que estamos no início de uma nova era, mas considera que “os EUA continuam a ser a potência mais forte do mundo” e dos quatro principais países do mundo aquele que menos provavelmente necessitará mudanças institucionais. E em conclusão: “Os pressupostos anteriores sobre a Rússia e a China como potências emergentes são agora, na melhor das hipóteses, questionáveis. As coisas mudam, mas hoje em dia é difícil ver um ressurgimento russo ou um fim rápido dos problemas económicos da China. Portanto, se estivermos no início de uma mudança cíclica, como penso que estamos, os EUA serão um dos pilares da transição para a nova era. É difícil visualizar o resto”. Friedman não aprofunda os motivos porque os EUA será de entre os principais países o que menos provavelmente necessita “mudanças institucionais”. Também não clarifica porque vê que estamos no início de uma nova era, dizendo “Sejam quais forem as razões, a era que começou em 1991 está a chegar ao fim, e uma nova era está a começar”. Falta saber se um dos pilares da transição, os EUA, como Friedman refere, é um pilar sólido ou se será um pilar que se encontra em progressiva ruína.

Prosseguimos esta série de textos com um curioso artigo de 2020, de Pablo J. Leal, que refere que, a acontecer, o processo de desdolarização será gradual. se faz de pequenos passos, que passam também pelo que aconteceu depois, com as sanções pela guerra da Ucrânia.

Charles Gave, no seu artigo “O colapso da Europa” assinala que os efeitos da atual guerra serão graves, “mas muito menos graves do que as consequências das decisões imbecis que foram tomadas pelas nossas autoridades por ocasião deste conflito”. E prossegue: “a ideia de deixar de comprar matérias-primas energéticas à Rússia para a pôr de joelhos em quinze dias falhou de uma forma grotesca e humilhante, tanto para a Europa como para cada uma das nações que dela fazem parte. (…) A questão essencial é: de onde virão os rublos para comprar a nossa energia, os nossos alimentos, os nossos fertilizantes e os nossos cereais? A única resposta é que teremos de entregar a totalidade ou parte das nossas reservas de ouro e que o rublo não cessou de continuar a subir enquanto o euro não cessou de continuar a descer e com ele o nosso nível de vida”.

O primeiro texto de Jean Claude Werrebrouck aborda a questão da exigência russa de pagamento do gás que exporta em rublos: “os compradores de gás terão de obter rublos através da venda de enormes quantidades de moeda ocidental em troca de ouro trocado por rublos”. Se a China copiar este modelo “existe alguma preocupação de que o Ocidente perca o seu ouro e de que as moedas ocidentais desvalorizem”. Mas conclui Werrebrouck: “É claro que isto é apenas uma tendência ou um cenário para o futuro do nosso mundo”.

No segundo texto de JC Werrebrouck, aborda o eventual cenário de desdolarização, mas colocando-o sob a pergunta “Podem os impérios russo e chinês fragilizar a ordem monetária e financeira internacional?” Werrebrouck aponta as fragilidades (demográficas, situações económicas, culturais e sociais muito diferentes da Rússia e da China, duvidoso efeito de arrastamento de outros países) de um tal cenário e que o papel político do Ocidente para proteger-se coletivamente é “limitar as más relações com cada um dos dois impérios, e alargar as incompatibilidades estratégicas entre eles”. Não será esta uma outra forma de expressar a estratégia dos EUA de enfraquecer, nomeadamente, a Rússia?

Olivier Passet, no texto que publicamos, pergunta-se se a atual crise é decisiva, se significará “o fim da hiper-globalização financeira”. Relembra as grandes convulsões no mundo nos últimos 20 anos (colapso da bolsa 2000-2003, o suposto fim da financeirização que resultaria da crise de 2007, a pandemia do Covid e o advento de um capitalismo social e ambientalmente responsável e a guerra da Ucrânia “que anunciaria uma nova regionalização e uma maior segurança nas trocas internacionais, uma aceleração das agendas climáticas em nome da independência”) não sendo, portanto, “a primeira vez nos últimos 20 anos que nós ficamos seduzidos pela ideia de uma nova era”. Sublinha, porém, que em cada uma das vezes “este prognóstico transforma-se num fiasco”. Conclui, face aos enormes lucros das grandes empresas de energia, à máquina de dinheiro que a inflação poderá representar para os gigantes digitais e ao efeito do declínio dos preços das matérias-primas e um possível descolar das taxas de juro, que “nem os gigantes da gestão de fundos nem os gigantes digitais estão prestes a abandonar o seu controlo sobre a formação de um mundo que deve estar em conformidade com as suas fantasias antes de responderem ao interesse comum”.

Como resulta da leitura dos textos desta série, o futuro do sistema monetário e financeiro internacional é um tema sobre o qual ninguém é capaz de dizer de seguro seja o que for. O resultado final da atual guerra na Ucrânia, que não se sabe quando terminará, nem como terminará, certamente influenciará a evolução do sistema monetário internacional e o papel do dólar no sistema, mas tão importante quanto a guerra em curso e a forma como terminará é igualmente saber qualquer será o comportamento dos beligerantes de peso, os EUA e a URSS no pós guerra. Os exemplos históricos assustam.

Neste contexto, perspetivar o futuro face ao enorme nevoeiro que se tem pela nossa frente é difícil. Disto mesmo damos conta pelos textos que publicamos onde se torna visível que o processo é influenciado por múltiplos fatores, nomeadamente decisões impossíveis de prever, o que tornam as previsões naquilo que verdadeiramente são: previsões.

 

 

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